Quarta-feira, 16.05.12

Era uma das mais flamantes promessas do futebol gaulês quando a perna se rompeu e com ela muitos dos sonhos que tinha desenhados na cabeça com a mesma imaginação com que passeava sobre os rivais. Dois anos depois Hatem Ben Arfa tem razões para sonhar. O seu despertar em St James´s Park relançou-o para a ribalta do futebol europeu e levou-o de forma tão justa como inesperada para a pré-lista gaulesa do próximo Europeu. Um regresso em força de um peso pluma de máximo nível.

Na notável época do Newcastle de Alan Pardew há um imenso colectivo e poucos nomes próprios. Hatem Ben Arfa é um deles.

O extremo francês chegou ao clube do Tyne depois de uma azeda disputa com o Marseille. Na Riviera gaulesa explodiu como craque mas também encontrou os seus primeiros problemas com os directivos de um clube problemático na gestão das suas estrelas. No meio desse conflito surgiu a oportunidade de emigrar e, como com tantos outros antes de si, a Premier tornou-se no refúgio ideal. Chegou ao norte de Inglaterra na máxima expectativa e depois de três jogos interessantes, rompeu a perna num duelo com o Manchester City. Para muitos a sua carreira tinha terminado antes de ter realmente começado. Para Ben Arfa era só um contratempo como tantos outros que teve de fintar na sua vida. Dois anos depois a sua época notável relançou-o como um dos futebolistas franceses mais excitantes da actualidade. 

Laurent Blanc, o seleccionador que o chamou para o duelo com a Noruega em 2010, a sua oitava internacionalização à altura, seguiu a sua evolução e não hesitou em selecioná-lo numa pré-lista de doze gauleses que actuam fora da Ligue 1. Uma lista que muitos acreditam que se manterá até ao final e que os eventuais descartes realizados serão dos jogadores a actuar no campeonato nacional. A França de hoje não é a mesma potência futebolistica que chegou à Austria e Suiça, em 2008, como vice-campeã do Mundo. Faltam-lhe referências criativas e emocionais. No meio desse dilema moral, não é de estranhar que Blanc convoque um jogador que há dois anos não veste a camisola dos Bleus. Ben Arfa tem fome de glória, sofreu para chegar onde chegou e esse apetite pelo impossível transforma-o num jogador intenso, algo que os seleccionador valorizam muito para torneios de curta duração. À primeira vista o esquema táctica do seleccionador francês, um 4-3-3 claro, deixa poucas vagas no ataque com Nasri, Ribery e Benzema como primeiras opções e Gameiro, Giroud e Menez como alternativas imediatas. Mas nenhum deles é um driblador nato, um extremo veloz e hábil com ambas as pernas e, sobretudo, um jogador que não conhece limites em si mesmo.

 

Aos 25 anos esta é a oportunidade de ouro para o futebolista de origem tunesina se reencontrar com a glória.

Como tantos cresceu em banlieus pobres nos arredores de Paris e encontrou no futebol o escape. Tinha tanto de talentoso como de problemático e essa fama acompanhou-o sempre, da passagem pela cantera do Lyon à sua ascensão no Marseille. Depois de se fartar de ser uma figura quase secundária num Lyon que ainda coleccionava títulos atrás de titulos, a promessa de um papel estelar em  Marseille foi suficiente para rubricar um contrato milionário. A paciência não durou muito e dois anos depois o clube convenceu o Newcastle a levá-lo por empréstimo. Apesar da grave lesão sofrida os técnicos do clube inglês entenderam que por detrás daquele carácter problemático havia um imenso talento e arriscaram. O empréstimo tornou-se em transferência e Ben Arfa recuperou da sua lesão, primeiro em Clairefontaine onde passou parte da adolescência, e depois em Inglaterra. No arranque desta temporada o técnico Alan Pardew prometeu-lhe o que ninguém lhe tinha sabido dar: protagonismo e um ombro amigo nas horas mais difíceis. A recompensa transformou-se numa temporada inacreditável ao lado de Yohan Cabaye e Papisse Cissé. A partir de Dezembro tornou-se num dos elementos nucleares na progressão do clube do norte na tabela classificativa até à luta final pelos postos europeus, algo que não estava nos projectos do clube no arranque da época. O seu magnifico golo ao Bolton, um dos melhores da temporada em todas as ligas, selou o seu regresso em estilo. Só faltava que Blanc estivesse atento. E estava.

 

Ao serviço da selecção francesa Ben Arfa nunca mostrou uma ínfima parte do seu talento inato. Oito jogos não deram para muito, em especial na difícil transição que os gauleses viveram na era pós-Zidane. Brilhar no próximo Campeonato da Europa não é um desafio fácil para qualquer jogador, mais ainda se se considera que não deixa de ser um joker num plantel com muita oferta para as poucas posições da linha ofensiva. Mas jogar sem expectativas também funciona, de certa forma a seu favor. Sem a pressão dos grandes nomes ele pode ser o ás na manga que Laurent Blanc está disposto a lançar quando as coisas se compliquem para os Bleus. Num grupo com Inglaterra, Suécia e Ucrânia pode ser que não tarde muito até que o extremo tenha finalmente a sua oportunidade.



Miguel Lourenço Pereira às 01:22 | link do post | comentar

Segunda-feira, 14.05.12

Numa mesma semana a liga italiana sofre uma profunda metamorfose moral. Velhos bastiões, simbolos dos anos gloriosos de uma liga que tem vivido a alguma década em profunda decadência, anunciam o seu adeus, ora do clube de largos anos ora do futebol em geral. Muitos rostos que ajudaram a manter o perfil alto da competição que abrem caminho a uma nova geração que terá a dificil missão de superar os simbolos de uma época dourada.

Alessandro Del Piero. Gennaro Gattuso. Alessandro Nesta. Clarence Seedorf. Mark van Bommel. Kakha Kaladze. Filipo Inzaghi.  

A lista parece infindável. Não é habitual no final do mesmo ano tantos nomes ilustres dizerem adeus. Prova de que o Calcio há muito que é uma prova agarrada ao passado. Neste listado de estrelas estão campeões do Mundo, emblemas da equipa que em 2006 venceu, contra todo o prognóstico, o Mundial de Futebol. Estão estrangeiros de renome que deram outro brilho a uma prova que se habituou a perder as suas estrelas mais cintilantes para a Premier e a La Liga. No fim de contas, nomes que definem uma era.

O adeus mais doloroso será, sem dúvida, o de Del Piero.

O avançado nunca jogou noutro clube, caso único no Calcio depois do adeus de Paolo Maldini. Foi campeão de Itália, da Europa e do Mundo com a Juventus. E um dos heróis que aguentaram a descida à Serie B e ganharam direito a celebrar o titulo de campeões este ano com Antonio Conte ao leme. Del Piero já sabia, antes da época começar, que este seria o seu último ano. Muito se especulou sobre o seu destino, nada ficou claro, mas a certeza é que a história de amor de quase 20 anos à Vechia Signora, e ao Calcio, termina aqui. Com a braçadeira e o titulo na mão.

De certa forma a outra despedida que mais doi aos adeptos é a de Filippo Inzaghi. Até à bem pouco tempo era o avançado com mais golos na história das competições europeias. A sua veia goleadora não tem igual no panorama internacional e "Pippo" emergiu para a posteridade como um digno sucessor de Piola ou Rossi como verdadeiro matador de área à italiana. Os problemas fisicos há muito que o atormenteram, mas a poção da eterna juventude que se distribuiu em Milanello sempre permitir sonhar com um ano mais. Inzaghi é da mesma geração de Del Piero e depois da sua passagem por Verona e Atalanta,  ambos foram colegas na Juventus. Quando o clube turinês preferiu apostar numa linha ofensiva rejuvenescida, Inzaghi acabou em Milão ao serviço dos rossoneri. Durante mais de dez anos foi o avançado perfeito, nunca queixando-se do trato preferencial a outros jogadores, sempre pronto a aproveitar todas as oportunidades. Ambos eram o que resta do mágico Calcio dos anos 90, altura em que a prova ainda era a mais admirada do futebol internacional.

 

Mas se Inzaghi e Del Piero são espelhos dessa era, Alessandro Nesta e Gennaro Gattuso são metamorfoses perfeitas do que foi e no que se tornou a Serie A.

O defesa central começou a sua carreira fulgurante na AS Lazio, confirmando-se rapidamente como um dos mais espectaculares centrais do futebol europeu, um titulo dificil de contestar numa era onde os laziale eram um conjunto a temer. O AC Milan apareceu com uma proposta irrecusável e Nesta juntou-se à constelação de estrelas rossoneri mas nunca se exibiu em Milão ao mesmo nivel que logrou no Olimpico. A mudança dos parceiros na defesa e as sucessivas lesões foram lastrando o final de uma carreira que prometia algo mais. Se o curriculum é impressionante e dificil de igualar, a sensação que Nesta dava de há alguns anos era que o final da sua ligação ao Milan era algo mais do que iminente. O defesa não sabe se seguirá em Itália, se procurará o dinheiro fácil do Medio Oriente ou, como é mais provável, se provará a MLS. Uma decisão que contrasta com a do seu, até agora, colega de equipa. Gennaro Gattuso é, para muitos adeptos, o icone perfeito do Calcio do século XXI.

Mais raça do que talento, mais instinto do que criatividade, mais defesa do que ataque, mas sempre a mesma determinação e devoção, Gattuso é um jogador dificil de não se gostar profundamente. Começou por baixo, passou pela Escócia onde se casou e foi feliz e entrou de novo no futebol italiano como baluarte do AC Milan de tracção dianteira de Shevchenko, Inzaghi, Rui Costa e Kaká. Deu o equilibro fundamental ao conjunto milanês que em dez anos chegou a três finais europeias e foi um dos jogadores mais importantes da Azzura que venceu na Alemanha o Mundial. À medida que foi perdendo os companheiros de associação (Kaká primeiro, Pirlo depois), o seu jogo viu-se claramente afectado e Gattuso tornou-se num ente estranho num meio-campo de remendos. O seu problema de visão soava já como despedida, o final da época confirmou as suspeitas. Glasgow seria o seu destino mais do que provável mas os enormes problemas financeiros do Rangers deixa a transferência em suspenso até que se aclare o que vai suceder com o seu antigo clube em terras escocesas. 

Quanto à legião de estrangeiros do Calcio, seguramente a saída mais marcante é a de Seedorf. O holandês van Bommel volta ao PSV Eindhoven, onde para ele tudo começou naquela magnifica geração liderada por van Nistelrooy e Guus Hiddink, e Kaladze troca a bola pelo boletim de voto e mergulha na politica georgiana de corpo e alma. Seedorf, talvez o jogador mais subvalorizado do futebol europeu das últimas duas décadas, tem a palavra. Aquele que foi o único jogador a vencer uma Champions League com três equipas distintas (Ajax, Real Madrid e AC Milan, quatro em total) demonstrou ao longo do ano que tem ainda qualidade suficiente para fazer a diferença onde quer que jogue. Mas as pernas já não são as mesmas, o desgaste fisico da alta roda faz-se notar e o seu caracter exige desafios. Fala-se numa eventual experiência no Brasil, numa viagem aos Estados Unidos ou num regresso ao Ajax. Em qualquer um dos casos, Seedorf continuará a ser um dos grandes.

 

Sem o peso dos velhos nomes surge a hora das novas gerações do futebol italiano darem um passo em frente. Montolivo chega a Milão para ser o novo Pirlo. Marchisio começa a dar cartas em Turim. O talento de Giovinco, Motta, Bonucci, Nocerino, Lazzari, Balzaretti, Pepe, Chiellini, Marilungo, Schelloto é suficiente para rearmar uma nova vaga. E com ela lançar as bases de um renascimento profundo do futebol italiano.  



Miguel Lourenço Pereira às 18:39 | link do post | comentar

Sábado, 12.05.12

Se perguntarem a um argentino de 40 anos este dirá que o melhor jogador de sempre é Diego Maradona. Se encontrar-mos um veterano de mais de 60 anos este orgulhosamente preferirá Alfredo di Stefano. Agora, se tivermos a sorte de falar com alguém ainda mais velho ele não terá a minima dúvida. O homem a quem o mitico "don Alfredo" tratava de maestro foi talvez o argentino mais inimitável da história das magnificas gerações de potreros que nasceramno país das pampas. O impacto que criou na sua época de glória, antes da chegada da televisão, das cores e dos media foi único. Adolfo Pedernera foi inimitável.

 

Há jogadores que marcaram equipas que fizeram história. Mas só um fez parte, com o mesmo destaque, de duas igualmente épicas e históricas. Durante 20 anos Adolfo Pedernera foi a grande estrela do futebol sul-americano e para muitos um dos melhores jogadores de todos os tempos. Numa era onde ainda não havia praticamente imagens televisivas temos de nos contentar com os relatos entusiastas e as reportagens das suas inúmeras conquistas. Mas o seu curriculum e as palavras pausadas de quem o viu e sobreviveu ao tempo para contar falam por si. Com uma finta e técnica fora do vulgar, Pedernera assumiu-se como o primeiro protótipo do futebolista moderno, actuando em vários sectores do terreno com a mesma eficácia. Desde 1935, onde começou a actuar profissionalmente, até à sua retirada em 1956, Pedernera jogou e fez jogar e liderou as duas melhores equipas da época, o River Plate e o Milionarios de Bogota.

Nascido em Avellaneda, bairro operário de Buenos Aires, de familia de classe média baixa, antes dos 15 anos já era uma estrela no futebol argentino, actuando primeiro pelo Cruceros de la Plata e mais tarde pelo popular Huracan. Com 16 anos transferiu-se para o River Plate e rapidamente criou um entrosamento especial com os seus jovens colegas de equipa. Uma formação absolutamente deliciosa onde pontificavam também Juan Carlos Muñoz, José Manuel Moreno, Felix Loustau e o inimitável Angel Labruna. Juntos formaram La Maquina, o melhor conjunto da história do clube de Buenos Aires que, com esta formação, dominou por completo o futebol argentino vencendo cinco campeonatos em 10 anos (1936, 1937, 1941, 1942 e 1945), permitindo também à Argentina, do qual ele era o lider natural, vencer a Copa America em 1941 e 1945. A máxima de La Maquina era atacar. Percursor do futebol total ofensivo, o técnico da equipa, Carlos Paucelle, dizia que jogava com 1-10 tal era o espirito ofensivo do onze. A equipa vivia num constante toque à procura da baliza porque sabia que perder a bola era letal num onze quase sem elementos defensivos. Ao longo dos anos manteve uma altissima média de golos marcados e pouquissimos tentos sofridos. Pedernera era o simbolo de uma geração mas os problemas financeiros de um clube eternamente mal gerido levaram-no para o México onde jogou a contragosto durante uma época no Atlanta. Depois da viagem ao país azteca, as saudades de casa falaram mais alto e o jogador logrou desvincular-se e voltar ao seu Huracan. Também aqui Pedernera ficou pouco tempo. Em 1949 o futebol colombiano decretou guerra à FIFA e começou a coleccionar os cromos mais valiosos do futebol sul-americano. Pedernera era o ás de espadas. Assimou pelo Milionarios e tornou-se no lider da equipa que juntamente com o River Plate e o Santos melhor marcou a evolução do futebol latino até aos anos 70.

 

Na Colombia juntaram-se-lhe alguns dos mais fascinantes desportistas sul-americanos de então e o clube arrancou para uma época gloriosa com quatro titulos em cinco anos e ainda a primeira experiência de um Mundial de Clube em 1953. Pedernera destroçava pelo lado esquerdo, explodia pela faixa direita e pautava o jogo ao centro. Apontou centenas de golos e foi o patrão deste conjunto que ficaria imortalizado pelo sugestivo nome de Ballet Azul. Com a chegada de um então jovem Alfredo di Stefano, com que se cruzara nos últimos meses no River Plate e que se tinha tornado no seu substituto em Buenos Aires, o craque então de 33 anos encontrou o seu sucessor e tornou-se mentor do futuro avançado do Real Madrid. Mais tarde Di Stefano confessaria que nunca vira ninguém como Pedernera em campo e foi graças ao extremo que o jovem argentino conseguiu brilhar no clube colombiano e chegar ao futebol europeu. Depois de abandonar a Colombia voltou à Argentina onde ainda disputou duas épocas com o Huracan, retirando-se definitivamente com 38 anos.

 

Passou imediatamente aos bancos onde treinou equipas de todo o continente, incluindo a selecção colombiana - a que levou ao seu primeiro Mundial em 1962 - e Argentina, com a qual falhou o apuramento ao Mundial de 1970. Nos anos 70 terminou a sua carreira vivendo em retiro até 1995, onde com 78 anos acabaria por falecer tranquilamente na sua cidade natal. Tinha-se terminado uma era mágica da história, não só do futebol argentino mas do belo jogo de uma era onde os craques tinham auras de semi-deuses inalcançáveis para o mais comum dos mortais.



Miguel Lourenço Pereira às 11:01 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 10.05.12

jogadores com um dom especial para transformar um acto de pura rotina em algo profundamente próximo ao universo artístico. Radamel Falcao é um desses génios. O colombiano é mais do que o melhor avançado do mundo na actualidade, mais do que um devorador de balizas alheias e que um instigador de sonhos. É um futebolista que sozinho parece valer mais do que um colectivo mas que dentro do rectângulo de jogo sabe trabalhar como um mais. Em Bucareste entregou de bandeja o titulo da Europe League a um Atlético de Madrid que este ano tem-se repetido nos tropeções emocionais que o caracterizam historicamente. No seu dianteiro os colchoneros encontraram um psicanalista eficaz, capaz de os retirar da depressão profunda com a genialidade de quem apenas cumpre a sua missão.

 

José Mourinho declarou recentemente numa entrevista que não via no Chelsea e no Bayern Munchen um jogador válido para vencer o próximo Ballon D´Or. Esqueceu-se seguramente de Drogba, Robben, Lampard, Ribery, Mata ou Schweinsteiger. Também se esqueceu que este ano temos um Europeu e todos sabemos como estas provas de um mês tantas vezes elevam à glória jogadores que vivem os outros nove na mais profunda mediania. Para ele o prémio só podia ser discutido entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo e como o segundo, além de seu jogador, venceu a Liga BBVA, então seria obrigatório entregar-lhe o prémio. Ronaldo pode até ganhar o seu segundo Ballon D´Or, ninguém se surpreenderia muito. Mas o técnico sadino esqueceu-se de Radamel Falcao, talvez o jogador mais digno de receber o galardão. Porque ao contrário de Messi e Ronaldo, o colombiano sim encarna a figura do indivíduo num desporto profundamente colectivo, do homem que todos sabem que irá fazer realmente a diferença.

Falcao já é, a um jogo do final da liga espanhola, o estreante com mais golos marcados na prova na sua época de estreia. Nem Messi, nem Cristiano Ronaldo, nem Zidane, nem Ronaldo, nem Hugo Sanchez, nem van Nistelrooy, nem Bebeto, nem Romário, nem, nem, nem. Nenhum jogador marcou tantos golos no primeiro ano como jogador da liga do país vizinho. Os números estratosféricos de Messi e Ronaldo escondem multiplas realidades e a de Falcao é a mais gritante. O colombiano joga num clube que pode terminar o ano fora dos postos europeus, um clube que mudou de treinador a meio do ano, um clube que vive em constante carambola emocional, que ora goleia um rival directo como perde quatro semanas consecutivas com equipas de outro campeonato. No Vicente Calderon a equipa nunca joga para o individuo e muitas vezes as estrelas atropelam-se entre si para terem os seus cinco minutos de fama. Sobreviver neste caos é algo que não está ao alcance de muitos e a paciência de Aguero, Torres e Forlan foi testada até ao limite tantas vezes que voluntariamente procuraram calma e sucesso noutras paragens. Ser Falcao neste cenário é algo profundamente complexo, quase impossível. E no entanto, aí está ele, de novo, nas estrelas. Pelo segundo ano consecutivo foi o artífice da vitória na Europe League. Se o Athletic Bilbao tinha sido a melhor equipa ao largo do torneio, o Atlético foi muito superior na final. Porque tinha Falcao. Não foram só os dois golos imensos, a juntar ao apontado na final do ano passado em Dublin. Não foi só o imenso trabalho táctico de protecção de bola, de prisão táctica dos centrais de Bielsa. Foi algo mais. Esse espírito de liderança que só em noites como esta parece realmente fazer-se sentir. No colombiano o Atletico encontrou um lider espiritual, um profeta de acalmia. E entregou-se a ele sabendo que as águas do mar vermelho se abririam para o cortejo passar.

 

Falcao é, sem dúvida, o melhor dianteiro do futebol mundial. 

Não existe outro jogador que se possa comparar ao colombiano em destreza, agilidade e precisão de movimentos na grande área. Mas o seu futebol é muito mais completo e artístico. Recebe, dá, segura e mata com a precisão de um cirurgião mas com delicadeza de um pintor, preparado a emular o seu momento de glória com a melhor das telas. A bola nos pés de Falcao respira outra linguagem. No jogo das meias-finais, no Calderon, recebeu um alivio ansioso de um defesa e no meio de três rivais encontrou a comodidade necessária para correr, driblar, fintar, parar e rematar sem levantar a cabeça do chão. O golo não foi mais do que uma inevitabilidade da sua condição divinal.

Em 2001 o inglês Michael Owen venceu o Ballon D´Or depois de um ano em que conquistou a Taça UEFA (numa final asfixiante contra o Alavés onde nem foi o melhor em campo), a Taça da Liga e a FA Cup. Bateu o espanhol Raul, que tinha vencido a liga espanhola, e o alemão Oliver Kahn, campeão da Europa com o Bayern Munchen. Foi a última vez que um jogador levou para casa o troféu sem ter vencido no ano uma grande competição. Nedved, Schevchenko, Ronaldinho e Messi foram campeões nacionais. Ronaldo, Cannavaro campeões do mundo. E Kaká, Cristiano Ronaldo e Messi, por duas vezes, ganhadores da Champions League. A importância dada a uma Europe League nunca pareceu ser suficiente para lograr vencer estes prémios individuais, mais numa época onde o mundo vive o confronto ideológico moral de escolher entre Messi ou Ronaldo quase de forma forçada, como diz Mourinho.

Mas Owen era em 2001 um fenómeno como Falcao é hoje. Depois desse ano o seu rendimento baixou até acabar no jogador de hoje, perdido entre lesões e experiências clubísticas desastrosas. O colombiano não é uma novidade, o que logrou este ano já o demonstrou no ano passado ao serviço do FC Porto e na Argentina os hinchas do River Plate sabem bem de que matérias é feito. Se tivesse nascido argentino, como diria Hugo Sanchez pensando em Maradona, talvez os elogios fossem ainda maiores. Se tivesse jogado um pouco mais a norte em Madrid, talvez hoje fosse tratado de outra forma. Mas no Calderon, como no Dragão, o valor de ser Falcao é ainda maior e talvez por isso o seu mérito individual mais gritante.

 

Da mesma forma que os adeptos do FC Porto sabiam que um jogador como o colombiano estaria de passagem, em Madrid começam a dar-se conta de que talvez para o ano que vem Radamel esteja a costurar golos por outras paragens. É um percurso inevitável para um homem que vende aquilo que mais se valoriza no mundo do futebol. Entre os grandes de Espanha e a Premier está o futuro de um jogador que só precisa de um clube com mais prestigio e melhor marketing para falar de tu a tu com os Ballon´s D´Or no activo. Se já tivessem tido a honestidade mental de dar-lhe o prémio por antecipado, talvez a lógica de um jogo de onze contra onze onde há sempre um que brilha mais forte faça mais sentido do que nunca.  



Miguel Lourenço Pereira às 00:59 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Terça-feira, 08.05.12

poucos jogadores tão fáceis de admirar no universo futebol actual como Carles Puyol. O capitão do Barcelona representa o melhor de dois mundos, exemplo perfeito do que foi o futebolista cavalheiro de outros eras e o super-profissional a que se exige nos dias de hoje. Um lider dentro e fora do balneário, um jogador tacticamente perfeito e um dos esteios do sucesso da última década blaugrana e da Roja. A sua ausência no próximo Europeu não é só um problema para Vicente del Bosque mas uma séria perda para os mais românticos amantes do jogo.

É curioso pensar que muitos analistas da imprensa espanhola tinha escrito no arranque desta época que a passagem de Sergio Ramos a central, no eixo da defesa do Real Madrid, imaginando uma dupla com Gerard Pique, então o defesa mais cotado do futebol internacional. Mas a péssima época do número 3 blaugrana e o espirito de sacrificio tremendo de Puyol, capaz de superar intensos problemas fisico mudaram rapidamente o panorama. Em Janeiro parecia evidente que o capitão do Barcelona era o primeiro insubstituivel do sector defensivo catalão e, consequentemente, da campeã da Europa e do Mundo. A sua perda, a apenas um mês de que arranque a prova, é um golpe duro e dificil de encaixar, especialmente porque Piqué nunca recuperou a boa forma e Del Bosque não tem alternativas à altura para uma prova de elite.

Javi Martinez, adaptado por Bielsa à posição, é demasiado similar no estilo de jogo a Piqué para possibilitar uma dupla com o catalão. Albiol teve escassos minutos durante todo o ano, Dominguez foi preterido no Atletico de Simeone, Victor Ruiz não mostrou o seu melhor rosto em Valencia este ano e Botia do Sporting Gijon parece demasiado verde para tanta exigência. O grupo C, onde está colocada a equipa espanhola, conta com rivais de peso (Itália e Croácia) e uma Irlanda que pode surpreender a qualquer momento. Se Arbeloa não convence totalmente a lateral direito (e até agora parecia claro que Sergio Ramos voltaria à sua posição do último Mundial e Europeu com a selecção), o posicionamento de Ramos ao lado de Pique abre um novo problema dificil de resolver para o seleccionador espanhol.

A Espanha do último Mundial foi, sobretudo, uma equipa tremendamente eficaz. Manteve a posse de bola mais do que qualquer outra equipa em prova e marcou menos golos do que qualquer outro campeão mundial. A sua segurança defensiva foi determinante, especialmente a liderança de Puyol, autor do golo decisivo das meias-finais, e do jogo de Ramos pela ala direita. Sem duas das suas grandes armas tácticas, e talvez sem a veia goleadora de David Villa, que ainda tem o país vizinho em suspense, parece evidente que o campeão europeu chega à Polónia com mais dúvidas que certezas na corrida pelo histórico tri Euro-Mundial-Euro, um feito que nunca nenhuma selecção europeia logrou conquistar no passado.

 

A liderança moral de Puyol é um exemplo único no futebol actual.

Enquanto o Chelsea inglês conta com um capitão que se dedica a agredir e insultar jogadores rivais, "el Capi" de Barcelona prefere impedir uma celebração polémica de Dani Alves e Thiago Alcântara numa goleada implacável em Vallecas. É só mais um gesto para uma longa galeria de um atleta que foi impiedosamente assobiado na sua época de estreia. Louis van Gaal lançou-o a titular como lateral direito e depois de alguns erros tácticos nas primeiras exibições tornou-se num dos bodes espiatórias preferidos da afficion. Mais de uma década depois é o seu menino dos olhos.

De lateral a central, de assobiado a capitão de pleno direito, Puyol percorreu um largo caminho que, de certa forma, define o próprio historial recente do Barcelona. Esteve em quatro finais da Champions League, sempre como capitão. Em 2011, num dos seus gestos humanos tão habituais, abdicou levantar o troféu das mãos de Michel Platini cedendo a honra ao colega de defesa Eric Abidal, acabado de recuperar de um perigoso tumor que o levou, este ano, à mesa de operações. Com Rijkaard o central manteve sempre uma forte cumplicidade, com Guardiola a amizade e admiração mutua era mais do que evidente. Foi a base sobre a qual montou o seu esquema defensivo e, apesar da explosão de Piqué, manteve no jogador em quem o técnico realmente confiava. Percorreu os lugares da defesa à medida que as leões e suspensões iam deixando as suas baixas e quando Pep decidiu adoptar esta época num esquema de três centrais, a sua omnipresença era fulcral. É dificil quantificar a sua importância na estrutura do Pep Team mas a sua ausência fez-se sempre notar nas noites mais ágrias do mandato do técnico em Camp Nou. Del Bosque, homem sábio e sensato, sempre soube que o lider do balneário blaugrana era uma das pessoas ideais em quem se apoiar para conquistar o coração dos campeões europeus orfãos de Aragonés. A dupla Puyol-Pique, a sensatez do blaugrana no momento mais tenso das relações entre os jogadores do Real Madrid e do Barcelona, e a sua capacidade fisica inimitável faziam dele peça nuclear para a estratégia defensiva para o próximo Europeu. Um problema de resolução impossivel. Opte por quem opte, a presença gigante de Puyol é insubstituivel.

 

Mais triste é pensar que este pode ser o adeus definitivo de um dos maiores jogadores da história do futebol espanhol à sua selecção. Puyol tinha previsto abandonar a Roja no final do torneio (algo de que se espera também que passe com Xavi Hernandez) e já o teria comunicado a Del Bosque que esta seria a sua última aventura. Perto da centena de internacionalizações, um dos melhores curriculos do futebol mundial, Puyol preparava a sua retirada deixando primeiro a selecção e depois dando lugar no Barcelona a uma nova geração de promessas, lideradas por Fontás. Com este rude golpe é dificil imaginar que o jogador não volte uma vez mais, para ter a despedida que se merece. Se há um jogador espanhol (e há muitos nesta esplêndida e apaixonante geração) que merecia outro destino, sem dúvida quer era "Puyi", um central feroz como um leão mas com a alma de um trovador.



Miguel Lourenço Pereira às 10:05 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 06.05.12

E no final 10 pontos eram mesmo demais. O Barcelona não logrou lograr um feito ao alcance de muito poucos e perdeu a Liga para o eterno rival. Um golpe duplo porque não conseguiu paliar o fim de uma série mágica de três titulos com uma nova vitória europeia. Ambas as equipas degladiaram-se até à morte na liga e na Europa pagaram o preço. O fosse entre Madrid e Barcelona é maior do que nunca, o jogo mais plástico de Guardiola não aguentou um ano mais e a eficácia goleadora do contra-golpe de Mourinho deu a estocada final. Um ano que mais do que uma mudança de ciclo, espelha bem a viabilidade de dois projectos antagónicos.

Parece evidente que, apesar do titulo logrado este ano, poucos se atrevam a não pensar no Barcelona como favorito para lograr o titulo da próxima época. É o poder de uma ideia que se sobrepõe a tudo, até aos resultados. O Barcelona sem Guardiola será substancialmente distinto e, no entanto, muito similar ao que temos acompanhado desde que Rijkaard tomou as rédeas do clube em 2004. Uma década de bom futebol, com algumas oscilações, de muitos titulos, dentro e fora de portas, mas sobretudo uma década em que ficou claro a que joga o onze blaugrana.

No meio de tantas certezas a dúvida da derrota torna-se mais perturbadora. Guardiola não logrou emular Cruyff e as suas quatro ligas consecutivas. Nem Cruyff seguramente pensava que o iria lograr, as últimas três conquistadas depois de sprints absolutamente agónicos e erros crassos dos rivais. Primeiro os fantasmas do Real Madrid em Tenerife e depois o medo de Bebeto a fazer história permitiram ao Dream Team dar uma imagem errada da sua real superioridade. Guardiola, perdendo, parece no entanto mais sólido que nunca este adeus do que El Flaco na glória do tetracampeonato. 

As derrotas do Barcelona fora do Camp Nou mataram as aspirações ao titulo mas foi o único desaire em casa, frente ao Real Madrid, que confirmou o inevitável. Os blaugrana dependeram mais do que nunca de Leo Messi. O argentino respondeu com uma cifra estratosférica. Vai em 50 golos e com um jogo por disputar ninguém se atreve a prever onde vai acabar. O que logrou o número 10 do Barcelona não tem nome e no entanto, a sua insuficiencia para confirmar um titulo de liga que em Agosto parecia inevitável, explica bem como Guardiola não soube sacar o melhor de Iniesta, Fabregas, Pedro, Sanchez e Thiago na linha de ataque e, sobretudo, que a ausência de um plano alternativo a David Villa e Xavi Hernandez, asfixiou demasiado o jogo catalão. Messi sozinho não pôde com o tridente montado por Mourinho, onde Cristiano Ronaldo foi sempre a figura omnipresente. Se o português manteve até ao fim o seu duelo pessoal com Messi pela Bota de Ouro, a verdade é que o argentino nunca teve uma companhia goleadora tão ilustre como Gonzalo Higuain e David Benzema com quem partilhar os logros. Entre os três jogadores somam-se quase 90 golos, uma cifra superior à dos golos apontados por todas as equipas em prova, salvo o próprio Barcelona. Nesse jogo ofensivo o Real Madrid venceu por K.O. o Barcelona e cimentou um titulo onde pecou sobretudo pelos erros defensivos (em Levante, Villareal, contra o Malaga em casa, frente ao Barcelona no Bernabeu) e pela dificuldade em gerar jogo pelo miolo.

Nuri Sahin foi o flop desportivo do ano, Xabi Alonso perdeu toda a gasolina que tinha por Janeiro e Ozil exibiu-se em momentos pontuais como um génio em potência para depois desaparecer semanas consecutivas. Com esse tremendo hiato no meio, precisamente onde o Barcelona se mostrava iniguável, só se pode explicar o espantoso titulo do Barcelona pela eficácia de um treinador considerado como defensivo mas que apenas entende o ataque como uma sucessão rápida de golpes sem defesa antes que um cerco prolongado, extenuante e fatal. O Real marcou mais golos, gerou mais oportunidades, disparou mais e venceu a prova. O Barcelona venceu a liga alternativa, a plástica, a da bola, a dos admiradores mais incondicionais, um prémio que no futuro talvez faça mais sentido apesar deste ter sido, realmente,  o mais fraco projecto da era Guardiola, um projecto que, na hora da verdade, foi silenciado pela tranquiladade de um Cristiano Ronaldo mais solidário, mais lider, mais exigente e, sobretudo, mais determinante do que nunca. O homem da liga.

 

A mais preocupante novidade é a confirmação do imenso buraco que se gesta entre os dois porta-aviões espanhóis e a restante frota espanhola. O terceiro lugar do Valencia, do sempre contestado Unai Emery, dista uma galáxia dos dois da frente. Atrás dos valencianos uma série de equipas que durante a época viveram momentos de altos e baixos constantes mostrando uma incapacidade tenaz de oferecer uma resistência clara ao duopólio espanhol. Os milhões investidos em Málaga e Atlético de Madrid e as surpreendentes performances de Levante, Osasuna, Espanyol e Mallorca mostram uma classe média espanhola forte mas muito pobre comparada com os ricos do costume. 

Decepcionante, por razões distintas, a época de Athletic Bilbao e Sevilla.

No primeiro caso falamos da melhor equipa da Europe League do ano, na equipa que futebol mais espectacular praticou em momentos concretos da época, uma geração de talentos espantosa liderados por um treinador de excepção. Explicar o péssimo posto do Bilbao em liga passa sobretudo por conhecer a dinâmica de Bielsa, homem habituado a trabalhar com poucos jogadores, com poucas rotações que se encontrou como peixe na água nas provas a eliminar, chegando a duas finais no mesmo ano, algo inédito na história do clube. Essa capacidade de socos rápidos e concisos perdeu-se no duelo da liga, com tropeções constantes, especialmente no arranque da época, que custaram muito caro na altura mais importante do ano. O Sevilla, por outro lado, confirma-se como o lado negro da lua do projecto de Del Nido e Juande Ramos que encantou a Europa há cinco anos atrás. Os andaluzes não funcionaram durante todo o ano, nem no terreno de jogo nem fora dele, tentaram liderar uma revolta dos "outros" que não convenceu ninguém e acabaram por cair na depressão de uma profunda nostalgia que os atirou para fora da Europa e atrás, até ao último dia, do eterno rival e recém-promovido Betis.

Atrás do andaluzes o lado negro do futebol espanhol, o das dividas, dos concursos de credores, da péssima gestão desportiva e de um fracofutebol sem pretextos como o que apresentaram demasiadas vezes Villareal, Getafe e Real Sociedad. A tremida época de um Rayo Vallecano onde o dinheiro continua a pecar por escasso não tem comparação com o brutal investimento realizado pelo Zaragoza para acabar num duelo final financeiramente desigual mas pontualmente equilibrado. Na última ronda, no próximo domingo, aos "maños" e "vallecanos" juntam-se os europeus do "Submarino Amarelo", a "mareona" de Gijon e o projecto do Granada, um clube B da Udinese em solo espanhol mas sem a mesma solvência desportiva. Entre ambos jogam-se um bilhete para o abismo, um bilhete de companhia para um Racing Santander que completou uma época tão deprimente como inevitável depois da péssima gestão financeira das contas do clube.

 

É cada vez mais evidente que o modelo actual do futebol espanhol tem demasiados buracos negros para ter uma solvência imediata. O ano começou com uma greve de jogadores, acabou com mais acusações de irregularidades financeiras e compras de jogos e pelo meio assistiu-se sobretudo a um debate dialéctico entre dois clubes que permite esconder na sombra a depressiva realidade dos restantes 18. No próximo ano ninguém espera que a situação se altere, Mourinho e Tito Vilanova continuaram a sua particular guerra pessoal, madrileños e barceloneses disputaram cada jogo como se fosse uma final de Champions para romper uma vez mais os recordes de golos e pontos e Messi e Ronaldo voltarão a repetir o seu pulso pessoal interminável. Um cartaz atractivo para a maioria dos espectadores de todo o mundo mas que, a pouco e pouco, está a significar o fim da base do futebol espanhol que tanto sucesso deu na última década e que nos últimos quatro anos se transformou no modelo a seguir para o resto da Europa.  



Miguel Lourenço Pereira às 18:22 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Quinta-feira, 03.05.12

algo no futebol inglês que seduz. Talvez a sua eterna incapacidade para impressionar a todos. Ao contrário de holandeses, brasileiros, espanhóis, franceses ou argentinos, ninguém se lembra de uma selecção inglesa que tenha reunido um consenso universal. É sempre o patinho-feio dos torneios, a equipa que quer e não pode, a selecção de uma liga que só encanta pela legião estrangeira que lhe dá cor e forma. Nesse panorama cinzento a FA já tentou seleccionadores de distintas personalidades e experiência. Agora opta por Roy Hodgson. O técnico mais cinzento para uma selecção em que já ninguém consegue acreditar.

Fabio Capello saiu pela porta pequena como não lhe é habitual. Estava farto. E Capello farta-se depressa das coisas.

Farto da pressão dos media, da relação dos jogadores e da incapacidade crónica do futebolista inglês a aprender conceitos de jogo colectivos. A prestação no Mundial da África do Sul foi um desastre. Muitos culpam a falta de arrojo do italiano, outros o espírito bélico dos próprios jogadores, incapazes de lidar com o ritiro inventado por Capello. Estava claro que este casamento não ia ter final feliz porque Capello, ao contrário de Giovanni Trapattoni, é demasiado inflexível. E só alguém ainda mais hermético do que um técnico italiano. Um jogador inglês.

O cinzentismo da equipa que deixou Capello contrasta com o excesso de juventude e inexperiência que parece estar reservada para as próximas concentrações dos Pross. Como sucede com o caso português, a Geração de Ouro inglesa afinal não o foi e há um hiato tremendo entre jogadores com lugar cativo no onze e novos nomes que bebem já outros conceitos aprendidos numa Premier League que começa a assimilar algumas das características do jogo de toque continental. É preciso relembrar que a única vez que a Inglaterra não jogou como a Inglaterra é suposto jogar, os leões foram campeões do Mundo. Essa ideia ronda pela cabeça de muitos jornalistas e treinadores britânicos e depois da consagração do modelo espanhol, há quem tenha a tentação de seguir esse ideário deixando para trás décadas de kick-and-rush e desilusões. A tentação inicial era procurar dentro de casa alguém que fosse seguir esse caminho. O treinador inglês é um oásis de originalidade e há tão poucos técnicos de sucesso na Premier de origem inglês (a maioria são os escoceses ou irlandeses) que reduzir o leque de candidatos não era tarefa complexa. Harry Redknapp parecia, desde o primeiro instante, o mais claro favorito. Mas este não é um país para suspeitos, pode dizer-se, e apesar de ilibado o nome de Redknapp ficará sempre ligado ao escândalo de fuga de impostos, algo que a FA nunca viu com bons olhos. A recusa do treinador em abandonar de imediato o Tottenham Hotspurs - então a lutar pelo titulo - também não ajudou e a federação quis provar com o treinador dos sub-21, Stuart Pearce. A falta notória de habilidade de Pearce e a péssima segunda volta dos homens de Redknapp acabaram com as duas opçoes e o vazio voltou a aparentar ser maior do que nunca. O dinheiro não comprou Mourinho e Guardiola e no meio do desnorte, o cinzentismo voltou a imperar.

 

Roy Hodgson é o mais continental dos treinadores ingleses.

Por continental não digo pelo estilo de jogo. Não é uma reencarnação de Jimmy Hogan como Niels Egen era um primo afastado de Stan Cullis. Mas grande parte da sua carreira foi feita longe da Velha Albion. Foi seleccionador da Finlândia, dos Emirados Arabes Unidos e, sobretudo, da Suiça a quem levou ao Mundial de 1994 em grande estilo para depois assinar uma fase final deprimente. Foi treinador principal do Inter de Milão e não só não venceu o Scudetto como perdeu a final da Taça UEFA com o Schalke 04. Em Inglaterra passou toda a carreira em equipas de low profile até que levou o modesto Fulham à final da Europe League, perdida, claro está, nos últimos minutos diante do Atlético de Madrid. Um logro emocional que o levou a Anfield Road onde assinou talvez o pior arranque de época da história do Liverpool. Não durou meio ano (não que Kenny Dalglish tenha feito muito melhor esta época) e acabou no West Bromwich equipa que luta por sobreviver com poucos recursos e menos imaginação ainda.

A um mês de que arranque o Europeu poderíamos imaginar mil treinadores diferentes para orientar a selecção inglesa. Menos Hodgson.

Talvez por isso tenha sido o escolhido.

Dele não se espera nada a não ser um low profile. Não é um inovador táctico apesar de ter bebido de várias culturas. Não é um lider de balneário e nem sequer é uma inspiração para os adeptos. E como já poucos esperam algo de uma equipa sorteada no mesmo grupo de uma França revitalizada, uma sempre complicada Suécia e a equipa da casa, Ucrânia, há quem pense mesmo que passar à segunda fase é algo a que os ingleses não podem ambicionar. Redknapp teria sido uma escolha de inspiração genuína mas o seu estilo de liderança provavelmente entraria em choque com o balneário. Hoddson formará consensos. Apesar de todos saberem que a geração de John Terry, Ashley Cole, Rio Ferdinand, Frank Lampard e Steven Gerrard tem os dias contados, a verdade é que não há jogadores de nivel internacional para substituir-lhes. Jack Whilshire, talvez a melhor aposta de futuro, está de fora do torneio por lesão. Wayne Rooney não jogará os dois primeiros jogos e nem Ashley Young, Danny Wellbeck, Phil Jones, Kyle Walker, Tom Cleverley ou Micah Richards têm o espirito de liderança e sangue frio que se exige nestes momentos.

Hodgson sabe que terá de formar uma equipa que capte o melhor de dois mundos. Terry jogará, Lampard também, Ferdinand e Gerrard terão os seus momentos. Hart resolveu, de momento, o problema da baliza mas a falta de cabeça de Rooney abriu outro no ataque. Entre Bent, Defoe, Wellbeck, Carroll e Sturridge estará a solução momentânea. No meio o enigma, entre o 4-4-1-1 e o 4-3-3, mais do que no dispositivo táctico nos nomes que sobem ao terreno de jogo e que podem fazer dos Pross uma equipa mais especulativa ou frontal. Conhecendo Hodgson, não esperemos milagres.

 

A eleição de Roy Hodgson como novo seleccionador inglês deixa claro que há federações que continuam a querer acreditar que um seleccionador é uma figura menor, de perfil baixo, que existe apenas para resolver problemas humanos durante duas semanas. São os que acreditam que os jogadores já vêm com as lições tácticas debaixo do braço e que apenas é necessário ordenar os nomes no tabuleiro. Essa postura britânico não é nova e não tem dado frutos positivos. O último grande técnico de vertente táctica que orientou a selecção foi campeão do Mundo. Todos os que o seguiram tentaram encarar as fases finais como meros torneios motivacionais. Todos falharam e o novo seleccionador sabe-o bem. O problema para os ingleses é que tão poucas expectativas num homem tão cinzento como é Hodgson podem ter precisamente o efeito contrário no balneário e o feitiço virar-se contra o feiticeiro. Sven-Goren Erikson sofreu-o na pele na Alemanha em 2006. E todos sabemos como esse filme acabou. 



Miguel Lourenço Pereira às 13:29 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Terça-feira, 01.05.12

No mesmo dia o futebol português assistiu a mais uma cena digna do surrealismo em que se move há alguns anos. Um clube campeão no sofá, outro derrotado no momento em que entraram em campo apenas oito dos seus jogadores. Apesar do que a UEFA diz, o futebol português vive dias negros e uma etapa para esquecer da sua história. O titulo de campeão vale pouco quando durante um ano os grandes, com orçamentos de dezenas de milhões, têm de se medir com equipas onde os jogadores não têm nem para viver. A Liga e a Federação continuam os seus jogos das cadeiras do poder, os grandes preocupam-se com ter uma maior fatia do bolo e os adeptos vendem-se à omnipresente SportTv para encontrar lá fora o espectáculo que ninguém vê cá dentro. 

Faltam três jornadas para terminar o campeonato nacional de futebol.

Há duas, talvez três, equipas a disputar o titulo de campeão. Um titulo que sabe melhor quando se festeja no relvado, no final de um jogo, um titulo que para os adepto significa mais do que para os próprios directivos. O adepto vê motivo de orgulho para seguir acreditando, para pagar as quotas, os bilhetes, as viagens ou simplesmente para ter orgulho em levar a camisola no dia seguinte para o trabalho. O directivo vê números, sonhos europeus e contas para pagar. Porque o que há mais no nosso futebol são contas para pagar.

O Benfica joga em Vila do Conde, o Porto na Madeira. Uma vitória dos campeões em titulo deixa tudo em aberto para o duelo do rival. E quando o Benfica empata, o FC Porto pode sair à rua para festejar. Depois de um dia do seu jogo. Em Portugal há gestores que percebem pouco de gestão e há programadores que não entendem nada de programação. Além de ser evidente para todos que os duelos dos dois candidatos ao titulo deveriam ser disputados nas últimas jornadas de forma simultânea, não parece curioso que seja a equipa que pode celebrar primeiro o titulo a que jogue antes? Estamos a falar de uma Liga que entrega as taças e medalhas de campeões com meses de atraso, algo único no panorama europeu, por isso já nada nos surpreende mas fazia todo o sentido ter sido o Benfica a jogar no sábado e o FC Porto, caso o rival tivesse repetido o mesmo resultado, desfrutado no domingo com a possibilidade de fazer-se a si mesmo campeão. Mas o surrealismo português, esse servilismo a Joaquim Oliveira e esbirros destrói até os momentos mais puros e belos de uma temporada, aqueles em que os adeptos enchem a rua e expulsam as frustrações que levam no corpo.

Numa prova de 16 muitos têm motivos distintos para celebrar mas só um grupo de adeptos pode invadir o espaço público com aquele sorriso no rosto. No Dragão já estão habituados a festejar, são 17 títulos em 25 anos, números asfixiantes para qualquer prova que quer ser competitiva. Os jornais bem tentam vender ligas abertas, oportunidades reais para todos os grandes e para algum intrometido, mas a verdade é que o FC Porto mantém-se num escalão por cima da concorrência. Porque tem um orçamento de 100 milhões de euros, superior a muitos clubes europeus em ligas mais poderosas. Porque tem uma estrutura desportiva e administrativa sem igual no espaço português, imune ao populismo do momento e capaz de ver para lá do horizonte. E porque tem um plantel que, mesmo em horas baixas, é capaz de responder nos jogos a doer. Os azuis-e-brancos ganharam a liga nos duelos directos, na Luz e em Braga, aqueles jogos onde se pedia algo mais. Nos restantes encontros o nivel futebolístico foi miserável, a falta de personalidade do técnico principal um enigma e a postura de muitos dos jogadores, um karma. E mesmo assim, a dois jogos do fim, mesmo assim o FC Porto repetiu o titulo e deixou claro que em Portugal é preciso existir uma catástrofe desportiva para que sejam outros grandes e felizes adeptos a saírem para as ruas.

 

Do outro lado desta prova kafkiana, o desespero de quem teve de mandar para longe a família. De quem come ás custas dos outros e de quem não sabe em que buraco se meteu.

Foi a União de Leiria. Mas antes já foram Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Farense, Boavista ou Belenenses. Todos clubes com passado europeu, essa imagem de marca que fica na retina e que explica a incapacidade dos directivos portugueses de uma gestão responsável. Tarde ou cedo estes clubes endividaram-se demais, ficaram demasiado pendentes de dinheiro alheio e começaram a desmoronar-se. Dinheiro gasto em infra-estruturas impossíveis de rentabilizar, abandono progressivo da formação, negócios privilegiados com agentes de jogadores, o padrão é o mesmo e o final da história também. A União de Leiria já nem está unida e também já não é de Leiria. Os jogos na Marinha Grande são o espelho dessa hipocrisia social de um clube que tentou crescer de bicos nos pés, sem sequer uma massa adepta empática e disposta a jogar tudo no clube da sua terra. Não é algo novo, viveu-se isso no Algarve, no Alentejo e nos clubes dos subúrbios das grandes cidades.

Mas a realidade mascarada é bem pior. Em Guimarães, um histórico como há poucos, os jogadores levam meses sem receber. Em Setúbal essa realidade é a tónica da última década. Na Madeira os projectos do Maritimo e Nacional só sobrevivem graças ao apoio do Governo Regional. A Académica de Coimbra vive em números vermelhos e o Beira-Mar não sabe muito bem a quem pertence. Numa liga de 16 equipas provavelmente há cinco que têm os salários em dia, mas mesmo essas apresentam um passivo sério que o futuro tratará de dizer quão grave pode ser. O FC Porto e Benfica precisam do dinheiro das provas europeias para respirar. O Sporting é cada vez mais um clube dos bancos e só o Braga, timidamente, oferece outra versão de como deve ser o futebol.

Os oito jogadores que entraram em campo com a camisola da União foram forçados a fazê-lo, pelos clubes que os emprestam (outro cancro do futebol português, o empréstimo compulsivo) e pela vontade de pegar no primeiro dinheiro que caia do céu e fugir. Ninguém os pode acusar de nada a não ser de sobreviventes, como tantos que trocaram o futebol português pelo Chipre, Roménia, Bulgária, Suiça ou Grécia, onde pelo menos os salários chegam a tempo e as famílias têm um tecto. No dia em que Portugal repetiu o campeão, a União de Leiria repetiu a farsa de que significa esta liga de 16. Ampliar o torneio para 18 ou 20 equipas é o espelho perfeito da idiotice do gestor português e só pode terminar numa operação cirúrgica que faça o proporcionalmente inverso. Por muito que doa ao adepto, Portugal não tem dinheiro para sobreviver como país e portanto não tem mercado para uma liga de mais de 8 ou 10 equipas. Uma liga como a que já conta o futebol suíço, alguns países nórdicos e do centro da Europa, países que sabem a que realidade pertencem. Uma prova a quatro rondas, como sucede na Escócia, onde o equilíbrio e a qualidade sejam a nota. Há clubes grandes e pequenos em todos os lados mas seguramente que entendo os jogadores do novo campeão, os mesmos que querem emigrar, quando sabem que uma vitória por 1, 2 ou 3 golos contra um rival que não tem dinheiro nem para comer vale o que vale. Muito pouco.

 

Mas esta situação não passa nos telejornais, não aparece na imprensa e não ocupa a cabeça dos adeptos. Se por eles fosse a liga seria de 20 equipas, os bilhetes seriam de 5 euros, os horários televisivos respeitariam as familias e tudo estaria bem. Mas não está. Na próxima década a probabilidade de que se multipliquem ao ano casos com o do Leiria é tremenda. Os grandes vivem a sua particular via crucis mas mascaram as contas com negócios com fundos desconhecidos, empresários polémicos e vendas fantasmas. Ninguém quer saber, todos assobiam para o lado, afinal estamos em Portugal. O FC Porto é campeão português, a União de Leiria daqui a uns anos aparecerá nas divisões regionais, por onde andava há largas décadas. Nada irá mudar e no entanto poucos se importam. De certa forma é normal, afinal foi a pensar assim que chegamos até aqui. E se Portugal fizer um brilharete no próximo Europeu haverá mesmo quem escreva que somos um exemplo para o mundo. Pena que os adeptos do Leiria ou do Campomaiorense saibam que não é bem assim. 



Miguel Lourenço Pereira às 12:50 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Segunda-feira, 30.04.12

Hoje arranca um novo projecto. Um projecto assumidamente diferente.

 

O FUTEBOL MAGAZINE é uma revista online dedicada ao estudo, análise e reflexão sobre o universo do mais popular e belo dos jogos, o futebol. 

 

Nesta revista de formato online vão encontrar reportagens, entrevistas, estudos e análises ao passado, presente e futuro do beautiful game, visões alternativas sobre um fenómeno global. Histórias que poucos se atrevem a contar, realidades que a imprensa especializada teima em esquecer, ideias que formam parte da base moral e desportiva do desporto mais global. 

 

O FM é editado por mim mas está aberto a todos. Como colaboradores, como comentadores, como visitantes. É um fórum aberto de debate onde a lei do fora de jogo conta menos do que a influência politica que o futebol demonstrou ter em vários países subsarianos. Onde as fintas de Garrincha são vistas em video e onde o papel do futebol de mesa é tão válido como o da próxima versão dos populares videojogos FIFA ou Pro Evolution Soccer.

 

Desde hoje o espaço está aberto a todos e garanto-vos que vale bem uma visita. As portas estão escancaradas, é só entrar.

 

Boa viagem aqui!

 

 


Categorias:

Miguel Lourenço Pereira às 16:11 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 29.04.12

poucos paises no Mundo como a Itália. Uma mistura sublime de beleza natural, humana, de gentes afáveis e história a cada pedra que se calca. É também um dos países mais sujos, desorganizados, inseguros e irrespiráveis que conheço. O Calcio italiano não dista, como tudo no "belle paise", desde o seu capuccino ás suas voluptuosas mulheres, dessa realidade bipolar. Mas como a politica, a justiça e a económia, o futebol italiano também há muito que vive numa terra de ninguém, anárquica, corrupta e sem amor próprio. A decadência da Serie A é evidente e já não apenas nos números. O triste número montado pelos Ultras do Genoa exemplifica perfeitamente o estado de sitio moral em que senta o futebol no país da bota.

 

Os jogadores choram. De vergonha, de medo. Sabem o que lhes irá acontecer. Em Itália ninguém, nem mesmo o mais carismático idolo, se atreve a contrariar os Ultra.

É uma triste realidade que se vive em poucos países, talvez só a italianizada Argentina sinta a mesma dor, o mesmo buraco na alma, com o triste mas real fenómeno dos Barras Bravas. A violência no Calcio não é tão evidente, não é tão intensa, mas está lá, no mais brutal dos gestos, no mais ensurdecedor dos silencios. Os jogadores sabem-no, os directivos sabem-no e os adeptos neutrais também. Mas como sempre o italiano assobia para o lado, lança um piropo e continua a sua vida. Aqui não passa nada, nada que seja com ele.

Imagino os adeptos neutrais, pelo menos os adeptos que não roçam a loucura facciosa e suicida que compõe o complexo fenómeno dos Ultra. Quando os anos 80 radicalizou a figura dos grupos de apoio organizados, quando o dinheiro das mafias locais e o compadrio das directivas familiares lhes deram uma fatia do poder, o Ultra deixou de ser um sinónimo de apoio incondicional à inglesa para passar a ser mais um braço armado e corrupto, pronto a ficar com uma fatia do bolo em nome do amor ao clube. Em Roma a Lázio há anos que não consegue um acordo publicitário digno do seu valor de mercado porque preferiu entregar o monopólio da comercialização do seu merchandising à directiva dos seus temidos Ultras. Todos sabem isso, poucos querem falar disso e ninguém se queixa. Porque, caso contrário, há muito que os péssimos resultados desportivos da era pós-Cragnotti teriam provocado lutas, invasões de campo e ataques directivos aos directivos e jogadores. O dinheiro paga o silêncio. Em Roma, em Milão, em Turim, em Napoles, em Palermo, de norte a sul o futebol italiano há muito que se tornou alvo de escárnio. A péssima qualidade de jogo, as fracas performances das equipas, a falta de estrelas e os problemas relacionados com o doping e as apostas são apenas a ponta de um iceberg muito mais profundo e assustador. Há largos anos que o Calcio sobrevive na anarquia. Como a que levou à suspensão do Genoa-Siena.

 

Os homens da Toscânia venciam por 0-4, um triunfo categórico, indiscutivel e perfeitamente evitável tal era a superioridade teórica inicial do onze genovês. Mas o futebol é assim, cheio de rasteiras e tardes de bruxas e num duelo de rivais directos tudo pode suceder. Tudo ocorreu depressa demais para a habitual lentidão italiana. Ao minuto 54 Alberto Malesani lançou o georgiano Kaladze para o relvado. Um defesa por um avançado, com um 0-4 no marcador e a linha de água no pescoço. O grupo de Ultras sentiu que tinha a legitimidade moral para fazer-se ouvir mais do que manifestar-se nas bancadas. À boa maneira italiana, pressentiu correctamente que, fizessem o que fizessem, sairiam impunes. Lembrando-me de um Roma-Lazio de há largos anos, onde o rumor falso da morte de um adepto levou o próprio Totti a servir de correio com o árbitro face às exigências dos Ultras da AS Roma, é fácil perceber porquê.

Os lideres do movimento, os que mais lucram com os negócios paralelos feitos ás escondidas com a directiva, entraram no relvado e num gesto de humilhação moral exigiram a camisola dos jogadores. Estes sabiam a que se arriscavam se negassem. Provavelmente ataques ás suas casas, ás suas familias, aos seus carros, uma transferência apressada e pela porta pequena em Junho e o medo no corpo para sempre. É assim que funciona o Calcio e foi esse fantasma bem real que levou a que o capitão genovês, Marco Rossi, a recolher as camisolas e entregá-las como despojos. Claro que as barreiras das bancadas foram abertas com a autorização da directiva e que a pantomina montada entre lágrimas e suspiros pareceu mais assustadora para fora do que realmente foi dentro do relvado. Os jogadores do Siena sairam imaculados do relvado, tal como a equipa arbitral e o jogo prosseguiu, 40 minutos depois, com os Ultras, esses apoiantes incondicionais, de costas para o relvado. O resultado, 1-4, condenou o Genoa a cair mais dois postos na tabela, a ser ultrapassado pelo próprio Siena e a dormir no 17º lugar, apenas dois pontos à frente do Lecce com cinco jogos para o final. Foi o pretexto ideal para Alberto Malesani ser despedido, de novo, nesse habitual circo italiano de treinadores que orientam a equipa mais do que uma vez ao ano. Na Serie A os casos como o de Malesani são o pão nosso de cada dia do norte ao sul e ninguém acredita que o homem que os Ultras juraram expulsar do clube não volte algum dia a sentir-se no Luigi Ferrari. Noutro tempo, noutra época, na mesma crua e triste realidade.

O fenómeno Ultra em Itália é mais perigoso que alguma vez foi o hooliganismo em Inglaterra. Os mais selvagens e animalesco adeptos ingleses formavam-se fora do circulo do clube, existiam á sua margem e acabaram por ser facilmente domados porque nunca exerceram posições de poder real. Em Itália a situação é bem mais complexa. Não há tanta violência exterior mas por dentro os grupos Ultras minam os seus clubes, a liga e o futebol italiano em geral. Estão por detrás do fenómeno das apostas ilegais, alguns são os principais fornecedores de drogas aos jogadores e fazem cair técnicos e estrelas com um estalar de dedos. São eles quem melhor sabe manejar estes dias crueis de anarquia e também são eles em grande parte os responsáveis pelo atraso desportivo e moral em que vive aquela que foi, não há tanto tempo assim, a melhor liga do Mundo. A impunidade dos adeptos do Genoa não é nova nem sequer um exclusivo do clube. Funciona melhor como um espelho da arrogância e da impotência, da impunidade e da injustiça, da falta de escrupulos e do interesse financeiro, nomes dignos dos muitos coveiros que atiram a terra para cima do caixão podre da Serie A.



Miguel Lourenço Pereira às 00:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 27.04.12

Coerente, surpreendente, digno, entusiasmante. O Barcelona decidiu o seu futuro com base no seu presente e fê-lo com a certeza de que acredita numa ideia, mais do que nos nomes que a guiam. Se a saída de Pep Guardiola era um segredo mal guardado, o nome do sucessor deixou até os próprios blaugranas em estado de choque. Durou pouco. Guardiola continua a manobrar o clube na sombra, o Barcelona da próxima época será fiel ao que se viu nos últimos anos e, sobretudo, o clube catalão decidiu seguir o caminho que fez do Liverpool dos anos 70 um mito da história do futebol. Agarrou-se à ideia de um "boot room" eterno que pode trazer mais alegrias do que suspiros ás bancadas do Camp Nou.

Bob Paisley é o treinador do Liverpool com mais títulos. É um dos treinadores mundiais com mais títulos. E no entanto quem se lembra dele?

Bill Shankly saiu do Liverpool demasiado cedo, muitos pensaram. Sem vencer a Taça dos Campeões, sem somar mais de quatro títulos de liga inglesa. E no entanto quem se esquece dele? 

O grande mérito de Shankly não foi vencer. Foi definir a forma como se iria ganhar. Resgatou o Liverpool das trevas, trabalhou uma ideia táctica, rodeou-se de jogadores locais e aquisições certeiras e lançou as luzes do futuro. Quando saiu tinha deixado atrás de si o trabalho feito e, sobretudo, o conceito do "Boot Room", o pequeno gabinete onde se juntava com os seus adjuntos para falar de futebol e da vida, que é o mesmo. Durante 15 anos o Liverpool sobreviveu, cresceu e um ano até chegou em segundo, como diria Paisley, sempre partindo do "Boot Room". Depois de Shankly veio Paisley, depois deste Joe Fagan e por fim Kenny Dalglish, que entrou como jogador e saiu como mentor emocional. Essa longa saga coroou os anos dourados da história de Anfield Road porque, independentemente dos grandes jogadores no terreno, partiu sempre de uma ideia de clube bem definida.

Josep Guardiola sabe mais de futebol do que a maioria das pessoas e sabe também investigar a história do jogo. Quando Johan Cruyff saiu do Barcelona, pela porta de atrás, a direcção de Josep Luis Nuñez quis romper com o cruyffismo e chamou Bobby Robson. O inglês durou um ano, ano em que só perdeu o titulo de liga, até que os directivos emendaram a mão e voltaram a apostar na escola holandesa, primeiro com van Gaal e depois com Rijkaard, com um hiato desastroso que tem mais a ver com a figura de Gaspart do que com a mentalidade por detrás do clube. Essa transição sempre foi feita com consciência de que o legado de Laureano Ruiz, Rinus Michels e Johan Cruyff faz mais sentido em Can Barça do que em qualquer outro sitio. Se houve equipa capaz de suceder ao Liverpool nessa ideia de clube, com um projecto e uma cartilha comum, essa equipa sempre foi o Barcelona. Mas o clube nunca tinha arriscado tanto como hoje. Arriscado tanto como Shankly quando se virou para os directivos com o nome do estimado Paisley como o homem da glória futura. Na altura poucos o levaram a sério, a história mostrou que o "Napoleão de Mersey" não se enganava.

 

Tito Vilanova não tem experiência como treinador de elite, como também não tinha Guardiola.

Mas quem segue o clube blaugrana sabe que por detrás destes quatro anos de sucesso há muito dedo do homem a quem Mourinho quis penetrar mais profundamente no olhar. Villanova é o responsável das jogadas de estratégia do clube, inspirando-se no basket e no futebol de sala. Foi o homem que orientou a celebre equipa juvenil da geração de 1987 quando tinham apenas 14 anos, a equipa dos Messi, Pique, Fabregas e companhia. E foi sempre o amigo e confidente a quem Guardiola recorreu. Não é um mero segundo treinador, é um dos ideologos do projecto e isso faz toda a diferença. 

Os adeptos portugueses podem lembrar-se da imagem de Vitor Pereira mas o técnico do FC Porto nunca foi o segundo de André Villas-Boas. Escolhido por Pinto da Costa para completar a equipa técnica, partilhou a da experiência mas nunca existiu essa comunhão de ideias, de modelos, de longos anos a falar de futebol que unem dois homens que são colegas e amigos desde a mais tenra infância. Não se pode entender a imagem de Guardiola sem Vilanova e o mesmo agora será válido quando Pep passe para o segundo plano.

A ideia do técnico de Santpedor tem a mesma dose de genialidade que os seus dispositivos tácticos. Imitando a Shankly, ele ergue-se como a figura de fundo do clube, o homem que controla tudo sem ter de expor-se aos momentos duros que virão. Guardiola não vai treinar outro clube porque continua, de certa forma, a treinar o Barcelona.

Na conferência de imprensa de hoje tanto ele como Sandro Rossell - o grande derrotado desta decisão, felizmente para o clube - e Andoni Zubizarreta confirmaram que Guardiola será uma voz de peso no projecto, um consultor externo. Será mais do que isso. Guardiola leva quatro anos mas o seu rosto faz parecer que são quarenta, no Camp Nou. É um homem honesto e coerente e sabe que a motivação no desporto da alta competição é dificil de conseguir. Ao dar um passo para trás mas não um adeus definitivo, o técnico consegue esse golpe de teatro que pode ter ao seu plantel em alerta máximo. Seguramente que alguns nomes irão sair, Dani Alves e David Villa antes de mais, e que outros vão ver o seu papel alterado pela idade (Puyol e Xavi) ou pelo estilo de jogo que Vilanova vai aprofundar. A chegada de Fabregas, homem que Vilanova conhece bem, promete fazer mais sentido na equipa do próximo ano. O 3-4-3 que tanto tem explorado Pep voltará a ser um 4-3-3 mais dinamico, com Fabregas, Messi e Alexis na primeira linha de fogo e Iniesta, Busquets e Thiago no apoio directo. A cantera voltará a ser a base de tudo, Vilanova já falou várias vezes sobre a admiração que nutre por muitos dos homens da equipa B como Rafinha, Sergi Robert e Grimaldo. E será mais fácil tomar decisões dificeis no balneário sem a condescendência de um Guardiola que é muito menos aguerrido, tanto para fora como para dentro, como é Vilanova. Mas quanto ao ideário táctico é fácil adivinhar que o fantasma de Guardiola aí estará, na preparação dos jogos, no estudo dos rivais. A sala de imprensa será mais bélica do que nunca - Vilanova e Mourinho têm contas a ajustar - e o balneário mais disciplinado, mas no campo pouco mudará. 

 

Guardiola logrou o que Cruyff não conseguiu. Não só em titulos mas, sobretudo, em fazer prevalecer essa ideia que remonta a 1972. O holandês saiu do clube com a intenção de deixar Charly Rexach como seu sucessor mas nunca o conseguiu. Guardiola encontrou o poder suficiente para desafiar a ideia de Rossell e impor Vilanova. Ao manter o seu melhor amigo e co-autor do majestuoso Pep Team, o técnico garante que continua a pairar sobre Barcelona. Não vai treinar outro clube e não fecha a porta a voltar ao Camp Nou pela porta grande. De certa forma cria o "Boot Room" à catalana, com o futuro garantido para os seus homens de confiança, os que partilham o mesmo ADN e a sua linguagem, um espaço onde gravitam as figuras de Juan Manuel Lillo, Lluis Carreras, Luis Enrique e Xavi Hernandez. Se a dinastia guadiolista só agora arrancou é fácil imaginar que, com este plantel e esta fortissima ideia, o Barcelona se mantenha na elite durante largos anos. Como com o Liverpool de Shankly, a ideia triunfa e os nomes vão-se sucedendo e os titulos vão chegando. Quando se abandona a ideia, como sucedeu com os Reds, o desastre é inevitável. Guardiola sabe melhor do que ninguém e tomou para si a responsabilidade de garantir que esse dia não chegue ao Camp Nou. 



Miguel Lourenço Pereira às 17:14 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 25.04.12

Durante 365 dias repetiu-se até à imensa exaustão que a final da edição desta temporada da Champions League tinha local e equipas pré-definidas. O futebol, como sempre, não quer saber de razões, não se importa com prognósticos e não dá a mesma importância às inevitabilidades como podemos pensar. O futebol é e sempre foi para quem mais acredita. O Chelsea ontem, em Barcelona, e o Bayern Munchen, hoje, em Madrid, souberam carimbar o bilhete para a final porque nunca deixaram de acreditar. Suportaram o insulto, o menosprezo e os prognósticos. E no final decidirão a final mais improvável da história.

Era fácil de prever o resultado final ao intervalo.

Os jogadores do Real Madrid tropeçavam uns nos outros, o posicionamento no terreno de jogo era desconcertante e não havia uma figura que chamasse à ordem, que impuse-se a calma. Cristiano Ronaldo fez o que Lionel Messi foi incapaz de fazer em 180 minutos e marcou duas vezes. Mas foi só. A orquestra branca emperrou no segundo golo do seu lider mediático e nunca encontrou um lider espiritual em Mezut Ozil e Xabi Alonso. A defesa tremeu como o Bernabeu há muito não via, Pepe cometeu um penalty que teve tanto de estúpido como de inevitável e os alemães demonstraram ser o que sempre serão, máquinas inesgotáveis de auto-confiança. Olhando para Ribery, Robben, Gomez e, sobretudo, Bastian Schweinsteiger, nunca se viu descrença, nem com o 2-0. Isso foi o que decidiu a eliminatória. O mesmo olhar de Frank Lampard ou Didier Drogba ontem no Camp Nou, o olhar que a crença de superioridade moral dos jogadores do Real Madrid e Barcelona nunca conseguiram transmitir.

O Real Madrid apelou á épica e o seu lider respondeu. Depois o Bernabeu calou-se, acreditando na inevitabilidade da história. E esqueceu-se que a bola continua a rolar. E rolou, nos pés dos alemães, tremendos nas transições, imensos no posicionamento táctico e divinos na capacidade crónica de nunca perder a concentração. Apesar de ter perdido o jogo o Bayern teve sempre as melhores oportunidades, causou sempre os maiores sustos e aguentou as investidas desesperadas de uma cavalaria sem general. José Mourinho perdeu a meia-final da mesma forma que perdeu quando treinava o Chelsea, sem escândalos arbitrais mas com um conservadorismo crónico. A insistência em Angel Di Maria, a incapacidade de alinhar um dueto Benzema-Higuain quando a equipa precisava de um, talvez até de dois golos, foram evidentes. Granero entrou tarde para dar respiro, as linhas pareceram sempre demasiado distantes e só Deus poderia imaginar o que seria do jogo no Allianz Arena se tivesse jogado Marcelo, hoje o melhor jogador merengue no terreno de jogo. O brasileiro foi o único que lutou contra o que parecia inevitável à medida que o relógio seguia. Jogar para os penaltys com uma equipa que, é fácil de ver, não é propriamente forte mentalmente para aguentar a pressão das grandes penalidades. Uma equipa que se desmorona com tremenda facilidade e que diante de um imenso Manuel Neuer, se empequeneceu. 

 

Da mesma forma que o Chelsea mereceu seguir em frente porque acreditou em Munique, também o Bayern Munchen fez mais do que qualquer outra equipa em prova para cometer a possível proeza de sagrar-se campeão da Europa diante dos seus, no belissimo Allianz.

O Chelsea e o Bayern podem não ser melhores que Barcelona e Madrid, não têm plantel, individualidades e técnicos do mesmo nível. E, no entanto, acreditaram. Drogba acreditou mais do que Messi, Schweinsteiger mais do que Ozil e a Di Mateo e Heynckhes não fez falta ser Guardiola e Mourinho para desenhar uma teia de aranha tremendamente eficaz.

O Chelsea entregou a bola ao Barcelona e disse-lhe na cara, faz o teu jogo, tem 99% de posse de bola, dá 14000 passes mas não entrarás nesta muralha e quando eu tiver a bola, mato-te. O Bayern pediu a bola, fez o rival correr, manteve uma defesa de quatro atenta aos contra-golpes e entregou-se ao nervosismo do rival. Ambos souberam lidar com os pontos fracos dos oponentes, ambos acreditaram mais em si do que qualquer outro. O Chelsea e o Bayern assumiram-se inferiores na eliminatória e acreditaram nisso. Essa crença deu-lhes ar aos pulmões, critério nas movimentações e sorte na concretização. Ronaldo e Kaká não costumam falhar penaltys. Messi também não. E no entanto as grandes estrelas, as que valem milhões, empequeneceram perante o trabalho e crença de Ramires ou Toni Kroos, os melhores em campo nos dois duelos, os que melhor souberam ler e assimilar o encontro.

Guardiola enganou-se no onze, enganou-se nas substituições e enganou-se em não ter um plano B. Mourinho pagou a sua falta de coragem, atrasou-se nas substituições e, sobretudo, foi incapaz de transmitir crença e coragem. Nem o projecto desportivo do Barcelona pode estar em causa nem o mérito de uma época tremenda do Real Madrid. Mas o jogo de hoje deixou claro que os merengues não sabem controlar um jogo de 90 minutos, que têm muita dificuldade em fazer respirar a bola e que dependem em excesso de Cristiano Ronaldo para marcar a diferença (e numa noite em que nem dois golos chegam, está tudo dito). O Real Madrid perdeu a eliminatória no péssimo jogo de Munique, na displicência defensiva dos três golos dos bávaros e, sobretudo, na incapacidade de reeditar o espirito de remontada que faz parte da história do clube. A Décima terá de esperar e provavelmente nunca houve uma oportunidade tão grande para o clube somar a sua dezena de trofeus europeus. O Bayern Munchen foi uma equipa, na total acepção da palavra, e assim se manteve durante 210 minutos, sem quebrar, sem cair de joelhos e com a cabeça bem alta. A final de Munique não poderia ter mais digno finalista.

 

Schweinsteiger e Drogba, dois exemplos perfeitos da crença no futebolista total, podem ganhar a sua primeira Champions League. Em vez de Messi e Ronaldo somarem mais troféus ao seu impecável curriculum, em vez de se entregar de antemão o Ballon D´Or 2012, teremos a alegria de ver jogadores com verdadeira fome de glória disputar um jogo que promete ser épico. Torres, Lampard, Drogba, Cech, Schweinsteiger, Ribery, Robben ou Lahm são homens que valem tanto ou mais do que muitas das estrelas milionárias da galáxia, mas sempre se viram condenados a assistir numa final a glória dos seus rivais. Metade deles no dia 19 de Maio poderá esquecer, de uma vez por todas, que alguma vez foi um perdedor. Acreditar neles mesmos permitiu-lhes sobreviver à dor. Acreditar neles mesmos vai levá-los à glória. O futebol, no seu aspecto mais puro, é muito mais isso do que acreditar na superioridade de uma final Barcelona-Real Madrid, o jogo que a imprensa vende como la creme de la creme mas que não transpira nos poros a crença de quem sabe que um jogo de futebol é algo mais do que uma questão de vida ou morte.



Miguel Lourenço Pereira às 22:28 | link do post | comentar | ver comentários (77)

O futebol, como a vida, sabe ser injusto para ser justo, sabe transformar os momentos tristes em explosões de êxtase e sabe, sobretudo, jogar com os sentimentos de quem encontra no beautiful game o espelho perfeito de uma sociedade sem referências morais e humanas. Mas é como os deuses, uma criação dos homens, e portanto peca de falta de memória quando mais interessa. A pior semana desportiva da vida do Josep Guardiola treinador começou a servir para que saiam das grutas os lobos ferozes dispostos a questionar a sua figura. Era de esperar, o futebol funciona assim, e por isso parece que é necessário relembrar a grandeza de um treinador que ajudou a redefinir um jogo mágico.

Guardiola pode ou não seguir, o seu lugar na história é intocável.

Esse é o primeiro ponto para qualquer discussão sobre o guardiolismo e o seu papel na definição do Barcelona actual e no panorama do futebol actual. Não só porque é o treinador com melhor ratio de títulos ganhos em apenas cinco anos como treinador mas, essencialmente, porque é o autor de um trademark desportivo. Se há técnicos que fazem do verbo ganhar o sinónimo perfeito ao seu nome e apelido, o filho de Santpedor fez do estético o seu alter-ego. Quando o ganhar conjugou com a estética, o Mundo rendeu-se. Quando as letras se misturaram numa sopa sem verbos nem predicados, os lobos salivaram. Sem motivos.

O treinador do Barcelona não inventou nada novo e, no entanto, foi mais refrescante do que qualquer treinador de top dos últimos anos. Completou a evolução do ideário lançado por Laureano Ruiz em 1972, seguido por Johan Cruyff e aperfeiçoado por Frank Rijkaard. Pegou no estilo aguerrido e profundamente intelectual do futebol sul-americano depois de ter estudado bem as lições dos maestros Marcelo Bielsa e Juanma Lillo nas suas viagens pelo outro lado do charco. Em Itália, ao lado do seu amigo Baggio e sentado atrás do furioso Capello, soube ler e reler as cartilhas mais básicas do catenaccio. A sua aprendizagem aperfeiçoou o seu próprio ADN e quando Joan Laporta decidiu que era o seu antigo idolo, o capitão do Dream Team, e não José Mourinho quem devia ser o sucessor do injustiçado Rijkaard, a estratégia resultou em pleno. A geração era a mesma e os que foram descartados por motivos extra-desportivos encontraram em casa alternativas. Saiu Edmilson, entrou Busquets. Saiu Deco deu-se o protagonismo a Iniesta. Pedro entrou por Messi que fez de Ronaldinho e Henry substituiu Giuly. Pique rendeu Marquez e Dani Alves, o único alien do projecto, foi a evolução lógica de um Beletti que marcou o golo decisivo da final de Paris fazendo aquilo que Alves tem feito desde que aterrou na liga espanhola. A matéria-prima estava lá, os conceitos também. Guardiola encontrou a dose certa da poção mágica, deu-a a provar aos seus e transformou-os a todos em pequenos Asterix do futebol. O Mundo, inevitavelmente, rendeu-se ao papel homérico do técnico. O mesmo Mundo que hoje começa a esquecer-se. Por dois jogos não ganhos em 220.

 

A coragem é talvez a palavra que melhor define o Guardiola treinador.

Coragem em apostar numa formação desprezada pelas próprias bancadas do Camp Nou. Os mesmos que queriam Xavi fora, que suspeitavam de Iniesta, que não se importaram com o adeus de Guardiola num Barcelona-Celta com o estádio vazio. Os mesmos que não suportavam Louis van Gaal, o homem que lançou Puyol, Xavi, Valdés e Iniesta e os mesmos que estavam fartos com um Frank Rijkaard fundamental em levantar o clube da depressão da segunda era Van Gaal, de Antic e Serra Ferrer e do gaspartismo que destroçou o clube. Busquets, Pedro Rodriguez, Isaac Cuenca, Rodrigo Tello, Thiago Alcantara, Jonathan dos Santos, Marc Montoya, Marc Bartra...nomes próprios do futuro de um clube que será inevitavelmente grande depois de Guardiola, mas forçosamente com as sementes do seu trabalho.

Coragem pela sua inovação táctica, nessa tentativa de fugir do 4-3-3 de Rijkaard e do 4-2-3-1 que quase todos os treinadores seguem piamente actualmente. O seu 4-3-3 sempre foi uma versão invertida do projecto rijkaardiano, o seu 3-4-3 uma concessão ao cruyffismo e o 4-6-0 (ou 3-7-0) a confirmação da sua fé no centro-campista em detrimento da defesa e ataque. Com esses variantes Guardiola destroçou cada um dos seus rivais, venceu 13 de 18 títulos em quatro anos e rompeu todos os registos.

Coragem em dar a cara por uma instituição que viveu os complicados dias finais do laportismo e que nunca se entendeu com o ideário de Sandro Rossel. Coragem em entrar em guerra com o seu antigo amigo José Mourinho na sala de imprensa do Bernabeu, de acreditar cegamente nos seus jogadores e de manter um discurso igual hoje ao que tinha como jogador, há mais de 20 anos. Esse Guardiola marcou a história do futebol de forma épica e inevitável e perder uma liga de quatro e duas Champions de duas não pode deixar cair essa fria realidade no mais puro esquecimento.

Mas claro, o problema não é apenas esse. Nos últimos quatro anos a imprensa e o próprio Barcelona entraram numa espiral perigosa de aperfeiçoamento moral, do qual Guardiola também fez parte. A demonização de qualquer estilo de jogo que não fosse o da posse de bola, o desprezo por qualquer jogador que ofuscasse a Lionel Messi, as palavras azedas com as equipas que se queixaram, com razão, de muitos benefícios arbitrais, especialmente nas provas europeias, mostraram um lado menos agradável. O lado que muitos dos que esperavam uma semana assim querem sacar à luz. Guardiola enganou-se ao seguir esse caminho mas sempre foi coerente, a maioria da imprensa (especialmente a de Barcelona) e dos adeptos por esse mundo futeboleiro fora é que realmente cometeram o erro de acreditar na história do bem e do mal, da perfeição dos pequenos deuses de blaugrana face à crueza humana de todos os outros. Pep, como qualquer outro técnico, engana-se. Enganou-se tacticamente nos últimos jogos, não só pelo dispositivo no terreno de jogo (melhorou de Stanford Bridge ao jogo com o Real Madrid e daí ao jogo com o Chelsea, mas não foi suficiente). Errou ao renunciar ao plano B, ao plano C, ao plano D. A sua devoção absoluta à figura de um Messi que é intocável no balneário do Barcelona, dentro e fora do clube, como nunca foram Ronaldinho, Rivaldo ou Romário (cujas saídas nocturnas eram filtradas pelo clube) levou-o a fechar os olhos a outros jogadores, outras ideias. Deixou de acreditar na imagem do ponta-de-lança (abdicou de Etoo, virou as costas a Ibrahimovic, nunca acreditou em Bojan, suspeitou de Villa), apostou em excesso no jogo interior e desgastou em excesso os seus jogadores-chave (Xavi, Iniesta, o próprio Messi estão fisicamente destroçados há um mês) e mesmo a sua aposta na defesa de três encontrou-se com um plantel curto que obrigou a adaptar a Mascherano e a dar demasiados minutos a Adriano, dois jogadores fora de posição. Esses erros de gestão, tão comuns na vida de qualquer grande treinador, destoam da imagem imaculada vendida sobre a figura de um Guardiola que agora, seguramente, irá provar noutras paragens o seu imenso génio.

 

Guardiola sabe bem a casa que habita. Os adeptos do Barcelona devoram os seus com mais ferocidade do que qualquer clube do mundo. Van Gaal é desprezado, Cruyff durante muitos anos foi assobiado e Frank Rijkaard é o eterno esquecido. Na época do holandês o onze blaugrana venceu e jogou ao mesmo nível que o Pep Team. Ronaldinho foi, provavelmente, tão ou mais grande do que Messi tem sido e Etoo, Deco, Xavi e companhia faziam parte da equipa de sonho de qualquer adepto. E no entanto o cansaço físico e emocional destroçou um projecto destinado a governar sine die o futebol mundial. Guardiola sabe que um cenário similar pode voltar a suceder com a geração actual e se bem que acredite que seguirá, não o fará desconhecendo o ano complicado que o espera. Isso é o futebol de presente e de futuro. O passado é intocável e belo, e a corrida de Guardiola em Stanford Bridge, as suas lágrimas na final do Mundial de Clubes, as goleadas ao Real Madrid e as duas finais europeias diante do Manchester United são apenas pequenas gotas num oceano de épica histórica digna de uma gesta medieval única que emocionaram qualquer adepto do futebol. Poucos treinadores, num jogo que é sobretudo de jogadores, são capazes de gerar essa admiração e devoção. Ele é um deles e sabe-o, sente-o e vive-o. Guardiola, como qualquer outro técnico, não é perfeito e esta época tem cometido mais erros do que é habitual. Mas nem Sacchi, nem Ferguson, nem Shankly, nem Clough, nem Mourinho, nem Herrera, nem Santana, nem Michels, nem Lobanovsky, nem Menotti, nem Cruyff o foram e a história sabe dar-lhes o devido valor. Guardiola será sempre um dos grandes técnicos da história do futebol porque soube ler o passado para projectar o futuro.



Miguel Lourenço Pereira às 00:01 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 23.04.12

Poucas equipas jogam de forma tão convincente no futebol europeu como os homens do Westphalen. E no entanto poucos se atreveriam a sonhar com um Bicampeonato que não acontecia desde 1996. Mesmo desiludindo na Europa e sem o mentor de jogo da brilhante época passada, os jogadores de Jurgen Kloop foram eximios em provar que deles é o rosto de uma nova era no futebol alemão. Muitos não se deram conta da importância do feito, mas este pode ter sido o primeiro passo para o futebol germânico deixar de ser um monólogo institucional.

O Borussia de Dortmund venceu duas ligas consecutivas apenas uma vez na sua história antes da tarde do último sábado.

Foi entre 1994 e 1996 que Ottmar Hitzfeld resgatou um clube histórico da mediocridade e o transformou num potentado europeu. A equipa de Kolher, Riedlle, Heinrich, Herrelich, Chapuisat e companhia não desafiou o dominio interno de um Bayern Munchen em profunda crise moral como se transformou no terceiro clube alemão a proclamar-se campeão europeu, depois dos bávaros e do Hamburg, na final de Munique em 1996 frente à Juventus de Turim. Dezasseis anos depois os homens do Ruhr voltaram a celebrar um bicampeonato (em 2002 também se sagraram campeões, antes de cair na dura bancarrota) mas o mais curioso é que, desde então, nunca mais nenhum clube alemão se voltou a sagrar bicampeão. Também é verdade que antes da gesta do Dortmund, era preciso recuar a 1983 para encontrar outro bicampeão alemão, o Hamburg, outra equipa que confirmou o dominio nacional com um titulo europeu. São 30 anos de história em que, apenas por duas vezes, o titulo ficou nas mãos de quem o detinha. A não ser que o clube fosse o Bayern Munchen.

Os bávaros eram uma equipa de prestigio antes dos anos 40 e viveram duas décadas na obscuridade até que Franz Beckenbauer os liderou da 2.Bundesliga à glória mundial em meia dúzia de anos. Desde 1969 que o clube de Munique conquistou 21 titulos de campeão. Nesse periodo de tempo logrou por três vezes um Tricampeonato e por outras três vezes um Bicampeonato. Um monopólio ensurdecedor numa das ligas que apresenta um maior número de diferentes campeões do Mundo. Desde esse 1983, dessa dobradinha dos homens de Hernst Happel, que foram campeões alemães oito clubes diferentes, dos quais apenas o próprio Hamburg e o Wolfsburg não lograram repetir, mais tarde no tempo, o seu primeiro troféu. Uma poderosa classe média a que teriamos de juntar Schalke 04 e Bayer Leverkusen, os eternos segundos dos últimos 20 anos, e projectos que o tempo destroçou como o Eintracht Frankfurt dos anos 90 ou o Hertha Berlin do inicio da década passada. Mas sobre todos eles sempre pairou a sombra do Bayern Munchen. Quando a época arrancou poucos imaginavam que fosse este Borusia Dortmund a equipa capaz de quebrar esta malapata. Especialmente tendo em conta o potencial do plantel dos bávaros, confirmado com a sua presença na meia-final da Champions League, algo que pode ser histórico caso Jupp Heynckhes e os seus aguentem a investida do Real Madrid no jogo de quarta-feira.

 

Por isso mesmo este titulo do Dortmund é ainda mais relevante que o da temporada passada.

Em 2011 Kloop montou uma equipa com um futebol tremendo e com uma juventude extasiante mas muitos viam nos homens de amarelo apenas uma moda passageira que o mercado e a tirânia bávara trataria de destroçar. O timido arranque de campeonato e a péssima performance na Champions League pareciam adivinhar isso mesmo. A equipa sentia a falta do critério de Nuri Sahin, a grande incógnita desportiva do ano, e os golos tardavam em chegar. Parecia que o Bayern Munchen apenas teria de aguentar a concorrência de outro Borusia rejuvenescido, outro velho rival, o de Monchengladbach. 

Mas Jurgen Kloop demonstrou ser um estratega eximio. Só lançou definitivamente Ilkay Gundogan quando este mostrou poder oferecer algo similar ao que aportava Sahin. Entregou o jogo ao génio precoce de Mario Gotze, nunca desistiu da verticalidade de Kevin Groskreutz e trocou os golos de Barrios pela eficácia de Lewandowski. A aposta foi ganha. O equilibrio de Perisic, Hummels, Subotic, Kehl e Bender foi fundamental na reviravolta tanto como o génio criativo do ataque. O Dortmund manteve-se fiel ao seu estilo de jogo ofensivo, não se veio abaixo nos tropeções e de repente encontrou-se só na liderança. A partir daí foi só gerir os tempos, lidar com o ataque desesperado do Bayern, derrotá-lo no confronto directo e contar as horas. Sem gastar as fortunas do passado, o clube entendeu que o modelo a seguir tinha de ser o mesmo que levara um clube a viver a sua pior hora financeira aos milhões da Champions. O pouco dinheiro ganho na Europa ajudou a sanear as contas, a impedir a saída dos melhores jogadores e a captivar algumas das novas promessas teutónicas. Marco Reus promete ser, no próximo ano, um reforço de luxo, algo que nem o eterno rei do mercado alemão conseguiu captivar a juntar-se aos Schweinsteiger, Muller, Robben, Ribery e companhia. Se Mario Gomez foi o homem golo, Mario Gotze foi o jogador mais completo que passeou a sua classe pela prova ao longo dos nove meses de competição, provando certa a ideia de Kloop em deixar sair Sahin sabendo que ficaria com um jogador menos constante mas muito mais incisivo no jogo de ataque. Á sua volta o espirito coral do Dortmund não destoou e os números não enganam. Os 25 jogos imbatidos do homens de Dortmund são cartão de visita suficiente para acreditar na solvência do seu projecto.

 

Apesar dos milhões que gravitam à volta do Allianz Arena fazerem, justamente, o Bayern o eterno favorito da próxima temporada, ninguém se atreve agora a pensar duas vezes antes de colocar o bicampeão à sua altura moral. É possível que Jurgen Kloop queira emendar a mão e apostar forte nos palcos europeus, com os consequentes ganhos financeiros que tanta falta fazem no Westphalen. Mas a Bundesliga sabe que está perto de viver um ano histórico, o primeiro desde 1977 quando pela última vez um clube que não o monstro de Munique, o Borusia Monchengladbach, venceu três campeonatos de forma consecutiva. A história é traiçoeira mas um petisco apetecível, algo que Klopp seguramente não vai querer deixar de provar.


Categorias: , ,

Miguel Lourenço Pereira às 18:59 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 20.04.12

O futebol é o desporto colectivo onde a individualidade está mais bem vista. Olhando para o leque de desportos de equipa talvez o basket, pelo mediatismo do mercado norte-americano, goste de sentir-se igualmente rodeado de heróis. Mas no mundo do tapete verde, esférico redondo e 11 contra 11 o poder mediático do "eu" supera talvez demasiadas vezes o mérito logrado pelo "nós". No entanto vivemos uma era onde, pela primeira vez em muitos anos, há um verdadeiro duelo de "eus" que estimula o "nós" que prende a audiência e que, nesta luta de titãs, definirá, de um modo ou de outro, a história.

 

Faltam cinco jogos para terminar a liga espanhola. Dois para o pontapé final na Champions League.

E a luta continua, prolonga-se pela eternidade mental de dois jogadores que se superam a cada respiração, que exploram todas as falhas do rival, dos rivais, deles mesmos, para continuar a fazer a diferença. E há muitos anos que dois individuos, de forma paralela no tempo e espaço, não eram tão fundamentais em establecer um verdadeiro abismo entre mundos. Se é verdade que o orçamento de Real Madrid e Barcelona é descomunal, mesmo para os padrões europeus, a cada jogo que se sucede fica a sensação de que Messi e Ronaldo jogam cada vez mais outro tipo de jogo. Claro que o colectivo ajuda - e aí Messi ganha com Xavi, Iniesta, Sanchez, Fabregas, Busquets comparado com Higuain, Benzema, Ozil, Kaka e Alonso - e já se viu que sem uma estrutura forte nem um nem outro conseguem romper os maleficios das suas respectivas selecções. Uma lembrança de que este ainda é um jogo colectivo. Mas ás vezes não parece.

Cristino soma 41 golos. Messi também.

Ambos estão a um de igualar o recorde histórico que o português marcou no ano passado, esses números brutais de outra era. E a facilidade com que acumulam hat-tricks, pokers e golos para marcar a história, permite imaginar que não tardará muito e ambos estarão por competir em entrar na meia centena de golos ao ano numa prova onde ainda só há 38 jogos. Messi reina igualmente na Champions League e já superou, com 24 anos, o recorde histórico de César como máximo goleador blaugrana. Em sete anos - e muitos se esquecem que o argentino já anda há tanto tempo na elite - Messi quebrou rotinas, records e percepções, mudou a posição no terreno de jogo, ajudou a mutar o jogo do Barcelona e tornou-se no simbolo de uma geração de futebolistas. O espirito trota-mundos de Ronaldo - Lisboa, Manchester, Madrid - impede-o de ter esse recorde local, mas os números logrados em Manchester, primeiro, e agora em Madrid, não deixam lugar a dúvidas. É o único jogador da história da liga espanhola que supera, em quase três anos, uma média de mais de um golo por jogo.

Registos monstruosos que ajudam a explicar o imenso fosso que se abriu entre Real Madrid, Barcelona e o resto.

 

O desporto, seja individual ou colectivo, gosta de manos a manos porque, no fundo, deriva da mesma filosofia homérica que toda a Humanidade.

Em cada história desportiva há um Aquiles e um Heitor, um herói e um vilão, uma tendência profunda a catalogar entre Mozart e Salieri quem se defronta com a mesma paixão e emoção na arena.

Desde sempre os dois maiores clubes espanhóis dominaram o torneio nacional e revelaram-se pesos pesados nos palcos europeus. E sempre contaram com grandes orçamentos, técnicos, planteis e, sobretudo, estrelas que marcaram o jogo. Por ambos passaram os melhores jogadores da história com a excepção de Pelé, Garrincha, Best e Beckenbauer. E no entanto, talvez com a excepção de Alfredo Di Stefano, nunca nenhum deles foi tão fundamental em criar um fosso constante com os restantes rivais. Se já é raro na história do futebol espanhol que os dois clubes coincidam nas suas melhores versões no tempo (só entre finais dos anos 50 e principios dos 60 se viveu a mesma realidade), que o buraco pontual aberto com os restantes concorrentes seja recorrentemente de 20 pontos (desde a era Pellegrini) é abrumador. Messi e Ronaldo são a resposta para quem pensa que essa realidade não se prolongará em excesso no tempo. Pelo menos enquanto estes dois monstros do futebol mantenham a sua guerra pessoal contra o outro e contra a história.

Messi sofreu durante alguns anos a suspeita de que era fruto exclusivo de uma grande geração de jogadores, a mesma que ajudou Rijkaard a ser campeão europeu e que depois foi a base do triunfo da Espanha em 2008 e 2012. E isso não deixa de ser verdade. Em 2010 a vitória do argentino na corrida ao Ballon D´Or foi mais mediática que real e no ano anterior Xavi Hernandez foi a verdadeira batuta do primeiro Pep Team, quando Messi ainda jogava colado à banda direita com assiduidade e a veia goleadora de Etoo ainda se fazia notar. Mas ninguém pode questionar que, desde há ano e meio para cá, é o argentino que leva a sua equipa ás costas. A idade e os problemas fisicos de Xavi e Iniesta (muito irregular este ano) não se têm notado porque Messi tem resolvido como nunca e os seus números, em golos e assistências explicam-no bem. Num Barcelona sem Villa e com demasiados problemas para formar uma defesa sólida, esperava-se mais de Pedro e Fabregas, muito irregulares. Também Sanchez alterna semanas intensas com meses fora de combate. E no meio de tudo é a linha Valdes-Puyol-Busquets-Messi que tem sustentado o ano mais curioso da história do Pep Team. O ano em que o Barcelona deve muito mais ao argentino que este deve ao entorno que sempre o potenciou.

Ronaldo viveu um processo mais complexo. Saiu de uma equipa feita à sua medida para entrar num ninho de vespas onde teve de ganhar o lugar de estrela a pulso contra a imprensa, muitos dos adeptos e os detractores do presidencialismo de Perez. No primeiro ano uma lesão manteve-o fora dois meses da luta e dos números mágicos de Messi. No segundo bateu o recorde histórico do Pichichi e superou o trauma de falhar contra o rival nos duelos directos, ganhando uma Copa del Rey com o golo decisivo. Esta temporada foi sempre o melhor blanco contra os blaugranas (marcando três golos nos últimos três encontros) e agora mede-se de igual para igual com a sua nemésis em todos os titulos em disputa. Uma progressão real que também se explica na forma como Ronaldo pegou no Real Madrid quando o conservadorismo táctico de Mourinho e os claros problemas fisicos do plantel se começaram a fazer sentir a partir de Fevereiro.

 

Mantendo o ritmo intenso de jogos nas pernas e de golos nas redes, a monstruosidade dos números dos dois jogadores promete superar-se jornada após jornada. O próximo fim-de-semana vivierá mais um duelo directo entre ambos, um jogo onde o colectivo certamente será mais importante que o individuo, mas em que todos os focos estarão nestes dois génios do futebol contemporâneo. É dificil dizer quando jogadores tão próximos em todos os niveis quem é melhor. Garrincha foi mais artista que Pelé mas talvez este tenha sido mais completo. Beckenbauer e Cruyff tinham a mesma inteligência e carisma, o holandês mais velocidade e o alemão mais regularidade. Entre Zidane, Ronaldo e Ronaldinho explica-se a metamorfose fisica e táctica do jogo. Messi e Ronaldo vivem esse jogo da eterna comparação, dessa mistura entre números e ideias, desse jogo de reflexos e reacções. O que Guardiola diz, e com toda a razão, é que o facto do génio de um alimentar o génio do outro forçosamente permite antever um duelo titânico sem fim à vista. A diferença entre os dois jogadores e os seus respectivos emblemas pode aumentar, mas nenhum deles se vai dar conta. Estão demasiado preocupados a tentar não ver o outro no espelho reflectido e a olhar para a história com a autoridade dos inquestionáveis.



Miguel Lourenço Pereira às 13:52 | link do post | comentar | ver comentários (4)

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
11

13
15
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

O renascer de Ben Arfa

O Calcio procura um novo ...

El Maestro de La Maquina

A divindade de Radamel Fa...

Puyol, trovador que merec...

A Liga do ataque de Mouri...

Hodgson, o lado mais cinz...

A Liga do Surrealismo

Futebol Magazine

Quando no Calcio não mand...

Últimos Comentários
Caro Miguel,Mais um texto elucidativo da qualidade...
Orensano,Lo mismo dicen muchos, muchos adeptos, ju...
Falcao, apellido luso.......
Tengo 48 años, nací en 1963; para perpétua ciberme...
El gran José Mourinho le ha comido la moral al de ...
Posts mais comentados
Arquivo
.Em Destaque


UEFA Champions League

UEFA Europe League

Liga Sagres

Premier League

La Liga

Serie A

Bundesliga

Ligue 1
.Do Autor
Cinema
.Blogs e Sites
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Back Page Football
Declan Hill Blog
El Enganche
El Fichaje Estrella
El Regate
Estádio Santomé
Football Economy
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
In Bed With Maradona
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Ojeador Internacional
Pitch Invasion
Pitons em Riste
Porta 19
Planeta de Fútbol
Planeta de Futebol
Play the Game
Portistas de Bancada
Rinaldi´s Blog
Reflexão Portista
RetroMBM
Run of Play
Snap, Kaká and Pop
Soccer Lens
Spanish Football
Stadium Porn
The Equalizer
The Two Unfortunates
Zonal Marking
Transparency in Sport

Outros Blogs...

A Flauta Mágica
A Cidade Surpreendente
Cristiano Ronaldo
E Deus Criou a Mulher
Pa Lamber
Renovar o Porto
My SenSeS
Tralha Útil
.Futebol Nacional

ORGANISMOS
Federeção Portuguesa Futebol
APAF
ANTF
Sindicato Jogadores
.Imprensa

IMPRENSA PORTUGUESA DESPORTIVA
O Jogo
A Bola
Record
Mais Futebol

IMPRENSA PORTUGUESA GENERALISTA
Publico
Jornal de Noticias
Diario de Noticias

TV PORTUGUESA
RTP
SIC
TVI
Sport TV
Golo TV

RADIOS PORTUGUESAS
TSF
Rádio Renascença
Antena 1


INGLATERRA
The Guardian
Times
Evening Standard
World Soccer
BBC
Sky News
ITV
Manchester United Live Stream

FRANÇA
France Football
Onze
L´Equipe
Le Monde
Liberation
Soccerway

ITALIA
Gazzeta dello Sport
Corriere dello Sport

ESPANHA
Marca
As
Mundo Deportivo
Sport
El Mundo
El Pais
La Vanguardia
Don Balon

ALEMANHA
Kicker

BRASIL
Globo
Gazeta Esportiva
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Em.Jogo.MLP@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO