Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Materazzi celebra um triunfo histórico com uma máscara de Berlusconi. O Comité da Liga chama Mourinho a justificar as suas polémicas declarações sobre a verdade desportiva num país onde há nem meia década o campeão foi despromovido por corrupção. A Juventus de Ferrara afunda-se na classificação depois de muita polémica à mistura com a conivência da imprensa. E pelo meio o futebol italiano continua a viver o seu longo e tormentoso pesadelo. Um jogo cada vez para "buffones".

O Inter acabou com nove jogadores o derby de Milão. Na fria e seca cidade lombarda as pessoas reuniram-se à volta da segunda maior catedral do burgo, o belo San Siro, para um duelo daqueles que em Itália ganha sempre outras proporções. E assim foi. Uma vez mais. Gattuso dizia que Mourinho nem dormia, do medo que tinha ao renascido AC Milan. Mas dos rossoneri pouco se viu. E isso que o simpático árbitro até ajudou. Expulsou Sneijder de imediato e ainda teve tempo de mandar Lucio tomar banho mais cedo. Pelo meio o futebol ficou nas mãos dos guerreiros de Mourinho que, de novo sem espectáculo, deixaram KO uma equipa onde Ronaldinho, o regressado, andou desaparecido. De tal forma que até um penalty, esse pontapé que o mitico avançado brasileiro nunca falha, acabou desperdiçado. O Inter venceu, justamente, e manteve em nove pontos - que podem ser seis - a vantagem classificativa. E no final voltaram os "buffones" de sempre.

 

Marco Materazzi, o enfant-terrible do futebol italiano, entrou em campo a festejar com os colegas. O defesa de 36 anos não jogou, como tem sido hábito, mas fez a capa de todos os jornais com a sua máscara de Silvio Berlusconi. Um presidente sorridente. Mas o país não achou tanta piada. Para além de dono do clube milanês, Berlusconi ainda é primeiro-ministro. E depois de há um mês ter ido a Milão levar com uma réplica do Duomo na face, ontem saiu humilhado pelos seus eternos rivais. Só que em Itália nada é o que parece.

O jogador foi imediatamente crucificado e Berlusconi, uma vez mais, adoptou o papel de virgem ofendida. Num acto sem precedentes, a Liga italiana suspendeu o defesa por um jogo por ter "insultado a figura do primeiro-ministro". Hugo Chavéz não faria melhor.

E apesar de todos se terem rido do incidente, a Liga decidiu voltar à carga. Aumentou a suspensão a Wesley Sneijder para dois jogos, por "palavras injuriosas" à equipa de arbitragem e chamou José Mourinho para explicar as suas polémicas declarações contra a verdade desportiva do futebol italiano. O mesmo que ainda há quatro anos viveu sobressaltado pelo tão celebre Moggigate.

 

Itália tem uma relação especial com o futebol. Em vez de veteranos jornalistas, os programas desportivos são apresentados por mulheres de proporções mais do que generosas. Um painel de mais de dez convidados analisa, todos os fins-de-semana, cada lance, cada palavra, cada gesto do jogo. Já não se passam só resumos dos lances. Analisa-se a táctica de cada treinador e há muitas entrevistas em directo quando noutros países o black-out é mais do que habitual nas relações com a imprensa. E no meio de todo esse teatro, das campanhas jornalisticas, do vitimismo, vai grassando uma liga sem chama e apelo a um público cada vez mais rendido à eficácia germânica, ao show inglês e às estrelas que deambulam por terras espanholas. O Calcio definha e os "buffones" mandam no burgo.

Ninguém parece importar-se com a subida do nível médio das equipas de metade de tabela. Napoli, Palermo, Genoa, Parma e Sampdoria exibem-se a óptimo nivel. A Roma está de regresso à luta pelo titulo. E na parte baixa da tabela a luta é intensa. O futebol, no entanto, fica à porta. É Berlusconi, o omnipresente. É Mourinho, o maldito. É isto e aquilo. É pouco jogo.

A anedocta de Materazzi e as proporções que tomou só existem em países como a Itália. Países onde o espectáculo vale mais do que o jogo. Houve uma clara regressão desportiva num país que nos anos 80 e 90 iluminava as restantes ligas europeias. E no meio de todo o circo montado, olhamos para o pequeno rectângulo à beira-mar e percebemos que Portugal não é mais do que uma Itália em pequenino. E tudo fica mais claro!

 



Miguel Lourenço Pereira às 10:07 | link do post | comentar

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