Domingo, 4 de Abril de 2010

Na véspera da final já se sabia que o troféu Jules Rimet tinha os dias contados. Frente a frente duas selecções bicampeãs do Mundo que queriam levar para casa, de forma definitiva, o troféu que marcou as primeiras nove edições da prova. O mundo reuniu-se no México para o mais belo espectáculo de futebol da história. No final, Pelé saltou mais alto que o Mundo e consagrou a equipa perfeita.

 

Foi o Mundial de tantas coisas. De jogos inesquecíveis. De defesas espantosas. De jogadores esforçados, lesionados, a aguentarem até ao fim. Estrearam-se os cartões, as substituições, o goal-average na fase de grupos e defrontaram-se todos os campeões nos últimos jogos. E, acima de tudo, o México 1970 foi o Mundial dos dois melhores golos da história…que nunca o foram. Ambos com a mesma assinatura. O nome próprio da prova que acabou por ser o símbolo de uma equipa perfeita, montada ao mais mínimo detalhe por um Mário Zagallo que completava a idade de ouro do futebol brasileiro. Na final do lotado Azteca mais do que a coroação de Pelé, chegou-se ao final de uma era. O futebol romântico apoiado no 4-2-4 tinha chegado ao seu final da forma mais espectacular possível. Os anos seguintes iam ser marcados pelas revoluções tácticas holandesas e alemãs, o futebol mais físico das equipas britânicas e pela aplicação do 4-3-3 e 4-4-2. Mas então ninguém pensava nisso apesar de já haver um par de sinais. Naquele Verão o Brasil cegou o Mundo com o seu futebol de ataque, baseado no toque e transições rápidas. O golo que fechou o Mundial teve o condão de fazer a bola passar pelos pés dos 11 jogadores no terreno de jogo num exercício de perfeccionismo que não voltou a ser igualado. O escrete canarinho confirmou o Tri, ficou com o troféu mais apreciado e carimbou a letras de ouro um título que muitos duvidavam que seria capaz de lograr.

 

A verdade é que o Brasil chegou fragilizado ao torneio. João Saldanha, o jornalista nomeado seleccionador, tinha sido despedido meses antes. Pelé, entretanto afastado, tinha sido reincorporado e o novo técnico, o ex-jogador Mário Zagallo, tinha de encontrar uma forma de fazer alinhar em campo as estrelas de Santos e Botafogo, as equipas mais em forma no Brasil. Na linha de meio campo alinhou lado a lado o cerebral Gerson e o dinâmico Clodoaldo. Nas alas colocou, bem abertos, os rapidíssimos Jairzinho e Rivelino. Pelé surgia como falso avançado atrás de Tostão, um avançado com instinto matador como poucos teve o país do golo. Com esta linha ofensiva parecia impossível travar o Brasil. Mas havia candidatos igualmente fortes. A Inglaterra surgia, campeã do Mundo, com uma equipa melhorada em relação à sua versão de 66. A finalista vencida, a RF Alemanha, apostava no crescimento de Franz Beckenbauer, o novo patrão da equipa tinha uma arma secreta no ataque: Gerd Muller. Por fim estava a Itália. A campeã da Europa alinhava a sua segunda geração dourada, com Fachetti, Riva e Rivera à cabeça. Os italianos eram os favoritos. E foram-no confirmando, cinicamente, em cada eliminatória.

 

Muitos lembram-se da defesa de Banks impossível a um cabeceamento genial de Pelé. Outros das fintas inesquecíveis do peruano Cubillas. Ou das saídas loucas do guardião uruguaio Mazurkiewicz. A história guardou um leque de jogos inesquecíveis e esqueceu-se dos protestos dos jogadores, forçados a jogar debaixo do calor do meio-dia mexicano para que os adeptos europeus acompanhassem o jogo ao final do dia pela televisão. A Inglaterra sofreu com uma infecção alimentar nas vésperas do duelo contra a RFA. Esteve a vencer por 2-0 mas Alf Ramsey teve medo e tirou Charlton para colocar um terceiro defesa. Os alemães venceram por 3-2 no prolongamento. Noutro jogo dos Quartos a Itália goleou o México por 4-1 deixando para trás o futebol defensivo. O Brasil vergou o Peru e a URSS caiu aos pés do Uruguai. Enquanto o Brasil seguiu implacável rumo à final, a Itália e Alemanha deram um espectáculo como pouco se viu. O jogo foi até prolongamento e terminou em 4-3 a favor da Azzura. Pelo meio, a imagem de Beckenbauer, braço ao ombro por um choque a poucos minutos dos 90, ficará sempre como um ícone da resistência germânica. E da classe do seu líder.  Para muitos ainda é o melhor jogo da história!

 

Mas a eternidade é matreira e fica com pequenos detalhes. Ainda hoje o México 70 lembra-nos esses dois golos impossíveis que só um génio do nível de Pelé pode ousar em sonhar concretizar. Na fase de grupos, no duelo inaugural com a Checoslováquia, o número 10 brasileiro viu o guardião checo, Viktor, adiantado. Ainda antes do meio campo tentou um remate poderosíssimo que gelou as bancadas durante instantes. A bola roçou o poste e saiu. Injustamente. Uma semana e meia depois, nas Meias-Finais, o Brasil defrontou a equipa que lhes tinha arrebatado a Copa América, dois anos antes, o Uruguai. Num gesto de audácia extrema, Pelé recebe uma bola centrada por Rivelino. Em vez de tentar driblar o guardião uruguaio deixa-a passar, corre à volta do guarda-redes e vai buscá-la ao outro lado para surpresa da defesa Uruguai. Em queda, Pelé remata. A bola cruza toda a área e passa rasa ao poste direito. Não entra. Injustiça. Uma semana depois o número 10 subiu ao mais alto do Azteca e abriu as hostilidades da final. Para trás tinham ficado os seus dois golos mais belos. Que importa que não tivessem entrado.



Miguel Lourenço Pereira às 11:35 | link do post | comentar

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