Quarta-feira, 16.04.14

Sonhos Dourados - 20 Mundiais, 20 Histórias.

Aproveito para anunciar hoje, oficialmente, o sucessor literário do Noites Europeias.
A minha nova aventura em papel que vai servir como o anti-guia perfeito para o Mundial de Futebol do Brasil.

É uma viagem pelos vinte Mundiais da história (sim, o que nunca se disputou também lá está) da forma mais alternativa que podem imaginar. Por cada Mundial uma história radicalmente diferente da litúrgia habitual. Um relato original, fresco e para verdadeiros adeptos de futebol. Uma viagem "hornbiana" pela história da mais mítica competição desportiva do Mundo.

O livro estará à venda a partir da segunda quinzena de Maio. Será a leitura obrigatória antes do arranque do Mundial, a 12 de Junho, e o companheiro perfeito para desfrutar do maior espectáculo do Mundo. A partir de 2 de Maio será criada a página oficial do livro no Facebook que convidamos a que sigam. Aí encontrarão todos os detalhes do novo projecto. Para já fica o primeiro teaser do que será a capa oficial do livro que divulgaremos no arranque do próximo mês com todos os detalhes de como e onde podem conseguir o livro

Entretanto a página do @NoitesEuropeias continuará, naturalmente, activa. A magia das competições europeias não tem fim e o espectáculo dos Mundiais terá o seu espaço. São as duas maiores paixões de qualquer adepto de futebol e com o selo da Amor à Camisola, os protagonistas das nossas primeiras aventuras inesperadas.

Espalhem a Palavra, o Mundial vem mais cedo e vem de uma forma muito especial!

 



Miguel Lourenço Pereira às 18:19 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 01.04.14

Anfield Road não celebra um título de liga desde o ocaso dos anos oitenta. O Calderón está à quinze anos à espera de voltar a Neptuno. Roma e Sporting, flamantes equipas nos princípios do milénio, voltam a sentir-se protagonistas. 2014 pode transformar-se num dos anos mais transcendentes do futebol europeu recente. Enquanto o dinheiro continua a sufragar títulos e transferências milionárias, permanece vivo um espaço emocional para a boa gestão desportiva demonstrar que é uma alternativa real ao mundo dos novos-ricos.

 

O mais provável é que Maio se despeça com os campeões do costume.

Manchester City, Barcelona, Juventus e SL Benfica repetirão títulos recentes. Tèem sido, inevitavelmente, figuras de proa das suas respectivas ligas. São os clubes que mais investem, os que melhor souberam contornar os obstáculos. Serão campeões justos e previsíveis. Mas este ano terão também sobrevivido a uma dura pugna com inusuais suspeitos. Com clubes que, sem as mesmas armas financeiras e argumentos desportivos, encontraram um atalho fundamental para permanecer vivos. A memorável temporada de Reds, Colchoneros, Giallorossos e Leões é a prova de que se pode vencer no mundo do futebol com meia dúzia de tostões e cabeça. Sobretudo, cabeça. A época desastrosa de FC Porto, Real Madrid, Manchester United e AC Milan, os mais lógicos rivais aos mais que possíveis ganhadores do ano, foi reflexo de uma soma de péssimas decisões desportivas. O dinheiro estava lá. Todos eles gastaram e gastaram muito. Mas não gastaram bem. Sobretudo, entregaram as rendas da equipa a homens que não estiveram a altura do desafio. Ao contrario das grandes surpresas do ano que devem o seu sucesso inesperado mais aos seus hábeis treinadores do que, propriamente, ao trabalho dos seus dirigentes. Nos bancos de suplentes o papel do treinador é habitualmente relativizado em prole das estrelas dos relvados. Mas uma constelação de grandes nomes nem sempre faz uma equipa. E muito raramente uma equipa funciona sem um grande treinador. Brendan Rodgers, Diego Simeone, Rudy Garcia e Leonardo Jardim foram, destacadamente, os melhores generais das suas respectivas ligas. Podem ganhar ou perder no final da batalha. Mas isso será um detalhe. Será culpa do abismo financeiro que existe entre os seus clubes e os rivais. Estarem a lutar em Abril por algo que os seus adeptos nem sonhariam, já é mais do que uma vitoria moral.

 

Das quatro equipas que deram cor a temporada europeia, parece mais evidente que Sporting e Roma estão descartados da corrida pelo titulo. No entanto, os seus casos sao os mais impressionantes. No caso dos romanos, a equipa deu um salto de gigante na hierarquia do Calcio. O investimento norte-americano foi ponderado e o clube continua a depender, talvez em excesso, do peso emocional de Francesco Totti, o eterno rei de Roma. Mas á volta do seu herói das arenas, Garcia montou uma equipa jovem, barata e ambiciosa que durante largas jornadas apresentou o melhor futebol do Calcio. Depois de um arranque para os livros de história, a equipa da Loba perdeu o gás e não aguentou a concorrência com uma Juventus que tem um dos melhores meio-campos do Mundo, com Pogba e Vidal como escudeiros de Pirlo. O titulo Bianconeri ja se adivinhava, a oposição romano foi a grande surpresa especialmente com o pedigree dos clubes lombardos e o grande investimento realizado pelo Napoli. Sem tanto dinheiro, sem tantos nomes sonantes, Garcia soube dar a batuta da equipa a quem podia fazer a diferença. E reduziu em campo diferenças abissais fora dele. Leonardo Jardim fez o mesmo. 

O Sporting dos últimos anos foi sempre um pálido reflexo da herança orgulhosa do Leão. Depois de dois títulos em três anos e de uma geração promissora, desmantelada cedo demais, o hara-kiri institucional do clube lisboeta foi assustador. Para muitos a recuperação seria lenta. O sucesso desportivo de 2014 apanhou todos de surpresa inclusive o flamante novo presidente do clube. Sem gastar praticamente nada no defeso, com uma equipa de jovens promessas e segundas filas, o Sporting tem sido o único clube a dar batalha ao Benfica de Jesus, o mesmo que sobreviveu a um annus horribilis para encontrar-se com uma temporada mais plácida do que podia pensar á partida. Eliminados pelos Águias depois de um memorável duelo na Taça de Portugal, os Leões mantiveram-se de pé na luta pelo titulo de liga até ao fim, algo que não acontecia há cinco longos anos. Jardim, de longe o melhor treinador do campeonato, encontrou em William Carvalho e Freddy Montero os seus melhores aliados. O Sporting pode, pela primeira vez em doze anos, acabar a época à frente do FC Porto. Com um orçamento muito inferior, mas com um treinador muito melhor. Os Dragões deitaram por terra o Tetra no dia em que trocaram o pouco espectacular mas fiável Vitor Pereira por Paulo Fonseca. O maior erro de gestão desportiva de um Pinto da Costa cada vez mais ausente e de uma “estrutura” que falhou num momento delicado no processo de escolha e de substituição (tardia) do principal (mas não único) calcanhar de Aquiles do FC Porto 2013/14. O titulo nunca foi real, a temporada do Benfica foi mais tranquila mas o que o coloca no mapa o genuíno fracasso dos azuis da Invicta é a sua incapacidade de ultrapassar uma equipa leonina que foge determinado para um pote de mais de 10 milhões de euros que serão fundamentais para salvar o clube. Contra todas as expectativas.

 

Do outro lado da barricada, o das equipas que sonham até ao fim, estão Atletico de Madrid e Liverpool. 

Os colchoneros, desde que Simeone aterrou no Manzanares, têm recuperado o sabor das vitorias.

Á Liga Europa de 2012, sucedeu-se a Copa del Rey de 2013 em casa do histórico rival, esse que nao batiam à quase quinze anos. Podia ser sonho de curta duração. Mas não foi. O arranque do Atleti na liga foi convincente, vencendo no Bernabeu e empatando em casa com o Barcelona. A caminho do sprint final, os madrilenhos lideram a classificação. Contra o Real dos 100 milhões gastos em Bale, o Real de Ronaldo, Benzema, Modric. E contra o Barcelona dos 100 milhões (e continuem a contar) de Neymar, o Barcelona de Messi, Iniesta e Xavi. Com um orçamento infimo, um plantel de gladiadores e um treinador com alma de potrero, o Calderon sonha. O Atletico está na luta pela Champions League – pela primeira vez desde 1997 – e pelo titulo de liga que não celebra, precisamente, desde essa etapa. Quando Simeone ainda capitaneava em campo o que agora ordena do banco. Não haveria campeão mais justo numa liga de milhões atirados ao lixo do que uma equipa que com negócios oportunos, jogadores da cantera e o símbolo do “Ardaturanismo” bate o pé aos grandes e devolve a ilusão dos días do SuperDepor, do Valencia campeão e da equipa do Doblete.

Em Inglaterra, o Liverpool vive um estado distinto de euforia. Dominadores absolutos do futebol ingles durante tres décadas, os Reds vivem vinte e quatro anos de desespero. Nenhum titulo de liga, dois títulos continentais e muitos sonhos desfeitos pelo caminho. A Kop espera ansiosamente pelo momento em que o Youll Never Walk Alone volte a ser entoado ao som de “We are the Champions”. Mas ao contrario dos espanhóis, o sucesso parece ter caído do céu. Depois de uma época passada sofrível, não muito diferente das anteriores, os homens de Rodgers voltam a ser protagonistas. Devem-no aos golos de Suarez, ao espírito guerreiro de Sturridge, à aparição de Sterling e ao talento de Coutinho. Devem-no à liderança de Gerrard. E a gestão de Rodgers. Aplicando os conceitos defendidos pela filosofía Moneyball, os gestores do Liverpool encontraram o caminho do arco-iris de forma surpreendente, quase como por acaso. Lideram a Premier League em Abril pela primeira vez em duas décadas. E só dependem de si para serem campeões. Nos duelos directos com os milionários de Londres e Manchester vão dar forma ao sonho. Podem ainda acabar fora dos postos Champions. Mas Anfield já so pensa no futuro que lhe relembra o passado. Nesses dias de glória perdidos no tempo em que o rio Mersey adormecia embriagado de euforia. No primeiro ano sem Ferguson no activo – com um Manchester United em autodestruição, um Arsenal eternamente inconstante e um Chelsea em reconstrução -  os Reds podem voltar a ser campeões. O mundo torce por eles.

 

No final os vencedores podem continuar a ser os de sempre e tudo o que se viveu em meses de competição acabar numa mera anedota sem repercussões futuras. Mas a gestão desportiva brilhante destes quatro clubes aponta um caminho que cada vez mais equipas vão ter de seguir para reduzir o fosso das grandes fortunas que assaltaram o futebol e abriram caminho a uma nova hegemonia reduzida a petro-dolares, rublos e velhos nobres com créditos ilimitados na banca. Os que acreditam num futebol diferente vão sempre tomar partido nesta luta. A vitoria de um, nem que seja, será celebrado seguramente em casa dos outros. Todos sabem que não lhes resta mais do que continuar a lutar.



Miguel Lourenço Pereira às 18:32 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Terça-feira, 25.03.14

Em 1976 o Real Madrid foi campeão de Liga perdendo os dois jogos com o Barcelona. A equipa blaugrana, alimentada por um inconstante Cruyff, foi demasiado irregular para capitalizar a sua superioridade em campo. Quase quarenta anos depois a situação pode repetir-se. O Barcelona foi superior ao rival histórico, operando uma das mais memoráveis reviravoltas da história dos Clássicos. A incapacidade preocupante do Real Madrid de Ancelotti em ganhar a rivais directos deixa de ser um problema com um calendário mais acessível que os rivais. Ironias do destino.

Desaparecido à um bom punhado de Clássicos, Lionel Messi montou o seu show pessoal num dos estádios onde é habitual ser mais eficaz.

A exibição galáctica do argentino é uma grande noticia. O "Diez" do Barcelona parece recuperado dos problemas físicos que o mantiveram fora dos relvados nos últimos meses. Sem estar ao seu melhor, Leo foi decisivo. Não tanto pelos golos - dois deles em grandes penalidades marcadas de forma perfeita - mas pelo dinamismo que deu ao ataque blaugrana. Uma brilhante assistência para o golo inaugural. A troca de bola dentro da área com Neymar que permitiu o empate. O passe espantoso para o brasileiro, segundos antes deste chocar contra um Sérgio Ramos anedótico. Tudo isso ajuda a entender bem a sua importância no modelo de jogo do gigante catalão. Sem Messi durante várias semanas, a equipa de Martino ainda assim consegue estar a um ponto do topo da tabela classificativa. Um exercício de colectivismo mais do que interessante. Mais do que esquecido. Messi foi o rei e senhor do Bernabeu com um jogo autoritário e incisivo. Mas salvo Neymar - a anos-luz do seu melhor e titular, no lugar de Pedro, provavelmente mais por questões politicas que desportivas - a exibição colectiva do sector medular e de ataque dos blaugrana foi exemplar. Sobretudo a de Andrés Iniesta.

O manchego foi fundamental na forma como o jogo do Barcelona rompeu as linhas montadas por Ancelloti. Engoliu literalmente o "verde" Carvajal uma e outra vez. Apontou um primeiro golo tremendo e sacou do nada um penalty perfeitamente evitável, especialmente para alguém tão habituado a mil batalhas como Alonso. Durante os restantes minutos o homem que deu aos espanhóis a alegria das suas vidas venceu o seu duelo particular com o jogador mais em forma dos merengues em 2014, o croata Modric. Foi uma luta de titãs. Mais do que um duelo Messi-Ronaldo (desta vez, não chegou a haver realmente duelo) o jogo decidiu-se com a superior influência de Iniesta. O modelo de jogador guardiolano a manter de pé as variantes de Martino e o génio individual de Messi.

 

O Real Madrid conseguiu algo espantoso. Por duas vezes deu a volta a um marcador adverso. E conseguiu perder o jogo.

O que no reinado de Mourinho era impensável, com Ancelotti torna-se habitual. O italiano não ganha ao Barcelona há dez anos. Esta época perdeu ou empatou todos os jogos importantes da liga. Duas derrotas com os catalães, uma derrota e um empate com o vizinho do Manzanares e um empate em San Mamés. Zero vitórias no top four é algo verdadeiramente preocupante. E, ainda assim, os madrilenos dependem de si para ser campeões. A regularidade nos restantes duelos tem servido para a equipa da capital tapar as suas deficiências nos jogos a sério. Ronaldo, depois do mais do que merecido Ballon D´Or (se colocamos a Ribery fora de equação), baixou o seu nível de participação colectiva. Continua a marcar porque não sabe fazer outra coisa. Mas o seu jogo associativo tem decrescido e a equipa ressente-se. Bale, autor de algumas excelentes exibições, foi uma nulidade e notou-se a falta de Jesé, um jogador que podia ter sido fundamental para aproveitar as eternas deficiências defensivas dos blaugrana. Que o Real tenha marcado três golos (podiam ter sido mais) só é possível porque o Barcelona continua a ser uma equipa incapaz de solucionar os seus problemas defensivos. É a grande interrogação para os grandes duelos europeus que se avizinham contra equipas mais organizadas que o Real Madrid.

A péssima exibição de Carvajal (responsável por dois golos) e Marcelo foi coroada com a enésima infantilidade de Sérgio Ramos, que não só cometeu penalty sobre Neymar - independentemente da intensidade do toque e do teatro inevitável do brasileiro - como fê-lo sabendo que a expulsão era a única opção. No final o central (e Ronaldo) queixaram-se amargamente da arbitragem. Não tiveram razão. Se houve algum penalty mal assinalado esse foi o de Ronaldo, uma falta claramente fora da área (isso sim, a Alves faltou o cartão) e que permitiu ao Real colocar-se de novo em vantagem. Undiano Mallenco, errou em várias faltas e na distribuição dos cartões mas nos momentos decisivos não mexeu no resultado. Pelo menos não como Ramos, e o seu erro, e Benzema, a grande sensação da noite.

Se Messi decidiu o jogo, Iniesta pautou o ritmo do encontro, a Benzema ficou o papel de dar emoção à contenda. Apontou dois golos - o segundo a lembrar os dias de glória de Ronaldo Nazário - e foi o dínamo ofensivo mais eficaz do Real Madrid. Quando o retirou, Ancelotti perdeu o jogo. Era questão de minutos. Com Di Maria - o MVP da primeira parte - tinha sido o melhor blanco em campo. Sem ele e com Ronaldo perdido no meio do ataque como falso nove, a equipa perdeu o rumo. O italiano continua a demonstrar lacunas que marcaram toda a sua carreira nos grandes jogos. É um treinador que ganha, começando pelo inevitável caso de orientar equipas que têm essa obrigação. Mas a quantidade de jogos a seu favor que acabaram perdidos dava para escrever um livro. A do passado domingo é apenas mais uma para a lista onde estão o Juventus vs Manchester United de 1999, o Deportivo vs AC Milan de 2004 ou a final de Istambul do ano seguinte. 

 

O Barcelona, numa versão mais pragmática da temporada passada, deu um golpe de autoridade em casa do rival. Colocou-se a um ponto da liderança mas tem pela frente um calendário complicado que inclui um duelo na última ronda com o actual e inesperado líder, o Atletico de Madrid. Será uma reedição dos duelos dos quartos-de-final da Champions League. As duas equipas já se cruzaram três vezes este ano. Nenhuma venceu. Do outro lado da trincheira o Real Madrid assistirá a esse leque de confrontos confiando-se de que a sua maior eficácia com as equipas a quem quintuplica em orçamento seja suficiente para vencer um campeonato que podia ter no bolso mas que não soube ganhar. Ainda.



Miguel Lourenço Pereira às 12:05 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Sábado, 22.03.14

A temporada arranca para o seu final. A margem de erro é cada vez menor. As facas vão-se afiando. Em Barcelona todos esperam um passo em falso. A memória, inebriada pelo sucesso, é curta. O trabalho de Gerardo Martino tem estado à altura das expectativas. O técnico argentino tem sabido conjugar a herança de uma das melhores equipas da história com a sua visão particular. Encostado à parede pelos seus, o Tata merece o elogio que alguns se resistem a dar. Talvez esperem pelos resultados para ditar a sua sentença.

Pep Guardiola é uma sombra imensa.

Candidato natural a essa lista impossível de fazer com algum sentido de "melhor treinador da história", Pep é tudo em Barcelona. É o Jesus Cristo da religião blaugrana, o homem do antes e o semi-deus do depois. A sua saída provocou um caos emocional na mente do adepto habituado a um período de euforia constante. Poucas equipas na história do futebol conseguiram o que o Pep Team logrou. Muito para lá dos triunfos (e foram tantos), ficou o padrão de jogo. Ficou o engenho de um rookie em conjugar uma ideia ancestral, desenvolvida nas margens do Danúbio e nos canais de Amesterdão, com uma geração de estrelas. Dois anos antes de Guardiola chegar ao banco do Camp Nou o Barcelona tinha sido campeão europeu pela primeira vez em catorze anos. Mas tão depressa subiram aos céus como baixaram aos infernos. O génio de Guardiola esteve em entender que a esmagadora maioria dos jogadores dessa equipa estavam a ser castigados pelos erros de poucos. E que havia um pequeno extremo com alma de assassino de área à espera que alguém lhe tirasse a venda dos olhos. Pep fez do difícil fácil. Voltou ao básico, simplificou parâmetros, redescobriu sensações únicas. Fez do pressing de Sacchi a sua bíblia e modernizou o jogo de extremos condenado pelo asfixiamento táctico do corredor central. Apostou em anónimos, confiou em estrelas, entregou a batuta aos seus sucessores ideológicos em campo e sentou-se a apreciar a sua obra de arte. Não haverá outro como ele. A sua saída, precipitada tanto pelo seu desgaste das guerras psicológicas com Mourinho para as quais não tinha paciência e vontade como pelos problemas internos num clube autodestrutivo, abriu um vazio. Vilanova levou a equipa ao titulo mas também abriu as primeiras brechas. Apesar de ter sido sempre parceiro de aventuras com Guardiola, a sua visão táctica era bastante diferente do modelo mais arrojado de Pep.

Com Vilanova o Barcelona afunilou o seu jogo numa reprise do 4-2-2-2 brasileiro de 82, em que Pedro ou Alexis se juntavam a Messi na frente, escudados por Cesc e Iniesta, com Xavi cada vez mais distante da área e próximo de Busquets. A explosão de energia de Jordi Alba pela esquerda, em tudo parecida à de Dani Alves nos inícios do Pep Team, deram profundidade à equipa mas a formação perdeu importância e só uma serie de resultados pela mínima salvaram o Barcelona de um arranque tremido. Isso e o insaciável apetite goleador de Messi, recordista absoluto de golos num ano natural. Quando Vilanova teve de voltar a Nova Iorque, para vencer a sua particular guerra contra o cancro, o desnorte táctico ficou evidente. Os jogadores - que os mais críticos a Guardiola diziam saber gerir o jogo sós - perderam motivação e orientação. A vantagem conquistada na liga frente a um Madrid em guerra civil foi suficiente para assegurar o titulo mas as derrotas na Copa del Rey e na Champions League deixavam em evidência as decisões de Vilanova. O Barcelona tinha de se reinventar sem abdicar da sua herança histórica. Uma tarefa dificil para qualquer um. Uma tarefa da qual se ocupou um homem desconhecido no futebol europeu.

 

Na Argentina há poucos treinadores tão respeitados como Martino.

Candidato inevitável a suceder a Alejandro Sabella como seleccionador, é um homem que não gera paixões mas que também tem poucos críticos. O seu trabalho com a selecção do Paraguai foi aplaudido com uma boa dose de reconhecimento de uma dose curiosa de génio e audácia. Campeão do país das pampas com o Newell´s, Martino era a escolha mais improvável para suceder a Villanova. Talvez porque a pré-época já ia avançada. Talvez porque a família Messi - sobretudo Jorge, o polémico pai do jogador - pertence ao seu núcleo de amizades desde há largos anos. A verdade é que Martino foi escolhido para o lugar mais cobiçado do mundo do futebol trazendo consigo do outro lado do charco uma versão alternativa do que em Barcelona consideram o santo e senha do futebol. Treinador que reconhece a importância fundamental do futebol de toque e posse, o Tata é também um pragmático. Um treinador que sabe que há muitos caminhos para encontrar o golo e que nenhuma fórmula é má suficiente para não ser tentada se a situação o exige. Uma dose de pragmatismo depois de cinco anos de euforia emocional era algo para o qual os adeptos e jornalistas da imprensa catalã não estavam preparados. Sem abdicar da filosofia Barça, os onzes compostos por Martino eram mais humanos, lógicos e racionais. Sem medo de manter um pulso com as estrelas do balneário, Martino conseguiu gerir um plantel com um claro overbooking ofensivo. Tem sabido integrar Neymar às exigências do jogo europeu sem pressas. Recuperou o melhor Alexis Sanchez depois de dois anos cinzentos desde a sua chegada desde Itália. Com Fabregas - protagonista do modelo de Vilanova, um dos seus principais valedores - mantém uma relação de respeito e desconfiança de um jogador incapaz de dar um passo em frente e assumir o protagonismo que todos esperavam dele. Sobretudo, Martino sobreviveu a uma politica desportiva nefasta que o deixou sem centrais antes da época começar. E conseguiu manter a cabeça à tona da água quando Messi, um dos mais brutais jogadores da história, se lesionou durante largas semanas e deixou a equipa órfã do seu génio. Seis meses depois de aterrar na Europa, a Martino tinha-lhe passado de tudo. E tinha saído vivo de todos os confrontos. Mas a falta de compromisso ideológico com a ideia do "tiki-taka" e a sua visão tipicamente sul-americana do que significa vencer não fez os amigos que ás vezes contam em clubes como o Barcelona.

A vitória frente ao Real Madrid, o apuramento para a final da Copa del Rey e para os quartos-de-final da Champions League parecem insuficientes. Pela primeira vez em cinco anos, a equipa segue em terceiro lugar na liga. Amanhã defronta o Real Madrid no Bernabeu. Pode sair da capital a um ponto da liderança. Ou a sete e com o titulo cada vez mais distante. Ironicamente, Martino está a uma meia dúzia de jogos de vencer todos os troféus no seu ano de estreia com os blaugrana a perder quase tudo. Num clube que gosta de defender o valor das ideias, os títulos continuam a pesar demasiado. E poucos acreditam que, apesar do trabalho desenvolvido, o Tata Martino dure para lá de Junho.

 

Em ano de eleições, previsivelmente, Martino tem o destino traçado. Ele próprio parece cansado das intrigas e da histeria que se abateram sobre uma cidade e um clube órfãos de uma abordagem mais carnal e ao mesmo tempo etérea do banco do Barcelona. Apesar de somar alguns jogos distantes da memória luxuosa do Pep Team, o Barcelona de Martino é uma equipa mais incisiva, ofensiva e imaginativa que a de Vilanova. Mas como o título de campeão está cada vez mais distante e o técnico não saiu de La Masia, as vozes mais criticas já se fazem ouvir. O Barcelona terá de aprender a viver para lá da sombra do génio de Guardiola e da sua herança. Dificilmente encontrará outro homem que seja capaz de gerir tão bem com esse peso. Quando Martino voltar ao seu país natal, sentirão a sua falta. Será tarde demais!



Miguel Lourenço Pereira às 12:00 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Segunda-feira, 17.03.14

A vitória do Sporting sobre o FC Porto levantou, pela enésima vez, a polémica sobre o circulo de poder nos meandros do futebol portugués. É um fenómeno cíclico e fácilmente explicavel. Quando tudo falha, é o pretexto perfeito para justificar uma derrota. De vez em quando tem razao. Mas como a fabula de Pedro e o Lobo, nesses momentos a credibilidade de quem se queixa está pelas ruas da amargura.

 

Entramos num fórum, numa página web, num blog.

Tanto faz a cor clubística. Podem ser verdes, vermelhos e azuis. O discurso é sempre o mesmo. Todos se queixam, todos apontam o dedo. O rival domina sempre o mundo da arbitragens, as instituições desportivas. Se todos se queixam do vizinho do mesmo é difícil que alguém tenha razão. No futebol português, raramente alguém a tem. A arbitragem é a desculpa número 1 para as derrotas em Portugal. Também é a desculpa número 100. Tudo o resto parece aleatório, inócuo. Golos falhados escandalosamente? Nao conta. Erros defensivos individuais? Irrelevante. Más decisões tácticas dos treinadores? Supérfluo. Péssimo planeamento de temporada pelos directores? Impossível.

Se um arbitro comete um erro, não é preciso procurar mais. Nao é um mal exclusivamente português. Todos os países são parecidos mas não todos são iguais. Em Itália os escândalos de arbitragem provocaram a despromoção de históricos em varias ocasiões. Mas os programas desportivos também debatem durante horas as decisões tácticas dos treinadores. Em Espanha podem estar cinco horas a debater sobre a intensidade de uma entrada com um painel pré-desenhado para defender as suas respectivas cores clubísticas. Ninguém espera imparcialidade. Esse é o show. Mas também se celebra o talento e se valorizam as ideias de jogo. Em Portugal não. Raramente o adepto português debate questões de gestão financeira do seu clube. Ou modelos tácticos utilizados pelo seu treinador. A preocupação com a formação é “para inglês ver”. Mas cometam um erro arbitral contra a sua equipa e durante uma época esse adepto tem argumentos suficientes para dar um sem numero de palestras. A partir desse pressuposto é fácil entender que esta situação nunca vai mudar. Para isso tinha de mudar a base, aqueles que fazem do futebol o que ele é. Os dirigentes, a imprensa e os protagonistas limitam-se a entrar no jogo, a alimenta-lo e a extrapola-lo. Os adeptos gostam desse circo. Não podem viver sem ele. São incoerentes a esmagadora maioria das vezes. Mas não se importam. O espectáculo tem de continuar.

 

As queixas recorrentes do Sporting durante esta temporada não são inocentes.

Os leões (como todos os clubes da liga, especialmente fora do grupo dos "grandes") foram prejudicados em alguns jogos de forma clara. Também foram beneficiados. Mas isso não importa. Fazem-se tabelas sobre quem foi mais, sobre consequencias inesperadas provocadas por a e b. Cria-se um campeonato pontual alternativo, como se um só lance, só por si, provocasse que o resto do jogo se transforma em algo imutável. Memoria selectiva chama-se. O Sporting sabe bem o que é estar no poder. E está farto da longa ausência nesse submundo. Quem pensa que os erros arbitrais são todos premeditados engana-se. Quem pensa que os erros arbitrais são todos inocentes, também. É difícil apitar. Muito difícil. Mas é mais difícil acreditar que um sector que move milhões (em alguns países move mais que o sector financeiro e económico) é imune a corrupção. Ela esta por todo o lado. Nos partidos, nas administrações publicas. Nas empresas e nos bancos. Como é que não estaria no futebol que é, precisamente ,uma constante esponja do mundo?

Há, houve e sempre haverá corrupção no futebol. No português também. O Sporting fez parte desse circuito. No seu período de hegemonia. Só que isso foi há muito tempo atrás. Sempre que um clube prolonga a sua hegemonia por mais do que uma geração é expectável crer que a sua influencia no submundo é proporcional ao seu talento em campo. Passou com o Sporting durante décadas. E com o Benfica naturalmente. A balança mudou a finais dos anos 70. Pedroto primeiro e Pinto da Costa depois perceberam que não bastava com ser melhor em campo. Era preciso ganhar importância institucional. Durante quinze anos batalharam para encontrar o seu espaço. O Sporting pagou o preço e foi afastado progressivamente, abrindo caminho a um duopolio Porto-Benfica a todos os níveis. Os títulos eram apenas a consequencia. A hegemonia absoluta dos Dragões começou com o descalabro financeiro (e emocional) do Benfica nas eras Damásio, Vale e Azevedo e Vilarinho.

O aparecimento de um contrapoder a norte, a Liga de Clubes, presidida por Pinto da Costa e Valentim Loureiro, confirmou essa mudança de guarda. Durante mais de uma década a bússola do poder apontou a norte. Até que o Benfica aprendeu a lição, passou a utilizar os mesmos métodos do rival e encontrou forma de utilizar a sua influencia social para recuperar parte do seu poder. As conversas expostas pelo Apito Dourado mostram, claramente, que não há diferenças entre a forma de actuar de Pinto da Costa e Luis Filipe Vieira. Cada um que saque as suas conclusões. O Sporting, que durante um breve período de tempo procurou ocupar o espaço deixado vazio pelo Benfica, entrou também no seu particular inferno financeiro. Se algum poder tinha recuperado, perdeu-o. O objectivo de Bruno de Carvalho é recupera-lo. Para isso vai procurar emular as políticas populistas (com os seus) e desafiantes (com os outros) de Pinto da Costa e Vieira. Se o modelo funcionou duas vezes, porque não uma terceira. O “choradinho” dos últimos meses obedece a essa estratégia, lógica para os que acreditam na Realpolitik.

O presidente dos Leões conhece o caso Cardinal. Sabe que a sua equipa está a fazer uma época maravilhosa dadas as circunstancias e o descalabro financeiro do clube. Sabe também que o titulo é algo que ainda não está (realmente) ao seu alcance. Mas lutar por ele e fazer barulho sobre um afastamento institucional dessa luta dá-lhe pontos. Em Alvalade, contra o FC Porto, ficou evidente. A estratégia é velha e já foi utilizada por todos. Que o FC Porto se queixe é só reflexo da fraca memoria dos adeptos. Um clube que, durante 30 anos, tem 2/3 dos campeonatos (nos últimos dez perdeu apenas 2), dificilmente pode fazer alguém acreditar que está contra o sistema. Há muito que o FC Porto é (também) esse sistema. Mas Pinto da Costa ganhou o coração dos portistas rebelando-se contra a autoridade (real) asfixiante do poder centralizador do país. Foi a época do “Lisboa a Arder”, dos “roubos de Igreja”, do “guarda Abel” e da “penhora das Antas”. Foi a sua forma de ocupar o seu espaço nos centros de poder e aumentar a influencia de um clube historicamente castigado pela sua localização a Norte. Manter o discurso agora é apenas o reflexo da falta de ideias de gestão da SAD do FC Porto, incapaz de preparar um plano de futuro. Já passou em 2000 e só a aparição de Mourinho deu um balão de oxigénio (e abriu as portas a um novo modelo de negocio) que durou uma década. Mas esse modelo esta, mais tarde ou mais cedo, caduco. A falta de ideias a nível de gestão desportiva é o pior que pode passar. Todos os períodos de hegemonia acabam. Passa em todas as ligas, durante longos períodos. O dos azuis-e-brancos chegara mais tarde ou mais cedo. O Sporting quer estar atento para entrar nesse espaço. É o sonho do novo presidente dos leões, o seu cavalo de batalha. O seu discurso vitimista só acabara quando chegar ao topo. Passou o mesmo nos anos prévios aos títulos do Benfica em 2004 e 2010. Subitamente, o sistema que estava podre, nesses dois anos, para os encarnados, funcionou perfeitamente. Para os dragões a questão é pior. O sistema está podre desde sempre, mesmo quando ganham. Curioso paradoxo. Em Itália houve um ano em que foi imposto ao clubes um novo modelo de gestão arbitral por sorteio puro nas vésperas dos jogos. O modesto Hellas Verona foi campeão num duelo contra equipas modestas como o Torino e a Sampdoria. A Juventus, Inter, AC Milan, Fiorentina ou Roma nem vê-los. Resultado? No final da época voltou-se ao modelo antigo e tudo ficou na mesma.

 

Esse é o destino do futebol português. As queixas dos dirigentes, os apupos dos adeptos e um ciclo rotativo de figuras no poder que vão condicionar sempre a competição a um pequeno circulo. A hegemonia do FC Porto acabara ao mesmo tempo que esse poder da mesma forma que sucedeu com o Sporting, nos anos 70, e com o Benfica, na década de 90. Quando assim for, alguém quererá começar uma nova dinastia. Terá de o fazer em campo. Mas haverá um jogo de xadrez paralelo que os adeptos não vão ver. Um jogo que não lhes importa moralmente. Estão dispostos a tudo para vencer. As queixas dos adeptos do Sporting seriam caladas com um titulo. É o preço da moral dos adeptos. É o suplicio de Tântalo do futebol em Portugal.



Miguel Lourenço Pereira às 18:18 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Quinta-feira, 06.03.14

A Juventus tem um dos melhores meio-campos do Mundo. É lider absoluta da Serie A. Não conseguiu passar da fase de grupos da Champions. O Napoli investiu no mercado como poucos. Tem o terceiro lugar ameaçado pela Fiorentina. Não conseguiu passar da fase de grupos da Champions. O AC Milan titubeou contra o Atlético de Madrid, o arranque brilhante da Roma fez-se pó e o Inter é uma incógnita. A Serie A continua a viver o seu particular karma.

Quando era pequeno apaixonei-me pela Premier League.

Adorava aqueles estádios clássicos, aqueles equipamentos berrantes (sim, foi essa época), os jogadores e aquele ambiente fantástico. Durante temporadas gravei todos os resumos de todos os jogos que passavam no saudoso Domingo Desportivo ou via satélite. Era a minha competição. Mas ao mesmo tempo sabia que não era a melhor. Que a nata do futebol mundial estava noutro lado. Em Itália. Apanhei os primeiros anos de ouro da Serie A, os de van Basten, Maradona, Zico, Laudrup, Mathaus, Klinsmann, Voeller, Elkjaer Larssen, Baggio ou Vialli. Nessa transição do final da década de oitenta aprendi a admirar respeitosamente o que a liga italiana era capaz de fazer. Não me tocava o coração como o futebol inglês mas à medida que ia crescendo, assumia que o Parma, a Lazio, a Fiore ou a Roma provavelmente eram melhores equipas que o Aston Villa, Newcastle, Blakckburn Rovers ou Tottenham. Para não falar dos gigantes europeus da altura. Durante quase vinte anos o Calcio foi a quintessência do futebol europeu. Espanha tinha o glamour do Clássico (e pouco mais). Inglaterra o velho espírito histórico do futebol em casa e uma liga renovada e atractiva depois dos anos negros do hooliganismo. França, Holanda e Alemanha eram produtos periféricos para um adolescente português que sabia mais do Campomaiorense do que do Karslruher. Mas Itália era outra coisa. O santa Graal.

Depois a borbulha estalou. O Dinheiro, sim, com D grande, deixou de jorrar por todos os lados. Os magnates abriram falência e levaram com eles o futebol, as estrelas, as bancadas cheias, os títulos de clubes. Levaram a magia artificial de vinte anos de prazer absoluto. Os casos de doping, corrupção desportiva e violência apenas deram o golpe de misericórdia a uma Serie A que já não era a mesma. Passaram mais de dez anos desde esses anos de ouro. E pouca coisa mudou.

 

Há poucos campeonatos europeus tão decididos como o italiano.

Falta ainda um terço de competição e ninguém é capaz de apostar contra a Juventus. Os que pensamos (eu também) que este era o ano da Roma tivemos de nos render à evidência. Os homens de Rudi Garcia jogam o melhor futebol do país, conseguiram um arranque histórico mas foram incapazes de aguentar o ritmo de um plantel com o dobro das opções e que conta com um dos melhores meio-campos do Mundo. Uma equipa que pode juntar o génio de Andrea Pirlo, a energia de Paul Pogba e a omnipresença de Arturo Vidal pode aspirar a tudo. Com esses três em campo todos os outros tornam-se quase irrelevantes, seja a brilhante linha defensiva liderada por Chiellini e Buffon ou o ataque onde Tevez e Llorente aprenderam, finalmente, a jogar juntos. A chegada do espectacular Osvaldo apenas contribuiu para aumentar o desequilíbrio na balança. Em contrapartida a Roma depende, ainda, muito de Totti. Um veteraníssimo que não desiste de lutar mas que tem as suas naturais limitações. Será uma época brilhante, a todos os títulos, para um projecto pequeno mas ambicioso. Mas pouco mais. Já o Napoli, depois de tanto dinheiro gasto, tem de ser ver com a sombra de uma bem organizada Fiorentina (Montella, a par de Garcia, é outra vez o treinador do ano) para ocupar esse último posto Champions. Há meia dúzia de anos os transalpinos tinham quatro equipas na grande prova de clubes europeus. Agora têm apenas três. Os resultados não mentem. A Juventus, num grupo claramente acessível, deixou-se ficar pelo caminho, ultrapassada pelo Galatasaray. O Napoli teve a desdita de cruzar-se com o Dortmund e o Arsenal no seu melhor momento do ano. São os grandes favoritos a vencer a Europa League, que se vai disputar em Turim. Mas sabe a pouco.

De todas as equipas italianas, só o suspeito AC Milan sobreviveu. Mas a duras penas, num grupo fraco e contra um rival como o Atlético de Madrid os rossoneri foram outra vez uma sombra do clube histórico que persegue o Real Madrid na luta pela liderança histórica do palmarés da Champions. Os grandes de Milão estão a pagar o preço da crise financeira como nenhum outro polo desportivo do país. Mas também não são os únicos. Projectos estáveis como o da Udinese, pequenos históricos como os clubes de Génova, o Parma, a Lazio ou o Cagliari sofrem para manter-se competitivos. Actualmente há mais espaço para a formação porque há menos dinheiro para gastar e isso pode ser um dos poucos pontos positivos desta crise. Mas é insuficiente. As bancadas continuam vazias, os jogos permanecem pouco atractivos para os espectadores que agora preferem seguir a Bundesliga ou a Ligue 1 em detrimento da Serie A. Da liderança à periferia em dez anos.

 

A hegemonia de uma Juventus cada vez mais forte contribuiu ainda mais para esta crise desportiva. Sem uma grande competição internacional para organizar nos próximos dez anos, não há um estimulo nacional para dar um murro na mesa. A renovação das lideranças nos históricos de Milão anunciam anos negros para os dois clubes e enquanto os melhores jogadores continuarem a preparar para mudar-se para ligas historicamente inferiores à italiana, a situação seguirá como está. O drama do Calcio parece não ter fim!

 


Categorias: ,

Miguel Lourenço Pereira às 17:19 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 27.02.14

Pinto da Costa é um homem desorientado. O fracasso não é um conceito a que esteja habituado. Depois de mais de trinta anos, o presidente do FC Porto fez dos títulos e do reconhecimento global o seu cartão de visita. Mas o seu egotismo também tem as suas consequências. Para os adeptos dos Dragões a mais recente chama-se Paulo Fonseca. O presidente do clube tricampeão nacional criou um pequeno monstro e agora não sabe o que fazer com ele. Porque todos sabem que a origem de uma época de desnorte recai na mais temerária de todas as suas decisões.

Sempre incisivo com a imprensa, o mito Pinto da Costa forjou-se (também) com tiradas inesquecíveis para os jornalistas sedentos de sangue. Testemunhei em pessoa, trabalhando, como o presidente do FC Porto consegue ser criativo, perspicaz e incisivo com a imprensa. Mas no final do jogo com o Estoril, e a sua subsequente presença à porta do parking interior do estádio do Dragão, esse Pinto da Costa foi substituído por um ogre desorientado e ultrapassado pelas circunstâncias. Era a primeira derrota para o campeonato em casa dos Dragões em cinco anos. Mais um dos muitos recordes negativos estabelecidos esta temporada. Interrogado pelos jornalistas sobre o futuro do treinador, um dos inevitáveis responsáveis pela situação, ao presidente azul-e-branco faltou-lhe o jogo de cintura dos seus tempos áureos. Foi agressivo, mal-educado e ditatorial. Normalmente os grandes homens quando começam a ver o poder (ou a razão) a escapar-se-lhe das mãos transformam-se em algo parecido. E momentos como este são raros na carreira de Pinto da Costa.

Desde que assumiu a presidência do clube, em 1982, apenas por cinco vezes se viu perante esta situação. Nada mal. As duas primeiras soube resolve-las bem. Foram apostas arriscadas e pessoais que saíram mal. Tanto Quinito como o regresso de um sempre contestado Ivic não caíram bem com os adeptos e os jogadores. Duraram pouco. Para o lugar do primeiro, Pinto da Costa conseguiu resgatar Artur Jorge da sua primeira aventura por Paris. A equipa falhou o título nesse ano (apesar de estar só a um ponto da liderança no momento da troca) mas foi campeã no ano seguinte. Quatro anos depois, quando o bicampeão brasileiro Carlos Alberto Silva voltou ao Brasil, o líder dos dragões decidiu recuperar Ivic. O técnico jugoslavo esteve pouco tempo no cargo apesar de uma histórica vitória em Bremen (com uma equipa a jogar com cinco defesas). Bobby Robson, despedido pouco antes por Sousa Cintra enquanto liderava o campeonato, também não conquistou o título mas lançou as bases do Pentacampeonato. Foram dois erros graves sem grandes consequências pelo acerto e o timing na tomada de decisão presidencial. Mas também induziram o líder do FC Porto a crer na sua própria infalibilidade. E a política de riscos foi aumentando e com ela o desnorte.

 

O ponto critico no eterno mandato de Pinto da Costa aconteceu na era pós-Mourinho.

O próprio treinador sadino tinha sido uma correção de um erro inicial (previsível) chamado Octávio Machado. Mas quando o campeão europeu (e de tudo) partiu para Londres, ao presidente do FC Porto não se lhe ocorreu melhor ideia que contratar um italiano sem prestigio, experiência e flexibilidade para o cargo. O disparate Del Neri não sobreviveu à pré-época e o seu sucessor, Victor Fernandez (uma velha paixão) também não aguentou para lá do Natal. Numa espiral autodestrutiva o terceiro acto foi ainda pior. José Couceiro piorou os registos do seu antecessor e os dragões perderam o tricampeonato exclusivamente por culpa próprio. O mesmo é dizer, por consequência da megalomania de Pinto da Costa. Desde então o modelo manteve-se com um parêntesis - Jesualdo Ferreira - mais consequência das circunstâncias (o bater da porta de Co Adriaanse com a época a começar, do que por vontade própria. Tanto o holandês como, mais tarde, Villas-Boas, Vitor Pereira e Paulo Fonseca seguiram o mesmo padrão de treinadores quase desconhecidos, sem experiência e fáceis de controlar por uma direcção cada vez mais preocupada com realidades paralelas do jogo do que, propriamente, com uma filosofia de sucesso a médio prazo. O clube aumentou exponencialmente a sua faceta de emblema vendedor, reduziu ao mínimo os ciclos de treinadores e jogadores, sempre á procura do próximo negócio milionário. O sucesso desportivo deixou de ser a consequência de um bom trabalho feito para ser o oxigénio necessário para manter a escalada de gastos nesta corrida ao El Dorado. Ferido de morte pelas escutas do caso Apito Dourado, Pinto da Costa foi perdendo o fulgor de outrora, retirando-se estrategicamente para a sombra, delegando cada vez mais poder na tribo aduladora que o rodeava e se preparava para colher os despojos. O que antes era uma forte direcção pessoal escondeu-se atrás do manto sagrado da SAD e dos negócios e homens que circulavam à sua volta. Mas para manter essa espiral de contratações, valorizações e vendas era necessário manter a linha de treinadores que pedem pouco e agradecem muito porque, na prática, sabem que sem o clube não são ninguém. Com o dinheiro investido e a qualidade individual ao longo dos anos, um FC Porto liderado por um treinador de prestigio poderia ter ido muito mais longe de onde foi. Mas nas mãos de jovens turcos com vontade de agradar, o desnorte tornou-se inevitável. E o maior desnorte possível chegou com Paulo Fonseca. Em quatro anos o antigo jogador do clube (por um par de jogos, para os mais esquecidos) passou da III Divisão para a Champions League. Rapidamente deu para perceber que era mais uma aposta de risco que saía mal. Corrigido a tempo, corria o risco de tornar-se numa anedota. Mas a Pinto da Costa faltou-lhe a sagacidade e força de outros momentos. Talvez "queimado" pelos seus erros anteriores, preferiu esperar. E à medida que o cenário ia piorando, o divórcio com os adeptos e jogadores confirmando-se, a inactividade do presidente parecia cada vez mais evidente. Paulo Fonseca poderá sair antes da época mas será sempre demasiado tarde. E se o erro na sua escolha podia ser o erro de qualquer um, mantê-lo no cargo durante oito longos meses vai contra todos os instintos de liderança de um presidente sem igual na história do futebol português.

 

Para os adeptos do FC Porto a situação de Paulo Fonseca é nova. Não pela evidente incapacidade do treinador em lidar com a situação e com o cargo. Não é o primeiro nem será o último treinador promissor a falhar o salto a um grande. Acontece em todos os lados. A situação é mais grave porque evidencia a evidente perda de liderança (e de qualidades de liderança) do homem em quem os adeptos sentiam que podiam confiar em todas as circunstâncias. E um sinal, evidente se fazia falta, que todos são finitos e que o futuro do FC Porto pós-Pinto da Costa tem tudo para ser similar ao que sofreu o Benfica e o Sporting no final das suas respectivas épocas douradas. Não será um final abrupto (ambos clubes tiveram quase uma década no topo, partilhando o sucesso com o seu sucessor, antes de cair) mas o ciclo histórico de quase três décadas que Pedroto idealizou e Pinto da Costa concretizou já esteve mais longe. O Império Romano caiu muito depois do seu fim efectivo. Paulo Fonseca, sem o saber, pode ser a primeira pedra num caminho de obstáculos para o futuro. O próximo defeso - e a soma de decisões do presidente dos dragões a vários níveis - poderá ser o mais importante da história moderna do clube que dominou como nenhum outro a história do futebol português.

 

 



Miguel Lourenço Pereira às 16:14 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Quarta-feira, 19.02.14

O futebol não é um mundo estranho. É um espelho. Que nos reflecte a nós, os que dele bebemos com ânsias de emoção a partir de uma existência tranquila. Talvez por isso (também por isso) é impossível ser-se no futebol diferente do que se seria no quotidiano, não preto ou branco mas uma palete de constantes cinzas. Lamentavelmente o poder da opinião pública, a procura constantemente pelo maniqueísmo, levou para os campos os debates ideológicos do bem contra o mal esquecendo-se de que, quando falamos de Humanos, falamos de erros e enganos. Os que o negam rapidamente são apanhados na sua própria rede. São os fariseus do jogo.

Um penalty polémico. Um resultado para alguns, inesperado. Um triunfo por dois golos a zero que deixa praticamente sentenciada uma eliminatória que parecia mais equilibrada à primeira vista. O treinador derrotado, secamente, aproveita a conferência de imprensa para lavar as suas culpas, o seu esquema mais defensivo, especulativo, vitima desse eterno medo ao golo sofrido em casa que vale a dobrar. Culpa o árbitro. Cita teorias da conspiração. Critica a sua nacionalidade, como se houvesse árbitros de primeira e segunda de acordo com a sua competitividade. Talvez até se esqueça que ele próprio vem de um país periférico. Não faz mal. No final do seu discurso repleto de criticas contra a arbitragem diante dos membros da imprensa, provavelmente será punido pela UEFA. Falou demais. Falou sobre aquilo que os códigos de conduta da organização não permitem que se fale. E a história guardará o episódio.

Sem nomes, sem citações concretas de jogos, apenas pela lembrança popular, seria fácil associar o treinador em questão. Há uma corrente de opinião que demoniza os que exprimem a sua opinião sem tentar agradar a todos. Quem está no mundo do futebol quer ganhar. Pode querer algo mais, uma imortalidade que nem sempre a vitória concede, mas o apetite ganhador é o que forja os campeões. Mesmo que morram a tentar cumprir os seus objectivos. Para um treinador, a personagem mais solitária do universo milionário do futebol, as queixas são parte do trabalho. É uma forma de auto-defesa fácil e certeira. Desviar as atenções para fora enquanto se procuram solucionar os problemas dentro. É antiga. Helenio Herrera e Bill Shankly faziam-no nos anos sessenta a nível global, mas desde que o futebol é futebol sempre houve espaço nas crónicas para criticas aos árbitros, aos relvados, ao jogo violento ou ultra-defensivo dos rivais, à falta de atitude, a conspirações. Todos os treinadores passaram por essa porta. Uns mais do que outros. Uns de uma forma mais educada do que outros. Mas há aqueles que o assumem. E os que não. Os primeiros são demonizados, quando dão a cara. Os que utilizam essa ferramenta mais vezes ou de forma mais virulenta, transformam-se no alvo dos puristas, dos românticos (os mesmos, provavelmente, que têm o maravilhoso Red or Dead na sua lista de livros favoritos) que os acusam de sujar a imagem do jogo. Os segundos, alabados pelo seu fair-play, são canonizados no acto. São os que estão acima de qualquer suspeita, os que defendem outro modelo de jogo. Os que se distanciam moralmente dos primeiros para receber o coro de aplausos de quem os eleva às altura. Quando perdem, e todos perdem em algum momento, facilmente se esquecem do seu compromisso ideológico. E são possuídos pelo espírito do mal, o espírito dos demónios das salas de conferência. Esse é o momento em que os eleitos se transformam no que realmente são, fariseus.

 

O primeiro paragrafo do texto podia referir-se a José Mourinho.

Ao seu comportamento pouco edificante no final da meia-final da Champions League, em Abril de 2011, disputada entre o seu Real Madrid e o Barcelona no Santiago Bernabeu. Um jogo equilibrado tacticamente (com um Real Madrid de contenção defensiva frente a um Barça especulativo e paciente) até ao momento em que Pepe é expulso por agredir Dani Alves com uma entrada violenta sobre o joelho. Depois desse momento, com dez (e sem treinador no banco) o Real rendeu-se ao génio de Messi que resolveu o jogo com duas pinceladas de magia. Game over. No final, Mourinho proferiu mais um dos seus célebres discursos citando uma lista de árbitros e as suas "naturais" incompetências e suspeitas. Era uma arma habitual nele nos momentos de fragilidade. Ninguém esperava, sinceramente, outra coisa. Foi genuíno até ao fim. Autodestrutivo, injusto e oportunista (como poderão dizer os adeptos do Manchester United, Deportivo la Coruña ou do próprio Barcelona nas suas duas Champions conquistadas). Mas igual a si mesmo. Mas o mesmo paragrafo também podia referir-se a Manuel Pellegrini. Sim, ao profeta chileno do jogo bonito, dos treinadores silenciosos e pacíficos. Dos homens que nunca se queixam dos senhores do apito. Dos que acreditam que a competição é pura no seu estado natural e que o que se passa no campo deve ficar no campo. Dias antes do jogo contra o Barcelona - aproveitando uma sequência de dois jogos com o Chelsea - Pellegrini conversou amigavelmente com o prestigioso jornalista da Marca, Santiago Segurola. Segurola, amigo pessoal de Valdano, Guardiola, Raúl e Pellegrini, um quarteto nada inocente nisto das ideologias, foi um dos homens responsáveis por queimar a imagem pública de Mourinho desde a sua chegada ao Bernabeu. Estava no seu direito. É um cronista fabuloso e um dos jornalistas que melhor interpreta o futebol. Na sua entrevista, guiada até ao ponto inevitável da comparação estilística e ideológica, Segurola quis traçar a diferença entre Mourinho e Pellegrini nas formas. Conseguiu que este afirmasse, não sem pudor, que tudo aquilo que Mourinho (e os que se comportam como ele) representam o que ele não gosta no futebol. O que seria incapaz de fazer. Os mind games, as queixas arbitrais, as provocações. Tudo isso distrai do que vale a pena. Da "pelota", que nunca se mancha. Soou bem como quase sempre tudo o que Pellegrini diz soa. Mas ontem, no City of Manchester, o chileno transformou-se quando viu uma polémica decisão destroçar o seu próprio plano de contenção defensiva. Frente a um Barcelona que, como em 2011, foi muito superior, o City quis defender primeiro, aguentar depois e procurar levar o jogo para o Camp Nou. O mesmo esquema de Mourinho. No inicio da segunda parte, como em 2011, um erro posicional grave de Demichelis provocou um penalty e uma expulsão que Messi não desaproveitou. Alves marcou perto do fim o 2-0 e fechou praticamente a eliminatória. Como em 2011.

Pellegrini tinha razões para queixar-se. A falta sobre Messi é evidente (e a expulsão também) mas nas camaras percebe-se que é fora da área. Nas camaras. Em campo é impossível apreciar-se qualquer falta e a marcação do penalty tem toda a lógica do mundo. Poderia questionar-se se a jogada era válida, já que a recuperação de bola do Barcelona tinha chegado de uma falta prévia, de Busquets sobre Navas, segundos antes. Mas treinadores como Pellegrini não deviam falar destas coisas. Até que falam. E dizem exactamente o mesmo que os demónios de gabardine. Pep Guardiola, provavelmente o melhor treinador dos últimos vinte anos da história (decididamente o mais apaixonante de seguir) passou pelo mesmo processo de versão imaculada alimentada por uma imprensa sectária até ao momento em que as coisas correram mal. Depois de se ter queixado de um fora-de-jogo (no limite) na final perdida da Copa del Rey de 2011, na temporada seguinte, com o título já perdido, chegaram as suspeitas de que algo não estava bem no mundo arbitral. Como sucede com todos os treinadores - que são humanos, como tu e eu - a derrota traz o nosso lado mais obscuro à superfície. Ninguém está imune.

 

O caso de Pellegrini vs Mourinho tem sido utilizado este ano até à saciedade. Não só porque são os dois grandes rivais pela Premier como também porque o chileno foi despedido do Santiago Bernabeu para ter sido substituído pelo português. Foi para Málaga, um clube que Mourinho disse que nunca treinaria, levantando ondas de polémica sobre os pequenos injustiçados, segundo o próprio chileno. O mesmo que ontem disse que um árbitro sueco não tem validade por não estar habituado à exigência da alta competição. Talvez os argentinos pudessem ter pensado o mesmo de um treinador chileno, há alguns anos atrás. Mourinho já passou por esse caminho. Várias vezes. Consegue ser uma pessoa desprezível em muitos sentidos. A sua agressão a Tito Vilanova não pode ser esquecida. As suas provocações, muitas vezes, roçam o ditatorial. Não é flor que se cheire. Mas é sempre o mesmo. Pertence a esse grande colectivo de treinadores humanos, com falhas e acertos. Pellegrini era, até ontem, o profeta dos surreais, dos homens impolutos que não se deixam tocar mesmo quando lhe apertam o coração. A realidade, na vida como no futebol, é bastante mais complexa. Eriksson nunca se esquecerá de Pellegrini como Frisk se lembrará sempre de Mourinho. E nós, de este lado da vedação, saberemos sempre que nem tudo o que vem na capa dos jornais é certo!



Miguel Lourenço Pereira às 12:00 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Quinta-feira, 13.02.14

Sempre que penso em Moeller-Nielsen penso em Portugal. Penso na esperança de um futuro, não melhor. Mais feliz. Depois de uma década com uma selecção maravilhosa, viciada nas derrotas inesperadas, os dinamarqueses encontraram em Møller Nielsen o antidoto para a depressão. Foram campeões da Europa e não se perguntaram como e porquê. Não fazia falta. Depois de uma geração dourada pode sempre haver ouro. É preciso é saber como encontrá-lo.

Lembro-me de cada jogo do Euro 92. Consumi o torneio até à exaustão possível.

Caderneta de cromos completa (para quem não se lembra, a caderneta incluía a Jugoslávia), vídeo sempre preparado para gravar jogos, resumos e uma bola esfarrapada, destinada a ser chutada da mesma forma que as estrelas golpeavam debaixo do estranho sol sueco o esférico oficial do torneio. Lembro-me de tudo e no entanto, lembro-me pouco da Dinamarca. A razão é simples e prosaica. Não eram uma equipa para recordar. Jogavam pelo seguro, com quatro defesas duros, cinco médios rápidos e correctos e Brian Laudrup, livre de ataduras tácticas, só na frente. Sim, Brian. Os que adoravam a ideia de um triunfo dinamarquês faziam-no, seguramente, porque tinham na retina a mítica Danish Dynamite. Os anos dourados de Elkjaer, Simonsen, Lerby, Molby, os irmãos Olsen...e Michael Laudrup. Mas o maior génio da história do futebol nórdico não estava lá. Tinha preferido ficar na praia onde o resto da equipa se preparava para descansar depois de uma dura temporada. A suspensão da Jugoslávia, acabada de entrar em guerra, abriu uma vaga surpreendente para os dinamarqueses. Laudrup, que não suportava os métodos de Moeller-Nielsen, preferiu retirar-se temporalmente. Já imaginava um destino similar ao dos torneios anteriores. Enganou-se. Sem ele (também porque jogavam sem ele) os dinamarqueses sobreviveram a uma fase de grupos soporífera com a pior versão de sempre das selecções inglesa e francesa numa competição oficial. Apuraram-se como segundos, atrás dos anfitriões, aguentaram a soberba holandesa até ao penalties e confiaram tudo às mãos gigantes de Peter Schmeichel. Quando os alemães deram conta, já tinham perdido uma final que a Dinamarca não podia ganhar. Mas que tinha ganho. Moeller-Nielsen, o homem que atirou o futebol dinamarquês vinte anos atrás no tempo, foi coroado rei de Copenhague. O mundo ao contrário.

 

Se alguém pergunta a um adepto de futebol neutral com algum conhecimento da história do jogo quem foi o treinador mais importante da história do futebol dinamarquês, a resposta sai fácil. Sepp Piontek, alemão de nascimento, pegou num país onde o futebol era um desporto quase amador e transformou-o numa das maiores potências do continente europeu. Durante dez anos a Danish Dynamite fez o mundo sonhar. Mas um dinamarquês poderá ter outra resposta na ponta da língua. Poderá dizer que, para eles, esse homem foi Richard Moeller-Nielsen. O que faz uma vitória.

Nielsen era um treinador cinzento, sem grande inspiração. Apostava, sobretudo, na organização táctica do sector defensivo como pedra de toque das suas equipas. Era um homem precavido. Defender primeiro, atacar depois e com o menor número de toques a ser possível. Era um dos seguidores da escola britânica que tinha conquistado a Escandinávia nos anos setenta, entrando pela Suécia e chegando rapidamente até aos vizinhos noruegueses e dinamarqueses. A sua etapa ao comando da selecção dinamarquesa provou ser o apogeu dessa corrente. Foi durante esses anos que a Noruega chegou a ocupar o primeiro posto do ranking FIFA, participando em dois Mundiais consecutivos. E que a Suécia, depois de três décadas cinzentas, chegou a duas meias-finais de competições internacionais. Era o renascimento do futebol nórdico a partir de um ideário táctico e emocional em tudo distinto ao que celebrizou os dinamarqueses dos anos oitenta. Mas compensava. Com dois títulos - o Euro 92 e a Taça das Confederações de 1995 - Moeller-Nielsen deu ao povo dinamarquês o que nunca tinham tido: sucesso. A "Geração Dourada" tinha ficado presa na nostalgia romântica dos anos 80. Eram bons, muito bons. Tinham o apoio dos adeptos neutrais internacionais. Mas não sabiam ganhar. De repente, uma geração repleta de ilustres desconhecidos, onde o jovem Laudrup, Kim Vilfort e Schmeichel eram as figuras de proa, aparece do nada e a partir da ordem, da organização defensiva e do trabalho colectivo começam a ganhar. Uma redenção emocional como houve poucas na história do futebol mundial. A eliminação na fase de qualificação para o Mundial de 1994 (uma derrota em Sevilha com a Espanha, a besta negra dos dinamarqueses) e um pobre Euro 96 (graças, a entre outros, a cabeça de Sá Pinto) acabaram com o reinado de Moeller-Nielsen. A sua carreira caiu em picado porque a sua fórmula era limitada, pouco inspiradora e estava datada. Com um ar mais ofensivo, com Laudrup de novo ao leme, os dinamarqueses realizaram um brilhante Mundial de 1998 e qualificaram-se para os quatro torneios seguintes. Mas o seu papel na história não pode ser esquecido. E serve de aviso. Principalmente para países como Portugal.

 

Eternos derrotados, os portugueses já sofreram o fim de três "Gerações de Ouro". Aconteceu no pós-66, no pós-86 e depois de 2006, quando ficou evidente que nem a união do melhor dos meninos de Riade e da Luz com o FC Porto de Mourinho e a aparição de Cristiano Ronaldo era suficiente para apagar as mágoas. Para muitos adeptos a sentença final estava dada. Se nem com esta equipa a selecção portuguesa vencia, nunca seria a hora. Mas talvez isso fosse o que pensavam os dinamarqueses. Antes de 1992, antes de Moeller-Nielsen. Ele é o exemplo perfeito de que um treinador sem chama nem brilho pode encontrar um atalho para o sucesso pelas vias mais inesperadas. Provavelmente, no futuro, ninguém se lembre dele em comparação com o romantismo da geração anterior. Mas no livro de história só há um selecionador dinamarquês campeão da Europa. E é ele. O homem que hoje nos deixou para sempre e cujo o legado será sempre analisado com a suspeita de quem não se lembra sequer de se o seu cromo aparecia na colecção oficial!



Miguel Lourenço Pereira às 18:07 | link do post | comentar

Sexta-feira, 07.02.14

Sou um nostálgico. Vivo preso no tempo. Cresci nos anos oitenta. Acho que isso tem grande dose de culpa. A era em que brincar ao futebol significava passar horas na rua. Jogar com peças de legos montadas para fingir equipamentos reais. Ou com os jogadores de Subbuteo, muitos sem cabeça. As consolas eram protótipos do que são hoje, os jogos de gestão desportiva um enigma e o futebol, esse, era outro. Daqui a uns meses vou ter o prazer de rever nostalgicamente as minhas velhas conhecidas Colômbia e Bélgica num Mundial outra vez. Tenho saudades desses tempos. E de todas as outras equipas dessa era que ficaram pelo caminho.

Um dos meus sonhos é ter uma réplica perfeita do equipamento da Dinamarca de 86. Ou da Holanda de 88. (quem os tiver, o email de contacto está abaixo à esquerda)!

Sim, sou assim de estranho. Mas já me contentava com aquela camisola colorida da Colômbia de Asprilla ou da Jugoslávia de Stoijkovic. Sei adivinhar o ano de um jogo só pelo equipamento das respectivas selecções. Vivi a era das três tiras nos ombros da Adidas. Dos desenhos da Nike na camisola do Mundial dos Estados Unidos ou das tiras finas tão popularizadas nos anos oitenta por escoceses, franceses e dinamarqueses. Tenho saudades de ver a Preud´Home fazer defesas impossíveis a Hassler ou de imaginar como um desdentado Jimmy Leighton era capaz de defender sobre a linha um tiro de cabeça de Tore Andre Flo. Durante essa geração o futebol europeu consagrou grandes equipas. A maioria dos adeptos sabem quais são, não é preciso que me repita. Mas houve uma série de actores secundários igualmente brilhantes que me roubaram o coração. É como no cinema, onde tantas vezes prefiro apreciar aquele actor de low profile no fundo do plano em vez de perder-me no grande plano ao protagonista. Essas eram as equipas que me tocavam na alma. Talvez porque, nesses dias, Portugal fosse um desses secundários. Não vivi, de forma consciente, o Mundial de 1986 e por isso tive de esperar até já estar no ciclo para ver a selecção das Quinas jogar uma competição internacional. Quando Portugal disputou o seu primeiro Mundial depois de Saltillo estava a dois meses de entrar na universidade. Toda a adolescência tinha passado a pensar que a selecção que então equipava - que saudades - de vermelho e verde, seria sempre um jogador de segunda numa mesa de especialistas em bluff.

 

Esses eram os dias em que a Europa tinha menos países. Menos estados independentes significava equipas mais fortes e místicas.

Lembro-me da devoção especial que sentia pela Jugoslávia e como rapidamente a emergente Croácia me conquistou o coração. Por razões clubísticas sempre torci pela Eslovénia e pela Sérvia. Mas tudo me levava sempre àquela equipa que mereceu melhor sorte no Itália 90, com a orgulhosa estrela vermelha sobre o centro do equipamento. O mesmo podia dizer da União Soviética e o icónico CCCP. O que me custou aprender a dizer Rússia e a pensar na lógica de existir uma Ucrânia em jogos oficiais quando todas as estrelas soviéticas, de vermelho e branco, eram do Dynamo de Kiev. E que dizer da última época dourada do futebol nórdico. Da Suécia de Dahlin, Anderson, Thern, Brolin e de um adolescente rastafari chamado Henrik Larsson. Ou da reinventada Dinamarca, sempre e quando Michael Laudrup estivesse em campo (as horas que passei a treinar "aquele" passe). Para não esquecer-me, evidentemente, da histórica Noruega que chegou ao topo do ranking FIFA com um estilo de jogo importado directamente da segunda divisão inglesa com os seus gigantes nas duas áreas a impor a sua lei. Nesses tempos, quando Portugal tinha de defrontar este tipo de equipas, não havia Ronaldo que nos salvasse. Era drama assegurado.

Mas o que realmente me produz nostalgia é o desaparecimento progressivo de verdadeiras selecções históricas. Daquelas que durante mais de meio século definiram o que era o futebol europeu. Tenho saudades de um Escócia vs Áustria muito antes de ter sabido que esse foi o duelo estético e ideológico que definiu o modelo de jogo que mais me apaixona. Tenho uma tremenda nostalgia quando vejo as camisolas da Hungria cruzaram-se com as da Bélgica, pensando nesses jogos perdidos no tempo em que os Nealazi e os Scifo se cruzavam com naturalidade. Com o passar dos anos, a Europa reinventou-se e nasceram novas potências como Portugal e várias selecções desapareceram do mapa. Raramente vemos equipas do leste europeu que não estejam suportadas por magnatas do petróleo ou do gás, ou clubes nórdicos e britânicos da velha guarda. Isso provocou a decadência de selecções que na era pré-Bosman estavam sempre lá. Eram os dias em que a França, Itália, Espanha ou a Inglaterra podiam falhar um Mundial ou um Europeu e ninguém punha as mãos na cabeça. No seu lugar havia sempre alguém disposto a aproveitar a ocasião como a Bulgária de 94 ou a Dinamarca de 92.

 

Vai ser muito difícil que a situação mude. A ampliação dos Europeus a vinte e quatro equipas - uma decisão que discordo por completo - poderá permitir um último hurrah a algumas destas selecções. Mas a magia nunca será a mesma. O guarda-redes escocês terá uma dentição perfeita. Os belgas terão afros mas nenhum barbudo. Os carecas búlgaros terão tatuagens no crânio e os avançados noruegueses serão imigrantes perfeitamente integrados na sociedade nórdica e não guerreiros vikings de outros tempos. Tenho saudades desse futebol porque sei que passe o que passar, nunca mais vai voltar. E tenho saudades do Escócia vs Áustria porque quando me sentava a ver estes jogos só tinha de me preocupar por fazer o trabalho de casa no carro, a caminho da escola, sem que se dessem conta.



Miguel Lourenço Pereira às 16:23 | link do post | comentar | ver comentários (11)

Sábado, 01.02.14

Toca-a outra vez. Quando ninguém dava por eles, quando ninguém acreditava. Toca-a outra vez. Quando os bajitos estavam na lista de transferíveis e os "todocampistas" enchiam as capas de revistas. Toca-a outra vez. Com a moral pelo chão, com as angústias do passado ao virar da esquina. Toca-a outra vez viejo! Luis Aragonés reinventou o futebol espanhol misturando a sua herança histórica, que sacou das entranhas de um país farto de desilusões, com as melhores inovações tácticas da escola centro-europeia que aterraram no país. O elo perdido numa história de desencontros que se fez magia, uma noite em Viena.

Luis nunca esqueceu o tiro que Sepp não soube parar. O tiro perfeito. O livre indefensável que ia acabar com a hegemonia espanhola do Real Madrid na competição que os merengues diziam ser sua por direito divino. A bola entrou, os colchoneros celebraram. O título parecia seu. Cedo demais. Reina, mais entretido em fazer-se fotos do que em estar atento aos últimos lances do encontro, não soube parar o remate desesperado de Schwarzenbeck. Uma bola que nunca devia ter entrado. Mas que custou a Aragonés o título que lhe faltava no dia do seu adeus.

Esse foi o momento que talvez passou pela cabeça do Sabio de Hortaleza quando Torres e Lahm correram a disputar o mesmo esférico. Ao seu lado, no banco, o filho do seu velho amigo Reina susteve a respiração. El Niño foi mais rápido, mais ágil e mais eficaz. Desta vez os alemães teriam de ver como Aragonés, sobre todos os outros, levantava o troféu. Outra taça, certo, mas o seu ajuste de contas pessoal. Despedido antes da competição ter sequer arrancado, sabia que era outra forma de dizer adeus. Em Viena ninguém lhe estragaria a festa. A sua obra estava completa, a trajectória como jogador reivindicada como técnico. A história teria de memorizar o seu nome, quer quisesse quer não. Podia ir em paz.

Luis Aragonés foi o homem que redefiniu o Atlético de Madrid da era de Vicente Calderón. Como jogador e como treinador permitiu ao clube manter uma identidade emocional própria numa época em que o seu rival a norte de Madrid parecia invencível. Com as suas declarações polémicas, carácter indomável e espírito guerreiro, Luis uniu a paróquia à volta de uma ideia comum. A fortuna nunca lhe acompanhou como merecia nas suas sucessivas etapas no banco do Manzanares. Mas ninguém naquelas bancadas se esqueceu do seu contributo. A história do futebol, essa, lembrar-se-ia dele por uma invenção inesperada que roubou o coração do Mundo. Pela sua simplicidade, romantismo e honestidade. Um comentador desportivo chamou-lhe tiki-taka. Para Luis era apenas o velho espírito espanhol aliado com o que melhor holandeses e jugoslavos tinham trazido para o país através de treinadores como Michels, Cruyff, van Gaal, Boskov ou Miljanic. Um estilo de jogo que não abdicava dos princípios emocionais da "Fúria" mas que lhe dava critério, pausa e sabedoria. Um modelo que fazia da bola e não dos ídolos das bancadas, o protagonista principal. Aragonés podia suspeitar mas não saber que a sua invenção dominaria o mundo do futebol com uma frieza germânica. Tudo começou na sua cabeça.

 

A vida de Luis foi marcada por episódios conflitivos.

As declarações racistas sobre Henry como forma de motivar a Reyes. A exclusão dos pesos-pesados da era Clemente e Camacho da selecção, a começar pelo "intocável" Raúl Gonzalez. A sua crença absoluta nos "bajitos", jogadores que então eram desprezados pelos seus próprios adeptos. Enquanto o Camp Nou assobiava a Xavi Hernandez e a direcção pensava em vendê-lo ao AC Milan, o técnico fez dele a sua bússola. O pequeno Iniesta, que alguns pensavam que não tinha lugar no meio-campo catalão, foi o seu joker. Com eles chegaram também os Silva, os Cazorla, os Alonso e os Fabregas à selecção que ele insistiu de chamar de Roja. A sua senha de identidade, da mesma forma, dizia, que os brasileiros eram a canarinha e os argentinos a albiceleste. Sem conotações políticas. Aragonés tinha vivido a Transição e sabia que no seu tempo essa expressão estaria condenada. Com ele, e a sua teimosia, o país aprendeu a aceitar a palavra que definia o seu combinado nacional. O que não tinha medo de confiar o meio-campo a um brasileiro reconvertido. O que permitia a Sérgio Ramos as suas loucuras. O que decidiu ignorar as velhas guerras Madrid-Barça para forjar um selo de união que ainda hoje perdura, para lá de todas as tentativas da imprensa e de treinadores de quebrar o elo. Sobretudo, uma selecção que aprendeu a tocar a bola como nenhuma outra. Onde se jogava por valor e não por estatuto. Um esquema que começou a desenhar-se no Alemanha 2006 e que foi traído pelo último sopro de vida de Zidane. E que se fez mito nos campos austríacos que testemunharam como o futebol se decidia finalmente a ajustar contas com Espanha. Na meia-final, talvez o melhor jogo de toda a geração do tiki-taka, os ambiciosos e refrescantes russos foram atropelados por um vendaval de futebol de ataque. Organizado, coordenado, pensado. Mas ambicioso, vertical e letal. O fantasma dos quartos tinha ficado para trás e com ele todos os complexos. Em Viena, dias depois, os alemães não assustaram como antes provavelmente teriam feito. Espanha para conquistar a Europa aprendeu a conquistar-se a si mesma. Aprendeu com ele, o homem que não tinha nada a ganhar e nada a perder.

 

Depois da selecção veio a polémica. Alguma imprensa tentou ajustar contas com anos e anos de palavras secas, frases polémicas e decisões contestadas. O novo staff dirigente da selecção, capitaneado por Del Bosque, manteve-se respeitoso com o passado mas foi a pouco e pouco alterando o ADN impresso por Luis e Espanha tornou-se mais eficaz mas menos espectacular. Com esta nova abordagem veio o Mundial nunca ganho e o terceiro Europeu da história. Mas também uma certa aura de desencanto sentida pelos próprios espanhóis que tinham aquele Junho austríaco na memória. Aragonés, sempre polémico, preferiu o silêncio. Tinha conseguido o mais difícil em campo e não estava disposto a voltar a ser protagonista por algo que não fosse Viena e os seus "Bajitos". Silenciosamente aceitou ser o Quixote da saga nos seus campos manchegos de moinhos de vento endemoniados. Um Quixote que ensinou um país a gostar de si mesmo com a sua franqueza e que demonstrou que o futebol se podia jogar de mil e uma formas, sem dogmas. Depois veio Guardiola, o anti-guardiolismo, a frieza italiana de Del Bosque, o mourinhismo e tudo serviu para atacar a sua herança. Mas quem viveu na pele a euforia de celebrar a sua Espanha em 2008 sabe que hoje partiu um dos homens mais importantes da história do futebol europeu. Só por isso vale a pena dizer uma vez mais, "Gracias, viejo".



Miguel Lourenço Pereira às 12:26 | link do post | comentar

Quinta-feira, 23.01.14

Se fosse outro clube. Se fosse outra liga. Se fosse outra realidade. Se. Uma palavra que o futebol conjuga vezes sem conta, muitas vezes de forma quase automática. David Moyes vive no seu particular mundo dos "ses". Ser sucessor a um mito é sempre uma tarefa complexa. Mas nem sempre dramática. O anterior técnico do Everton está a viver um autêntico annus horribilis. Não só porque o seu projecto em Old Trafford não arranca mas também porque em Goodison Park ninguém parece lamentar a sua saída. Em terra de ninguém, Moyes tem sido salvo pela legendária fidelidade do Manchester United.

Vir a seguir a um mito, a um génio, é sempre uma missão (quase) impossível.

Ferguson é um dos maiores treinadores da história. Tem um curriculum que provoca o mesmo efeito de contar ovelhas, não tem fim. Os mais novos lembram-se apenas do velho com cara rosada em Old Trafford mas a sua lenda forjou-se primeiro nos anos setenta, na pequena Abardeen. Foram quase 40 anos nos bancos. Tempo suficiente para filhos, pais e avós terem a sua conexão emocional com ele. Muitos dos seus antigos jogadores transformaram-se em treinadores, um sinal normalmente de que Ferguson não foi só um homem do presente, do sucesso em campo. Foi também um inspirador fora dele. A sua liderança não poderia nunca ser substituida. É impossível.

O Manchester United tinha duas opções, igualmente válidas. Aceitar outro tipo de liderança, outra figura icónica. Ou optar pelo modelo low profile, um treinador sem esse peso que se fizesse valer por si mesmo com o tempo. José Mourinho era a primeira opção. David Moyes a segunda. A decisão foi unânime e o homem que transformou o Everton num projecto sólido foi o eleito. Rapidamente se traçaram comparação com a chega de um "desconhecido" Fergie. Artigos escritos e twitteados, naturalmente, por alguém sem formação nenhuma em história do futebol ou acesso a uma wikipédia. Quando o escocês Ferguson aterrou em Old Trafford estava em melhor situação profissional que o clube. Tinha sido o homem capaz de romper o duelo da Old Firm na Escócia, tinha ganho provas europeias, dirigido a selecção escocesa num Mundial e (quase) todos os clubes ingleses o queriam. Por sua vez, o Manchester vinha de década e meia sem títulos, de um longo deserto de ideias pós-Busby e com a era Ron Atkinson em ponto morto. Ferguson teve tempo para desenhar o seu projecto porque tinha mais peso do que a situação dos Red Devils à época. E porque o clube, em si mesmo, era uma soma de problemas e não um conjunto de virtudes. Uma vitória quase desesperada numa FA Cup, uma Taça das Taças e um tal Cantona deram a volta à história. Moyes não vive na mesma realidade mas tem recebido o mesmo tratamento que o clube tem oferecido a quase todos os seus treinadores.

 

Em 1945 acabou a II Guerra Mundial. E Matt Busby foi apresentado como técnico do Manchester United.

Desde esse momento - há precisamente 69 anos - o clube teve apenas sete treinadores. Desses sete (onde já incluimos Moyes) apenas dois estiveram menos de três temporadas no activo. Ambos estiveram envolvidos no complexo processo de sucessão ao único mito maior que Ferguson na história do clube: sir Matt.

Wilf McGuiness durou ano e meio no cargo. O United, campeão europeu um ano antes, estava em processo de renovação mas o antigo adjunto de Busby não conseguiu liderar o processo. A situação tornou-se de tal forma dramática que o próprio Busby aceitou voltar da reforma para acabar a temporada. Durante esses meses o clube abordou o irlandês Frank O´Farrell, que estava prestes a conquistar o título de segunda divisão com o Leicester. Finda a época, O´Farrell aceitou o posto de Busby mas durou pouco mais que McGuiness, acabando por estar envolvido na histórica despromoção dos Red Devils. Foi o fim dos pequenos mandatos no clube. Tommy Docherty (que treinou o FC Porto), esteve cinco anos no banco de Old Trafford. O seu sucessor, Dave Sexton, durou um menos e "Big Ron" Atkinson foi treinador durante cinco temporadas. Todos venceram títulos (FA Cup, Taça da Liga, Charity Shield), nenhum venceu a liga ou uma prova europeia. Mas tiveram sempre o apoio da direcção e dos adeptos. O mesmo apoio que teve Ferguson durante quatro anos. E o mesmo que Moyes tem actualmente.

Moyes já foi eliminado da FA Cup e da Taça Liga. Alcançar a Champions League parece missão impossível face à temporada estelar de Arsenal, Chelsea e Manchester City. A quarta vaga parece ser da propriedade do Liverpool mas até o seu antigo clube, Everton, tem mais opções de ouvir o hino da Champions. Uma estranha ironia da vida. Em Goodison Park, onde Moyes se consagrou, todos parecem estar gratos pela mudança. E isso é o pior que pode suceder a um treinador na sua posição. A eventual chegada de Juan Mata dificilmente mudará o cenário actual. O Manchester United tem um plantel extremamente descompensado mas que foi suficientemente bom para ser campeão na temporada passada. Fellaini trouxe pouco a uma equipa que já tinha a Kagawa para a sua posição e o aparecimento de Januzaj foi a única noticia positiva em toda a temporada. Todos os pesos pesados da era Ferguson estão muitos furos abaixo do que sabem fazer, a defesa mancuniana é um desastre e faltam opções, ordem e critério ao meio-campo. Culpa de Moyes, seguramente, incapaz de realizar qualquer negócio em tempo útil no mercado. Mas também uma consequência inevitável da mudança de guarda.

 

Alguns lembram-se das sucessivas heranças deixadas em Liverpool de Shankly para Paisley e de Paisley para Fagan, esquecendo-se de que os três estiveram juntos desde o principio do Boot Room e, portanto, não havia mais do que uma mera sucessão de individuo a realizar. O método permaneceu sempre o mesmo. Com Moyes a situação é distinta e a direcção do clube sabe-o. Os adeptos, habituados a vencer quase por defeito, perderam a noção histórica do clube. Mesmo nos dias de hoje - com donos americanos e uma necessidade constante de fazer dinheiro - parece altamente improvável que Moyes não acabe a temporada. Depois será o treinador quem tenha de avaliar se aguenta o peso do posto. Moyes terá mais algumas vidas para gastar. Resta saber se não é ele quem decide dizer Game Over.



Miguel Lourenço Pereira às 10:58 | link do post | comentar

Quarta-feira, 15.01.14

Acabou a novela do Ballon D´Or. Felizmente. Lembro-me com nostalgia das segundas-feiras em que passava pelo quiosque e via a capa da France Football. Só aí sabia quem era o vencedor. Nos dias da internet era possível na véspera confirmar os rumores dos jogadores que eram apanhados na foto da capa. Nada mais. Agora vivemos um autêntico circo mediático com posturas tão afastadas que o prémio se transformou numa guerra. No meio de tudo isto Platini volta a demonstrar a sua habitual hipocrisia e oportunismo. Um dos melhores jogadores do Mundo, o actual presidente da FIFA é também um demagogo consumado e dono de uma memória muito, muito fraca.

Começamos esta viagem com um disclaimer. O meu Ballon D´Or teria ido para Franck Ribery.

Nem isso signifique que não ache o ano de Cristiano Ronaldo absolutamente brutal. Nem quer dizer que não considere a Lionel Messi um ET do futebol. Na minha cabeça o Ballon D´Or é outra coisa. Nem é um prémio para o maior goleador (para isso há a Bota de Ouro), nem é um prémio para o Melhor Jogador do Mundo (para isso está a História). É um prémio temporal (365 dias, para a FIFA com alguns trocos pelo meio) e reflecte o que um jogador faz num ano num determinado contexto. O contexto colectivo (títulos, exibições) e o contexto individual (a sua importância dentro dessa dinâmica, o seu valor e o que representa). Esse é para mim o que significa o Ballon D´Or. Não significa que eu esteja certo ou errado. Pura e simplesmente, se pudesse votar, fá-lo-ia debaixo desses princípios. E para mim Franck Ribery representa o que de melhor se viu em 2013.

Dito isto, naturalmente, não posso deixar de me alegrar por Cristiano Ronaldo. Apesar de estar numa equipa milionária o abismo que há entre si e os seguintes melhores jogadores é imenso. Por isso - e porque Mourinho e o balneário merengue cortaram relações mal a época começou - o português não ganhou nenhum título em 2013. O que não o impediu de marcar como nunca, assistir como nunca e transformar-se definitivamente na reencarnação de Alfredo di Stefano que o clube necessitava. Ronaldo merece ter dois Ballon D´Ors pelo o que tem feito nos últimos seis anos da sua carreira desportiva. O prémio assenta-lhe bem, como uma luva. Mas chegou um ano mais tarde. Já Messi, imenso como é, conseguiu terminar em segundo lugar num ano em que só jogou seis meses. É um hino à forma como o argentino capturou a imaginação colectiva. Mesmo quando não está ao seu melhor Messi dá a sensação de ser o melhor. Há poucos futebolistas na história que o podem proclamar. Vencer o quinto Ballon D´Or consecutivo num ano como este seria ridículo mas estar aí relembra a todos que será muito difícil que Messi não vença mais dois ou três prémios destes. Basta não estar lesionado e o Mundo votará nele por defeito. Sentem que é o melhor que há e que o prémio representa isso. Michel Platini pensa de outra maneira. De certa forma estou de acordo com as suas declarações. O problema é que Platini funciona por oportunismo. Tem todo o direito a defender o seu "protegée" como qualquer outro adepto, ainda sendo presidente da UEFA. O que não pode é dizer que o modelo mudou precisamente este ano. Porque mudou. E nem foi este ano nem o ano passado.

 

Desde a fusão com o FIFA Award que o Ballon D´Or perdeu a sua inocência.

Nenhum prémio é perfeito mas o modelo histórico do troféu da France Football, confesso, faz para mim mais sentido. A partir do momento em que se abriram as votações ao Mundo, o prémio descaracterizou-se e transfomou-se num concurso de popularidade entre os dois monstros da nossa era. Façam o que fizerem os restantes jogadores sabem que nos próximos cinco ou seis anos será difícil que alguém se intrometa entre Messi e Ronaldo. O brasileiro Neymar - que acabou num surpreendente, ou talvez não, quinto lugar - é o único com o mediatismo suficiente para ambicionar quebrar essa hegemonia. Nesse contexto os jogadores que fazem parte da coluna vertebral do prémio não têm sentido. Ribery, Iniesta, Xavi e Sneijder teriam sido premiados noutro modelo. Com este estão destinados a aplaudir.

Antes deles houve outros que sim foram celebrados. O modelo histórico do Ballon D´Or premiou a Raymond Kopa, a Josef Masopust, a Lev Yashin, a Florian Albert, a Dennis Law, Gerd Muller, Allen Simonsen, Oleg Blokhin, Kevin Keegan, Karl-Heinz Rummenige, Igor Belanov, Lothar Mathaus, Hristo Stoichkov, Pavel Nedved, Andrei Shevchenko ou Fabio Cannavaro. São todos maravilhosos jogadores. Maravilhosos. E em cada ano fizeram méritos para vencer. Mas se o modelo aplicado à época fosse o vigente, nunca teriam vencido e Zinedine Zidane, Ronaldinho, Ronaldo Nazário, Johan Cruyff, Franz Beckenbauer, Eusébio, George Best, Alfredo di Stefano teriam seguramente bastante mais prémios dos que conquistaram. Para que façam uma ideia, em comparação com os quatro de Messi os geniais Zidane e Ronaldinho tiveram apenas um. A diferença não é tão grande, pois não? E aí entra na equação Michel Platini.

O francês foi, provavelmente, o melhor jogador europeu da sua geração. Até 1995 os jornalistas da France Football não podiam votar a não-europeus, mesmo que jogassem na Europa. Em campo, Platoche media-se com Zico, Sócrates, Maradona e Francescoli mas quando chegava a hora de votar, estava só. Em 1983 venceu o seu primeiro de três Ballon´s D´Or consecutivos. Consecutivos. Sob a sua teoria, esses prémios teriam de ter sido referenciado com algo mais do que o seu talento e charme. Títulos. Títulos colectivos imagino porque foi esse o seu argumento de defesa de Ribery. Em 1985, quando venceu o prémio pela última vez, Platini foi campeão europeu com a Juventus. Confirma. No ano anterior, o francês levou o seu país a vencer a sua primeira competição internacional, o Euro 84. Confirma. E em 1983, o seu primeiro ano como premiado, que venceu Platini? Nada.

A memória de Michel é curta mas nós ajudamos. Nessa temporada, ao serviço da Juventus, o francês ganhou a Supertaça italiana. Mas ganhou-a em Agosto de 1982, fora do ano temporal de 1983 a que se correspondia a votação. Nessa temporada o título italiano foi para a AS Roma. E o europeu para o Hamburgo, depois de ter derrotado a sua Juventus na final. A Platini restou a compensação de ter ganho o prémio ao melhor marcador da Serie A com 19 golos. Nada mais. E na votação final, a sua vitória foi esmagadora. E não sobre um jogador do campeão europeu (Hamburgo) ou italiano (Roma). Atrás de si ficou Kenny Dalglish, um dos melhores jogadores que nunca venceu o troféu, e que tinha vencido algo esse ano: o título inglês. Em terceiro ficou Simonsen, que por então já jogava no Vejle dinamarquês. Não foi a primeira nem seria a última vez que um jogador sem títulos ganharia o Ballon D´Or. Sucedeu com Stanley Matthews (aí o prémio foi mais honorifico que real), com Dennis Law, com Luis Figo ou com Kevin Keegan. A fraca (e selectiva) memória de Platini serve para relembrar que o triunfo de Cristiano Ronaldo afinal não é tão atípico como isso. Afinal, em 2012, não foi o argentino Leo Messi que ganhou (de forma surpreendente) o mesmo troféu com "apenas" um novo recorde goleador num ano mas sem títulos colectivos. Um recorde que superou outro, de Gerd Muller que, quando o conseguiu, não foi recompensado com o mesmo prémio. Nessa época, para vencer o Ballon D´Or, era preciso algo distinto!

 

O Ballon D´Or é cada vez mais um circo mediático e um prémio fechado. Impensável o esquecimento a que foi votado o Borussia Dortmund e muitos dos jogadores do próprio Bayern Munchen. É também um prémio que, se fosse votado ainda só pelos jornalistas, teria ido para Ribery como no passado teria ido para Sneijder em 2010, por exemplo. Na votação final nem no pódio ficou. Não é um prémio que respeite, nos moldes actuais. Não é um prémio bem gerido, a variação nas votações este ano, os votos falsos no ano passado, dão bem conta disso. É um prémio binómio que dista muito da sua ideia original. A que sabia premiar a Cruyff, Charlton e van Basten mas também sabia reconhecer que outros grandes jogadores realizavam grandes temporadas. Tenho saudades dessas segundas-feiras de manhã, desse quiosque e de uma capa com a cara de Philip Lahm, mais surpreendido do que eu. Platini seguramente não tem nostalgia desses dias. Se tivesse, um dos seus troféus estaria agora em casa de Dalglish ou Magath. Poderia oferece-lo a Ribery. Em nome da coerência!

 



Miguel Lourenço Pereira às 11:53 | link do post | comentar | ver comentários (13)

Quarta-feira, 08.01.14

A data de fundação do FC Porto sempre foi alvo de debate. O clube existiu em várias reencarnações. Mas apesar de um historial único, a verdadeira invenção do FC Porto moderno aconteceu depois de um aceso debate na pastelaria Petúlia que levou Pinto da Costa a proclamar a sua mítica frase de "largos dias têm cem anos...". O regresso de José Maria Pedroto às Antas foi também o início de um novo clube que rompia com os erros históricos do passado e lançava as bases para o que hoje é a potência dominadora por excelência do futebol português.

Se Eusébio foi o principal embaixador do futebol português nos relvados, no banco de suplentes sentou-se durante duas décadas o seu equivalente entre os técnicos. Portugal é um país historicamente capaz de produzir excelentes treinadores de futebol, desde os dias de Cândido de Oliveira até à consagração mediática de José Mourinho. Nenhum foi, no entanto, tão influente como José Maria Pedroto.

O popular Zé do Boné não se limitou a ser um inovador. Reinventou também um clube e com ele uma cultura futebolista que se prolongou no tempo graças ao trabalho do seu braço-direito emocional, Jorge Nuno Pinto da Costa. Juntos forjaram uma dupla histórica onde ao dinamismo do dirigente se juntava a inteligência e acidez do treinador. Pedroto foi tudo enquanto esteve vivo. Jogador de excelência, um dos mais completos da sua geração. Técnico altamente preparado, o primeiro em Portugal a formar-se no estrangeiro com diploma de excelência. Ideólogo e presidente "de facto", a partir do momento em que regressou às Antas debaixo do olhar corroído de Américo de Sá e de uma cultura futebolística habituada a considerar os azuis-e-brancos como actores secundários.

Pedroto revolucionou um clube preso ao amadorismo de outros tempos. Por um lado espicaçou a moral dos adeptos portistas com declarações públicas violentas contra o poder instituído do centralismo, os "roubos de Igreja" e a preferência política pelos clubes da capital. Uma ideia que defendeu sempre, mesmo enquanto jogador, a partir do momento em que assinou não pelo FC Porto mas sim pelo Belenenses. Ao vivo testemunhou com o circuito político do futebol português se concentrava entre os grandes da capital e não esqueceu a lição. Mas Pedroto não teria triunfado se a sua mensagem fosse apenas de conflito. De portas para dentro trabalhou para mudar a mentalidade pequena de um clube que não vencia um título nacional há quase duas décadas e que antes, no seu tempo de jogador, tinha estado quase igual período de tempo sem triunfar. A mentalidade pequena, provinciana, o medo de atravessar a ponte rumo a sul para jogar longe dos adeptos teria de ser alterada para uma forte cultura de clube inspirada no modelo que Shankly tinha aplicado em Liverpool. As Antas tornou-se um fortim com Pedroto mas foi a melhoria de prestações fora de casa que permitiram a uma equipa nas horas baixas, ultrapassada pelo seu rival local, voltar ao topo da classificação.

 

O técnico começou a sua carreira a principio dos anos 60.

Formou-se no estrangeiro - o primeiro treinador luso em consegui-lo - e com a selecção portuguesa de juniores alcançou um título internacional que hoje seria o equivalente do Mundial sub-20. De aí passou para a Académica e o Leixões antes de finalmente chegar ao banco principal nas Antas. Foi a maior lição da sua vida. Numa época em que Benfica e Sporting dominavam a liga - com vitórias europeias à mistura - Pedroto montou uma equipa capaz de lutar pelo título pela primeira vez em quase uma década. Mas um tiro no pé do próprio clube, reflexo da gestão quase amadora de alguns dirigentes e do comportamento pouco profissional de vários jogadores, colocaram-no em posição de ruptura com o clube. Num feito quase sem precedentes uma quente Assembleia Geral levou a direcção a expulsar Pedroto de sócio e a proibir a sua entrada nas instalações do clube. Foi um golpe quase mortal na sua ambição de devolver os dragões aquela que ele confiava ser a sua posição natural.

Sem Pedroto o clube da Invicta foi de mal em pior enquanto o Zé do Boné se tornava célebre nas suas passagens por Setúbal e pelo Boavista, equipas modestas com que venceu Taças de Portugal e colocou a lutar pelo título. Foi o primeiro treinador a aplicar os conceitos básicos do 4-4-2, a cultura do futebol de posse, a troca posicional de extremos e laterais para jogar com a perna trocada. Criou uma cultura de balneário impar, um corporativismo quase britânico, e exigiu apenas aos seus jogadores que encarassem cada jogo como se fosse o último. Pelo meio foi também seleccionador nacional, conseguindo um histórico empate em Wembley contra a Inglaterra. No Porto alguns viam o seu sucesso com inveja mas Pinto da Costa, sagaz, começou a fazer os possíveis e impossíveis para o devolver ao seu posto natural. Em 1975 uma nova Assembleia Geral finalmente levantou a suspensão ao sócio e um ano depois Pedroto era treinador da equipa principal do clube apesar das suspeitas de um desesperado Américo de Sá. Condição, só uma: Pinto da Costa seria o seu braço-direito, o director desportivo na área do futebol.

Com Pedroto ao leme os títulos regressaram. Um bicampeonato entre 1977 e 1979. E com eles uma nova cultura de clube. Jogadores formados em casa como Fernando Gomes, António Oliveira ou Rodolfo foram associados a jovens promessas de zonas circundantes (Jaime Pacheco, António Sousa) e a homens da confiança do técnico das suas passagens pelo Bonfim e pelo Bessa (Octávio, Duda e Freitas). Os mesmos princípios que tinham sido a base da sua carreira foram aplicados nas Antas com maior sucesso e a cultura de clube saltou do relvado para os escritórios do estádio. O choque era inevitável e o Verão Quente atrasou em quase uma década a afirmação definitiva dos azuis-e-brancos. Pinto da Costa continuou a luta política e Pedroto exilou-se em Guimarães, com Artur Jorge ao seu lado, esperando o momento certo para voltar. Em 1982 o antigo director desportivo tornou-se presidente graças ao apelo de Pedroto aos sócios e adeptos do clube e o Zé do Boné voltou para a sua terceira e última etapa no clube que durou até à sua morte, a 8 de Janeiro de 1985.

 

Pedroto mudou para sempre a história do futebol em Portugal. Transformou um clube de mentalidade provinciana na máxima potência do futebol português. Inculcou nos jogadores, mas também nos dirigentes e nos adeptos a crença de que não existia nenhum rival superior se eles assim quisessem. Paralelamente minou sempre que pode o centralismo crónico do futebol em Portugal com declarações e posturas que se enquadravam perfeitamente no espírito de um país em estado ainda revolucionário. À sua morte poucos podiam imaginar no que o FC Porto se iria tornar. Poucos sim, mas Pedroto seria seguramente um deles. Com os seus discípulos - o dirigente, Pinto da Costa, e o treinador, Artur Jorge - o FC Porto não só recuperou o título nacional como iniciou a sua saga europeia. Vinte e nove anos depois a história permanece igual ao sonho de um homem que na década de 70 inventou um clube moderno do nada.



Miguel Lourenço Pereira às 13:08 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Domingo, 05.01.14

Com a morte de Amália Rodrigues foi-se o Fado. O adeus da irmã Lúcia colocou um ponto final no mito humano de Fátima. Sobrava o terceiro F que definiu o sentimento português de um regime que se armou de ícones populares para sobreviver. Eusébio da Silva Ferreira encarnou esse F como nenhum outro jogador teria podido. Ele era o império, ele era o português humilde, ele era o super-herói. Ele foi, durante largas décadas, o Futebol. Há muito poucos - e contam-se com os dedos de uma mão - os jogadores que podem reclamar terem sido melhores, em campo, do que ele. Todos os outros, os seus iguais e os seus inferiores, sabem que hoje não morreu um Homem. Foi-se o Mito!

Não é preciso ser-se português ou moçambicano. Ter vivido o Mundial de 1966 em directo, ter assistido às épicas Noites Europeias via televisão ou rádio. Eusébio ultrapassou há muito a necessária condição de acompanhar em vida os méritos de um homem para fazer dele uma personagem mitológica. No dia em que deixou de jogar, depois de anos entre as Américas e modestos clubes portugueses, Eusébio já fazia parte da elite desse desporto que é muito mais do que um jogo de vida ou morte. Maradona, Pelé, Di Stefano, Cruyff? Talvez. Talvez eles tenham sido melhores, em traços gerais, do que Eusébio. Mas salvo "El Pibe", de outra geração, todos eles defrontaram a Pantera Negra em campo...e perderam.

Não há um só jogador que possa reclamar ser imensamente superior a um homem que marcou um antes e um depois na vida do futebol mundial. Ele foi o protótipo do jogador moderno. Atlético, com um físico preparado para as exigências do jogo malgre aquele joelho. Um jogador com um sentido posicional único, capaz de pressionar o rival para conseguir a sua oportunidade. Um jogador tacticamente culto e fisicamente inumano. As suas arrancadas épicas precederam as de Maradona. O seu disparo letal não tinha rival nos de Pelé. A forma como se movia em campo nada devia a Cruyff ou Di Stefano. A sua humildade ganhou-lhe o respeito e o carinho do mundo. Eusébio era inimitável.

Hoje em dia nenhum jogador seria capaz de fazer o que ele fazia. No mítico jogo contra a Coreia do Norte - e ainda hoje nenhum futebolista marcou 4 golos nuns quartos-de-final de um Mundial de futebol depois dele para operar uma reviravolta no marcador - foram precisos três entradas dos coreanos para o travar. Qualquer ídolo das massas de hoje teria ido ao chão na primeira das faltas sofridas. 

Por isso, pelo golo mítico contra a Checoslováquia na fase de apuramento, pelas exibições históricas não só na Luz mas também nas Antas, em Alvalade, no Bernabeu, em Paris, Amesterdam, Milãõ ou Turim, Eusébio era uma estrela global quando esse termo ainda não fazia todo o sentido.

 

Eusébio encarnou sempre tudo aquilo que o futebol tinha de positivo.

Era competitivo, um apaixonado do seu clube (algo que os adeptos dos clubes rivais, em vez de criticarem deveriam admirar, provavelmente porque gostariam que ele tivesse professado a mesma devoção à sua equipa) mas também era humilde, com um sentimento de fair play único e, sobretudo, era um entre muitos. Nunca se transformou na estrela solitária e pretensiosa em que acabaram os da sua condição. Di Stefano governava com chicote o balneário do Bernabeu. Pelé transformou-se com o tempo numa máquina de fazer dinheiro e Cruyff e Maradona criaram personas bigger than life. Tal como o seu rival e amigo Charlton, a simplicidade era o seu traço.

Venceu um Ballon D´Or - essa obsessão moderna - e ficou a um ponto de vencer um segundo no ano em que brilhou no Mundial de Inglaterra, algo impensável se fosse outro jogador qualquer. Venceu uma Taça dos Campeões e podia ter vencido outras três, finais perdidas em que deu tudo o que tinha para dar. A nível nacional era impossível acompanhar os seus registos, a sua ferocidade. Era um jogador de outra dimensão e permitiu ao Benfica - que o logrou reter com a cumplicidade de um Estado Novo que viu nele a esperança de se eternizar no poder com o beneplácito do povo - protagonizar a etapa mais brilhante da sua história. Os "ses" não nos permitem se não sonhar o que teria sido o seu impacto mundial se tivesse actuado em Inglaterra, Itália ou Espanha. Que tenha sido capaz de fazer-se mito vestindo apenas a camisola das Águias é testemunho da sua grandeza.

Não vale a pena falar dos números, dos momentos marcantes, dos títulos conquistados. O debate sobre se é ou não o melhor português de todos os tempos também não faz sentido. Foi o produto de uma era, o melhor de uma geração de génios que fizeram das equipas portuguesas uma das linhas avançadas da época dourada das noites europeias. A memória é hoje a única coisa que conta. Cada português, cada amante do futebol terá a sua. Os benfiquistas perderam um pai espiritual. Os adeptos dos rivais uma "besta negra" que muitos, no entanto, respeitaram pelo seu valor individual. Os que não talvez gostem mais do seu clube do que de futebol. Lá fora o Mundial de 66 não se esqueceu provando que não é preciso vencer para conquistar o troféu mais importante de todos: o respeito dos teus.

 

Eusébio era o meu jogador preferido quando era pequeno. E no entanto nunca o vi jogar. Não era necessário. Também não fazia falta que fosse do meu clube ou que eu tivesse sido um seguidor apaixonado da equipa das Quinas. Para mim era como Maradona ou Cruyff, jogadores que valem pelo que são, pelo o que nos fazem sentir e pelo que conseguem transmitir, como se tivessem sido os primeiros a lograr algo. Talvez não seja verdade, o tempo ensinou-me que houve outros pibes, génios centro-europeus e pérolas negras antes deles. Mas Eusébio para mim será sempre um dos poucos nomes deste jogo capaz de me evocar sensações únicas. Isso é talvez o mais importante. A morte de um mito custa sempre a aceitar, coloca toda a nossa vida em perspectiva. Onde estavas, o que fazias quando soubeste. Mas quando passa o choque, há uma sensação de paz interior que fica. O mito já era mito antes de partir. E continuará a sê-lo depois. Eternamente, como a própria magia do jogo sem o qual não sei viver!



Miguel Lourenço Pereira às 14:57 | link do post | comentar | ver comentários (6)

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Abril 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
15
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

SONHOS DOURADOS - 20 Mund...

A revolta dos humildes

Golpe de autoridade no Be...

Elogio ao Tata

A hipocrisia e a guerra d...

O drama da Serie A

A encruzilhada histórica ...

Fariseus

Møller Nielsen, o vencedo...

Tenho saudades de um Escó...

Últimos Comentários
Pavão, primo directo do meu pai. A sua mãe era irm...
Se houver Maracananzo 2, acho que o BRasil nunca m...
Subscrevo totalmente... O mais surpreendente talve...
João Diogo, Entendo o que queres dizer e até pode ...
Não acho que o Real Madrid esteja a fazer uma époc...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO