Domingo, 11 de Abril de 2010

Aqui começou a longa e amarga viagem dos "ses" holandeses. Numa prova feita à sua medida, os soldados de Rinus Mitchell pareciam invencíveis. Mas não o eram. A RF Alemanha, ferida no orgulho, provou saber bem onde estava o calcanhar do Aquiles futebolístico. Desde essa longa tarde até hoje, a história continua a dever uma à mágica "laranja mecânica".

 

Há histórias que começam melhor contadas de trás para a frente.

Munique, Olympiastadion. Tarde de 7 de Julho de 1974. Minuto 43. A dois do intervalo. Bola pelo lado direito do ataque da RFA. Centro para trás. Dominio em queda de Gerd Muller. O "Torpedo" gira, em queda. Remata, colocado. Corre de braços no ar. A reviravolta está completa. O marcador ficará imutável durante largos 50 minutos. A Holanda, máxima favorita, caía pela primeira vez. A primeira de tantas vezes. De tantos "ses". E se a equipa tivesse sido mais contundente nessa tarde de 74. E se Cruyff tivesse ido ao Mundial de 78. E se Rijkaard não tinha perdido a cabeça em 90. E se Gullit tivesse ido aos EUA em 94. E se os penaltys não tivessem amaldiçado a equipa em 98...e se, e se.

A ferida RFA, que tinha começado a prova com uma amarga noite, ressuscitava perante o olhar surpreso dos seus adeptos, que pareciam condenados à assistir à coroação dos irresistível holandeses. Muller, o mal-amado goleador, cumpriu a sua própria história. Com esse golo calou os mais criticos e repetiu o feito de Rahn, 20 anos depois. Os melhores caiam na final frente aos mais eficazes. Os temiveis teutões.

Num jogo em que a Holanda tinha passado os primeiros instantes a demonstrar a sua superioridade, foi a humildade que ganhou. Os holandeses estavam demasiado confiados em si mesmos. Tal como os hungaros, em Berna. Sabiam-se superiores. Poderiam ter morto o jogo depois do 1-0 inaugural de Neeskens. Mas não o fizeram. Entreteram-se a trocar a bola entre si, em mostrar ao mundo o seu futebol total. Foram apanhados desprevenidos. Penalty e golo de Breitner. E depois chegou Muller. O letal dianteiro que personificava a alma da RFA. A história fala, ainda hoje, de injustiça. Não o foi. Beckhenbauer, Netzer, Vogts, Maier, Schwarzenbeck, Heynckhes, Breitner, Muller e companhia não mereciam ter passado para a história sem um Mundial nas vitrines. E mereceram o seu. Não tão espectaculares. Não tão efusivos. Mas igualmente mágicos.

 

A caminhada para a glória da RFA começou com um golpe seco no estomago.

A Holanda iria fazer seu um Mundial marcado pelos confrontos com os rivais sul-americanos. A forma como bateram a Argentina (4-0) e o decadente Brasil (2-0) pautou o nível que se esperava de uma equipa que, mesmo assim, tinha empatado com a Suécia num jogo soso e tinha adormecido durante grande parte do jogo inaugural com o Uruguai. Mas a memória é selectiva. Já com os alemães, ela é bem mais longa.

Os organizadores tinham tudo para emergir como triunfantes. Tinham vencido o Europeu, dois anos antes, de forma clara. Tinham na sua liga duas das melhores equipas da Europa, incluindo o novo campeão europeu de clubes, o Bayern Munchen. A equipa nacional, orientada por Helmut Schoon, era composta por jogadores do Borussia Moncheblagdbach e do clube bávaro. Uma mistura que se revelou certeira. Nos dois primeiros jogos da fase de grupos, disputados em Berlim e Hamburgo, os alemães jogaram de forma timida e contraída. Bateram por 1-0 o Chile com um golo madrugador de Breitner e frente aos estreantes australianos triunfaram por uns claros 3-0. A 22 de Junho tinham um encontro com a história que decidiria mais do que o simples vencedor do Grupo A. Era uma questão de orgulho e prestigio. Contra a RDA, pela primeira vez. Um jogo especial para um seleccionador que era, ele próprio, um fugitivo do regime comunista. E que queria, mais do que nunca, vencer. Nessa longa noite em Hamburgo o jogo foi tenso. Violento até. Os jogadores da RDA utilizaram o fisico como nunca. Os da RFA eram, cada vez mais, macios e inofensivos. Até que um disparo monumental ao minuto 77 de Sparwasser, até então um dos muitos anónimos que vivia por trás da cortina de Ferro, fez história. No primeiro duelo entre as Alemanhas, venceu a vermelha. A jogar de azul. Uma noite de sonho em Berlim oriental. Na RFA ninguém acreditava. Schoon foi obrigado a ir a uma conferência de imprensa especial com Beckhambauer. Mas a derrota funcionou como estimulo. Os jogadores, até então desunidos por questões de prémios, deixaram de lado as diferenças. E a RFA renasceu.

 

Curiosamente a passagem como segundo de grupo permitiu à RFA escapar das garras da "Laranja Mecânica" quando esta estava no ponto certo. Os holandeses dominaram o seu grupo, onde os perigosos sul-americanos surgiam por ter terminado os respectivos grupos apenas no segundo lugar. A RFA teve de medir forças com um insuspeito trio bem europeu. A super Polónia de Lato, a fisica Suécia de Edstrom e o belo jogo da Jugoslávia. Um grupo feito à sua medida. No primeiro jogo os renascidos alemães trucideram os jugoslavos. Dois dias depois da humilhante derrota. A 30 de Junho, debaixo de um temporal, recuperaram duas vezes de um resultado em desvantagem para vencer por 4-2 a Suécia. No último e decisivo encontro, Muller apareceu. E derrotou sozinho a surpreendente Polónia. Três dias depois voltaria a aparecer. Dos quatro golos que apontou ao longo do Mundial só dois foram decisivos. Precisamente os últimos. Os que ditaram os livros que fizeram parte da história. Que hoje deixou para segundo plano essa noite em que na RDA se sonhou com uma superioridade em que nem eles mesmos acreditavam.



Miguel Lourenço Pereira às 14:39 | link do post | comentar

3 comentários:
De filomeno a 30 de Junho de 2012 às 13:31
Emitida ayer en Marca TV "El profeta del gol(Johan Cruyff Story)", filme de 1975


De filomeno a 30 de Junho de 2012 às 13:36
Vogts anuló totalmente a Cruyff en la final del 74


De filomeno a 30 de Junho de 2012 às 13:37
La saga/ fuga de J.G. (Josep Guardiola)......¿tiene cierto paralelismo con la saga/ fuga de J.C ( Johan Cruyff en 1978)?


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Miguel Lourenço Pereira

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