Domingo, 23 de Maio de 2010

A vitória da França no seu Mundial não foi apenas o primeiro triunfo gaulês na história do torneio. Foi a consumação final da evolução desportiva do jogo para um evento global. Um triunfo de uma selecção com elementos dos quatro cantos do Mundo num torneio onde brilharam selecções de todos os continentes. No final o herói foi um filho de argelinos transformado em principe da Europa. E rei do Mundo. O Hexágono adormeceu em paz consigo mesmo à medida que nos Champs Elysées a foto de Zidane iluminava o Mundo.

 

O Brasil tentou voltar a ser uma equipa especial mas algo batia mal no ritmo cardíaco de um conjunto que misturava a classe dos virtuosos como um espirito obreiro inusual. A velocidade substituiu o toque de bole e as vitórias foram mais dificeis. Mas iam chegando. A conta-gotas. A Holanda, fascinante em cada movimentação, voltou a cair no momento mais temido. Às portas da glória. Itália, Argentina e Alemanha, em versões bem mais soft de outras edições, não superaram os Quartos, enquanto que a ambiciosa Nigéria, a veloz Dinamarca e a ousada Croácia iam pondo emoção a um torneio global. Os naturalizados começaram a emergir com naturalidade. Os representantes dos quatro cantos do Mundo mostraram que o futebol se estava a tornar mais competitivo onde menos se esperava. A Nigéria mostrou um ar da sua graça. O México voltou a provar ser uma formação temível enquanto que a França acabou por resumir em cada traço do seu jogo o espirito do Mundo. A vitória dos Bleus foi sentida como uma vitória de todos. Não pelo longo historial de malapatas passadas que ainda persegue equipas como Holanda, Espanha ou Portugal. Mas pela forma como Aimee Jacquet, odiado por tudo e todos, abdicou do galicismo tradicional e abriu as portas da sua selecção a jogadores vindos de todos os lados. Até mesmo do Hexágono. À medida que confeccionou um onze multi-racial, Jacquet mandou uma mensagem ao mundo. A cor, raça e origem não contam quando a bola começa a rolar.

 

Barthez, Guivarch, Deschamps, Petit, Dugarry, Lebouef e Blanc eram os únicos gauleses puros. Tudo o resto misturava o perfume das pampas argentinas (David Trezeguet) com as areias do deserto do Magrebe (Zidane). Havia espaço para os ecos das montanhas arménias (Djorkaeff), das ilhas das Caraíbas (Thuram, Henry) ou de recantos escondidos de África (Vieira, Desailly, Makelelé) ou do País Basco (Lizarazu). A mistura de tantas etnias e filosofias foram a chave para definir o modelo de jogo francês. Uma defesa sólida, um meio-campo que misturava a força africana, a cerebralidade europeia e a magia magrebina e um ataque veloz com as aves das Caraíbas. Com esta formação os gauleses foram ultrapassando os obstáculos. A expulsão de Zidane manchou a primeira ronda, mas a equipa superou sem sobressaltos os principais rivais. Depois sofreu, e mostrou saber sofrer, até a cabeça de Blanc inaugural o infame historial de golos de ouro. Os penaltys, outro sofrimento largo demais para o majestuoso Stade de France, valeram o apuramento face à Itália. E nas meias-finais, o eterno carrasco não apareceu. Em seu lugar a Croácia do genial Suker, o homem que podia ter definido o torneio com a sua eficácia. Não fosse, claro está, o perfume veloz de Guadaloupe a surgir pelos pés do improvável Thuram, convertido em herói por uma noite. Longa noite parisina.

 

No dia da grande final a polémica tomou controlo de tudo e todos. O Brasil de Ronaldo esteve para não o ser. As voltas e reviravoltas valeram de pouco ao escrete. O "Fenomeno", ainda o era, estava lá. Mas ausente. Passou ao lado do jogo. Mas não esteve só. Nem Bebeto, Rivaldo ou Djalminha souberam sambar o onze gaulês. E Zizou, sempre ele, desaparecido durante boa parte do torneio, emergiu de cabeça, essa cabeça calva de berbere do deserto, e levantou o Mundo. Dois golpes e um soco dado por Petit bem no estomago de Taffarel. O Mundo descansava sobre os gritos de eternidade de um país que nunca percebeu realmente o que era e quem lá cabia. Naquela noite, em França viveu o Mundo. Viveu o futebol global. Viveu o presente e o futuro. E os gritos não tiveram dialecto. Só emoção.  



Miguel Lourenço Pereira às 20:56 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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