Sábado, 13 de Março de 2010

Nos anos 90 tornou-se numa das figuras mais emblemáticas da nova escola de pensamento futebolístico em Inglaterra. O seu livro, Football Agains the Enemy, foi pioneiro em olhar para o “beautiful game” da perspectiva de fenómeno global. Agora Simon Kuper apresenta o seu novo trabalho Soccernomics, e continua a reforçar a ideia de que o jogo é mais previsível do que se pensa. E que está recheado de falsos mitos. O Em Jogo quis saber porquê. Uma conversa em duas partes!

 
Simon, habitualmente utiliza o futebol para ler as entrelinhas da sociedade. Como o mais popular desporto no Mundo é o futebol o espelho certo para captar o reflexo de cada sociedade?
Não é o único espelho mas é um bom espelho. Muitas vezes o futebol é o maior fenómeno colectivo num país. Na esmagadora maioria dos países europeus os programas televisivos de maior audiência são jogos da sua selecção. Portanto, quando Portugal joga um grande desafio, há mais portugueses que se juntam para ver o encontro e sentir a sua nacionalidade do que em qualquer outra circunstância do seu dia a dia. Por isso é muito provável que esse momento diga algo sobre Portugal e os portugueses.
 
Países mediterrâneos como Portugal, Espanha ou Itália têm uma industria particular à volta das suas ligas. Vários diários desportivos, programas televisivos, uma cobertura mediática grande e com os clubes como eixo central do jogo. No entanto, no norte e centro da Europa, parece haver mais interesse no jogo em si do que propriamente nos fenómenos paralelos do futebol não lhe parece?
Qualquer potência futebolística – e isso inclui a Alemanha, Holanda ou Inglaterra – tem uma grande indústria à volta da sua liga. Mas é verdade que no norte da Europa, num movimento que começou em Inglaterra há cerca de 20 anos, há uma tentativa clara de analisar o jogo à distância e explorar outros aspectos que não apenas os casos mais mediáticos. Provavelmente essa perspectiva começou com All Played Out, um livro de Peter Davis sobre o Mundial de 1990, e logo com o Fever Pitch de Nick Hornby. Esses livros procuram ir mais longe do que um jornal que se limite a perguntar se o Benfica será capaz de bater o Sporting este domingo.
 
As inovações tácticas foram sempre produto das escolas do centro e norte da Europa. Por outro lado, os “artistas” sempre se encontraram mais facilmente nas ligas do sul. O futebol europeu continua a dividir-se da mesma forma ou a globalização mudou a perspectiva da natureza do jogo?
Naturalmente a globalização do futebol levou a uma estandardização um pouco por todo o lado. Provavelmente em Portugal hoje há menos dribles e mais disciplinas táctica do que há 20 anos. Mas ainda há uma clara divisão. Sociedades mais organizadas como a Europa Ocidental e também o Japão e Estados Unidos tendem a desenvolver um estilo de jogo disciplinado e colectivo enquanto que sociedades menos organizadas como a africana, sul-americana e do sul da Europa prefere um estilo de jogo mais livre. No entanto isso também quer dizer que a maioria dos futebolistas nas sociedades organizadas aprendem o jogo nas escolas dos seus clubes com técnicos formados, enquanto que os das restantes sociedades desenvolvem o seu estilo livro nas ruas.
 
“O melhor critério para determinar o sucesso de um clube é a massa salarial.”
 
No seu livro “Soccernomics”, defende que poucos Managers tiveram um efeito real nas performances das suas equipas. Apesar da sociedade em geral os considerar ainda “milagreiros”, para si eles não são realmente relevantes. No entanto a mais significativa figura desportiva em 2009 foi um técnico, Pep Guardiola. É uma excepção ou apenas o seu sucesso é apenas produto de um clube com todas as condições para ganhar independentemente de quem o dirige?
Pep é provavelmente um dos poucos treinadores capazes de fazer a diferença. Eu acho que os melhores Managers – como Wenger e Guardiola – conseguem fazer a diferença porque apostam pouco nas transferências. Isso ajuda porque quanto mais se gasta numa transferência menos se tem para pagar os salários do plantel. E o que defendemos no nosso livro é que o verdadeiro critério para determinar o sucesso de um clube é quanto é capaz de gastar com os salários dos jogadores. Por outro lado clubes com poucas incursões no mercado têm sempre equipas estáveis, onde os jogadores se entendem muito melhor no terreno de jogo. O Arsenal e o Barcelona são exemplo disso. O Real Madrid é precisamente o oposto.
 
No livro que escreve em parceria com Stefan Szymanski, estudam a importância dos salários na classificação final de uma equipa. Equipas mais bem pagas ficam sempre nos primeiros lugares. O futebol é assim tão previsível?
A longo prazo, é. Analisamos 20 anos em Inglaterra e para a ediçao italiana 14 anos de Serie A. Em ambos os casos, se analisamos a média de salários pagos pelas equipas e a média da classificação final de cada um, a correlação entre salários e sucesso é superior a 90%. Ou seja, se a Juventus termina em segundo, digamos, numa media de 14 anos, é porque durante esse período de tempo foi a segunda equipa que mais gastou em salários em Itália. Numa só época, o jogo é menos previsível. Aí a correlação baixa a 70% (o que ainda é significativo), porque num curto período de tempo há outros factores como lesões, decisões arbitrais e a sorte pura que podem influenciar no resultado final.

 

Ainda há muitas vozes a defender a criação de uma Superliga Europeia inspirada no modelo da NBA. Acredita que o futuro do futebol europeu é esse ou a tradição e força das ligas nacionais se vai manter como o principal motor futebolístico na Europa?
As ligas nacionais vão existir sempre porque os adeptos adoram-nas. Agora há um equilíbrio comercial bastante grande. O FC Porto joga com o Benfica no domingo e com o Manchester United na quarta-feira. É o melhor dos dois mundos. O que se pode ver é as grandes ligas reduzirem os concorrentes para 16 clubes, para diminuir a carga de jogos. Mas nem isso é provável que suceda.
  
Foto: Vincent Lignier

 

Simon Kuper "O adepto fiel a um clube é um falso mito"



Miguel Lourenço Pereira às 11:29 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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