Segunda-feira, 3 de Maio de 2010

Praças reservadas, festas preparadas. Foguetes de pólvora seca. Na noite que tinha todos os condimentos para fechar as contas do titulo o SL Benfica, mais que provável campeão nacional, sofreu um severo correctivo do ainda campeão em titulo. Uma vitória do FC Porto com todos os condimentos que faltaram ao longo de uma época turbulenta e que deixou no ar várias dúvidas sobre como teria sido a edição deste ano da Liga Sagres se tivesse sido disputada em total igualdade de circunstâncias.

 

No final dos 90 minutos parecia que se celebrava um titulo no tapete verde do Dragão. Um titulo do FC Porto.

Mas não, na fria noite do dia da Mãe, confirmou-se que matematicamente o clube portuense perderá o recorde de números de presenças na Champions League, agora pertença do Manchester United. Um destino que pouco pareceu importar aos 45 mil adeptos azuis e brancos que, por uma vez em largos anos, fizeram o novo Dragão parecer-se com antigo estádio das Antas. O Benfica mostrou-se incómodo num cenário onde queria celebrar o segundo título da década. Os nervos dos jogadores encarnados e a antevisão do que seria a actuação arbitral deram sinais de si logo nos primeiros minutos. Jesus tinha apresentado o seu onze de gala enquanto que Jesualdo Ferreira lidava, uma constante de toda a época, com várias baixas, dos lesionados Micael e Varela ao suspenso Falcao. Apostou nos argentinos Belluschi e Farias e em Guarin no miolo, uma combinação que tinha dado boas indicações nos jogos anteriores. O colombiano foi fucral na manobra de contenção do meio-campo encarnado, anulando por completo o jogo de Javi Garcia.

Empolgados pelos adeptos, os azuis e brancos entraram melhores no jogo. Os incidentes prévios ao jogo e o clima infernal que se montou no estádio foi diminuindo a audácia habitual no onze encarnado, muitas vezes reduzido ao seu sector defensivo. Ao minuto 42 um canto de Belluschi encontra a cabeça de Bruno Alves. O capitão, um dos jogadores mais criticados do ano, cabeceou sem hipóteses para Quim e abriu uma corrente de emoções com que os encarnados estão poucos habituados a lidar. Com esse fantasma as equipas voltavam para o balneário e regressavam sem que o túnel do Dragão tivesse os mesmos efeitos nefastos que o túnel da Luz, meia volta antes.

 

A segunda parte revelou-se ainda mais quente do que a primeira, cortesia de mais uma arbitragem tendenciosa de Olegário Benquerança.

O segundo amarelo a Jorge Fucile, inexplicável já que o uruguaio está em queda sem simular portanto um penalty que não existe, mudou o ritmo do jogo. O Benfica voltou a encontrar-se numa situação cómoda - foram várias as vitórias ao longo do ano contra rivais reduzidos a 10 unidades - e soltou-se. Maxi Pereira colocou Beto à prova mas o jovem guardião mostrou-se seguro. No lance seguinte, já com Miguel Lopes em campo, Luisão empata num lance fortuito onde a defesa do FC Porto mostrou uma velha passividade que lhe custou muitos pontos ao longo do ano. Um empate celebrado euforicamente pelos poucos adeptos encarnados, até porque por essa altura já o Braga vencia o Paços de Ferreira e mostrava vontade de manter o braço de ferro até ao fim.

Contra toda a lógica, a reviravolta nos acontecimentos significou uma mudança no ritmo do jogo. Ferido no orgulho, o campeão nacional reagiu como poucas vezes se lhe viu esta época. Farias voltou a colocar a vantagem do lado dos azuis e brancos, cinco minutos depois do empate para dar lugar ao combativo Rodriguez pouco depois. Foi o último movimento táctico de Jesualdo Ferreira, expulso pela segunda semana consecutiva depois de uma carreira imaculada. Cortesia de Benquerança, que se esqueceu de aplicar o mesmo padrão de exigência a Luisão e Di Maria nos minutos seguintes, permitindo o Benfica acabar o jogo com onze. Desesperado, como só se vira em Liverpool, Jesus lançou Aimar, Kardec e Weldon. O titulo, tantas vezes celebrado durante a semana, parecia adiadado uma vez mais. Os encarnados procuraram o empate, mas o meio-campo azul e branco soube temporizar o jogo. E controlar a movimentação de uma equipa em superioridade número mas em inferioridade psicologica. O peso da responsabilidade notou-se com o passar dos minutos. Até que Belluschi, num remate de bandeira, fechou as contas. O Benfica saiu vergado, com a mais pesada derrota doméstica da época de um estádio que rugiu de raiva e orgulho ferido. Uma semana mais - a última - de espera ansiosa por um titulo há muito anunciado mas dificil de materializar.

Com a vitória de ontem o FC Porto garantiu a emoção até ao final da Liga mas perdeu a oportunidade de continuar a disputar um lugar na Champions League, cenário que só se verificou por uma vez nos últimos quinze anos. No entanto, a atitude dos azuis e brancos, com várias baixas importantes, voltou a deixar a nu as reais debilidades de um conjunto encarnado que há muito perdeu o entusiasmo das primeiras endiabradas jornadas. O titulo dificilmente escapará da Luz mas Jorge Jesus terá de entender que o nível de exigência da próxima temporada será bastante diferente. A não ser claro, que a Liga se volte a decidir em Janeiro nos escritórios da LPF em vez dos tapetes verdes onde a bola rola apaixonadamente.



Miguel Lourenço Pereira às 08:40 | link do post | comentar

6 comentários:
De sergio a 3 de Maio de 2010 às 12:00
Resultado justo e festa adiada!

No entanto dou graças por viver longe de um local onde parece que a civilização não avançou e onde, mais que o amor ao clube, existe um grande ódio ao Benfica.

Isqueiros, telemóveis e bolas de golfe? Em Inglaterra tinham sido todos presos, mas isso é um país que não percebe nada de bola...

O Jorge Jesus conseguiu ser atingido por um adepto (não era Super-Dragao), o senhor foi filmado e agora espero que aconteça qualquer coisa...


De Miguel Lourenço Pereira a 3 de Maio de 2010 às 12:41
Viva Sérgio,

Quanto ao resultado, nada a dizer. O FC Porto lidou melhor com a pressão e venceu sem grande contestação. Quanto à festa também, até porque o Braga tem um confronto extremamente dificil com uma equipa que sonha ainda com a UEFA.

Em relação aos adeptos, a violência nos recintos desportivos e arredores deveria ser irradicada de vez. Seja onde for. Mas não aconteceu, infelizmente, apenas no Dragão. Houve autocarros de adeptos e da equipa do FCP atacados em viagens a Lisboa este ano. Houve problemas em Braga. Houve incidências na Luz. É um espelho da politica de confronto que muitos procuram para empolgar os adeptos, quando deveriam ter a responsabilidade de dar o exemplo.

Desde o principio do ano que se palpou no ar um clima de violência verbal que degenerou em violência fisica em distintas circunstâncias. Fazer do FCP e do jogo de ontem no Dragao a causa e motivo da violencia no futebol português é nao olhar para tudo o que se passou durante um ano desportivo até agora. Em 9 meses de época só por uma vez houve incidencias no Dragao. Curiosamente com a equipa que mais incidências tem no registo de toda a época em distintos registos e estádios.

Estaria bem se todos dessem o braço a torcer e se limitassem a disputar os jogos no relvado e nao nas bancadas, tuneis, secretarias ou onde quer que seja. Chama-se FCP, SLB, SCP, SCB ou quem quer que seja.

um abraço


De sergio a 3 de Maio de 2010 às 13:40
Concordo com o que disse.

No entanto, quando o lider dos SuperDragoes vem a publico dizer que não consegue controlar os animos ou coisa parecida, por toda a injustiça que aconteceu, está a ser muito ignorante, até porque esse senhor já escreveu um livro a contar as grandes façanhas da troupe dele.

Tambem não achei piada quando o diabo de Gaia deu um calduço no arbitro e achei que a Liga tinha de ser mais dura contra o clube e contra os adeptos.

Em Inglaterra não perdoam, desde visitas à esquadra na hora do jogo e prisão mesmo para outros.

Lamento tambem algumas coisas que se passam quando o Porto viaja a Lisboa. No entanto, dentro do campo, este ano, o Porto-Benfica bate todos os niveis de podridão. A quantidade de objectos a voar (inclusive o Luisao arremeçou um e devia ser castigado) para dentro do campo deve ter atingindo um nivel digno do Barcelona-Real Madrid no regresso de Figo.

Bom, fico-me por aqui, que isto de Futebol Português é para esquecer e pensar noutros campeonatos com outros protagonistas...


De Miguel Lourenço Pereira a 3 de Maio de 2010 às 14:53
Viva Sérgio,

Precisamente, como já muito comentei aqui, o campeonato português é pudrido pelo comportamento dos seus dirigentes, que são quem muitas vezes incitam a comportamentos sem qualquer tipo de desculpas. A começar pela forma como dão carta branca às claques oficiais que dentro de cada estádio guardam verdadeiros arsenais e que actuam em nome do clube sem o representar nunca de facto.

Chamem-se Super Dragoes, Diabos Vermelhos, Juve Leo, etc., as claques sao um dos grandes problemas do futebol portugues que ninguem tem coragem de resolver como se fez noutros países.

Como bem dizes seja em Lisboa, Porto, Braga ou Faro, o comportante é criticável e devia ser punivel tanto a titulo individual como a nivel das instituiçoes. Ninguem devia estar acima da lei. O pior é que em Portugal falta sempre algo que se resume numa só palavra: coragem.

um abraço



De Pedro a 4 de Maio de 2010 às 00:42
O Campeonato do FCP foi ganho ontem. Surpreendente mesmo para alguns portistas. Dragão ferido, fogo ardente.
Carregaram-se as dúvidas sobre a justiça do futuro vencedor do campeonato? Penso que não. O Benfica foi a melhor equipa, mas... houve, de facto, demasiados casos.
O caricato é no ano em que o FCP perde o campeonato, é terceiro e vê fugir a Champions . Todo um "encaixe" financeiro perdido que pode fulminar as próximas épocas. O re-equilíbrio financeiro-desportivo é fulcral para o Dragão se levantar e voltar à ribalta. Um até já azul e branco.


De Miguel Lourenço Pereira a 4 de Maio de 2010 às 08:38
Viva Pedro,

Efectivamente, esse é o quid da questão. O Benfica seria um justo campeão se não tivesse havido tantos casos. Continuará a ser um bom campeão (números altissimos é preciso relemebrar), mas tanto caso dentro e fora dos relvados enturbia o título de qualquer equipa.

O FC Porto provavelmente sairá mais reforçado. Terá menos pressão com a questao europeia (nao acredito que a Europe League vá ser uma verdadeira prioridade) e poderá apostar tudo no titulo, enquanto que o Benfica quererá demonstrar na CL as boas indicaçoes deixadas na Europa este ano.

O proximo ano será um verdadeiro braço de ferro. Esperemos que só no tapete verde.

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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