Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Entre a crueza das armas e a inocência dos anfitriões arrancou a CAN. No ano em que o futebol e África se assumem como sinónimos insperáveis o arranque da prova mostrou ao mundo que o Continente Negro continua a ser um caso sui generis nisto da globalização. A bola já arrancou mas poucos parecem importar-se muito.

 

África está de parabens. Pelo menos, devia.

No ano em que arranca o seu primeiro Mundial de Futebol, a CAN serve de antecamara perfeita para tomar o pulso ao futebol mágico do imenso continente. Ou melhor, servia. Ainda nem a prova tem dois dias e já o sangue, o luto e a inocência mancharam de forma inevitável o torneio. A segurança - assunto tão criticado quando Sepp Blatter optou por apoiar a África do Sul em lugar das potências europeias - pode não ser a mesma na África do Sul e em Angola. Mas a verdade é que o ataque à equipa do Togo, que provocou duas mortes e vários feridos, incluindo o guardião titular, deixa a nu o calcanhar de Aquiles do continente. Que o facto tenha sucedido em Angola, um dos países que quer juntar-se à África do Sul como economias emergentes, tem um travo ainda mais amargo. Para muitos o ataque da FLEC coloca o futuro Mundial em cheque. De momento, pelo menos, destroçou o espectáculo futebolistico que é a CAN.

 

Depois do Europeu de Futebol talvez não exista nenhuma competição desportiva tão atractiva como a Cup of African Nations. Mais excitante que a Copa América, muitos furos acima da Golden Cup ou Asean Cup, o torneio em que medem forças as dezasseis mais fortes selecções africanas é o tubo de ensaio perfeito para analisar a evolução do futebol africano. A alternância entre as selecções da "África Negra" com a "África do Magrebe" espelha bem a dinamica desportiva: o futebol de força e táctica contra o futebol de pura técnica. As últimas vitórias do Egipto - bicampeão em titulo, apesar de ter falhado, uma vez mais a qualificação para o Mundial - são, no entanto, enganadoras. O futebol de Aboutrika e companhia é sedutor mas, hoje em dia, também se tornou num oásis. Nunca a África setentrional se mostrou tão fascinante. Da histórica vitória do Gana no último Mundial de sub-20 à afirmação definitiva da Costa do Marfim e Camarões, passando pelas intermitentes Nigéria e Mali. Tudo serve para espelhar esse futebol de raça que tem vindo a evoluir de forma sustentada. E implacável. A migração da esmagadora maioria dos jogadores africanos para as melhores ligas europeias significou uma profunda mudança de mentalidades. A chegada de seleccionadores europeus capazes completou a formação. Hoje as selecções africanas são tacticamente coerentes, fisicamente imponentes e tecnicamente fascinantes. Um producto capaz de ombrear com qualquer equipa europeia. Portugal está avisado.

 

A FIFA investiu muito em África nos últimos 20 anos.

Havelange e Blatter - principalmente este - foram os mentores de vários projectos de formação e de criação de infra-estruturas para preparar o continente para provas deste calibre. Se a evolução na formação tem sido notória, também é verdade que em campos relvados e condições de treino os países africanos começam a aproximar-se do nivel dos rivais sul-americanos e asiáticos. Mas o grande salto foi desportivo, pelo que é legitima a aspiração da organização da FIFA em sonhar com uma equipa africana nos melhores lugares possíveis em Junho. Com um pequeno aparte. As suas melhores formações formam parte dos dois "Grupos da Morte".

No entanto é fáicl perceber que a maturidade não chegou a todos os cantos de África ao mesmo tempo. No continente com mais países do mundo há selecções que ainda estão numa fase pós-amadora e cometem erros de palmatória. É o outro lado do futebol africano. É essa dicotomia que faz esta prova algo fascinante. Se a Copa América é bastante igualada, com dois favoritos destacados, e se o Europeu é a prova mais disputada do Mundo - mais ainda que o Mundial - na CAN há os dois rostos do continente bem presentes. E ontem cruzaram-se para demonstrar que há cada vez menos lugar para a ingenuidade numa prova de alta competição. Mesmo em África. Que uma equipa, motivada por jogar em casa, esteja 4-0 à frente no marcador não é novidade. Que a 10 minutos do fim lidere a contagem por 4-1 também não. Que conceda o empate a 4 nos instantes finais é o espelho claro de que há ainda muito a fazer. Angola ontem foi o espelho da ingenuidade desportiva. Mali, o resultado do oportunismo, da dedicação e do querer de quem tem um trio de ases com o peso dos grandes europeus nas costas.

 

Os próximos dias prometem muita polémica à volta da equipa do Togo - que até contava com algum favoritismo - e muito futebol. Bom futebol. Pelos relvados angolanos andarão alguns dos melhores jogadores do Mundo. De hoje e de amanhã. Essien, Drogba, Kanouté, Keita, Toure, Obi Mikel, Etoo, Belhadj, Diarra, Inkoom são apenas alguns exemplos. A realidade é que África é um continente cada vez mais consolidado. Já não é só a liga francesa que recebe os melhores productos da sua infinita formação. Mais completos que o jogador brasileiro, os africanos querem fazer deste o seu século. A festa começa agora. Apesar dos tiros. Apesar das lágrimas. Apesar da ingenuidade, não há nada como o fresco cheiro do relvado africano...



Miguel Lourenço Pereira às 12:15 | link do post | comentar

1 comentário:
De Pudget a 11 de Janeiro de 2010 às 16:59
Muito bom artigo, mas o que dizer... enquanto a catana nao sair do espirito da bandeira, a roda dentada nao engrena rumo a evolucao!


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Miguel Lourenço Pereira

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