Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

Mais do que preocupantes, o estudo publicado pelo site Futebol Finance espelha uma realidade desoladora. O producto que mais vende nas televisões nacionais e que, supostamente, é o "ópio do povo" luso, é mais visto in loco nos estádios da Bundesliga 2, a segunda-divisão alemã, do que na liga portuguesa. Afinal, em Portugal há ainda quem goste de futebol?

O Século XX português ficou cunhado com a popular expressão "Portugal dos Três F´s". Havia Fado, havia Fátima e sobretudo, havia Futebol. Havia estádios repletos, semana atrás semana, com adeptos de pé durante hora e meia num apoio incessante da equipa. Havia jogos de reservas e juniores com mais espectadores que muitos encontros de equipas da I Divisão e raro era o adepto que não tinha visto mais de 15 jogos ao ano no estádio do seu clube ou em oportunas deslocações. O país respirava efectivamente o jogo pelos poros e apesar de ser conhecido por toda a Europa pela sua impaciência, também é verdade que os grandes jogos europeus em estádios como a Luz, Alvalade ou Antas eram um verdadeiro pesadelo para os mais fortes rivais. Mas isso era dantes. Quando Portugal era, efectivamente, uma liga de dimensão internacional. Uma prova respeitada e que era capaz de impor o seu nome. Apesar da popuñação, apesar dos negócios milionários, apesar das estrelas. Hoje, o cenário é totalmente o oposto.

O estudo divulgado pelo Futebol Finance indica que a Liga Sagres portuguesa é a 12 mais vista nos estádios da Europa. Isto num estudo onde se analisaram 15 provas. A média de adeptos nos estádios portugueses ronda os 10 000 espectadores. Uma média que depende, excessivamente das habituais assistências no Dragão ou na Luz, onde regularmente se superam os 35 mil espectadores. Imediatamente depois está Alvalade e logo a seguir um imenso hiato até cair nas degradantes assistências que ás vezes nem roçar o milhar de adeptos.

Problemático não é apenas o baixo valor de adeptos que se deslocam aos recintos para ver, in loco, o jogo. Nessa mesma classificação, liderada pela Bundesliga - hoje em dia uma das mais dinamicas provas europeias - com 42 833 adeptos de média por jogo (a média de ocupação dos 18 estádios é de 48 mil, o que indica uma presença superior aos 90% em cada jogo) - Portugal encontra-se atrás da Premier League, La Liga, Serie A e Ligue 1. Mas também da Liga Escocesa, Belga e Suiça. E pasme-se, da Division One e Bundesliga 2, as segundas divisões de Inglaterra e Alemanha. Um resultado que coloca em cheque o adepto e o futebol português.

 

Já muito se leu e escreveu sobre o porquê da fraca assistência nas bancadas portuguesas. Um país que se diz tão amante do beautiful game não pode, pura e simplesmente, ter uma assistência inferior a um país como a Suiça ou Bélgica, muito inferiores em população mas também a nivel desportivo. As habituais desculpas dadas em Portugal não funcionam no resto da Europa. É verdade que em Portugal se joga de sexta a segunda-feira, maioritariamente em horários nocturnos para agradar à cadeia de televisão que tem os direitos da prova. Uma situação impensável em Itália e Espanha, onde só se jogam sábados e domingos e preferencialmente pela tarde. Mas em Inglaterra há jogos quase todos os dias da semana, com jornadas em atraso e encontros para várias provas. Nas principais divisões. E todos os jogos estão com as bancadas cheias. 

Também há quem fale nas deficientes condições de alguns recintos. Um argumento válido talvez para pequenos estádios como a Mata Real ou o estádio dos Arcos. Mas incompreensível quando a prova recebe jogos em estádios construidos para um Europeu de Futebol há menos de uma década. Ver um jogo da liga escocesa, belga ou suiça é encontrar-se muitas vezes com estádios de mais de 50 anos. E que o aparentam. 

Pensamos então noutra queixa habitual, a falta de qualidade desportiva. Realmente a qualidade de jogo do futebol português tem vindo a cair ao longo dos últimos anos. Mas também está claro que as equipas do meio da tabela em Portugal podem ombrear com os rivais escoceses, suiços, belgas e, certamente, com as divisões inferiores de Alemanha e Inglaterra. Não se pede - de momento - assistências ao nivel da Premier League ou La Liga, mas todas as semanas há bons e maus jogos em qualquer liga do Mundo. Só que os portugueses não perdem tempo em ir vê-las.

Por fim chega a questão final: os preços das entradas.

Num país que vive praticamente em crise desde a sua génese, a principal queixa é a falta de sensibilidade dos clubes à hora de colocar os preços dos bilhetes à venda. Afinal os jogos no bar custam um café ou pouco mais. Mas se virmos que já houve várias iniciativas de entrada gratuita, descontos e bilhetes a baixo preço - e que os preços mais altos são praticados em jogos com os grandes clubes, que já por si mobilizam sempre o grosso dos adeptos - continua sem ser perceber o vazio dos lugares durante um encontro de futebol. E fica a dúvida instalada. Será que os portugueses gostam mesmo de futebol?

 

Imaginar uma equipa despromovida em Portugal é um pesadelo. Insultos, lenços brancos, cânticos insultuosos. Já se viu de tudo. Viajamos a Inglaterra e vemos 55 mil pessoas de pé no St. Jame´s Park a aplaudir o onze do Newcastle que levou o histórico à despromoção. Parece que estamos num filme de ficção-cientifica. Quem nunca saiu do rectângulo pode achar que o comportamento do adepto português é comum lá fora. Não o é. Os milhares de adeptos que seguem a equipa em jogos fora em Espanha, França, Itália, Alemanha e Inglaterra são impressionantes. A "Mareona" de adeptos do Sporting Gijon, um histórico espanhol que só na época passada voltou à I Liga depois de largos anos nas categorias inferiores, leva aos recintos que a equipa visita mais de 5 mil adeptos quinzenalmente. O Leeds Utd, a militar na terceira divisão inglesa, logra deslocar em jogos fora mais de 10 mil adeptos. Em Inglaterra aplaude-se uma derrota, se a atitude for boa. Assobia-se, grita-se, mas ainda se vive a cultura de que o adepto vai ao estádio para apoiar. Em Portugal vigora a tese de que é a equipa quem tem de puxar pelo adepto. O comodismo supera a devoção.

 

Depois de todas as inovações, das pipocas, bebidas e aquecimento central, das coberturas caras e dos lugares primorosamente desenhados para dar mais e mais comodidade, cada vez menos se vê um adepto português nas bancadas. Cada vez menos se vêm miudos a jogar nas ruas. Sempre é melhor a Playstation. O futebol de formação está destroçado, não só nos grandes clubes. Os pequenos clubes de bairro que subsistiam formando os jovens da zona nas suas primeiras etapas fecham portas ano atrás de ano. E históricos como Boavista, Farense ou Beira-Mar caem nas últimas divisões sem apoio nem interesse por parte dos seus associados. Há excepções como a Alma Salgueirista, os adeptos do Vitória de Guimarães ou o grupo de adeptos do Leixões. Mas são exiguas para uma realidade preocupante. E o problema não está já em decidir ficar em casa ou num café a seguir um jogo que podia ser visto ao vivo. Está na consequência dessa decisão. O adepto português tornou-se num adepto de bar sem cheiro do relvado. Vive das trifulcas dos presidentes - que só em Portugal têm tanto mediatismo - das arbitragens e das decisões dos técnicos. Nunca da táctica, do jogo, da experiência. Vivem de costas voltadas para o relvado.

Portugal está a atrvessar uma crise existencial em muitos sectores da sociedade. E sempre se tentou veicular a ideia de que o futebol era a salvação. A selecção nacional, os tais seis milhões de adeptos do SL Benfica que nunca ninguém viu, tudo isso rodeava a aura de imensa popularidade do jogo. O Euro 2004 ainda hoje é lembrado em toda a Europa como uma das provas desportivas com maior mobilização popular. Mas hoje em dia, no futebol português, as bancadas nuas, os adeptos desconectados e os jovens sem uma bola nos pés, contam-nos outra história. Bem mais triste. E é cada vez mais seguro poder dizer-se que há cada vez menos gente em Portugal que realmente ame o mais belo dos jogos.



Miguel Lourenço Pereira às 08:56 | link do post | comentar

3 comentários:
De Ricardo a 9 de Janeiro de 2010 às 04:24
A resposta é simples: O nosso futebol não é atractivo. Podemos ter os estádios mais modernos da Europa, podemos ter bilhetes ao preço da chuva, podemos ter as melhores acessibilidades aos estádios, podemos ter bons planteis, mas... o futebol não é atractivo. O português, habituado a ver alguns jogos da La Liga, Premier League ou a Bundesliga repara na diferença abismal entre o futebol praticado nesses países e o futebol nacional. As equipas são objectivas, procuram atacar e marcar golos. O jogo é mais aberto sem, no entanto, negligenciarem a táctica e as acções defensivas. Em Portugal as equipas são acanhadas, atabalhoadas e inconsequentes. Jogam na expectativa do erro do adversário esforçando-se, de preferência, o mínimo, mantendo sempre os requisitos mínimos.
Eu e tu desenvolvemos um enorme fascínio pelo futebol inglês desde crianças porque víamos os jogos da Premier League e sentíamos que, ali, se jogava verdadeiramente futebol. Tudo vibra. Nenhum jogador dá um lance como perdido, sente-se a paixão e devoção tanto ao desporto como às cores que defende. Joga-se a uma velocidade alucinante, as paragens de jogo são escassas e vêm-se jogadas maravilhosas e golos do outro mundo. Os únicos clubes portugueses a praticarem actualmente um futebol mais atractivo são o SLBenfica e o FCPorto em alguns jogos. A competição fica-se apenas dentro das quatro linhas ao contrário de Portugal em que futebol vive coberto por uma sombra de desconfiança onde os bodes expiatórios são sempre os árbitros (corrompidos pelos dirigentes ou simplesmente incompetentes) servindo como pretexto para escamotear os falhanços desportivos. Outro aspecto é a descaracterização dos planteis. Em Inglaterra, as senhoras e os senhores vão ver os jogos de futebol para puxar pelos miúdos da terra. As pessoas aqui não se identificam com os clubes como também não se identificam com as suas terras porque Portugal não preserva o que é seu. Também não é uma questão de tamanho do país e da população. Creio que a Holanda tem uma população inferior à de Portugal e no entanto os estádios têm uma assistência muito superior à nossa.
Estão aqui todos os ingredientes para que o nosso futebol não funcione e para que, gradualmente, as pessoas comecem a virar costas ao que é seu e passarem a admirar o que é dos outros.


De Dylan a 11 de Janeiro de 2010 às 22:14
Parabéns pelo artigo.
Só me apetece dizer que realmente é uma questão de mentalidade....


De Miguel Lourenço Pereira a 12 de Janeiro de 2010 às 09:34
Viva Dylan,

Efectivamente o quid da questão está na mentalidade. Quando foi o Europeu de Futebol as pessoas mudaram a sua atitude por completo e foi a festa que prevaleceu. Até a derrota na final acabou por ser festejada nas ruas por muitos, apenas pelo valor de ter chegado tao longe. Mas hoje, ao minimo empate de uma equipa, já o futebol portugues nao vale nada. Nao ha paciencia nem vontade.

cumprimentos


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Miguel Lourenço Pereira

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