Sábado, 15 de Maio de 2010

A lembrança ainda dos dias da outra senhora ecoam sob o designio de estádio "Nacional", nos terrenos erguidos no Jamor por um país que queria afirmar-se pelas obras públicas. Tal e qual como hoje. Mas se há anos que a selecção, essa sim, nacional, não põe lá os pés, que futuro tem um estádio reformado por fora mas destroçado nas suas entranhas. Receber um jogo ao ano é o justificante da sua quase não-existência. E o espelho de um país mais centralista do que nos dias em que o Jamor se enchia semana sim, semana também.

Na época passada o FC Porto e o Paços de Ferreira surgiram como finalistas da Taça de Portugal.

Ao contrário da Taça da Liga, ancorada ao igualmente vazio e sem sentido estádio do Algarve, a Taça de Portugal é uma prova organizada pela Federação Portuguesa de Futebol. E como tal, por representantes de todos os clubes e associações. Esperar-se-ia, portanto, alguma sensibilidade face a uma situação que, apesar de não ser inédita, teria de ser tratada de forma distinta. Duas equipas a norte do Douro, que coexistem num espaço de 50 kms, eram forçados a carregar armas e bagagens para mergulhar no betão e cimento da A1 rumo à capital do reino imperial. Houve pouca contestação, que nisto de fazer finca pé os portugueses têm muito ainda que aprender com o país vizinho, e o jogo lá se disputou com muitos lugares vazios nas bancadas. Ninguém se lembrou, por exemplo, que utilizar recintos como o estádio de Braga, Coimbra ou Aveiro, bem mais próximos da sede de cada equipa - e do seu nucleo de adeptos - teria feito mais sentido. Não, o regime exige que, uma vez ao ano, quem quer que seja - e aqui incluimos as ilhas, os transmontanos, os das beiras, os alentajanos, algarvios, minhotos e durienses - se desloque ao estádio "nacional". Um estádio onde nem a selecção treina, quanto mais joga. Um estádio onde nem a equipa nacional de rugby diz ter condições para trabalhar. Mas essa imagem da tribuna de pedra, com o presidente de Taça na mão, é estampa obrigatória no curto calendário desportivo luso. Podem-se mudar sedes de Supertaças, Taças da Liga e afins. Mas no Jamor ninguém toca.

 

Este ano, com a eterna cumplicidade das equipas do centro-sul-ilhas do país, a final lá se volta a disputar entre duas equipas lá bem do Norte.

O FC Porto, ferido no orgulho, volta a marcar presença para revalidar um trofeu que é cada vez mais seu. O Chaves chega com a tristeza da despromoção e o espectro do fim. É um clube modesto, de uma cidade pequena, que está mais perto do suspiro final do que da imensa vitalidade que significaria uma final que, em última analise, até lhes daria um posto europeu. Os flavienses mereceram chegar ao Jamor mas não sabem como lá ir. Auto-estradas não faltam, os sucessivos governos trataram disso. Mas as suas gentes poderão não suficiente, e ainda não há SCUTS, para pegar no lanche, almoço e jantar e partir rumo a Oeiras.

Sabendo que flavienses em Lisboa haverá bem poucos (portistas são cada vez mais segundo se consta) a FPF poderia ter tido o detalhe, importante em questões como estas, de dizer que o Jamor poderia descansar um pouco. Um ano, dois, para sempre...e realizar o encontro num estádio neutro, mas mais perto das duas formações. Das suas gentes. Da festa, que deveria significar, da taça. O Chaves protestou, voz baixa que sabe ser pequena. O Porto nem se imutou, habituado a pregar aos peixes. No final Madail e a sua prole foram inflexiveis. E lá a Brisa ganhará uns cobres, os cafés à volta do estádio "nacional", outros tantos, e as gasolineiras temem a invasão da horda bárbara do norte. Pelo menos os da capital podem passar a tarde alegremente a ver um "match", como antigamente, nos tempos em que o Jamor se enchia com os grandes duelos Belenenses-Benfica, Sporting-Benfica ou Belenenses-Sporting. Antes da febre do estádio e a paixão pelo cimento levassem o país a construir os seus coliseus de lés a lés.

 

Jamor, espelho de uma realidade fantasma, já ninguém te quer.

Um recinto velho, abandonado por dentro - por muito que as camaras continuem a focar as suas bancadas acinzentadas - e sem alma dentro. Um estádio sem vida, marcado apenas uma história que tem tanto de imposta como de meritória. Jamor, espelho da atitude autista de um centralismo enojante, verás um jogo murcho, com um público ausente e equipas que não te dizem respeito. Receberás a final, mas não a festa. A tua hora chegou à muito. Mas as cartas às vezes chegam tarde. Algum dia receberás a nota de defunção.



Miguel Lourenço Pereira às 15:58 | link do post | comentar

4 comentários:
De sergio a 15 de Maio de 2010 às 22:34
Aqui para mim que nasci e vivo no Algarve não me faz muita espécie que a final seja no Jamor!

Para o bem e para o mal a tradição ainda é o que é e pode perguntar a qualquer adepto de futebol se preferia ir ao Domingo passear e fazer o pique-nique para a zona do Jamor, ou preferia ir a outro local sem qualquer tradição de taça.

Sejam dois clube do norte ou do sul, a final tem o carimbo Jamor, tal como a final de Inglaterra é disputada em Wembley, mesmo que seja um Cardiff-Swansea (Pais de Gales).

Já agora, após tantas conquistas pensava que o FC Porto já tinha dimensão nacional, logo teria adeptos espalhados pelo país prestes a irem ver a Final da Taça, mas parece-me que esses adeptos circunscrevem-se apenas à Area Metropolitana do Porto.

Quando o meu Portimonense chegar a uma final da Taça, até poderá ser em Espanha ou nos Açores, que vou lá ver na mesma!

PS: E se a final fosse entre o Maritimo e o Nacional? Seria na Madeira?


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Maio de 2010 às 00:18
Sergio,

Como sempre, respeito aqueles que continuam a defende o Jamor como palco da final da Taça.

No entanto comparaçoes com o Wembley nao fazem sentido, porque o Wembley é um estadio cinco estrelas e sempre o foi, é onde joga a selecçao, onde se disputam os play-offs de acesso á Premier e as finais dos titulos juvenis.

No Jamor nao ha futebol durante 364 dias. Só a final da Taça. Nem selecçao, nem jogos das taças, nem jogos juvenis, nem jogos de 2nd, nem jogos das equipas de Lisboa. E é um estadio de 3 estrelas da UEFA, ou seja, estaria no final de um top 10 de estadios portugueses. Em Lisboa ha 2 estadios mais bem preparados se querem que a final seja na capital. Que ofereçam melhores condiçoes a todos, adeptos e equipas.

Por outro lado, num pais excessivamente centralizado, seria um bom sinal que houvesse mais respeito pelos cidadaos de outros pontos do país. Uma final Porto-Portimonense faz sentido em Lisboa. E em Leiria. E em Setubal. Uma final entre duas equipas do sul faz sentido em qualquer recinto de Lisboa para sul. Uma final entre duas equipas do norte, que obriga os seus adeptos num domingo a fazer quase 800 kms, nao faz sentido que seja em Lisboa.

Porque essa necessidade de um estadio sem condiçoes e sem nenhuma razao para existir, ser visto como fulcral para realizar a festa da taça? Pergunta isso aos adeptos do Chaves que nao terao condiçoes de ir a Lisboa ver uma equipa que pode desaparecer até?

E sim, se a final fosse Maritimo vs Nacional, que sentido faria fazer a sinal noutro sitio que nao a Madeira???

um abraço


De Ricardo a 19 de Maio de 2010 às 00:54
Era deitar aquilo abaixo e fazer lá mais um shopping ou um bairro de lata. Como dizia o outro: "Estádios há muitos..."


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Maio de 2010 às 08:15
Seria o local perfeito para construir um centro de estágio para as seleçoes. Mas nem essas gostam de por aí os pés.

um abraço


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