Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

quem se lembre do Mundial de 1950 simplesmente pelo grito mais silencioso da história do jogo, como se lembrou de escrever o genial Nelson Rodrigues. O golo de Ghiggia definiu um antes e um depois na história do futebol brasileiro. Mas os ingleses terão outra recordação dessa longa e angustiante viagem. Na tarde de 29 de Junho um remate certeiro rasgou o orgulho dos criadores do beautiful game. E mostraram que o futebol tinha crescido e saído de casa dos pais para procurar o seu lugar no Mundo.

O Brasil recebe a festa. Com a Europa destroçada pela II Guerra Mundial era inevitável que o quarto Mundial fosse organizado longe do Velho Continente. Jules Rimet tinha sido forçado a cancelar as edições de 1942 e 1946, e durante os anos da guerra dormiu com o sagrado troféu debaixo da cama. Com a paz chegou a reorganização e sem grandes dificuldades o presidente francês aceitou voltar à América do Sul. O Brasil seria o anfitrião de um torneio que seria também o da sua consagração. Para tal construíram vários estádios novos, incluído o mítico Maracanã, o maior do mundo à época. Os brasileiros queriam um torneio com os melhores e foram fundamentais nas negociações entre a FIFA e a FA inglesa. Depois de 17 anos de afastamento, as federações das ilhas britânicas aceitaram voltar a juntar-se à FIFA. A Inglaterra preparava-se assim para o primeiro Mundial da sua história. E até então ninguém tinha verdadeiramente mostrado ser superior ao onze britânico. Parecia que os brasileiros tinham encontrado um rival à altura. No entanto, tal como em 1930, as longas viagens atrapalharam o projecto de Rimet. O presidente da FIFA abandonou o modelo em play-off e apostou pela criação de quatro grupos de quatro. Mas, como sempre, houve desistências de última hora. A Índia recusou viajar se fosse obrigada a jogar com chuteiras. A Turquia também recusou pagar os elevados gastos. França e Portugal, eliminados, foram convidados pela FIFA e pela CBF a ocupar os seus lugares. Falta de dinheiro e interesse levou ambos os países a rejeitarem o convite. A Itália, num grave processo de reconstrução depois do desastre de Superga, tinha direito a um lugar por ser campeã em titulo. Mas só com Rimet a pagar a viagem de barco do seu bolso - os jogadores recusaram subir a um avião - a Federação aceitou viajar até ao Brasil. Sairia do torneio pela porta pequena. No total havia só 13 selecções para a festa.

O torneio teve lugar no final de Junho, em pleno Inverno tropical. O Brasil era favorito e no primeiro jogo goleou por 4-0 o México. Mas o empate contra a Suiça deixou os brasileiros inquietos pela primeira vez. Era um aviso. No decisivo jogo com a Jugoslávia a vitória por 2-0 garantiu um lugar na final mas deixou no ar muitas dúvidas. O Uruguai, de regresso depois de 20 anos de ausência, beneficiou de ter de disputar só um jogo. A goleada por 8-0 à Bolívia deu tempo aos uruguaios para preparar a segunda fase onde surgiriam muito mais frescos e preparados que os rivais. A Suécia, que batera a Itália de forma surpreendente, e a Espanha de Zarra.

E a Inglaterra? A mesma Inglaterra que um mês antes tinha derrotado por 6-0 a selecção do Resto do Mundo? Depois de uma longa viagem os ingleses chegaram a 20 de Junho ao Rio de Janeiro, onde teriam a sua sede. A época doméstica tinha acabado há mais de um mês e muitos dos ingleses estavam excessivamente confiantes. De tal forma que enviaram uma "outra" selecção numa digressão paralela ao Mundial onde havia alguns jogadores de primeiro nível. O grupo parecia acessível e muitos já se imaginavam a calar o lotado Maracanã. No primeiro jogo, a 25 de Junho, o conjunto inglês dominou e bateu o Chile, no Rio de Janeiro. A vitória da Espanha sobre os Estados Unidos deixava antever um duelo quente entre europeus.

 

Foi já a pensar no encontro com os espanhóis que os ingleses apanharam um avião para Belo Horizonte onde defrontariam os Estados Unidos. Parecia um mero trâmite. De tal forma que a estrela da equipa, Stanley Matthews, ficou na bancada a descansar para o jogo com os espanhóis. Era um jogo desigual, uma equipa de profissionais de primeira linha contra outra de amadores. E no entanto assim é o jogo. Assim foi o “milagre de Belo Horizonte”, como baptizaria depois a imprensa. Aos 20 minutos de jogo já a Inglaterra tinha tido dez claras oportunidades de golo. Mas todas esbarravam nas mãos de Frank Borghi. Os americanos nem tinham tido uma só oportunidade. Até que ao minuto 37 um centro-remate de Walter Bahr encontrou Joe Gaetjens – que era haitiano e acabaria por ser executado pelo governo do Haiti quinze anos depois - que desviou para as redes de Bert Williams. O público entrou em delírio nas bancadas e os jogadores americanos abraçaram-se euforicamente. Billy Wright, o histórico capitão inglês, nem conseguia acreditar. A segunda parte transformou-se num massacre mas, por uma razão ou por outra, a bola parecia fadada a terminar longe das redes americanas. E assim terminou o sonho de superioridade inglês. O Maracanazo. Curiosamente os americanos seriam goleados pelos chilenos (5-2) enquanto que os ingleses voltariam a cair, por 1-0, às mãos dos espanhóis.

A imprensa inglesa tentou justificar a derrota com o clima tropical mas o mito da superioridade britânica tinha-se desfeito como um castelo de cartas. Durante semanas em Inglaterra ninguém parecia acreditar na precoce eliminação e houve mesmo quem pensasse que o título do jornal era um erro e que o jogo tinha acabado 10-0 a favor dos ingleses. A equipa voltou a casa enquanto a prova entrava na fase derradeira e dramática que daria origem a livros e histórias sem fim. O remate de Ghiggia consagrou o segundo bicampeão da história e prolongou a agonia brasileira. Mas nada marcou mais o Mundial do “Maracanazo” do que o semblante derrotado da “Armada Invencível".



Miguel Lourenço Pereira às 15:45 | link do post | comentar

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