Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

De pensar que se é a melhor equipa do Mundo a ser a melhor equipa do Mundo vão alguma distância. 180 minutos para ser preciso. A hipocrisia cruficificará a equipa que mais golos marcou, melhor soube atacar e defender. O poder mediático define comportamentos e o gesto heróico de Mourinho, dedo no ar em pleno Camp Nou, será uma das imagens mais polémicas do ano. Na noite em que o português se fez "Divino".

Para uns o futebol são só remates à baliza, golos espectaculares, trocas de bola rápidas e artistas de rua.

Para esses ontem viveu-se uma blasfémia. Mas mesmo esses, vestidos do traje mais hipócrita, dariam tudo para que o seu clube tivesse tido a temperança de aguentar a posição como os legionários de José Mourinho. Porque o futebol, como qualquer desporto, é uma questão de vencer ou perder antes de ser um mero espectáculo. Espectáculo é no circo, dizia Helenio Herrera. Ontem José Mourinho ganhou, por direito próprio, direito a entrar no panteão dos deuses do calcio com o histórico chileno, um dos treinadores mais goleadores da história apesar da sua fama de defensivo. Tal como o luso. É preciso ter em consideração que nos últimos 25 anos só Arrigo Sacchi, Fabio Capello, Boskov, Marcello Lippi e Carlo Ancelloti lograram chegar à final da prova rainha do futebol europeu com uma equipa italiana. E que o Inter, esse gigante adormecido, não pisa uma final da prova desde 1972. Há 38 anos. E isso é um feito.

Mourinho mostrou uma vez mais que é um ganhador e desta feita, ao contrário da sua etapa com o Chelsea, não houve azares de última hora ou árbitros distraidos que o impedissem de tentar repetir o feito logrado com o FC Porto. O sadino resgatou das trevas a equipa azul e branca e deu inicio a uma hegemonia que só teve comparação no futebol português com a equipa de 60-62 do SL Benfica. Com o Chelsea acabou com uma sede de mais de 50 anos de história e deu um golpe na mesa no equilibrio da Premier. Em Itália, mesmo que perca os três titulos que ainda disputa, já entrou na história.

 

O jogo começou antes dos 90 minutos.

A lesão de Goran Pandeev no aquecimento mudou completamente o jogo. Já se sabia que ao Barcelona cabia a despesa do jogo e que o Inter ia aproveitar o contra-golpe. Vantagem de 3-1 para gerir é renda incerta contra uma equipa habitualmente ultra-ofensiva como é o conjunto catalão. A entrada de Chivu deixou coxo o lado esquerdo do ataque. A má forma fisica de Sneijder tirou força ao contra-golpe do meio campo. E o árbitro belga destacado pela UEFA resolveu todas as dúvidas. A ridicula expulsão de Thiago Motta - com direito a um teatro impróprio para menores tão bem adestrados como Busquets - cortou qualquer hipótese de defesa ofensiva a Mourinho. A partir daí era preciso defender. O melhor ataque da Europa. O Inter abandonou o 4-3-3 por um inevitável 4-4-1. Que, com o passar do tempo, se tornou em 4-5-0. No banco não havia opções neste plantel feito de remendos e espremido até ao limite.

O Barcelona viu então a oportunidade de entrar pela via verde. E preferiu tomar um desvio pela antiga nacional. Em 180 minutos Mourinho mostrou todas as debilidades de Guardiola como técnico. Algo que demorou dois anos a suceder. O técnico, cavalheiro como poucos até agora, deixou-se levar nos jogos mentais do português. E tacticamente esteve irreconhecível. Lançou Maxwell para o lugar do improvisado Milito, a defesa-esquerdo. Mas manteve Messi no centro do terreno, onde esteve, como sempre, irreconhecível. O "melhor do Mundo" não teve uma oportunidade contra o Inter. Mais uma licção do português que já tinha sabido parar várias vezes a Cristiano Ronaldo em Inglaterra. Sem nunca recorrer a uma marcagem ao homem.

Com Ibrahimovic parado no meio dos centrais, o Barça nunca procurou esticar o jogo. Esbarrou com um muro montado de forma perfeita. Um jogo imenso do conjunto italiano, sem um único erro defensivo. Sujeitos a imensa pressão, os italianos aguentaram firmes a mareante troca de bola de Xavi, Messi e Busquets. Só que estes não encontravam um milimetro de espaço. Isso também é futebol!

 

No segundo tempo Mourinho abdicou totalmente de atacar. Sabia não ter condições para encarar, nem que por breves momentos, o Barcelona.

Mas Guardiola voltou a errar ao lançar Jeffren e Bojan. Ou talvez não tivesse outra arma no banco? Erro de planificação de época que se começa a fazer agora que Ibrahimovic grita em silêncio contra um esquema onde não se enquadra, feito à medida de Messi e não do seu jogo de associação. O Barcelona tentava mas Julio César nunca teve realmente de se incomodar. A bola esbarrava na primeira linha defensiva. Tal como contra o Chelsea no ano passado, este Barcelona mostrou ser virtuoso apenas contra equipas que não sabem defender. Tal como Cruyff contra Capello, também Guardiola parece ser incapaz de superar o obstáculo italiano de um bloco bem montado e impenetrável.

Os dez minutos finais foram intensos. Pique, o melhor dos blaugrana, apontou um golo genial, ele que há largos minutos era já o ponta de lança improvisado. Não fosse a posição de off-side. Mais um de muitos erros caseiros de um árbitro que amarelou Julio César aos 30 minutos por atrasar um pontapé de baliza e que passou o encontro a marcar faltas estratégicas à frente da área italiana. Todas, sem consequência. Mas se em Can Barça se falou de "remuntada" toda a semana, a verdade é que nunca se viu esse espirito eléctrico nos jogadores e no seu técnico. A equipa não carregou "à inglesa", depois do golo de Pique e nunca esteve realmente perto do 2-0. O jogo acabou como se previa. Vitória do Barcelona. Apuramento do Inter. 

Haverá quem goste ou não goste de Mourinho e do seu jogo. No futebol tudo é permitido, tudo é legitimo. Mas a falta de cavalheirismo do Barcelona demonstrou que o clube que encandilou a Europa nos últimos 365 dias voltou a cair em velhos erros arrogantes do passado. Ligar os aspersores quando os jogadores italianos comemoram é indigno. Agarrar o pescoço de um treinador que celebra, também. De insultos e apupos, já nem se fala. O ano passado o Mundo delirou com o sprint de Guardiola em Stanford Bridge e com os festejos em Madrid, Valencia, Roma, Monaco, Bilbao e Abu Dhabi. Em nenhum momento ninguém impediu o Barça de celebrar as suas conquistas nem ninguém se lembrou de os acusar de arrogantes. Fazê-lo agora é a melhor prova de que o fair play e as camisolas da Unicef só enganam quem querem. Para se ser a melhor equipa do Mundo há que ganhar. Não basta com fazer videos promocionais e jogar um futebol rendilhado sem consequências. O Barcelona entrou nesta Champions convencido de que a ganharia por ser quem era. Sai pela porta das traseiras precisamente porque não soube ser outra coisa diferente. O futebol, como a vida, é evolução. E este Barcelona, ao contrário do Inter metamorfoseado, é uma versão muito inferior do ano passado. O Inter pode desfrutar agora do seu sonho. Il Divino merece-o.



Miguel Lourenço Pereira às 08:25 | link do post | comentar

6 comentários:
De sergio a 29 de Abril de 2010 às 18:30
O homem até a festejar é Special!

Nem o Valdes o conseguiu remover, eheh.

Lição de Mourinho para toda a Catalunha!


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Abril de 2010 às 08:23
Viva Sérgio,

O Barcelona deu uma licçao ao mundo de nao saber perder. Impressionante que se critique a corrida do Mourinho quando o ano passado o Guardiola correu toda a linha de fundo de Stanford Bridge e foi tratado como Aquiles.

Um abraço


De zzeluis a 30 de Abril de 2010 às 00:43
Eu sou um purista do futebol, defendo o que preconizo e não traio nada de princípios nem sacrifico a beleza estética à obtenção do resultado - no caso de ser um antifutebol a triunfar cria-se a excepção.

O FC Porto com Artur Jorge ganhou 2-0 ao Ajax lançado por Cruijff, com o imberbe van Basten e detentor da Taça das Taças. Foi 2-0 cá e 0-0 lá. as Antas, com golos fortuitos e felizes de uma equipa que mal arriscou um pontapé.

Fiquei contente, mas nunca neguei que aquilo não é futebol. E para mim é para sempre. Por muito "coração" que transporte para o jogo, com o meu clube ou outro de profunda afeição.

Não consigo elogiar o que acho feio. E descobrir a beleza do feio só mestres como Eco.


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Abril de 2010 às 08:33
Zé Luis,

Não esperava outra coisa de ti e esse pensamento só te honra.

Lembro-me de muitos jogos onde a pior equipa ganhou e tenho sentimentos mixtos. Gostaria de ver o Inter a jogar como o FCP, principalmente da primeira época, ou como o primeiro Chelsea, mas entendo a obsessao do Mourinho em chegar à final a todo o custo depois de seis anos a tentar. E sei que aquele plantel de remendos nunca poderia olhar de igual para igual com o Barcelona. Como se escreveu no The Times, era um "One Special Once vs Elevan Incredibles". Que poderia fazer? Jogar de peito descoberto e cair de pé, com o aplauso do Mundo. Arriscar, particularmente com menos 1, abrindo espaços atrás que é daquilo que o Barcelona vive?

Nao digo que seja jogo bonito. Mas sei que é parte do jogo também. E se o Inter pode defender aqui assim foi porque antes foi a 1 equipa a meter 3 a este Barcelona. E foi a equipa que ganhou em Moscovo e Stanford Bridge quando o empate bastava sempre.

Há técnicos como Mitchell, Shankly, Sacchi, Cruyff, Tele Santana ou Busby de que toda a gente gosta. E depois há aqueles como Herrera, Clough, Pedroto, Capello ou Ferguson que geram sempre uma relaçao de amor-ódio. Nenhum deles é um técnico defensivo/ofensivo mas souberam, em determinadas ocasioes, encarar o adversário e mudar o seu estilo de jogo. Capello foi campeao com a menor média goleadora da historia do Calcio e depois foi ganhar a Champions por 4-0. Pedroto era um homem de ataque mas que percebeu, no mitico Inglaterra-Portugal, como nao perder em Wembley. Ferguson durante muitos anos foi excessivamente ofensivo e na final de 1999 contra o Bayern andou aos papéis...

Já aqui escrevi muito sobre o Barça e sobre o Guardiola, por isso todos sabem do meu apreço por ambos e pelo seu estilo. Mas nao gosto de equipas que entram em campo com a conviçao de que, por serem quem sao, automaticamente sao superiores aos outros. O futebol tem muitos rostos. O do Inter é só mais um de muitos.

um abraço


De zzeluis a 30 de Abril de 2010 às 23:55
Estive uns dias fora e posso recomeçar.

O teu exagero nos méritos de Mourinho faz-me lembrar os experts a falar do Trofense de Tulipa a fazer 0-0 no Dragão... E o Tulipa a dizer que até já vira o Porto defender assim na Champions.

Quando se cai no exagero é por ñão se ter razão e querer encontrá-la onde não existe. Faz lembrar o velho do "Casarão", sem ofensa, que mexia na merda para ver se saía ouro, sem ofensa, repito.

O jogo não propiciava oportunidades, mas houve mais do que tu viste e o Bojan falhou de cabeça um golo feito.

Até a falares do árbitro caseiro tens piada, quando é amarelo certo para o Motta ser expulso e J. César não só atrasava pontapés de baliza, mexia sempre na bola, mas demorou (lá foi mexer na bola) num pontapé livre a meio do meio-campo do Inter.

Devias olhar mais os pormenores e não ligar ao teatro.

E olha que o Inter não ficará na história, mas o Barça sim.

Concordo, contudo, com a "posição" do Ibra, mas ele é assim, "a espaços". O Barça é que nao podia fazer outra coisa. Só sabe jogar assim e só pode jogar assim.

Curiosamente, hoje vi um diagrama que me ocorreu. Tá no JN e monta uma defesa do Inter como no andebol. Tal e qual. Bem me parecia que aquilo não era futebol. Há quem mascare a realidade com o "realismo" que quiser. Sócrates fá-lo, o Benfica fá-lo e cosi via.

Resta saber (não, o resultado de uma final é incerto até ao último minuto e mesmo assim...) se o Mourinho, indo para Madrid, um dia vai defrontar o Barça desta maneira.

Ah, acho piada não se achar que o Inter tem jogadores tão bons como o Barça. Eu gostava de saber onde há melhores do que o J. César, Maicon, Zanetti (inoxidável), Sneijder, Milito, Eto'o (fantástico), mesmo Lúcio e até Samuel.

Mas isso sou eu que não percebo nada disto e tenho de acreditar que só os mancos jogam ao pé coxinho...

Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 2 de Maio de 2010 às 16:24
Zé Luis,

Não tenho duvidas de que o Barça já está na historia. Mas essencialmente o da época passada, acutilante, sem medos e contundente. O de este ano parece-me uma versão soft com o Pep a cair no erro de querer fazer do Messi o novo Maradona quando ele é muito mais letal em diagonais do que nos curtos espaços que o Mourinho nunca lhe deu no miolo.

Sou suspeito porque sempre admirei Guardiola, especialmente como jogador, e alinha de pensamento cruyffiano do Barça de que no banco ele é o mais perfeito discipulo. Mas não gosto de criar Deuses e Diabos e porque uma equipa não joga o mesmo estilo de jogo aberto do Barça não significa que seja o anti-futebol.Nao o foi o Chelsea o ano passado (mais defensivo na 1 mao do que na segunda, ao contrario do Inter que levou uma vantagem real de 2 golos) e nao o é o Inter.

O Inter tem um grande plantel no sector defensivo mas curto do meio campo para a frente, especialmente por ter de contar com os birrentos Balloteli e Quaresma. Acho que foi uma equipa superior nas duas mãos porque dominou todos os registo do jogo. O Barcelona foi melhor na posse de bola e na circualaçao, mas sem contundencia e aquele sentimento desesperado de ter de marcar 2 ou 3 para passar. Nunca vi isso no rosto dos jogadores.

um abraço

Miguel


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