Quarta-feira, 31 de Março de 2010

meses escrevi neste espaço que em Portugal não se gosta de futebol. Fui criticado por todos os lados. Sem razão. O país não muda e continua a bailar ao mesmo ritmo. Numa semana europeia, repleta de desafios que prometem encontrar espaço para entrar na história, o futebol português pára para uma guerra de audiências televisivas bem longe dos relvados. Pode chegar-se mais longe. Mas não mais fundo.

Os estádios vazios em Portugal são já uma triste realidade que nem as cadeirinhas a cores conseguem escamotear. A Liga Sagres é uma chacota fora de portas em qualquer publicação desportiva de renome, já habituada a tratar Portugal por debaixo de provas do nível da Liga Jupiter Belga, da Liga Suiça ou da Liga Escocesa. Potentados do futebol, portanto. Mas se futebolisticamente esta década foi confirmando o naufrágio do nosso futebol, mediaticamente o cenário não podia ser mais lamentável. Campeões a agonizar por dividas em divisões secundárias, históricos forçados a fechar as portas, estádios com uma centena de pessoas e a formação, outrora o nosso simbolo no Mundo, deixada ao abandono. E tudo isso não merece nem uma reflexão. Mas pegue-se num túnel escuro, numa liga voltada do avesso e decidida nos escritórios da Liga de Futebol, e temos um espectáculo como ninguém é capaz de oferecer.

 

O futebol português é latino e mediterrânico na sua natureza. Ou seja, um futebol tremendamente impaciente, com um universo mediático que gira à volta do jogo e onde a figura tutelar do presidente absorve tudo à sua volta. Salvo raras excepções o adepto lembra-se mais depressa do presidente campeão do que do técnico. E assim nascem os falsos mitos do nosso futebol. Para o bem e para o mal. Mas mesmo em Espanha e Itália, onde o presidente continua a ser o santo e senha do jogo, seria impensável ver o que se produziu ontem. Dois presidentes, dos clubes com maior massa adepta, frente a frente à distância. E à mesma hora. Num horário onde em Munique se vivia um vibrante choque com sabor a desforra para os adeptos do Bayern. Onde no Gerland o Lyon parecia acabar com a malapata dos Quartos. Tudo isso pura insignificância. O futebol vivia-se nos estúdios da RTP e SIC. No duelo dialéctico entre Pinto da Costa e Luis Filipe Vieira. Na troca de ataques, insultos e desculpas de mau pagador de uns e outros. Com o bónus do tempo regulamentar na figura sinistra de um jurista de pouca lei para a sobremesa. E durante ambas as entrevistas o futebol foi algo que passou ao lado. Falou-se de arbitragem. Falou-se de relações pessoais. De apitos de várias cores. Mas não se falou de jogadores. De tácticas. De lances. De movimentações de jogo e de noites épicas. Em Portugal não se fala nunca do beautiful game. As tertúlias, as entrevistas, os colóquios, as análises falam de tudo, menos do que tem a ver com o jogo. Ontem, uma vez mais, o futebol nacional mostrou o seu rosto habitual neste clássico sem valores. Um verdadeiro derby à portuguesa. E sem futebol está claro!

Os benfiquistas elogiarão o novo sentido de estado de um presidente que mais se assemelha a uma figura carcelária. Os portistas focarão a resistência e rebeldia do decano do futebol europeu. Os neutros, se é que os há, falarão de tudo o resto. E a bola? E o relvado? E as redes? Ao português isso não interessa. À imprensa porque não vende, aos presidentes porque destapa os seus erros de gestão. Aos adeptos porque, pura e simplesmente, não gostam de futebol. Se houvesse uma genuína paixão pelo jogo, talvez a audiência de ambas as entrevistas tivesse sido minimo, pelo menos enquanto que a bola europeia rolava noutros campos. Mas não. Portugal continua a ter o jogo que merece. Um futebol descrediblizado, amargado pela justiça (ou falta dela) e sem perspectiva de futuro. Um futebol de caciques para uma sociedade de cordeiros. Todos a caminho do matadouro.



Miguel Lourenço Pereira às 09:07 | link do post | comentar

2 comentários:
De sergio a 31 de Março de 2010 às 17:45
Concordo em absoluto com o post!

Esperemos que para a próxima temporada o espectáculo só aconteça dentro das 4 linhas!


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Abril de 2010 às 16:12
O problema é de mentalidade geral, dificilmente mudará.

um abraço


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO