Quarta-feira, 9 de Junho de 2010

Se há uma figura da mitologia dos Mundiais que se pode associar sem qualquer dúvida com a equipa nacional de Espanha, é o Manolo, el del Bombo. Um espelho dessa Espanha da Fúria que há mais de 20 anos se passeia pelo Mundo fora com o seu bombo e ganas de vencer. Hoje a Espanha é cada vez menos sua. A mentalidade de Manolo, e dos antigos seguidores, acentava mais numa equipa que jogava como se estivesse numa tourada. Mas este conjunto é mais refinida. Com La Roja entramos numa improvisada jam session de jazz.

Se Xavi fosse trompetista teria sido maior que Louis "Stachmo" Amstrong. Não há dúvidas quanto a isso.

Miles Davis, Charlie Parker, Thelonious Monk ou John Coltrane poderiam ter sido futebolistas. Seriam Iniesta, Silva, Xabi Alonso ou Fernando Torres. E esta orquestra perfeitamente oleada seria capaz de dar um concentro inesquecível. Será que está apta, finalmente, a partir para uma digressão de um mês na ponta do fim do Mundo?

A Espanha sempre gostou de se auto-declarar máxima favorita, cada vez que o Mundo se reune para uma qualquer competição, em qualquer desporto. Os actores espanhóis são sempre os melhores, os músicos os mais geniais, os pintores os mais ousados, os pilotos os mais rápidos e os futebolistas os mais dotados. São assim, amigos de si próprios como poucos povos na Terra. E esta tendência para o exagero tem sido reforçada quando a ilusão se tornou finalmente numa realidade. Hoje em dia Espanha vive a sua "edad de oro" desportivamente. Têm o melhor tenista, um dos melhores pilotos de F1, o vencedor do Dakar, vários pilotos de elite no motociclismo, os grandes campeões actuais do ciclismo, excelentes equipas de natação e ginástica, um conjunto de basket de fazer sonhar até mesmo a NBA e, como não podia deixar de ser, a melhor geração de futebolistas da sua história. Motivo suficiente de orgulho a quem só falta o broche de ouro. Na África do Sul.

 

A dois dias de arrancar o torneio é dificil tentar adivinhar o que passará com esta equipa campeã da Europa.

Vicente del Bosque, técnico sábio, verdadeiro pastor de homens, herdou um conjunto ganhador e melhorou-o a todos os niveis. Protagonizou uma revolução tranquila, confirmou o afastamento dos jogadores que simbolizam a Furia e lançou o futuro. A Espanha dos Juanitos, Camachos, Santillanas, Michel, Señor, Luis Enrique, Camineros ou de Raul era essa selecção cheia de garra, força, casta, mas muitas vezes sem um pingo de cabeça ou até mesmo talento. Por isso iam caindo, sempre que o obstáculo superava o seu próprio ego. O grande mérito da Espanha de 2008 foi enterrar a Fúria. A Fúria do Manolo do bombo, dos gritos toureiros e da corrida desesperada contra o abismo. Essa equipa, antes de mais, procurou a classe antes da força. O estilo antes da garra. A improvisação do jazz supera esse grito flamenco. E com uma geração de pequenos executantes, o espetáculo está garantido.

O massacre aplicado ontem à Polónia, quando outras selecções tropeçam ou sofrem para ganhar com equipas de pequeno gabarito, é apenas um detalhe. Em dois anos a Espanha mediu-se com as melhores equipas do Mundo e só perdeu um jogo, frente aos Estados Unidos. Falta-lhe um duelo com Holanda, Brasil e Portugal para completar um lote de vitórias que inclui verdadeiras humilhações, como os triunfos em Paris ou frente à Itália, Inglaterra e Argentina. O génio de Xavi, liberto das acções defensivas pela presença de Xabi Alonso e Busquets, é a alavanca de uma equipa que conta com cinquenta jogadores de primeiro nível. Silva, Iniesta, Fabregas, Mata, Villa, Torres, Navas, Pedro, para citar apenas os convocados, terão de disputar três lugares. Inimaginável noutra equipa da actualidade. Esta Espanha sabe do que fala.

Há quem diga que esta Espanha é a natural herdeira da Hungria dos "Magiares" e da Holanda "Mecânica" da década de 70. Mau presságio. Duas grandes equipas que passaram ao lado do título Mundial. No entanto os mais optimistas lembram-se da Alemanha de 72-74 e da França de 98-2000, que foram as únicas formações a lograr uma dupla histórica em dois anos, entre titulo europeu e mundial. É essa ambição destes pequenos génios. E desta vez, até eu acredito.


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Miguel Lourenço Pereira às 09:54 | link do post | comentar

2 comentários:
De Bruno Pinto a 9 de Junho de 2010 às 13:09
Excelente artigo, gosto muito da sua forma de escrever. Tem aqui um magnífico blog; pena não ser, talvez, mais reconhecido e divulgado, ao contrário de outros de qualidade medíocre.

Quanto ao post, de facto, a Espanha vive tempos áureos em termos desportivos. É verdadeiramente impressionante a quantidade de êxitos desportivos que tem acumulado ao longo dos últimos anos e o valor dos seus desportistas nas mais diversas modalidades.

De qualquer forma, mesmo reconhecendo que 'nuestros hermanos' possuem uma selecção de futebol de qualidade insuspeita, talvez a melhor da actualidade, devo dizer que não acredito que conquistem este Mundial'2010. É um pressentimento que tenho. Assim como também não creio na Argentina, mesmo sabendo que individualmente não existe melhor. Aposto mais no Brasil e na Inglaterra.


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Junho de 2010 às 14:08
Bruno,

Antes de mais, obrigado pelas palavras. É sempre bem vindo nesta casa e é um prazer trocar umas ideias.

A Espanha fez uma aposta imensa no desporto a partir das Olimpiadas de 1992. Houve muito investimento a nivel de infra-estruturas, as comunidades regionais são uma realidade (ao contrário de outros paises europeus) e muito ciosas dos seus valores e o apoio publicitário das grandes empresas permitiu que áreas onde os espanhois nem eram historicamente figuras, como a F1, o ciclismo, o basket ou a natação se tornassem familiares ao grande público. Esse investimento tem pago divididendos esta década, mas para isso foi preciso arriscar, e muito.

A Telefonica levou Alonso à F1, a Repsol fez o mesmo com Gibernau e Pedrosa nas motos, Santander, BBVA e Banesto apostaram forte no ciclismo, basket e futebol. Algo que nao se vê nem em França, Itália ou Portugal, por exemplo.

No futebol essa mutação deveu-se a uma profissionalizaçao da formaçao, como aconteceu com Portugal há 20 anos a menor nivel. Hoje em dia nao há uma equipa espanhola sem uma potente equipa de formaçao em diferentes escalões. Qualquer clube da 2nd divisao tem estádios de 30 mil lugares, regularmente cheios, apesar das transmissoes televisivas. E as vitórias internacionais ajudam. O Euro08 foi só o culminar.

Dito isso, é como digo no final do texto. Esta Espanha já está na história. Terá a frieza da França ou Alemanha ou cairá como as romanticas Holanda e Hungria? Os cruzamentos são complicados, mas há matéria prima que sobra. Veremos ;-)

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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