Domingo, 2 de Maio de 2010

O Mundo percebeu que havia um alienigena à solta no quente Verão mexicano de 1986. Sozinho Maradona ganhou um Mundial. Um dos mais espectaculares de que há memória. Entre os muitos heróis ofuscados pelo endiabrado argentino, destacou-se um abutre solitário que numa tarde inesquecível em Queretaro destroçou a melhor selecção europeia. Chamavam-lhe El Buitre e os dinamarqueses perceberam porquê.

Quem se lembra daquele mês de Junho tórrido de 1986 talvez não saiba que o Mundial esteve para ser disputado na Colombia.

Problemas financeiros levaram a prova pela segunda vez ao México. Havia dúvidas. Viveram-se certezas. Foi o mais espectacular torneio em largos anos. Repleto de heróis improváveis e momentos históricos. Portugal voltou à ribalta e começou em grande. Saiu pela porta pequena, espelho da mentalidade infantil e egoista bem lusa de Saltillo. A campeã em titulo, a Itália, não aguentou o peso do troféu. O mágico Brasil de 82 estava cansado. Passou pela prova sem pena nem glória, tal como a França, que mostrou ser incapaz de derrotar a sua besta negra. As grandes referências do Mundial acabaram por cair mais cedo do que o desenrolar do torneio parecia antever. Se Maradona estava num Mundial à parte, as três grandes selecções foram tropeçando pelo caminho. E facilitaram o resultado final. A explosiva URSS de Igor Belanov, um dos jogadores mais completos do futebol europeu, dominou um grupo onde estava a França de Platini. Depois, numa luta desigual contra a séria Bélgica de Ceulemans e Scifo, a surpresa. O mágico dianteiro do Dynamo Kiev apontou um hat-trick. De nada lhe valeu. Os belgas apontaram 4 golos ao imbatível Dassaev. Chegariam longe. Bem longe. Noutro jogo, em Queretaro, definiu-se o maravilho Mundial azteca. Duas das melhores formações europeias, que tinham precisamente sido rivais dois anos antes em França, mediram forças. Com um resultado inesquecível.

 

A Danish Dynamite foi a sensação da primeira fase.

Mantendo o ritmo endiabrado do Euro 84, os comandados de Sepp Piotnek arrasaram como poucos nas jornadas inaugurais. Bateram o Uruguai por seis golos, derrotaram a Escócia e vergaram a temida Alemanha. O mago Elkjaer Larsen e o jovem Michael Laudrup combinavam à perfeição no ataque, mas era o meio campo com Lerby, Olsen e Arnesen quem fazia o trabalho duro. Considerados como favoritos para a segunda fase, os dinamarqueses teriam de medir forças com La Furia. A selecção espanhola, vencida do Europeu de França, tinha uma das melhores gerações da sua história. Chamaram-lhe Quinta del Buitre. Pelo magro, sério abutre madrileño chamado Emilio Butrageño. O avançado do Real Madrid liderava uma equipa por onde passeavam classe homens como Martin Vazquez, Camacho, Señor, Gallego, Chendo, Salinas, Zubizarretta, Michel ou Goikotxea. A 18 de Junho os rivais mediam forças. Arnesen estava suspeno mas o seu velho amigo, Jesper Olsen, abriu cedo o marcador. De penalty. Confirmava-se o favoritismo dinamarquês e Larssen e Laudrup moviam-se à vontade. Dois minutos antes do intervalo surgiu nos céus o abutre. O empate de Butrageño mudou o ritmo do jogo. A Espanha voltou mais furiosa que nunca para o segundo tempo e aos 56 o avançado deu a volta ao marcador. Os dinamarqueses perderam a confiança em si mesmos e abriram espaços que o médio Goikotxea aproveitou para ampliar a vantagem. A Danish Dynamite lançou-se desesperadamente ao ataque e Butrageño agradeceu. Em oito minutos voltou a bisar apontando o seu quarto golo no jogo. E na prova. Seria também o seu último. Mas a favorita Dinamarca ia para casa. Os espanhois temiam a URSS mas acabaram por defrontar a Bélgica. Pensando já no duelo com Maradona, foram perdulários. E cairam nos penaltys. Sina que está ainda por mudar. E este foi mais o Mundial do alienigena e menos do abutre.

Maradona tinha saído pela porta pequena no Mundial de Espanha. Jurou a si mesmo que não voltaria a passar pela mesma humilhação. Billardo não era Menotti e Valdano, Pascuali, Burruchaga, Pumpido e Brown não eram provavelmente os melhores jogadores da história argentina. Mas isso importava pouco. O número 10 decidiu ganhar o Mundial sozinho e ninguém soube travá-lo. Empatou com a Itália, bateu a Coreia do Sul e Bulgária. Aguentou as violentas entradas dos defesas uruguaios, enganou meio-mundo contra a Inglaterra por duas vezes e deixou pregado ao solo o guardião belga. Na final, frente à sufrível RF Alemanha, não precisou de tanto. Ao sétimo jogo descansou. O Mundial era seu.



Miguel Lourenço Pereira às 09:54 | link do post | comentar

2 comentários:
De Pedro a 4 de Maio de 2010 às 00:55
Miguel,

Que nostalgia!

"...quente Verão mexicano de 1986", que saudades!

Até me dá um frio na barriga.
As poucas memórias desse Mundial são das melhores que guardo até hoje. Aos 9 anos, foi mesmo o primeiro mundial que segui com emoção. A mascote Pique, a caderneta de cromos eternamente incompleta, os textos de Rui Tovar nos Cadernos d'A Bola, o golo promissor de Carlos Manuel à Inglaterra, os jogos ao meio-dia lá do México, com sol (que saudades dos jogos de dia, ao Sol!), o imponente Azteca , a angústia do penalti falhado por Zico frente à França e muitas, muitas outras.....
Recordar é viver!

E para além de tudo, MARADONA , deus em forma de jogador de futebol. Divino.

No final, a ansiedade suspensa e interminável na corrida de Burruchaga para o 3-2 sobre Schumacher . Sublime. Depois a festa no Azteca. Ao SOL, claro!


De Miguel Lourenço Pereira a 4 de Maio de 2010 às 08:35
Pedro,

Efectivamente, que Mundial.

Entre 82 e 86 está resumida a beleza do futebol daquela era, com jogos pela tarde, jogadores do mais alto nível, livres como pássaros. Portugal e as suas desilusoes, Altobelli, Platini e Zico no ocaso, a ascensão de Careca, Laudrup, Belanov, Butrageño, Ceulemans, Mathaus e claro, Maradona.

Provavelmente na história só houve um Mundial decidido exclusivamente por um homem. Foi este. A selecçao argentina roçava a mediania. Com o numero 10, foi algo sublime de seguir. Um verdadeiro monumento desportivo.

um abraço


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO