Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

Durante três horas de eliminatória o Arsenal foi igual a si próprio em menos de uma. O Barcelona ao largo de ambos os jogos. Foi essa fidelidade de Josep Guardiola à ideia futebolistica que molda o sistema de jogo do campeão europeu que permitiu o apuramento. Mais complicado do que os números aparentam, mais fácil do que se poderia supor. Ver jogar este Barça é perceber que na vida também a fidelidade pode dar muito prazer.

Desde os célebres relatos de amantes infiéis que se criou o conceito de que a infidelidade é muito mais atractiva do que a simples e monótona fidelidade. A uma mulher, a uma ideia. O Barcelona do Pep Team nasceu para contestar essa linha de pensamento. E ontem, num duelo de iguais com outra equipa também habitualmente fiel a um modelo de jogo especifico, voltou a provar que é a equipa da Europa mais fiel. Ao seu ADN. Se o Arsenal emergiu em Inglaterra como a equipa mais atractiva, aquela que gosta de jogar em pequenos espaços, com sucessivas trocas de bola, isso foi porque desde que chegou Wenger se estableceu uma progressiva mutação genética que levou o "boring Arsenal" a tornar-se no "cool Arsenal". Quinze anos de muito trabalho sob a batuta de um técnico notável com uma ideia radical para o estilo da Premier League. E que, em altos e baixos, sempre soube ser fiel a si próprio. Talvez por isso fosse interessante ver como se comportaria o francês com a única equipa na Europa capaz de superar esse seu modelo. No exame final, Wenger sai com uma nota negativa. Não pela eliminação. Mas pela atitude. Durante 180 minutos de eliminatória só vimos o verdadeiro Arsenal em cerca de uma hora. A que pauta a segunda parte do jogo no Emirates Stadium e a primeira metade do encontro de Camp Nou. E mesmo assim, em versão pálida. É verdade que a este Arsenal as baixas sonantes (van Persie em ambos os jogos, Gallas, Arshavin e Fabregas ao largo da primeira mão) valem mais que as que teve o conjunto blaugrana. E que a profundidade de banco de Wenger não é a mesma. Mas o problema dos gunners foi a falta de clarividência. Poucas vezes jogou o Arsenal o futebol de toque que lhe deu fama. Poucas vezes construiu uma jogada de trás para a frente com calma, tranquilidade e contundência. Porque o Barcelona não deixou? Certamente. Mas houve algo mais, uma ingenuidade competitiva que voltou a ficar evidente. Uma sucessão de erros defensivos que permitiram o resultado desnivelado. E mais uma eliminação precoce.

Se o Arsenal foi infiel, e pagou-o, o Barcelona de Guardiola personificou a fidelidade pura.

Em Londres teve a melhor primeira parte de toda a época. Num braço de ferro, venceu Pep. O seu futebol de toque, assente no jogo de Xavi-Messi-Keita, foi desiquilibrante e podia ter sentenciado a eliminatória. Não o logrou. No segundo tempo a equipa perdeu clarividência e renunciou quase ao ataque. Foi o seu lado mais negro em todos os 180 minutos. No jogo de ontem foi menos contundente que nos primeiros 45 minutos de Londres, mas muito mais equilibrado. Marcou quatro golos fruto, acima de tudo, de quatro erros graves da defesa do Arsenal. Silvestre ofereceu a Messi um "poker" de bandeja. O argentino não desaproveitou. Hoje, mais uma vez, irá personalizar-se na sua figura todo o génio do Barcelona. Mas por muito que o diga, Guardiola sabe que não é assim. Há grandes jogadores que definem equipas. E há outros grandes jogadores que são definidos pelas equipas onde jogam. No primeiro caso teremos sempre o Napoli de Maradona, uma equipa feita à sua medida e que só existiu enquanto a sua estrela brilhou. No segundo lote temos muitas associações históricas. E aí onde está Messi. O argentino é o producto perfeito do pensamento blaugrana. Um jogador de excepção mas que beneficia de todas as condições para triunfar. É o último herdeiro do pensamento de Cruyff, que há mais de 20 anos impôs uma mentalidade de jogo à qual o Barcelona tem sido quase sempre fiel. É o herdeiro de Stoichkov, Romário, Rivaldo ou Ronaldinho. Todos eles, na sua época, grandes. Todos eles que apenas souberam existir dentro desse ADN catalão. Com a particular diferença de que Messi é 100% blaugrana. Desde a génese. Essa dependência do código de jogo explica que o seu melhor futebol exista quando a equipa está ao máximo nível. Nos anos de queda de Rikjaard, o argentino desapareceu. Como todos os outros. Essa intima dependência explica o sub-rendimento de Messi na sua selecção. E também demonstra que todos esses génios tenham perdido a sua chama assim que sairam de Barcelona. O ADN blaugrana com Cruyff não só criou o mitico número 4, encarnado por Guardiola e Xavi. Deu também origem a esse estilo de jogador, hábil no regate, oportuno diante das redes, individualista e colectivista ao mesmo tempo. Jogadores para o colectivo que destacam pelo génio individual. Messi marcou quatro golos. Poderia ter sido qualquer outro. Foram golos de oportunismo, de quem sabia que o espaço estaria ali, disponível. Golos estudados num código genético impar no futebol actual. Golos individuais com puro mérito colectivo.

À espera de saber o que se pode esperar da segunda semi-final, onde tudo está em aberto, temos em perspectiva um duelo repleto de emoções. Talvez os dois melhores técnicos do Mundo. Duas equipas diametralmente opostas, dentro e fora de campo. Mas com a mesma sede de vencer. Não haverá tanto espaço, tanta emotividade. E tantos golos. Serão jogos cientificos, como Mourinho gosta. E como Guardiola soube já saber vencer, com a indispensável ajuda da sorte que tanto escapa ao português. Assim foi o duelo com o Chelsea o ano passado. Outra equipa com um ADN made in Mourinho. Por muito que o português já lá não esteja. Antes há Madrid. Depois poderá haver Madrid. A capital espanhola é a obsessão catalã, este ano mais do que nunca. Para lá chegar, ver e vencer é preciso continuar a ser fiel. O dificil é resistir à tentação! 



Miguel Lourenço Pereira às 08:53 | link do post | comentar

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