Domingo, 21 de Fevereiro de 2010

Ainda não havia televisão mas uma imagem ultrapassa o tempo e mantém viva a memória daquele terceiro Mundial. Um brasileiro, inevitavelmente, caminha descalço pela lama dando vários toques habilidosos, antes de desferir um potente remate. O Brasil vence e reserva a sua estrela para a final. Nunca lá chegaria. Começava a “maldição do escrete”.

 
Hoje seria impensável que Portugal ou a Argentina fossem às meias-finais de um Mundial e deixassem a Cristiano Ronaldo ou Messi na bancada como reservas para a final. Mas os anos 30 estão mais distantes do que imaginamos. Mais em mentalidade do que no relógio de pulso que marca o tempo. E esse simples gesto ditou o final de uma prova disputada ao limite, sem ingerências politicas, e com o primeiro duelo real de continentes. No final a Europa saiu vencedora, a Itália bicampeã e o Brasil abriu o seu curto historial de prestações malditas.
Foi o onze brasileiro, ainda a equipar todo de branco como mandava as regras de um país que herdava muito da influência da comunidade britânica, quem trouxe o perfume ao Mundial de 1938. A prova disputou-se em França e limou asperezas que tinham ficado entre a FFF e Jules Rimet, quatro anos antes. A prova teve lugar durante o mês de Junho e foi um triunfo em toda a linha. A Europa não desconfiava de que estava a um ano do suicídio. Apesar da ausência da Áustria em favor de uma Alemanha rapidamente enviada a casa pela modesta Suiça, a questão politica passou ao lado da prova. Só os italianos, uma vez mais, sofreram na pele a vontade do seu ditador. Nas vésperas da final contra a Hungria receberam uma mensagem clara “Vincere o morire”. Eram outros tempos.
 
Se os italianos se mantinham como os grandes favoritos, a verdade é que havia grandes esperanças nos onzes de França, Hungria e Alemanha. Ninguém acreditava que uma equipa fora do Velho Continente entrasse na luta pelo ceptro, especialmente porque a decisão de Rimet, de repetir a prova na Europa, levou o Uruguai e a Argentina a recusarem a participar no troféu. Estava no ar a ideia de que tinha sido quebrado o princípio não escrito da rotação de continentes. Algo que não incomodou os brasileiros. O escrete foi o único representante sul-americano (só Cuba e as Índias Holandesas não eram europeias entre os 15 finalistas) e na primeira eliminatória, frente à Checoslováquia, os brasileiros mostravam que vinham dispostos a vencer. Num jogo louco contra a Polónia, o Brasil venceu por 6-5. Uma tarde chuvosa como poucas em Junho e um jogo louco foram deixando o marcador em constante sentido. No meio da confusão emergiu o génio de um homem. Leônidas, a quem erradamente se atribuiu durante muitos anos o invento do pontapé de bicicleta, destroçou a defesa polaca e foi fuzilando, vezes sem conta as redes rivais. Aos 104 minutos de jogo o avançado marcou um golo difícil de imaginar nos dias de hoje. Perdeu uma chuteira na imensa lama e continuou a jogar. Dando sucessivos toques, como se estivesse no areal de Copacabana, foi fintando os rivais até que se isolou diante do guarda-redes. Rematou e qualificou o Brasil para os Quartos de Final deixando bem a sua marca na prova. Na fase seguinte os brasileiros defrontaram a Checoslováquia. Num jogo extremamente violento o resultado não saiu do empate o que obrigou a uma repetição – como sucederia com outros quatro jogos do torneio. Aí a equipa venceu por 2-1, mais uma vez graças ao avançado. O sorteio ditava um encontro contra a Itália, que tinha eliminado a França dias antes. Mas o favoritismo era todo brasileiro.
 
No dia do jogo, no Stade Velodrome em Marselha, o publico que encheu as bancadas para ver o “Diamante Negro” levou um balde de água fria. O técnico brasileiro, Ademar Pimenta, deixou Leônidas da Silva na bancada. À época as substituições não eram permitidas e a jogada deixou incrédulo Vittorio Pozzo, seleccionador italiano. Não queria acreditar na sua sorte, ele que tinha dito, dias antes, que era preciso meia-equipa para travar o portento brasileiro. Sem o seu jogador mais brilhante o Brasil perdeu a magia do seu jogo. Os italianos adiantaram-se no marcador ao minuto 55 com um golo de Colaussi. Os brasileiros perderam o sentido de superioridade com que entraram em campo ao esbarrar com uma defesa azurra muito bem montada. Cinco minutos depois do golo inaugural um penalty deu a Giuseppe Meazza a oportunidade de marcar o seu único golo na prova. O Brasil tentou reagir mas era tarde. Romeu, parceiro de ataque de Leônidas, reduziu o marcador mas os italianos repetiram a final. O Brasil começaria a saber o que doía perder de forma inesperada.
Dias depois em Paris a final. O guardião húngaro reclamaria mais tarde que a equipa magiar tinha perdido de propósito por 4-1 para evitar que se cumprisse a fatal ameaça de Mussolini. É difícil de acreditar. A superioridade italiana era clara, o resultado foi demolidor. Na terceira edição estreou-se o primeiro bicampeão. Sob as lágrimas de um país que se desforraria, 32 anos mais tarde, numa quente tarde no México.


Miguel Lourenço Pereira às 10:41 | link do post | comentar

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