Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Gola alta, olhar penetrante, rosto sério.

Durante uma década a sua figura ofuscou o futebol dos dois lados do canal da Mancha. Entrou em mil batalhas, foi suspenso nas duas costas, encheu estádios e fez história. Conseguiu o possível e impossível. Ressuscitou um clube envelhecido e fez história num gigante que para ele se tornou pequeno. O seu carácter valeu-lhe uma legião de admiradores sem fim. E mais detractores que a nenhum outro. Lutou contra o próprio Diabo e venceu. Como quase sempre. No final provou ser igual a ele próprio. Esta semana passeia-se pelo Festival de Cannes com um filme sobre ele próprio. Sobre Eric, le Roi
 
Eric Cantona nasceu para fazer história mas ficou sempre a um pequeno passo de lograr a imortalidade. No entanto hoje continua a ser uma das figuras mais marcantes da história do beautiful game, um dos ícones obrigatórios dos anos 90. A sua imagem de gola alta a celebrar os golos com os braços no ar, à espera da devida ovação, correram o Mundo e engrandeceram o mito…que neste caso nunca foi maior que o homem. Doze anos depois de deixar os relvados – e de se passear pelas areias – o letal avançado é hoje um sensível artista fotográfico e plástico. Compõe música para a sua mulher, pinta quadros expostos nas selectas galerias de Paris e tornou-se num fotógrafo de prestígio no meio. Enfim, Cantona tornou-se fora das quatro linhas no que já era dentro. Um irreverente artista capaz de captar o impossível e plasmá-lo num segundo. E claro, é actor. A única forma de continuar a alimentar o seu ego. Já leva em quinze anos uma dúzia de aparições, umas maiores outras mais tímidas. Nenhuma como esta. Em Looking for Eric, ele é mesmo Eric…o Cantona, o número 7…o Deus de Old Trafford.
 
Nos anos 80 a imprensa francesa andava intrigada com um jogador que andava por Marselha a romper a cabeça aos mais temíveis defesas da liga. Começou a falar-se num sucessor digno de Platini, já à beira da reforma milionária e o seu nome surgia em todas as listas. Inevitável. Eric Cantona era já um astro. As suas exibições deram-lhe fama, o seu carácter trazia-lhe problemas. Anarquista até ao fim, nunca baixou a voz e acabou por entrar em conflito directo com o seu clube e mais tarde com a federação. Acabou suspenso de jogar em território gaulês e foi forçado a emigrar, a trocar o cálido Mediterrâneo pelo frio Yorkshire. Nas ilhas do outro lado do canal encontrou o refúgio. Vestiu-se de amarelo e fez história. Na primeira edição de uma desconhecida Premier League pegou numa série de rapazes desconhecidos e fez deles homens. E sagrou-se campeão. Leeds saiu à rua. O United tinha um herói. E do nada, no Verão seguinte, Leeds passou a ter um vilão.
 

O homem que não entende de rivalidades baixou uns quilómetros e trocou a velha capital do norte da Britania pela industrial Manchester. Um tal escocês, que levava já 10 anos por lá sem ganhar uma liga, viu nele o general perfeito para o seu exército em renovação. Os veteranos Robson, Ince, Hughes, Irwin estavam à beira da reforma e Ferguson sabia que fornada vinha a caminho. Mas precisava de um líder. E Cantona liderou como nunca outro jogador na história do Manchester. Sem o génio de Charlton ou Best, mas com a garra de um herói mitológico, Cantona montou os Red Devils à sua medida. E começaram a chegar as ligas, uma após a outra. E os braços no ar e as golas levantadas. E depois veio o pontapé de kung fu a um adepto que lhe chamou “french bastard”. Cantona, igual a si próprio. Em Inglaterra estava suspenso mas França a suspensão tinha terminado. Irrelevante. Este Eric não esquece e declarou abandonar a Marselhesa definitivamente. Dois anos depois do anúncio, o homem que ia liderar a França do futuro viu desde a sua villa em Marselha a vitória no Mundial, finalmente, do exército gaulês. Liderado pelo filho de argelinos de quem Eric muito tinha elogiado anos antes, quando ainda andava pelo Cannes. Ironias do destino. Eric certamente sorriu. 

 

Tal como naquela noite em Barcelona. Depois de anos a reinar em Old Trafford, como nunca nenhum outro, o rei decidiu que estava na hora do retiro final. Deixou os adeptos com as lágrimas nos olhos e Ferguson tocado no coração. Já não precisava dele. Os anos de liderança do rei Eric tinham servido para forjar o carácter do seu novo exército. Depois do domínio caseiro a equipa preparou-se para a conquista à Europa. Eric já não estava lá, naquela noite. Mas se calhar foi o seu espírito que desviou aquela bola de Solskjaer…justiça divina, artística quiças. Já não importava. O rei retirado continuou a viver da lenda, dos anúncios, do prazer de caminhar sobre a areia com uma bola nos pés. Já passaram doze anos desde aquele ultimo drible, do último sprint, do último golo…o rei agora fala sobre si próprio e passeia-se pela elite intelectual da Europa. Onde se sente bem. Como antes se sentia nos relvados. No mesmo tapete verde onde sempre foi igual a si próprio, Eric, le Roi…c´est toutjours Cantona!


Miguel Lourenço Pereira às 15:47 | link do post | comentar

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