Domingo, 16 de Maio de 2010

No Mundial mais atipico de que há memória venceu o Brasil menos brasileiro da história. Pelo meio o espectáculo ficou a cargo das selecções convidadas, equipas por quem ninguém apostava que seguissem em frente na fase de grupos e que acabaram por ser os responsáveis pelos melhores momentos de um torneio feito à medida para o Tio Sam mas de que não se guardam saudades.

 

Jogos à tarde com um calor abrasivo para que a Europa seguisse o torneio feito pela FIFA para o mercado americano.

A entrega do Mundial aos Estados Unidos seguiu-se aos pedidos dos norte-americanos depois do sucesso do torneio mexicano. Os gigantes estádios de futebol americano foram adaptados para receber o soccer. Os hinos e as bandeiras encheram as ruas. O futebol ficou preso na alfândega e poucos imigrantes clandestinos conseguiram passar. Não veio do Brasil mais tristonho. Da Itália mais resultadista. Nem da sempre irreverente Holanda. Muito menos da Argentina do ET caído em desgraça. Ou da Alemanha destroçada. O futebol chegou dos pés das pequenas equipas europeias que foram rasgando a monotonia de jogos calculados ao mais minimo detalhe. Mas sem pingo de emoção. No final só o futebol de Bulgária, Roménia e Suécia soube encandilar os milhões de espectadores sedentos de uma prova à altura do torneio depois do magro sabor de boca do torneio anterior. E se no final a hipocrisia do jogo belo que o foi menos levou as duas selecções mais cansativas à primeira final decidida por penaltys, ninguém se esquecerá dos gritos de Hagi, Stoichkov e Ravelli, underdogs à americana.

 

A prova teve milhões dentro e fora dos estádios. Mas poucos jogos para lembrar.

Na fase inaugural houve poucas surpresas, salvo a eliminação precoce e trágica da ambiciosa Colombia. Os favoritos seguiram, a conta gotas, num torneio onde não havia França, Inglaterra, Portugal ou Dinamarca. Até que chegou o momento dos convidados. Num jogo inesquecível George Hagi, conhecido como o "Maradona dos Carpatos", mostrou que o titulo lhe acentava que nem uma luva. O verdadeiro 10 via o jogo da bancada, depois de mais uma suspensão, a última. A Roménia vulgarizou a favorita Argentina e o golo memorável do artista romeno foi um dos momentos mais altos do torneio. Os romenos seguiam em frente para defrontar o frio onze sueco, repleto de futebol alegre e despreocupado. Os golos de Thomas Brolin, o herói loiro que depois desapareceu tão rápido como irrompeu, tinham levado a Suécia a empatar com o Brasil e logo a bater a surpreendente Arábia Saudita. No confronto europeu que se seguiu os romenos começaram melhor mas os golos só chegaram no final. Brolin, inevitavelmente, abriu a contagem. Três minutos depois o empate do igualmente loiro e letal Raducioiu. O mesmo deu a volta ao marcador já bem entrado no prolongamento até que a cabeça de Kenneth Anderson levou o jogo para penaltys. Aí erigiu-se a figura mitica de Thomas Ravelli. O guardião fez defesas impossíveis e prolongou o sonho. Que terminaria aos pés do Brasil, cinco dias depois, do baixinho mortal chamado Romário.

 

No entanto o Mundial de 1994 será sempre da Bulgária de Stoichkov e companhia.

O dianteiro do Barcelona foi o melhor marcador do torneio (empatado com Salenko que marcou todos os seus cinco golos num jogo) e uma das mais espantosas figuras da prova. Os bulgaros sobreviveram a um grupo onde estavam também nigerianos, argentinos e gregos. Depois de baterem o México do florescente Jorge Campos a equipa de Kostadinov, Letchkov e Penev defrontou a titubeante Alemanha. Não houve história e apesar do golo inaugural germânico a superiordade bulgaro foi constante. Os golos de Stoichkov e Letchkov fizeram história. Pela primeira vez a Bulgária chegava às meias-finais de um Mundial. Subitamente a equipa de leste via-se a lutar pelo titulo. Mas faltava um último obstáculo. O sempre irritante degrau chamado Itália. Num encontro tenso, repleto de pequenas faltas a meio campo, outro génio decidiu o jogo. Os dois golos de Roberto Baggio em cinco minutos paralizaram o ataque bulgaro que tentou, sem sorte, remar contra a maré. No final a equipa ficou tão desanimada que acabou injustamente goleada pela Suécia no jogo do terceiro e quarto lugar.

Quando Baggio falhou o penalty, os bulgaros suspiraram pela ocasião perdida. E Stoickhov teve de ver o seu rival Romário levantar o trofeu. O quarto e mais penoso da história canarinha. Um trofeu ganho à americana.



Miguel Lourenço Pereira às 10:18 | link do post | comentar

4 comentários:
De sergio a 16 de Maio de 2010 às 13:34
Foi a 1ª competição internacional que me lembro de ver na TV, por isso para mim será sempre mágica.

Quem não se lembra da Nigéria, com Amokachi, Finidi e Yekini? Ou da Arábia Saudita no seu melhor mundial de sempre?

Mas tal como foi referido, a Bulgária encheu todas as medidas e ainda hoje me lembro daquelas caras: Penev, Iordanov, Yankov, Mihalov, Stoichkov, Kostadinov, Balakov, Boriminov e o carequinha Lechkov. A Roménia e a Suécia também se apresentaram no seu melhor nível, mas Brasil e Itália estão sempre no pedestal.


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Maio de 2010 às 10:07
Viva Sérgio,

Da Arabia Saudita, inesquecivel aquele golo contra Marrocos. Uma surpresa sem dúvida.

A Nigéria seduziu como poucos, tal como faria em França, mas na hora H revelou-se demasiado verde.

Para mim a Bulgaria foi a equipa mais organizada e coerente da prova, mas a eficácia italiana é uma arma perigosa para uma equipa de virtuosos.

um abraço


De Pedro a 17 de Maio de 2010 às 03:50
Miguel,

Este foi o "meu"primeiro mundial "olhado" tacticamente. Lembro-me que já via os jogos com a constante preocupação de analisar os sistemas tácticos de cada selecção. Jogos às 3 da manhã de cá, com o sol abrasador dos quentes relvados americanos.
Aquele slogan musical introdutório "Gloria land", excelente, o majestoso Rose Bowl, os comentários do Gabriel Alves. Tenho saudades.

A minha equipa era sem dúvida a Argentina. Tinha os "meus" adorados Caniggia e Redondo, mais Maradona e Batistuta. Mas, infelizmente, anarquia e "loucura" a mais.

Estava seduzido igualmente pelo futebol da Colômbia de Valderrama e Asprilla que tinha goleado a Argentina em Buenos Aires, durante a qualificação, por 0-5, mas depressa me desiludi. Muito toque para nada. Tudo muito lento. Grande desilusão.

Apaixonei-me também pelo jogo venenoso de contra-ataque e vertigem da Roménia de Hagi, Dumitrescu e Raduciou.
O jogo com a Argentina nos oitavos foi um monumento! Dos que me doeu mais, também. Um misto de tragédia e paixão. A partir dali seguia torcendo pela Roménia, que no entanto não passaria os quartos, num jogo com a Suécia onde tiveram tudo, já no prolongamento, para decidir a favor.

Para me agarrar até ao fim restava só a Bulgaria de Stoichkov.
Tinham um grande meio-campo e ataque mas na defesa o Ivanov (aquele barbudo grandão) não chegava para tudo. Vibrei imenso com a vitória sobre a Alemanha quando nada o fazia prever. Mas depois Baggio estava em grande e foi demais.

Brasil? Italia? Só lembrarei as equipas que me trouxeram emoções, tudo o resto esqueço.

Grande abraço

Pedro



De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Maio de 2010 às 10:09
Viva Pedro,

Efectivamente foi um Mundial onde os favoritos chegaram ao fim e os virtuosos foram ficando pelo caminho. A Espanha e o cotovelo de Tassoti, a Roménia e as maos de Ravelli, a Bulgaria e o pontapé seco de Baggio. Foi um Mundial inesquecível pelas multidoes e pelo futebol despreocupado das equipas nao favoritas e uma desilusao das potencias europeias da praxe.

No final estava lá o Brasil menos brasileiro da historia. Se nao fosse assim, teria caido como os outros, no meio de elogios e lagrimas.

um abraço


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