Quarta-feira, 15.05.13

Ao Benfica não irá servir de muito a série de elogios que vai receber nas próximas horas. Foi um digno vencido principalmente porque não soube ser um convincente vencedor. Dominou o jogo, foi claramente superior ao Chelsea, mas faltou-lhe a frieza para matar o jogo quando se exigia. Depois, o cinismo dos Blues, algo no qual são especialistas, fez o resto. Os londrinos são o segundo clube na história do futebol a ser, ao mesmo tempo, detentores dos dois troféus de clubes europeus. A conexão espanhola sobrepôs-se ao medo do seu treinador, Rafa Benitez, num jogo onde o minuto 92 lembrará para sempre aos encarnados uma semana negra na sua história. Uma nova forma de maldição, com o selo de Jorge Jesus.

 

Outra equipa teria fechado a final nos primeiros vinte minutos. Outra equipa teria sabido aproveitar o medo e as deficiências defensivas de um rival que não esteve à altura do estatuto de actual campeão europeu. Mas o Benfica não soube nunca ser essa equipa. E por isso perdeu. Da forma mais cruel possível. Numa reminiscência da derrota contra o FC Porto, num lance inesperado em período de descontos. Um lances que despiu toda a esperança de uma formação que mereceu ganhar mas também mereceu perder.

A forma como a equipa encarnada entrou em campo despejou qualquer dúvida sobre o estado emocional dos jogadores. A derrota contra o FC Porto pode ter colocado em risco as aspirações ao título nacional, mas Jesus soube motivar os seus jogadores. Era uma final europeia o que lhes esperava. Para alguns deles a única das suas carreiras. Para os adeptos de um clube que não vivia uma aventura deste nível há mais de duas décadas, era um jogo muito especial. A atitude dos adeptos encarnados foi absolutamente exemplar, digna de um grande emblema europeu. A dos jogadores não foi diferente. Entraram com vontade de engolir o mundo e esmagaram o Chelsea durante vinte minutos que se fizeram eternos para os londrinos. Benitez teve medo. Sem Hazard - lesionado - preferiu colocar David Luiz como médio defensivo (um erro) e Ramires como extremo (outro favor ao jogo ofensivo do rival) e isolou o tridente Oscar-Mata-Torres, deixando-os à sua sorte.

Se alguém não merecia ter ganho este encontro, esse foi sem dúvida o técnico espanhol. Foi o primeiro treinador a vencer sem mexer na equipa, sem operar substituições mesmo quando havia sinais claros em campo que pediam a presença de Moses ou Benayoun. Não houve vontade de ganhar, apenas de aguentar e especular com o erro do rival. No final, a sorte sorriu-lhe, como em 2005 com o Liverpool, mas o mérito terá de ser distribuido pelos seus jogadores, que aguentaram o embate dos encarnados e souberam recompor-se.

O Benfica podia e devia ter ganho a final nesses vinte minutos iniciais. Tiveram a bola, onde quiseram, criaram oportunidades, foram mais rápidos, mais fortes e mais inteligentes na criação de jogo ofensivo. Mas falharam cada uma das oportunidades claras que construiram. Erros infantis que custaram caro. Um título europeu.

 

A partir desses vinte minutos o jogo equilibrou-se até ao final mas o Chelsea nunca foi melhor que o Benfica.

Em nenhum momento do jogo essa pressão asfixiante dos lisboetas se reflectiu na sua área. Não é a isso que joga a equipa de Benitez, mesmo que alguns dos seus jogadores o queira. Mata pedia a bola mas ela raramente lhe chegava. Torres lutava só, contra o mundo e Óscar e Ramires defendiam quando deviam pensar em atacar. A memorável exibição de Rodrigo na primeira parte, rasgando a defesa inglesa e abrindo o seu corredor a um incisivo Melgarejo, desapareceu no segundo tempo mas Gaitán e Enzo Perez entenderam-se sempre de forma a superar a conexão Lampard-David Luiz. O argentino Salvio mostrou-se mais apagado do que os seus companheiros mas soube lidar bem com os inesperados erros de marcação de Ashley Cole, um veterano com um jogo para esquecer. No meio, Cardozo, uma autêntica torre, esperava a sua hora. Que eventualmente chegaria.

Na segunda parte, contra a corrente do jogo, literalmente, Cech lançou uma bola larga que Mata controlou e entregou a Torres sem deixar cair. Um gesto perfeito do asturiano que isolou o avançado espanhol. Torres aguentou a carga de Luisão, a saída de Artur e marcou. Sete competições, goleador em todas elas. Superou o recorde de Pedro Rodriguez mas ninguém ainda parece ter-se lembrado. Foi um golo da dupla mais irreverente da equipa inglesa e um balde de água fria para os encarnados. Jesus arriscou tudo lançando Lima e Ola John para o lugar de Rodrigo e Melgarejo mas os seus planos foram destroçados em quinze minutos.

Primeiro porque o golo de Cardozo, depois de um infantil penalty de Azpilicueta, deixava tudo igual mas com um Benfica descompensado tacticamente atrás. E segundo porque a lesão inesperada de Garay forçava o técnico a gastar a sua terceira carta demasiado cedo. A partir de aí o Benfica abdicou, praticamente, e começou a pensar no prolongamento. Começavam a falhar as pernas. A pressão inicial, espantosa, não tinha dado os seus frutos e agora a bola pertencia ao rival que pensava na vantagem de ter mais trinta minutos com um plus de oxigénio no corpo. Apesar de algumas oportunidades, quase sempre frutos dos erros dos ingleses, o Benfica foi recuando no terreno. Lampard tinha acertado na barra - no que teria sido um golo merecido para culminar a sua brilhante carreira individual - e quando Ramires ganhou um canto no último minuto, a alguns o nome de Kelvin veio à cabeça. Antes da final tinha-se falado na maldição de Guttman. Não vinha ao caso, não só porque se referia só à Taça dos Campeões Europeus como também já foi quebrada pelo FC Porto, que rompeu a segunda parte da mítica sentença. Mas o Benfica acabou por sofrer a maldição de Jesus, um treinador talvez excessivamente arrojado, que fisicamente controla mal os tempos dos seus jogadores. Pediu demasiado da equipa cedo demais e foi precipitado a mexer-se no banco. De aí viu, impotente, como Ivanovic cabeceava só para bater de forma inapelável a Artur. Um golo que valia um troféu europeu. Um golo que urgava ainda mais na ferida dos encarnados.

Futebolisticamente a superioridade do Benfica foi constantemente superior. Dominaram todos os elementos do jogo. Menos o mais importante. Foram inocentes quando encararam a baliza e deixaram-se levar, fisicamente, contra uma equipa que está habituada a um modelo mais cínico e cauteloso que guarda sempre um sopro de ar para o final. O Bayern Munchen sofreu do mesmo mal na época passada, marcando a poucos minutos do fim para ver o Chelsea igualar no último suspiro. Ao Benfica faltou maturidade e experiência para encarar a final como um jogo diferente. Se o tivesse feito talvez tivesse ganho como merecia pelo que fez em campo. Será dificil que um projecto habituado a perder alguns dos seus melhores jogadores ano atrás ano volte a uma final nos próximos anos. Mas mais do que em 1990, 1988, 1980 ou 1968, esta formação encarnada sentiu mais perto o mérito de ser campeões de uma prova europeia. Um golo nos instantes finais fez toda a diferença. A história do futebol é feita desses momentos. Os adeptos do Bayern Munchen sabem-no como poucos e não só pela sua experiência com os Blues. Também eles foram superiores ao Manchester United na mítica final de 1999. A história lembra-se de outra coisa. Mas os adeptos bávaros não. Uma lembrança que seguramente vai acompanhar os seguidores do clube da águia nos próximos anos.



Miguel Lourenço Pereira às 22:14 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Sábado, 11.05.13

O futebol sabe ser cruel quando necessário. Depois de uma abordagem medrosa e cuidada durante noventa minutos, Jorge Jesus postrou-se no relvado do Dragão, incapaz de reagir ao mágico disparo de Kelvin. Um remate que rompeu com toda a dinâmica de um jogo sempre prevísivel, de parte a parte, e abriu a possibilidade ao FC Porto de se sagrar uma vez mais campeão nacional.

 

Na época passada Jesus chegou ao final da temporada com cinco pontos de vantagem sobre o seu rival, Vitor Pereira. Perdeu a liga.

A um jogo do fim, a situação pode repetir-se. Foram quatro, não cinco, os pontos perdidos. O desfecho poderá ser o mesmo. O FC Porto tem de bater o Paços de Ferreira num campo onde só o Benfica ganhou. Um campo que vai celebrar o histórico apuramento para a Champions League. Uma das mais merecidas e brilhantes notícias do ano. Os encarnados recebem o Moreirense - que precisa de pontuar para sobreviver - depois de uma exigente final na próxima quarta-feira, contra o Chelsea.

A crueldade do momento sacou o mais espantoso que gera o futebol.

Jesus sentia ter o jogo controlado. Chegou ao estádio do Dragão consciente de que um ponto praticamente resolvia a questão e durante noventa minutos pensou apenas nesse ponto. O golo madrugador de Lima - como resultado de um lance longo ensaido, ao estilo de Rory Delap - reforçou a sua crença de que esse empate bastaria. Talvez porque suspeitasse que o FC Porto seria um rival previsivel. Porque inicialmente foi. Com um estádio cheio - mas que não foi uma caldeira humana - a pressão estava do lado dos dragões. Os homens da casa suportaram o peso inicial, tomaram a iniciativa do jogo e nunca a perderam. Mas esse controlo, como quase sempre ocorre desde que Vitor Pereira é treinador principal, nunca se transforma num domínio asfixiante na área do rival. A posse de bola à Barcelona - muito maior que o rival, muito mais inconsequente - garantia que o jogo se jogava numa só direcção. Mas a partir de aí, muitas dificuldades em encontrar espaços. O Benfica não quis arriscar, não quis ir atrás de um momento histórico. As diferenças entre Jorge Jesus e André Villas-Boas ficaram, uma vez mais, evidentes. O segundo, quando pôde rematar o título em casa do rival - com uma margem bastante superior - arriscou tudo e ganhou. Jesus mostrou-se medroso e não sentiu nos seus jogadores confiança suficiente para impor a sua vontade ao rival. Pagou o preço. A sua imagem, de joelhos, define não só a temporada, não só a sua carreira como treinador mas talvez toda a política desportiva do SL Benfica. No momento em que podiam ter dado uma estocada mortal ao seu histórico rival, devolvendo a graça de vencer o título no seu relvado, imperou o medo. E o dragão sentiu o cheiro a sangue. E aproveitou.

 

Vitor Pereira tem o pior plantel dos últimos anos de FC Porto.

Fez milagres durante o ano. Várias posições carecem de alternativas lógicas. Algumas delas, cruciais. Danilo voltou a desiludir, como em todo o ano. Mas Miguel Lopes já não está. Jackson foi bem anulado por um triângulo formado por Luisão, Garay e Matic. Não havia ninguém à sua volta para partilhar as despesas do golo. No banco, também não. Liedson entrou para assistir Kelvin, mas nunca para criar perigo na área. Varela, inepto como quase sempre, complicou um lance que acabou em golo de forma inesperada. Pouco mais fez. James Rodriguez falhou o golo do ano. Estava em posição irregular. Também não teve arte e engenho de fazer a diferença e os auiz aguentavam-se com a força e cabeça do seu trio do miolo. Quando Fernando, imenso, sai lesionado, falta alguém que imponha a mesma atitude de liderança no miolo. Mesmo assim, com um plantel inferior ao rival, o técnico espinhense manobrou o jogo. Tomou a iniciativa, adaptou-se às circunstâncias e lançou as únicas armas que dispunha. Funcionou.

O seu FC Porto é uma equipa trabalhada, uma equipa que sabe cuidar a bola e manejar os tempos. Mas não tem essa acutilância na área. Não tem esse killer-instinct. E por isso sofreu com equipas habituadas a fechar-se na sua área esperar. Por isso sofreu contra o Benfica. Nesses momentos de falta de espaços, a inspiração individual é uma das poucas armas que sobram. Kelvin apareceu para repor a justiça na competição. É um dos míudos da equipa B que foram tendo minutos porque não há jogadores mais experientes num plantel mal preparado. Resolveu contra o Braga, resolveu contra o Benfica. O título tem o seu selo, o selo de uma geração de jogadores forçada a aparecer demasiado cedo como protagonista por culpa desses erros da SAD. Mas também da coragem de um treinador de lhes dar a oportunidade.

Jesus lançou Roderick, Pereira lançou Kelvin. O título resumiu-se nessas decisões. A igualdade em campo não era uma igualdade de valor real. Num campeonato como o português, um dos mais fracos da Europa, é normal que equipas cujo o orçamento multiplica por muitos os euros em relação aos seus rivais, o normal é que este cenário se repita e sejam os duelos directos a decidir. O dinheiro marca a diferença entre Porto e Benfica e os outros. Mas é a cultura de vencer e o arrojo que pauta o abismo emocional que ainda existe entre os dois clubes. Em vinte anos, por cada 5 títulos do FC Porto, o SL Benfica vence apenas 1. Não há sinais de que a situação se altere no futuro imediato a avaliar pela postura de ambos os emblemas no jogo que ia decidir o título de campeão.

Na Mata Real o FC Porto vai encontrar uma equipa organizada, alegre e ofensiva, precisamente o estilo de rival que melhor encaixa no modelo azul e branco. Será também uma equipa em festa, uma equipa que quer coroar a maior época da sua história com uma exibição memorável. Pode claudicar. Mas mesmo perdendo o título, ficou claro que nos duelos directos ainda é superior ao seu rival, mesmo partindo de trás. Ao Benfica resta-lhe sonhar com voltar a levantar, 51 anos depois, um troféu europeu. Se isso falhar, o jogo com o Moreirense será de vida ou de morte. Para ambas as equipas. Falta ainda o Jamor. Onde está o Guimarães. Onde se pode salvar a época. Onde se pode partilhar entre os dois emblemas mais fortes da conjuntura actual do futebol português as honras da época. Ou talvez não. O sonho de uma tripla pode esfumar-se em quinze dias. O sonho do tricampeonato pode acabar em noventa minutos. O futebol é cruel e o apito final, e isto não é metafóra, vai ser mais uma vez o juiz da temporada.



Miguel Lourenço Pereira às 23:03 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 07.05.13

Foi contra o Chelsea que as aspirações do SL Benfica de voltar a uma meia-final europeia esbarraram na época passada. Agora, é de novo contra a equipa inglesa que o emblema luso vai ajustar contas com o tempo. Bicampeões da Europa no momento mais alto da sua história, os encarnados não sabem o que é celebrar um título europeu há meio século. O duelo de Amesterdam é o atalho mais curto para voltar a aspirar sentir-se grande na Europa.

 

O Chelsea realizou o caminho inverso do FC Porto Juventus, as duas últimas equipas a vencer de forma consecutiva duas provas europeias distintas. Mas enquanto dragões e bianconeri começaram desde baixo - a Taça UEFA em 2003 para os de Mourinho e a Taça das Taças de 1984 para os de Trapattoni - os londrinos foram forçados a descer um escalão. Vencedores da Champions League, depois de uma década de milhões gastos na equipa e no staff técnico, os Blues foram vitimas de um grupo letal - com duas equipas que, curiosamente, não passaram das duas primeiras rondas a eliminar - e forçados a exibir os galões de campeões da Europa na segunda competição da UEFA.

Um trajecto similar, mas menos ruidoso, do Benfica.

Os portugueses tinham legitimas aspirações a reeditar a boa campanha da época anterior, terminada abruptamente nos quartos-de-final, mas foram incapazes de encontrar um antidoto para Celtic, Spartak e um Barcelona C, literalmente no último e decisivo duelo. A equipa encarnada voltou assim à Europe League, prova onde tinha sido semi-finalista em 2011. Havia uma sombra de humilhação nessa derrota com o Braga que os encarnados queriam afastar de uma só vez. Sem rivais temiveis e de uma forma autoritária, desenharam o seu caminho rumo à final, no mesmo cenário onde pela última vez ergueram um troféu europeu. A maldição de Guttman - exclusiva à Taça dos Campeões Europeus - ainda vai a meio, mas é significativo que tenham passado mais de vinte anos para o Benfica voltar a uma final. Talvez por isso a febre dos adeptos em conseguir um bilhete é mais justificada do que nunca. Mais do que uma geração não sabe o que é a tensão de uma final e por isso os bilhetes Benfica Chelsea se transformaram num passaporte para a glória. O habitual esquema da UEFA - sempre preocupado com os seus patrocinadores - levou a que apenas dez mil lugares sejam distribuidos a cada clube. As habituais filas multiplicaram-se, como uma procissão, em Stanford Bridge e na Luz, apesar de haver alternativas e ser possível que o adepto encarnado encontre os seus bilhetes na Ticketbis.

 

No relvado da Arena de Amesterdam, vão estar duas escolas bem diferentes.

O calculismo táctico de Rafa Benitez - um homem com dois troféus europeus à cabeça - frente à impetuosidade de Jorge Jesus. Um Benfica apostando nos seus velocistas, no talento e faro de golo de Lima, Gaitán e Cardozo, contra uma equipa inglesa construida de trás para a frente, onde Ramires e David Luiz terão a oportunidade de reunir-se com os seus velhos companheiros, apesar de que poucos sobram dessa equipa de 2010 que recuperou o título depois de cinco longos anos.

Mata, Oscar, Hazard e Lampard formam um meio-campo com talento e classe muito superior a qualquer dos jogadores encarnados nesse sector de campo. O Benfica vai procurar, como sempre, saltar o trâmite do miolo. Matic terá de vigilar muito bem as diagonais dos geniais criativos ingleses, mas estará quase sempre só. A bola nos seus pés durará segundos, os suficientes para encontrar os espaços nas costas da defesa do Chelsea, espaços que fazem parte desse adn veloz e incansável do ataque benfiquista. Será um duelo de eficácia onde o Chelsea perde, dentro da área. O estado de forma de Fernando Torres em Londres - e a ausência de Demba Ba - não está à altura da dupla Cardozo e Lima, uma das mais letais da história do futebol português. Por isso mesmo o Chelsea deve procurar gerir os tempos de jogo, manter a bola e encurtar o campo, se não quer ser surpreendido por uma formação com sede de glória.

 

Uma final para a posteridade entre dois campeões da Europa na segunda prova da UEFA. A última vez que algo assim sucedeu, em 2003, o triunfo sorriu à formação portuguesa. Um augúrio que nem o mais apaixonado dos adeptos encarnados desprezaria. Para eles, a história deve-lhes uma alegria depois de sentir-se encorralado pelo seu eterno rival entre a elite europeia. Para o Chelsea é a melhor forma de provar que a eliminação na fase de grupos da Champions League foi um acidente de percurso e que os Blues estarão, para o ano, de novo a disputar um troféu a que os encarnados sabem que dificilmente poderão voltar a aspirar.



Miguel Lourenço Pereira às 16:43 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 03.05.13

Tem os dias contados. Quando a UEFA encontrar a fórmula de criar uma superliga europeia capaz de satisfazer os egos e as contas bancárias dos clubes europeus, a Europe League inevitavelmente acabará. Até lá é uma competição cada vez menos importante no calendário internacional mas que significa muito para quem a vence. Uma prova ambígua, onde ganhar permite levá-la até aos píncaros da glória e perdê-la, pura e simplesmente, não é mais do que um trâmite desportivo sem importância.

Para os adeptos do SL Benfica a noite de ontem foi memorável.

Pela primeira vez desde 1990 o clube encarnado vai estar presente numa final europeia. Até essa data, os encarnados eram o clube português com mais triunfos europeus (dois), finais disputadas e coleccionavam admiradores em toda a Europa. Era a geração de Erikson, a ponte entre a equipa que moldou entre 1982 e 1984 - onde dominou de forma espantosa o futebol português - e que perdeu a final da Taça UEFA com o Anderlecth. A ponte para uma nova geração, inicialmente consagrada por Toni na corrida à final de Estugarda e que, dois anos depois, aguentou o todo-poderoso AC Milan em Viena, perdendo apenas por um golpe de inspiração de Rijkaard. Esse Benfica acabou pouco depois.

Desde então, a equipa venceu quatro títulos nacionais e nunca mais esteve perto sequer de uma final europeia. A única ocasião, em 2011, foi humilhantemente derrotado por um Sporting de Braga sem qualquer tradição europeia e que seguia no campeonato nacional na luta pelo terceiro lugar com o Sporting. Os bracarenses foram derrotados em Dublin pela equipa que ocupou o lugar do Benfica como dominador nacional e representante internacional do nosso futebol. O FC Porto disputou, entre 1984 e 2013, cinco finais europeias. Perdeu a primeira, venceu as quatro restantes (a que juntou uma Supertaça Europeia e duas Intercontinentais), duplicando o número de títulos internacionais dos encarnados. A nível interno venceu 14 títulos, com dois ciclos de cinco e quatro anos consecutivos. Mais ainda, os troféus foram repartidos entre a Taça dos Campeões Europeus/Champions League e a Taça UEFA/Europe League. Os primeiros não mereciam discussão. Afinal, a prova rainha do futebol europeu é o torneio internacional de clubes mais respeitado do mundo. Não há forma de o encarar como algo que não a consagração de um grande projecto. Com a segunda prova da UEFA foi diferente. Em 2003 e 2011 o triunfo surgiu em anos de domínio avassalador internamente (vitórias na liga e na taça) e no entanto comentadores e adeptos de clubes rivais procuraram empequenecer o triunfo, precisamente, por ser uma competição secundária. Se vencerem o Chelsea, os adeptos encarnados correrão seguramente o mesmo destino. Porque esta é uma competição que permite sempre uma dupla leitura, tendo em conta o lado de onde se parte.

 

Esse fenómeno não é um exclusivo português.

Há países onde a competição gera quase um desprezo. Itália, Alemanha, França e Inglaterra são ligas que não se preocupam minimanente com a prova. É habitual ver as equipas presentes desses países apresentarem as segundas figuras em vésperas de jogos de liga mais complicados. Os italianos, que dominaram a prova enquanto não havia o formato actual da Champions League, têm nas meias-finais da Fiorentina e da Lazio, em 2003 e 2008, os seus melhores resultados numa década. No mesmo período, venceram três Champions League. Os alemães não são diferentes. A nata do seu futebol disputa a prova rainha da europa e os restantes clubes preocupam-se mais com a exigência da Bundesliga do que com os rivais da Europe League. A final do ambicioso Werder Bremen, em 2010, foi uma excepção absoluta. Nenhuma equipa alemã se preocupa com esta competição. Os franceses pensam o mesmo. Por um lado, a sua crónica incapacidade de competir nos palcos europeus dá uma certa justificação ao seu desprezo, mas na prática os gauleses raramente se preocupam em chegar às fases definitivas da competição. Os ingleses pensam da mesma forma, particularmente porque dominavam até à bem pouco a Champions League.

Na passada época, quando os dois gigantes de Manchester - que disputavam o título da Premier taco a taco - foram eliminados por Sporting e Athletic Bilbao, não houve queixas dos adeptos nem criticas da imprensa. Todos sabiam que a prova era um empecilho. Só os modestos Fulham e Middlesborough procuraram na Europe League o reconhecimento que nunca poderia vir da prova nacional. Este ano foi sensivelmente diferente. Por um lado o Tottenham de Villas-Boas afirmou-se publicamente como candidato. Por outro, o Chelsea, campeão europeu, tornou-se favorito no primeiro instante que se viu eliminado da Champions League. Mas em ambos os casos ninguém duvida que o objectivo real da época é acabar nos lugares de acesso à Champions League. Foi essa corrida ao ouro que acabou com as aspirações dos Spurs - com um plantel demasiado curto - e que pode condicionar a forma como o Chelsea jogue em Amesterdão. Com o Arsenal livre de compromissos, não há um só ponto que não seja vital na liga inglesa e para Abramovich não há Europe League que salve uma época fora do top quatro.

Sendo assim, torna-se evidente que a Europe League se tornou um torneio para metade da Europa. A Europa pobre. Os clubes gregos, turcos, suíços e holandeses procuram aqui os momentos de glória que sabem que a Champions nunca lhes dará. Russos e ucranianos, ainda incapazes de competir com a elite europeia - apesar do dinheiro investido - tentam lamber as feridas nesta competição. Os espanhóis, a viver a sua era dourada, encontraram não só no Sevilla e Athletic Bilbao, mas também Valencia, Levante e Athletic Bilbao clubes desejosos de levantar o troféu. Esse interesse genuíno deu prestigio a uma prova abandonada. Uma prova onde o futebol português se sente cómodo porque raramente tem rivais à sua altura. O Benfica é o quarto clube português em chegar á final numa década. Não é um feito memorável, não cria uma nova tendência. É simplesmente a continuidade da afirmação internacional de Portugal como um dos líderes da segunda divisão europeia.

 

Ao contrário de 2003 e 2011, com as vitórias do FC Porto, o Benfica não começou a temporada na competição. A sua presença em Amesterdam - como a do Chelsea - é um símbolo do seu falhanço em competir com a elite continental na Champions League. Num grupo absolutamente acessível, o Benfica foi incapaz de eliminar o Celtic e de vencer o pior Barcelona C da história das provas europeias. O modelo de Jorge Jesus, em todo o seu aspecto primitivo, continua a não ser suficiente para ombrear com os maiores clubes continentais mas encontra-se como peixe na água contra a segunda e terceira linha do continente europeu. A campanha encarnada foi memorável, com goleadas e um jogo ofensivo extremamente atractivo, mas eliminando praticamente rivais que não sabem o que é competir ao mais alto nível europeu. Com o Chelsea terão o seu primeiro teste sério. Se vencerem, como sucedeu com os adeptos portistas, a Europe League significará muito mais do que realmente vale, uma espécie de confirmação das aspirações europeias que distam muito da realidade do futebol europeu, como o FC Porto sentiu no ano seguinte na Champions. Se perderem, a prova valerá pouco menos do que vale realmente porque os objectivos principais, em teoria, são outros. Passe o que passar, a importância da Europe League continua a ser um fenómeno variável, espelho de uma competição europeia que entrou em profunda decadência desde que a Champions League engoliu o futebol europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 15:31 | link do post | comentar

Quarta-feira, 01.05.13

Humilhação absoluta. Nunca na história da máxima competição de clubes da UEFA uma meia-final acabou com um resultado mais parecido a um encontro de futsal do que a um duelo entre dois emblemas de elite do futebol europeu. A vitória esmagadora do Bayern Munchen sobre um Barcelona estéril confirmou definitivamente o fim da era iniciada em 2009 brilhantemente pelo génio de Guardiola. A hegemonia teutónica no futebol europeu é a melhor notícia num ano que despede, definitivamente, um projecto que coleccionou admiradores em todo o mundo.

 

É complicado procurar nos livros de história uma diferença tão abismal entre dois semi-finalistas de alto nível europeu.

É mais ainda quando se trata de uma equipa que marcou uma era. O Real Madrid de Di Stefano, o Benfica de Eusébio, o Inter de Suarez, o Milan de Rivera, o Ajax de Cruyff, o Bayern de Beckenbauer, o Liverpool de Dalglish, o Milan de van Basten...e podíamos continuar numa lista quase sem fim. Nenhuma dessas equipas foi tão facilmente destroçada num jogo europeu como este Barcelona. Nunca nenhuma delas capitulou de forma tão clara e evidente. Sem ideias, sem físico, sem argumentos. Nunca nenhuma delas colocou o ponto final na sua epopeia de uma forma tão humilhante.

O ciclo do Barcelona começou com Guardiola e acabou com Guardiola. A saída do génio de Santpedor fechou um capítulo maravilhoso na história do clube blaugrana. Foi uma saída triste, entre derrotas e problemas internos no balneário.

A instituição tinha duas opções. Ou apoiar Guardiola numa renovação necessária ou dar o poder ao balneário. Escolheu o segundo caminho. Entregou o poder a Messi e companhia e colocou no banco o mais inepto dos treinadores, um garante de que a filosofia blaugrana seguia mas que não levantava problemas com os pesos pesados do plantel. Vilanova abdicou do futebol original de Guardiola para transformar o seu 4-3-3 ou até 3-4-3 num 4-2-2-2, centralizando o jogo pelo corredor central para dar espaço a Fabregas e Alexis, as duas contratações milionárias do último ano do guardiolismo e que para ele tinham contado muito pouco. Com motivos.

Vilanova sofreu uma recaída do cancro que já o tinha afectado no ano anterior - como sucedeu com Abidal - e deixou no poder o responsável por compilar dvds para Guardiola. Percebeu-se que o poder era, de facto, dos jogadores e a queda abrupta da qualidade de jogo notou-se. Salva-se o génio de Messi, incapaz fisicamente de dar continuação ao seu brilhante arranque de época, no meio da hecatombe. Nem Xavi, nem Iniesta, nem Pedro, nem Villa, nem Fabregas, nem Alexis eram capazes de dar a cara. Depois de uma reviravolta polémica contra o AC Milan, e de um duelo com o PSG onde a equipa esteve perto de ser eliminada, salva no último momento pela aparição do argentino, o inevitável sucedeu. A derrota calamitosa contra o gigante alemão.

 

O Barcelona viveu da glória de há dois anos durante quase 700 dias.

A derrota contra o Real Madrid, na liga, e contra o Chelsea, na Champions League, foram o sinal mais evidente da mudança de ciclo. Contra o eterno rival a derrota surgiu, sobretudo, pela falta de regularidade no campeonato, culpa de uma defesa demasiado permeável. Contra os ingleses - clube que tinham eliminado de forma absolutamente vergonhosa três anos antes - foi a sorte favorável aos britânicos e o desnorte ofensivo de Messi que condenou o conjunto blaugrana. O projecto estava minado por dentro, Guardiola percebeu-o e saiu. Com a cabeça alta, apesar das derrotas. Como a um génio corresponde.

A directiva do clube escolheu o seu adjunto e este demonstrou ser incapaz de estar à altura da sua herança. Batido em todos os duelos directos com o Real Madrid, Vilanova foi um fantasma na eliminatória com o PSG e este ausente nos dois jogos com o Bayern. Tacticamente comprometeu a equipa blaugrana com o seu esquema conservador no Allianz, abdicando de um jogo mais aberto e ofensivo com Tello como titular. A derrota copiosa por 4-0 foi criticada por alguns dos habituais ultras da ideia blaugrana - sobretudo esses - pelo fora-de-jogo de Gomez, esquecendo-se dos penaltys que ficaram por marcar. Criticas que serviam para esconder a ausência de ideias futebolistas e a realidade mais negra para os adeptos do clube. Duas oportunidades de golo em todo o jogo, as duas dos pés do central Marc Bartra. Muito pouco.

O resultado era humilhante, a exibição de superioridade física, táctica e técnica dos alemães era ainda mais. Ribery, Robben, Muller, Gomez, Schweinsteiger e, sobretudo, Martinez - por quem o Barcelona não quis pagar 40 milhões para contratar Song no seu lugar - atropelaram por completo a máquina blaugrana. Para os que pensavam que era um acidente, o Bayern Munchen demonstrou que não. No Camp Nou a equipa saiu ao ataque - ao contrário de Inter e Chelsea, os anteriores carrascos do Barça - dispôs sempre das melhores ocasiões e voltou a golear. O Barcelona falhou algumas ocasiões mas nunca deu sensações de estar dentro da eliminatória. O plantel mais caro do mundo não tinha ideias. A sua estrela individual - responsável pelo título de liga com a sua maravilhosa sequência de golos - tinha sido um dos responsáveis da eliminação no ano anterior. Este ano uma lesão inoportuna impediu-o de fazer melhor. Cristiano Ronaldo, também lesionado, subiu ao relvado do Bernabeu. Messi nem se preocupou em forçar o corpo. A sensação de reviravolta era uma ilusão de adeptos não dos jogadores, conscientes de que tinham sido batidos no seu próprio jogo. Vilanova voltou a tropeçar com as tácticas, os bávaros demonstraram ser uma equipa completíssima e o inevitável sucedeu. Em 180 minutos o Barcelona não marcou qualquer golo. Não esteve sequer perto de o conseguir. Só Piqué acertou na baliza mas, lamentavelmente para o central que é uma sombra do que prometia ser, era a errada.

Em cinco anos o clube blaugrana venceu duas Champions League. Tantas como o Nottingham Forrest, o SL Benfica e Inter em duas temporadas. Muito longe dos registos de eficácia de Real Madrid, Ajax, Liverpool ou Bayern Munchen, por exemplo. O mito da possessão - estéril, se não é como arma de ataque - da magia dos construtores de jogo da selecção espanhola e de que uma ideia é capaz de vencer sem um treinador capaz e jogadores em forma caiu, definitivamente. Para o ano o projecto não será o mesmo. Haverá saídas, chegará Neymar para partilhar o protagonismo mediático com o astro argentino. Será um começar desde zero. Os milhões de que o clube dispõe, o seu historial e a qualidade individual de muitos dos seus jogadores, quando em plena forma, permitem legitimamente aos adeptos continuarem a sonhar com mais títulos. Mas este ciclo chegou ao fim. Em quatro anos o Bayern Munchen parte para a sua terceira final. São eles que querem agora consolidar o seu ciclo!



Miguel Lourenço Pereira às 21:50 | link do post | comentar | ver comentários (20)

Quarta-feira, 24.04.13

Em 2012 a imprensa salivou com a possibilidade de uma final da Champions League entre os maiores colossos mediáticos do futebol europeu. Nenhum chegou ao jogo decisivo. Um ano depois repetiu-se o cenário. E uma vez mais, parece altamente improvável que o cenário se repita. O festival orquestrado pelo Borussia de Dortmund expôs todas as fragilidades do jogo colectivo do Real Madrid. Vinte e quatro horas depois, o representante alemão aplicou quatro golos ao rival espanhol. O golo de Ronaldo dá aos adeptos merengues pouca esperança. Em Wembley começam a esperar uma invasão alemã.

No Westfallenstadion houve uma equipa. Uma grande equipa.

Como já tinha sucedido na fase de grupos, o Dortmund foi categoricamente superior a um rival sem jogo, sem individualidades, sem treinador. Jurgen Klopp soube nos últimos dias que ia perder as suas duas referências ofensivas. Encarou o fado como algo inevitável e exigiu-lhes compromisso. E eles responderam. Mario Gotze foi imenso. Sozinho, fez o que quis de Xabi Alonso e Sami Khedira, e marcou o ritmo do jogo dos alemães. Robert Lewandowski fez aquilo que só Ferenc Puskas foi capaz de fazer na história: marcar quatro golos nas últimas duas rondas do torneio. Quatro golos perfeitos, exemplos do seu maravilhoso reportório. O terceiro, um golpe de magia a lembrar o próprio dianteiro húngaro, acabou definitivamente com a resistência dos espanhóis. O primeiro foi um puro gesto de atacante curtido. O segundo espelho do seu instinto oportunista. O último, concretização de um penalty perfeitamente assinalado pelo holandês Bjorn Kuipers. Da arbitragem o Real Madrid não tem razões de queixa, bem pelo contrário. Tal como sucedeu com o Manchester United e o Galatasaray. Um penalty por marcar de Varane sobre Reus antecipou a confusão que permitiu ao Real Madrid empatar. Foi nos suspiros finais da primeira parte, cortesia do impecável Matt Hummells - já o tinha feito contra o Shaktar - concretizada por Cristiano Ronaldo.

O português foi o espelho da sua equipa. Marcou mas esteve muito longe do seu melhor. Á sua volta o panorama era ainda mais desolador. Gonzalo Higuain, Mezut Ozil e Luka Modric nunca entraram em jogo. Os seus substitutos, Benzema, Di Maria e Kaká, também não. Gastando fortunas o Real Madrid forjou uma equipa que parece ser incapaz de ultrapassar a barreira das meias-finais. Olhando para a formação e para o mercado centro-europeu, a contar cada cêntimo, o Dortmund montou uma equipa quase perfeita.

 

Klopp ganhou a batalha táctica quando condicionou, uma vez mais, o modelo de Mourinho.

O português colocou Modric ao lado de Alonso e entre os dois, como é habitual, houve uma confusão constante de missões e espaços. Ozil, atirado para o lado direito, desapareceu do jogo ao suspiro inicial. Nunca mais se voltou a ver. No meio, Gundogan. O médio centro emulou o papel de Javi Martinez, na véspera, e dominou o meio-campo com autoridade e classe. Há dois anos Nuri Sahin era o dono dessa posição e foi contratado pelo Real Madrid. Não funcionou na capital espanhola e hoje é suplente de mais um turco-alemão com muito futebol nos pés e, sobretudo, na cabeça. Através da sua visão de jogo, o Dortmund controlou o encontro. As diagonais dos extremos destroçaram os laterais espanhóis e Pepe foi incapaz de lidar com Lewandowski que soube sempre fugir do mais certeiro Varane para passear pela área do português, irreconhecível. A máquina alemã estava perfeitamente oleada. Todos sabiam o que tinham de fazer, todos sabiam a que ritmo jogar e nunca, em nenhum momento, se viveu uma sensação de igualdade.

Claro que o Real Madrid teve mais posse de bola, essa condição inequívoca para vencer com categoria um jogo de futebol. Mas raramente soube o que fazer com ela. O Dortmund ocupou todos os espaços onde se moviam os seus criativos. Deixou apenas Khedira livre. E isso significou um congestionamento no jogo ofensivo do rival. Com paciência, o Dortmund manteve o controlo do jogo deixando o rival jogar longe da sua área. Com cada recuperação de bola, os alemães demonstraram que também manejam o contra-golpe com a mesma eficácia que o projecto de Mourinho. O treinador português esteve no banco de suplentes mas nem se deu por isso. Tacticamente foi superado do primeiro ao último segundo do jogo. Apático, previsível, sem soluções, o Special One foi vulgarizado por um treinador alemão que tem no bolso a admiração de toda a Europa.

 

A matemática permite sempre sonhar e o Real Madrid foi um clube construído com reviravoltas históricas. Um 3-0 não é um resultado impossível mas contra uma equipa tão bem organizada e letal como o Dortmund parece algo absolutamente utópico. Tal como o seu eterno rival, o clube espanhol sofreu na pele a afirmação definitiva do futebol alemão como o novo farol do futebol europeu. Em Inglaterra esperam uma invasão alemã, um duelo entre duas escolas parecidas mas forjadas com meios distintos. Poucas finais em tempos recentes teriam o condão de colocar frente a frente dois projectos desportivos tão fascinantes.



Miguel Lourenço Pereira às 21:38 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Terça-feira, 23.04.13

A história do futebol europeu está repleta de jogos que perduram no tempo. Desde a sua primeira edição até à final da temporada que se disputa. A noite de hoje, em Munique, entra directamente para essa galeria. Em 2009, a caminho da sua mais do que merecida consagração, o Barcelona de Guardiola humilhou o Bayern Munchen por 4-0. Hoje, a super-equipa montada por Jupp Heynckhes, aplicou a mesma dose ao projecto herdado por Villanova. Um jogo onde os alemães foram mais rápidos, mais altos, mais fortes e melhores, muito melhores, ao jogo que consagrou o Barcelona na história do futebol.

Falar em hegemonia do Barça na Champions League tornou-se um lugar comum nos últimos anos.

E no entanto, a não ser que a equipa catalã opere um verdadeiro milagre no Camp Nou - o dia do patrono do clube, Sant Jordi, era hoje - a equipa vai completar um ciclo de cinco anos com apenas dois troféus no bolso. Em 2009 foram a melhor equipa do continente com um modelo inovador, fresco, ofensivo e tão apaixonante que permitia esconder os erros de uma meia-final polémica. Dois anos depois eram mais conscientes do seu papel, mais influentes nos corredores de poder e futebolisticamente muito mais maturos. Foram duas finais brilhantemente conquistadas contra o Manchester United, que permitiu coroar Messi, Xavi, Iniesta mas também Busquets, Piqué e Alves, como os melhores do planeta. E claro, Guardiola, o homem que resgatou a herança da posessão e do estilo centro-europeio. Mas esses foram apenas dois de cinco longos anos. No mesmo período de tempo, Real Madrid, Ajax, Bayern e Liverpool venceram entre três a cinco troféus. 

Na história, nem sempre os ganhadores deixam a sua marca. Essa realidade é indismentível, particularmente no caso de selecções como a Áustria, Hungria, Holanda, França ou Brasil, gerações apaixonantes que no momento da verdade foram derrotadas pelo destino. Mas claro, essa derrota permitiu-lhes entrar no panteão pelo estilo de jogo. O Barcelona actual é um projecto ganhador - como foi o de Cruyff e Rijkaard, equipas igualmente brilhantes - e provou saber vencer em campo muitas vezes de forma magistral. Mas com três eliminações em cinco anos numa meia-final - a confirmar-se a ausência de um milagre no Camp Nou, nunca descartado - pode realmente falar-se de hegemonia futebolistica europeia? Naturalmente, não.

 

Hoje o Bayern Munchen não jogou como o Inter ou o Chelsea, equipas que deixaram a nu a dificuldade crónica do Barcelona em jogar com pouco espaço. Hoje o Bayern Munchen jogou como o Barcelona gostaria de jogar mas já não consegue. Porque fisicamente não é a mesma equipa de há dois anos. Porque o modelo se transformou, com o tempo, num vector central em direcção de Messi quando antes se sentia o espirito colectivo coral de uma geração memorável. Porque Guardiola não está - e Tito Vilanova fez o mesmo em Munique que em Milão, onde esteve ausente, ou seja, nada - e sem ele o projecto faz menos sentido. E porque o Bayern não teve medo de disputar cada bola, de procurar cada lance o espaço mas sem abdicar da sua filosofia, de controlar o ritmo de jogo com a bola e sempre numa movimentação colectiva perfeita.

Robben e Ribery defendiam como Alaba e Lahm atacavam. Javi Martinez foi omnipresente no meio-campo, permitindo a Schweinsteiger vigilar Messi e Xavi, figuras ausentes em campo, espelhos dessa condição física deplorável que também se verificou no ano passado. E Muller, ocupando o lugar de Kroos, foi demolidor, movendo-se em toda a linha de ataque, destroçando marcações e abrindo espaços. Em nenhum momento do jogo existiu a sensação de que o Barcelona podia sentir-se superior. Em nenhum momento do jogo ficou a ideia de que a vitória do Bayern estava em risco. No final surgiu em golos e em dinâmica. Mas, tranquilos, em possessão não. 

Os alemães sobreviveram a uma primeira hora que permitia relembrar semi-finais anteriores na história recente do futebol europeu. Três penaltys por assinalar em trinta minutos prometiam uma péssima exibição do húngaro Viktor Kasai, que eventualmente se confirmou. Mesmo com esse handicaap, a equipa bávara manteve-se viva e activa e antes do intervalo abriu o marcador. Um canto - a defesa espanhola nunca lidou bem com este tipo de lances - uma bola que vai de um lado ao outro da área, salto perfeito de Dante que encontra a cabeça de Muller para abrir a noite de gala. Era um resultado tímido para a hegemonia alemã ao intervalo e ao abrir do segundo tempo, Mario Gomez, tratou de ampliar a vantagem. Estava em fora-de-jogo. Talvez Kasai tivesse visto no intervalo algum lance da primeira parte. Ou talvez seja um árbitro realmente mau. O resultado já era bom mas o Bayern nunca desistiu de procurar mais. O ataque blaugrana foi inofensivo, Messi uma alma penada, a melhor oportunidade acabou por ser de Bartra e seguindo o ritmo natural do encontro, Robben marcou o terceiro e decisivo golo. O golo que tornava a eliminatória um monólogo. Minutos depois, com o relógio a dar os últimos suspiros, Muller fechou a contagem para levar o Allianz ao delírio colectivo. O 4-0 de 2009 estava devolvido e moralmente, da mesma forma que os homens de Guardiola tinham sido insultantemente superiores nesse encontro, agora era a vez de Jupp Heynckhes ajustar contas com o passado e, talvez, com o seu futuro.

 

Desde 1997 que o Barcelona não perdia por uma margem tão grande na Europa. Vencer a eliminatória não é impossível mas os próprios jogadores blaugranas têm consciência de que seria necessário uma imagem radicalmente diferente e uma eficácia tremenda para dar a volta a esta situação. Dificilmente se pode considerar o final de um ciclo para os espanhóis. Na época passada o resultado foi o mesmo. Para os alemães, sim, a vitória histórica de hoje entra na galeria das suas noites mais brilhantes nas provas europeias. E depois da brilhante campanha do ano passado, da final perdida em 2010, parece claro que hoje o Bayern Munchen pode presumir de ser a equipa mais forte do planeta futebol. Só falta um título para confirmar, simbolicamente, a qualidade desta geração. 180 minutos para completar um ciclo memorável.



Miguel Lourenço Pereira às 21:39 | link do post | comentar | ver comentários (25)

Domingo, 21.04.13

O futuro do futebol português passa por modelos de gestão exemplares, capazes de entender as suas limitações e de planear o futuro dia a dia sabendo que esse modelo poderá ser a diferença entre a falência e o sucesso desportivo. Enquanto os grandes clubes portugueses, cada qual à sua forma, procuram sobreviver a passivos asfixiantes, em Paços de Ferreira e Belém, dois projectos desportivos ensinam os restantes dirigentes portugueses a olhar para o futuro com a consciência de que nem tudo é negro.

 

A quatro jogos do final da época, o Paços de Ferreira tem assegurado um posto europeu. Um posto que pode valer muitos milhões de euros se a vantagem pontual com o Sporting de Braga se mantiver até ao último suspiro do campeonato. Na segunda divisão, um dos clubes históricos do futebol português, assegurou a promoção depois de vários anos afastado da elite com oito jogos por disputar. Uma das maiores margens da história para validar um projecto desportivo desenhado para vencer e consagrado com um mais do que honroso posto nas meias-finais da Taça de Portugal para o clube do Restelo.

São dois clubes que encontraram num modelo de gestão racional e com os pés na terra a base do seu sucesso. Passe o que passar, a aposta parece ser o futuro que os restantes clubes em Portugal terão de seguir. Enquanto FC Porto e SL Benfica, com passivos gigantescos, compram o sucesso e dividem entre si a disputa pelo título nacional sem jogos perdidos, aos restantes emblemas pouco sobra senão sobreviver da melhor forma. O Sporting vive uma profunda reestruturação - emocional e financeira - enquanto o Braga consolida-se como um projecto ambicioso mas que não consegue dar o salto que falta para fazer-se definitivamente grande. Todos os outros começam o ano com medo ao inferno da despromoção e, quase sempre, acabam-no sentindo que vivem num universo circular onde tudo é igual. De vez em quando algum qualifica-se para as provas europeias, de vez em quando algum faz um brilharete. E pouco ou nada mais.

O que parece evidente é que a esmagadora maioria desses clubes avança temporada atrás de temporada sem um modelo desportivo de futuro. Procuraram, apenas, sobreviver. Muitos através de empréstimos e da amizade selectiva de algum dos "grandes". Outros confiando no sucesso do trabalho de prospecção de jogadores desconhecidos ou da sua boa relação com agentes para forjar uma equipa que, entre Janeiro e Junho, se desmantela por si só. A maioria passa a temporada com problemas, salários por pagar, bancadas vazias, treinadores que vão e vêm ao mínimo sinal de desespero. O destino parece repetir-se até que algum dia uma época má pode fazer pagar o preço dessa gestão sem futuro. Na Mata Real e no Restelo, gesta-se essa ideia para o depois de amanhã.

 

O Paços de Ferreira não é só o clube sensação desta temporada. É um clube que surpreende quem o procura conhecer melhor.

Dentro da área metropolitana do Grande Porto - até à bem pouco tempo a mais representada do futebol nacional - os "castores" sempre foram vistos como um bicho raro. A Capital do Móvel fica a meia hora da Invicta, sente-se mais cómoda com o circulo industrial do vale do Ave - o mesmo que nos anos 80 e 90 teve um papel tão importante no futebol português - e convive numa área demográfica dinâmica mas sem grandes referências futebolísticas que não a sombra do FC Porto.

E mesmo assim, sem uma grande legião de adeptos, sem um grande apoio local, o Paços mantém-se vivo entre a elite do futebol português de uma forma superlativa. Começou por fazer-se notar como um clube com bom olho para jovens e ambiciosos treinadores, amantes do futebol de ataque e da aposta em jogadores desconhecidos. Progressivamente, o clube começou a incorporar antigos elementos da equipa no seu gabinete técnico. Nenhum funcionou tão bem como Carlos Carneiro, um dos seus mais emblemáticos dianteiros. Com ele ao leme, desenhou-se o futuro do clube, descobrindo no futebol das divisões secundárias e entre os descartes inesperados do FC Porto, jogadores com potencial suficiente para forjar um bom colectivo. Sob as mãos de Paulo Fonseca, esse colectivo superou-se a si mesmo. E agora está perto de entrar no play-off da Champions League. Mesmo que não o consiga - tem três jogos para gerir a sua vantagem face ao Braga - a presença nas provas europeias já é um logro a que clubes com um orçamento muito superior como o Marítimo, Nacional ou Sporting ainda não podem dar como garantida. Inevitavelmente o Paços sabe que muitos dos seus jogadores e eventualmente, o seu técnico, não estão no próximo ano. Conscientes dessa realidade, já estão a preparar o depois de amanhã. Sabem que não se podem deixar enganar pelo perfume do sucesso. Os adeptos não vão aumentar - demograficamente a zona vive um ciclo estável e a situação financeira do país não permite sonhar com um boom de novos sócios e seguidores - as condições que existem actualmente adequam-se à sua realidade e qualquer dinheiro que entre nos cofres do clube deve ser para o manter longe do fantasma da falência. Pagar os salários a tempo e horas, cumprir com os seus compromissos, poder eencontrar os próximos titulares da equipa são a base de trabalho de um projecto que quer continuar a crescer com os pés na terra. Demonstrando assim aos seus rivais em campo como se pode jogar sem perverter as regras, como o acumular de dívidas eternamente perdoadas pelo fisco, mantendo os salários em dia (Olhanense, Gil Vicente), sobrevivendo sem dinheiros públicos (Nacional, Marítimo) ou sem o apoio directo de um empresário (Rio Ave).

 

O caso do Belenenses é diferente na forma mas não na essência.

O clube do Restelo é um dos cinco grandes oficiais do futebol em Portugal, uma equipa campeã nacional num país onde só duas edições escaparam ao apetite dos três grandes. Mas desde os anos 60 que essa grandeza se tornou uma memória perdida no tempo que só algumas temporadas pontuais - finais dos anos 80, meados da década de 90 - puderam resgatar fotos antigas. Claro que sobreviver como terceiro clube de uma cidade com duas entidades de projecção nacional é praticamente impossível como Boavista e Salgueiros entenderam, também, no Porto com a sombra quase ditatorial do FC Porto.

A péssima gestão financeira do Belenenses levou o clube a roçar várias vezes a despromoção. Por duas vezes o clube salvou-se administrativamente de descer, mas à terceira foi de vez. E durou o calvário. Sem dinheiro, sem ideias, sem ambição, parecia que o "Belém" estava destinado a seguir os exemplos de outros históricos do futebol em Portugal, perdidos nas divisões secundárias para nunca mais voltar. Até que aterrou no Restelo uma nova directiva, coordenada por Rui Pedro Soares e presidida por António Soares, com uma visão de futuro consciente das limitações do presente. O histórico clube lisboeta começou a apostar convictamente na sua formação mas também em jogadores descartados por diversos motivos por clubes da primeira divisão. Vitimas da "brasileirização" excessiva da elite do futebol nacional, esses jogadores encontraram no Restelo um novo lar e sob a liderança do antigo central do Marítimo, o holandês Mitchell van der Gaag, transformaram-se no esqueleto moral de um clube onde a ambição de voltar a ser alguém no panorama nacional conduzia o processo. Essa "aportuguesação" da equipa revelou-se uma ideia de sucesso. Os jogadores são mais baratos, estão mais implicados com o projecto e mantêm a sua projecção futura, mantendo-se debaixo do radar dos clubes grandes. A qualidade de alguns desses futebolistas - e são dezanove num plantel de vinte e cinco futebolistas - como Fredy, Filipe Ferreira, André Teixeira, Tiago Silva ou Rafael Veloso permite pensar que o projecto tem a solidez necessária para subsistir entre os clubes da primeira divisão. Com uma base sólida de adeptos, infra-estruturas de bom nível e um plantel jovem e ambicioso, parece evidente que o Belenenses tem todas as condições para optar por um lugar na primeira metade da tabela no próxima ano.

 

Com o Vitória de Guimarães - forçado também pelas circunstâncias a adoptar uma postura similiar - e com o Estoril, outro clube redesenhado à base do pensamento de gestão empresarial que há alguns anos faz escola noutras ligas europeias - o Belenenses é uma das principais bandeiras dos que acreditam que o futebol português pode encontrar a luz ao fundo do túnel. O sucesso do Paços de Ferreira, tudo menos obra do acaso, junta a cultura de clube modesto mas empreendedor a emblemas habituados a mover-se entre eixos demográficos e perfis de gestão com mais glamour. Por um lado ou por outro, são estes os projectos que potenciam actualmente o rejuvenescimento do futebol português, a sua vertente mais nacional e a resposta a uma política de endividamento e descontrolo que ainda tem em emblemas como o Vitória de Setúbal, outro histórico, um dos seus mais tristes representantes.



Miguel Lourenço Pereira às 21:02 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sexta-feira, 12.04.13

Não estranha a ninguém que a final de Wembley da Champions League seja uma questão reservada exclusivamente a dois países. Ninguém no futebol mundial da última década tem tido um trabalho tão intenso e consciente a preparar momentos como este como o futebol espanhol ou alemão. São exemplos perfeitos do que deve ser feito na esmagadora maioria das áreas. O modelo germânico é talvez o mais honesto e estruturado, o espanhol uma consequência habilidosa de uma conjuntura histórica única. Em ambos os casos, modelos de sucesso que deixam claro que o futebol na Europa funciona ao seu ritmo.

Não há petrodólares russos, ucranianos, franceses ou britânicos. Não há equipas inglesas com o seu jogo tão tacticamente previsível. Não há clubes italianos, mais hábeis no tabuleiro de xadrez do que ambiciosos no relvado. Nem sequer há espaço para uma ou outra surpresa. A Champions League de 2013 será uma questão de mérito de gestão desportiva de dois países que definiram um modelo de futuro e estão agora a recolher os louros.

Barcelona, Bayern Munchen, Borusia Dortmund e Real Madrid falam, de certa forma, um idioma parecido. Não são clubes idênticos, os seus projectos têm diferenças significativas, mas ambos enquadram-se bem na filosofia de planeamento que revolucionou o futebol europeu nos anos noventa com o caso gaulês e que seguiu o seu caminho na versão espanhola e teutónica. São duas escolhas paralelas, complementares até, que começaram a degladiar-se ao nível da selecção principal entre 2008 e 2012 e que agora transportam essa batalha para o universo clubístico. O sorteio - casualmente ou não - impediu a realização de dois duelos fratricidas que podiam ter reservado já uma lugar na final para o representante de cada país. Sendo assim, Wembley pode ser uma celebração mista, espanhola ou alemã. Todas as opções estão em abertos em quatro jogos onde o favoritismo não existe. O equilíbrio é total como só poderia ser se os duelos fossem precisamente estes.

O Bayern Munchen mostrou-se claramente superior ao Real Madrid, o Borussia de Dortmund é uma equipa que sofre muito com modelos como o do Barcelona e os catalães têm demonstrado no último ano civil que ganhar ao Real Madrid deixou de ser um hábito para transformar-se numa quase utopia. Em sete encontros, venceram um e empataram dois. Um quadrunvirato que faz lembrar os mais excitantes duelos do mundo do ténis onde Nadal sabe ganhar a Federer, que por sua vez controla bem os movimentos de Djokovic, um tenista que soube explorar os poucos pontos frágeis do espanhol. Um circulo vicioso de grandeza que nos afasta da suposta hegemonia exercida pelo Barcelona nos últimos quatro anos, período onde venceu dois troféus e ficou por duas vezes às portas da final contra rivais teoricamente inferiores. 

 

No caso do modelo alemão, ainda que Bayern e Dortmund sejam tão diferentes entre si como o são Barcelona e Real Madrid, está claro que a Bundesliga se tem convertido no modelo ideal a seguir.

É a liga com mais espectadores da Europa, algo a que ajudam os preços modélicos, os estádios perfeitos, os horários adequados às famílias, a ausência de jogos em aberto e a qualidade do espectáculo. No futebol alemão há poucas estrelas capazes de protagonizar anúncios mas há uma nova geração de jogadores chamados a marcar uma década. Essa aposta na formação, desenhada a final da década de noventa, tem dado progressivamente os seus lucros na reestruturação do futebol da própria selecção. Ao nível dos clubes há vários exemplos de identidades modestas que têm crescido apoiados nos seus jovens talentos mas as duas escolas mais emblemáticas estão em Dortmund e Munique. No caso dos amarelos, o génio de Klopp e os problemas financeiros do clube forçaram a instituição a olhar para baixo e a cuidar dos seus jovens como nenhum outro clube na Europa. Não só os formados na sua cantera mas os contratados, em tenra idade, a clubes rivais. Dessa forma nasceu a geração de Pieszceck, Schmelzer, Hummels, Bender, Gundogan, Sahin, Grosskreutz, Reus, Gotze e Lewandowski, futebolistas tremendos e com uma margem de progressão imensa. Na Baviera, o poder financeiro do Bayern foi o suporte necessário para remodelar por completo a sua filosofia desportiva e o Hollywood FC tornou-se no exemplo de estudo ideal para um clube com nome capaz de mudar numa curta década toda a sua imagem mediática. Á geração de Lahm e Schweinsteiger juntou-se agora a de Badstuber, Alaba, Kroos e Muller, jogadores que têm crescido com espaço e tempo ao lado de figuras da liga germânica (Dante, Boateng, Neuer, Mandzukic, Gomez) e futebolistas de nível internacional como são Ribery e Robben. Não estranha que este seja o projecto de futuro de Guardiola como também não surpreende que depois de dois anos de transição da etapa mais exigente do van gaalismo, o clube tenha encontrado a fórmula perfeita. Com o título no bolso, a final perdida em 2012 atravessada e uma campanha imaculada, os vermelhos do sul da Alemanha são, para muitos, o grande candidato a levantar o troféu e nada melhor que um duelo com o Barcelona para medir realmente o seu potencial. Na época passada controlaram perfeitamente todos os movimentos do Real Madrid e levaram a eliminatória até onde queriam. Agora terão de lidar com o Camp Nou, o baluarte do clube blaugrana numa campanha europeia mais do que tremida.

 

O sucesso do modelo alemão transforma a Bundesliga num torneio cada vez mais mediático e apetecível, superando os milhões e o espectáculo que a Premier League oferecia antes de muitos dos seus jogadores mais emblemáticos a tenham abandonado e, sobretudo, antes que o dinheiro tenha definitivamente desequilibrado a balança. Em Espanha, tudo está na mesma. Vencer é a palavra de ordem no país que domina o futebol mundial com uma autoridade que nos força a viajar até aos anos setenta para ver algo parecido.

O modelo de sucesso em Espanha partiu sobretudo de três premissas. A aposta consciente na formação, que tem permitido o aparecimento de jogadores extraordinários nos mais inesperados dos lugares, a elevada qualidade técnica e táctica de jogo da esmagadora maioria das equipas do campeonato e o peso mediático que o país conseguiu através dos duelos entre Real Madrid e Barcelona, equipas que pela primeira vez desde a década de cinquenta disputam de igual para igual a hegemonia do seu futebol. Da mesma forma que Kubala e Puskas, Suarez e Di Stefano eram os reis desse virar de década, agora são os duelos entre Ozil e Iniesta e Messi e Ronaldo os que colocam os adeptos de todo o mundo colados ao ecrã. Todos querem ver, finalmente, um Clássico transformado em final de Champions League. Pode ser que, à terceira tentativa, o sonho se faça realidade. Mas o caminho será duro.

Ao contrário do equilibrado modelo alemão, em Espanha há quase uma especie de doping financeiro entre os dois grandes clubes que permite anualmente que o fosso com as restantes equipas seja maior. O dinheiro gasto nos últimos anos por ambos os clubes supera quase todo aquele gasto por clubes alemães. Financeiramente, são os reis do futebol europeu, e valem-se desse poderio para atrairem la creme de la creme. A essa vantagem, o Barcelona alia uma espantosa política de formação - estanque já há três temporadas - enquanto que o Real Madrid conta com o espírito táctico de uma velha raposa, capaz de transformar uma diferença abissal entre os merengues e o resto da Europa num trâmite. Para o clube de Madrid será a terceira final em três anos, os mesmos que leva Mourinho no clube. Nos sete anteriores o clube não tinha passado dos Oitavos de Final. Para o Barcelona é a sexta meia-final consecutiva, sinal de que há uma política de continuidade e um projecto desportivo que não oferece reparos. Ambos se defrontarão com equipas à sua medida. O Dortmund foi superior no duplo duelo da fase de grupos mas o Real Madrid sente-se mais cómodo nos duelos a eliminar. Mourinho exige-se a si mesmo tensão e aos restantes e nada melhor que 180 minutos para decidir um finalista para despertar uma equipa que realizou uma campanha doméstica lamentável. Contra o Bayern, o Barcelona encontra o seu alter-ego europeu. Um clube com formação e livro de cheques, um clube com um modelo de jogo atractivo e um peso histórico tremendo. Um clube que a partir de Julho será orientado pelo homem que resgatou o Barça das sombras. Serão duas finais para os espectadores neutrais, dois jogos destinados a entrar na posteridade da história do futebol europeu.

 

Dois gigantes espanhóis, financeiramente titãs, culturalmente sedutores, defrontam os dois clubes mais emblemáticos dos últimos 20 anos da história de um renovado e refrescante futebol germânico. Duas escolas tão diferentes mas unidas pela consciência de que o futuro conta tanto como o passado. Quatro clubes que são, indiscutivelmente, parte do melhor que o futebol europeu tem para oferecer. Em Maio, na final de Wembley, só poderão estar dois e muito ainda terá que passar para conhecer os finalistas, mas as meias-finais da Champions League há alguns anos que não despertavam tanto fascínio.



Miguel Lourenço Pereira às 13:21 | link do post | comentar | ver comentários (15)

Segunda-feira, 08.04.13

Dezoito clubes. Quantos deles com a corda ao pescoço? Quantos deles com salários em atraso? Quantos deles com dividas incomportáveis? Quantos deles com bancadas vazias nos jogos em casa? Quantos deles com meio autocarro de apoio nos jogos fora? Quantos deles com jogadores estrangeiros de terceiro nível e um sistema de formação abandonado? Dezoito clubes. A solução que encontraram para resolver uma injustiça desportiva e um erro de legal. Mas nada que possa resolver os problemas estruturais do futebol português.

O Boavista tem as portas escancaradas para voltar á elite do futebol português.

Ironicamente, ou talvez não, no fim-de-semana que se seguiu à aprovação pela Liga de Clubes da repesca dos axadrezados, a equipa perdeu o seu duelo com o Desportivo de Chaves. Um duelo na II Divisão B, uma divisão onde o clube do Bessa nunca venceu neste seu hiato pelo futebol das divisões secundárias. Diz muito do estado actual da vida do quinto grande, do quinto campeão do futebol em Portugal. Sem a ratificação da Federação Portuguesa de Futebol e com os créditos financeiros de inscrição por pagar, ainda não é certo que o futebol português volte a contar com todos os seus campeões na sua primeira divisão. Mas o cenário nunca esteve tão perto de suceder desde que a equipa do Porto foi utilizada como bode-espiatório de um dos maiores escândalos consumados do futebol luso.

Depois de muito barulho à volta do Apito Dourado, não houve forma de provar, nos tribunais, o que as escutas posteriormente divulgadas deixaram claro à opinião pública. Para os mais precavidos, o que tinha sido divulgado nesse longo e penoso processo estava longe de ser uma novidade e como escutas posteriores comprovaram, algo exclusivo dos clubes imputados. Como o futebol português está, como sempre esteve, corrupto até à medula, a sensação de polémica soava a falso e como tal, também a suspeita de que um clube do prestigio do FC Porto podia ser realmente penalizado. Se o fizessem, tarde ou cedo, os restantes campeões seguiriam o mesmo caminho, a fruta e o café com leite eram coisa de muitos. O Boavista, no entanto, mal gerido desde que João Loureiro tomou as rendas da herança de Valentim Loureiro, foi a presa ideal para quem queria sangue. Um clube campeão com polémica, um clube onde o dinheiro entrava e desaparecia a uma velocidade assustadora, um clube com uma base de apoiantes relativamente pequena para poder gerir o mesmo tipo de revolta social que implicaria punir outro clube. O Boavista pagou o preço de estar no sitio errado à hora errada. E daí o descalabro.

O clube podia ter sido despromovido e voltado dois anos depois à elite se tivesse sido gerido com correcção. Mas não foi. A queda no precipício deixou a nu todos os problemas reais do clube que nada tinham a ver com a polémica do Apito Dourado, por muito que dirigentes e adeptos tenham tido razão quando se queixaram de tratamento especial para outras instituições. O Boavista caiu injustamente mas não se soube levantar, e afundou-se mais, por culpa exclusivamente sua.

 

E no entanto, a justiça assim o exige.

Depois de quase cinco anos sem o demonstrar em campo, o Boavista poderá voltar a saborear as grandes noites de futebol num dos mais belos estádios do futebol português. A aprovação de uma liga a 18 - num ano em que regressa também o Belenenses à elite - devolve o futebol português para o mesmo cenário onde estava quando o Apito Dourado surgiu nas capas dos jornais.

São dezoito equipas demasiadas para um país como Portugal, com uma liga onde a esmagadora maioria dos seus clubes são incapazes de cumprir com os mais básicos compromissos exigidos a uma instituição desportiva. Nos últimos anos vimos problemas para pagar salários em clubes ao nível de FC Porto, Sporting e Benfica. Nos últimos anos entre avisos de greve, a clubes que desapareceram do mapa e emblemas despromovidos por falhar os seus compromissos, o futebol português transformou-se numa jangada onde se morre de sede e de fome.

O caso da União Leiria na época passada foi o culminar de uma realidade que já se sentia em vésperas do Euro 2004. O desaparecimento de clubes como Salgueiros, Farense, Estrela da Amadora era algo sintomático do estado real do futebol português. As horas de agonia de históricos como o Belenenses, Vitória de Setúbal, Académica e Vitória de Guimarães tocaram o próprio esqueleto de base do desporto lusitano. A Liga Sagres transformou-se numa competição onde na mesma jornada competiam entre si jogadores que levavam meses sem cobrar o seu salário. Uma competição onde a dependência dos empréstimos e favores de fundos e empresários eram fundamentais para sobreviver. Quando as conexões extra-desportivas acabavam, os clubes tremiam, e caíam.

Os pequenos emblemas que subiam da II Liga cheios de esperança voltavam rapidamente para o ponto de partida sem nada que ganhar. Passou com Trofense, Leixões ou Feirense, apenas para citar os casos mais pontuais. Enquanto projectos como o Paços de Ferreira encontraram coerência na sua gestão desportiva e clubes como o Rio Ave se entregaram à benção de patronos poderosos, os restantes limitam-se a sobreviver. São dezasseis. Faz sentido juntar mais dois ao mesmo cenário?

Pode o futebol português ganhar algo com uma liga a dezoito?

Estarão os estádios mais cheios? Os contratos televisivos valerão mais? Haverá mais jogadores jovens portugueses de futuro nesses projectos? A competição será mais emotiva? Os clubes grandes deixaram de passar temporadas inteiras sem perder um só jogo? Será que duas equipas a mais vão significar tanto para a liga lusitana? Ou será, pelo contrário, que serão duas novas bocas para alimentar, dois novos estádios vazios, dois novos planteis repletos de jogadores sem nível e sem dinheiro nos bolsos?

 

Um país como Portugal - que vive, pensa e respira a pensar apenas no trio de clubes grandes que compõe o 99% do coração dos adeptos e o interesse dos media - poderia ter uma liga de oito equipas que ninguém realmente se importaria. Essa é a crua realidade. Essa hegemonia asfixiante dos grandes já matou o futebol do interior, já matou o futebol dos pequenos clubes das grandes cidades e já matou a formação do futebol português. Se uma liga a dezoito fosse a resposta para essa ditadura, então venha ela. Mas não o será. Como não o é uma liga a dezasseis, a catorze ou sequer a doze. O futebol português tem um problema muito mais sério e grave para resolver que o número de equipas da sua liga principal. Enquanto esse problema não for resolvido o resto é apenas folclore. Nada mais do que folclore.



Miguel Lourenço Pereira às 20:44 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Domingo, 31.03.13

Durante quatro anos o futebol foi o escape de uma equipa repleta de magos que desafiaram a sombra do nazismo. O Wunderteam foi mais do que uma invenção desde génio precoce chamado Hugo Meisl. Simbolo da cultura das casas de café da Viena dos anos vinte, foi um grito de independência de soldados com a bola nos pés contra o pânico de uma guerra que ninguém podia evitar. Duas décadas antes da consagração do mais belo futebol do centro da Europa pelos magiares de Sebes, a Áustria de Sindelaar ergueu a bandeira da escola continental programada por Jimmy Hogan.


Na década de 30 o futebol já era mais do que uma curiosidade desportiva. Cada país tinha já formada a sua liga, o amadorismo começava a ser abandonado e as duas primeiras edições do Mundial de futebol tinham apresentado ao mundo o poderio do jogo sul-americano (Argentina e Uruguai) e a eficácia do Calcio italiano. A Inglaterra continuava isolada do Mundo, acreditando na sua total superioridade e no coração da Europa começava a nascer um novo estilo de jogo, arrojado e profundamente belo. Uma escola impulsionada por um inglês sui generis e levada à prática por um austríaco com alma de empreendedor, Hugo Meisl.

Em Abril de 1931 a seleção austríaca, orientada pelo mago vienense, começou uma série inesquecível de jogos sem perder. Durou mais de ano e meio - até Dezembro de 1932 - e lançou as bases do "jogo bonito", um futebol de troca rápida de bola, de movimentações organizadas, versatéis e coordenadas por um verdadeiro poeta dos relvados, Mathias Sindelar.

Meisl, visionário como poucos na história do desporto rei, aproveitou as lições aprendidas durante uma viagem ás ilhas britânicas. Em vez de seguir o modelo inglês do seu amigo intimo Herbert Chapman - inventor do WM e à época técnico do invencível Arsenal - preferiu apostar por uma variante do modelo escocês de Jimmy Hogan, muito mais assente no toque de bola no pé e no passe rápido em lugar dos lançamentos longos e em profundidade. Sem inovar no esquema táctico, que continuava a ser o inevitável 2-3-5  (Meisl nunca acreditou no WM) o técnico chegou à sua Áustria natal e colocou em prática toda a teoria que tinha aprendido. Tomou o comando da selecção austriaca e rodeou-se de jovens talentosos que actuavam principalmente nos clubes da capital. Pekarek, Smitsik, Vogl, Schall, Zizchek, Nausch e acima de tudo o "Homem de Papel" (devido à sua compleição física e rapidez) Mathias Sindelar, foram as bases em que o técnico montou o seu sistema de jogo, como um carrousell, onde a troca de bola a meio campo e o desdobramento do eixo ofensivo provocava uma série de desequilíbrios na defesa contrária. No sistema de Meisl a táctica não era fixa. O médio centro apoiava o eixo ofensivo que atacava com seis elementos e era nele que começava e terminava todo o jogo ofensivo. Nascia a figura do 10, numa época onde ainda eram os extremos que habitualmente levavam a bola nos pés em campo. Apesar da táctica pouco inovadora, discutida até à exaustão nas longas tertúlias dos cafés vienenses pelos intelectuais mais importantes da sociedade austríaca, o estilo de jogo de Meisl preconizou uma autêntica revolução de pressing e circulação de bola, tornando-se no avô do que seria o Futebol Total.

 

Foi dessa forma que durante 18 meses a Áustria foi uma selecção invencivel.

Por essa época eram vistos no Velho Continente como a única equipa capaz de bater a armada sul-americana, que tinha dominado os Jogos Olímpicos de 1928 e logo o Mundial de 1930, então as duas únicas aventuras internacionais do beautiful game. Na prova seguinte, marcada em 1934 para França, os austríacos lideravam as apostas dos favoritos e os primeiros jogos deram razão aos seus adeptos. Depois de vencer por 6-0 a vizinha Alemanha - num jogo que traria futuras consequências politicas - 6-2 a Suiça e 8-0 a vizinha Hungria, a equipa de Meisl chegava ás meias-finais com clara vantagem. Só que o jogo disputado sobre um imenso temporal que impediu a rápida circulação de bola dos austríacos ficou marcado por um garrafal erro arbitral, quando um avançado italiano empurrou o guardião austriaco e o árbitro fez vista grossa. Uma derrota que teve mão de Mussolini (a Itália venceria a prova e reeditaria o triunfo quatro anos depois, também após fortes pressões do Duce) e que destrui a fama de invencibilidade austríaca.

Mas da derrota nasceu a lenda, tal como sucederia mais tarde com os seus sucessor húngaros. E a fama do Wunderteam ficou para a posteridade. De tal forma que Adolf Hitler, um homem nada entusiasmado com a visceralidade do mundo do futebol mas que tinha assistido à humilhante derrota alemã, não hesitou após o Anchluss em exigir a inclusão dos jogadores austriacos na equipa alemã para vencer o Mundial de 1938. Por essa altura já o maestro Meisl, o primeiro a defender a máxima "A melhor defesa é o ataque", já tinha falecido e Sindelaar, a sua maior estrela, cometido suicídio poucos dias antes de ser preso pela Gestapo.

 

O irromper da II Guerra Mundial destruiu a geração do Wunderteam. A maioria dos jogadores acabou por falecer ou ficar ferida durante o conflito e quando a guerra terminou, em 1945, o futebol austríaco estava de rastos. O país nunca mais voltou a ter uma selecção de alto nível mas lançou as bases do futebol do centro da Europa, distinto a qualquer outro estilo de jogo do Velho Continente. Uma revolução que se transferiu na década seguinte para os vizinhos húngaros, e que nos anos 60 seria transformada paralelamente por um holandês e outro austríaco, Ernst Happell, na base do Futebol Total holandês.



Miguel Lourenço Pereira às 23:28 | link do post | comentar

Segunda-feira, 25.03.13

A via crucis é inevitável. Há uma certa melancolia em cada fase de apuramento para uma competição internacional da selecção de futebol portuguesa. Um olhar preso nos tropeções do passado, um sufoco moral que obriga a um país tão mau em contas tenha de se valer da matemática até ao suspiro derradeiro. Tudo porque, o caminho do sucesso elimina os rastos do caminho certo, e Portugal continua a querer subsistir entre a elite do futebol à base de resultados e não de ideias. Até que os resultados faltem. Depois, o abismo...

Digam que Portugal é uma equipa que joga mal, e a primeira resposta será sempre a do adepto que cita de memória os pódios conseguidos nos torneios internacionais dos últimos anos. Digam que Portugal não tem uma boa equipa técnica, e lembrar-se-ão de dizer maravilhas de Scolari, Paulo Bento e (quiçá) Queiroz, lembrando vitórias pretéritas e esse espírito de sargentinho (não sargentão) de que o português tanto gosta. Digam que Portugal tem um plantel curto, um plantel sem demasiada qualidade, e lembrar-se-ão imediatamente de Cristiano Ronaldo, João Moutinho, Nani e Pepe para justificar tudo o resto. Digam algo negativo sobre Portugal e a sua prestação habitual nas fases de qualificação e a única resposta que vão ouvir é a habitual, a mesma que um individuo como José Mourinho não teve receio de proclamara aos céus algo do estilo "que se lixe a qualificação, o que importa é estar e depois já se vê". E como, para muitos, Portugal se tem visto bem, aqui afinal não há um só problema que tratar.

Claro que isso é o que jogadores, técnicos e dirigentes querem que as pessoas pensem.

Evidentemente que é falso. Demasiado falso para o mais crédulo acreditar e no entanto, não se imaginam quantos crédulos existem. Portugal, é verdade, tem um registo em provas internacionais bastante bom para um país de 10 milhões de habitantes. Mas está mais do que provado que a correlação económica e social, só por si, não garante títulos. Na última década Portugal perdeu um Europeu em casa contra a Grécia. Caiu nas meias-finais de um Mundial contra a França, tendo deixado pelo caminho a Holanda e Inglaterra. Caiu num Europeu com a Alemanha e num Mundial e Europeu com a campeã, Espanha. Não parece, à partida, um mau registo. A diferença está em ver como se chegou até lá e, sobretudo, como se caiu. Em ambos os casos a resposta é fácil: sem ideias, sem futebol e sem um colectivo. O que faz toda a diferença.

 

A Portugal falta-lhe hoje o mesmo que faltava há cinco anos. Não mudou nada nesse aspecto.

É uma selecção com uma base de escolhas extremamente reduzidas que se agrava ainda mais pela mentalidade redutora e classicista do dirigente/técnico/adepto português que associa os jogadores de maior renome, os mais caros ou mais bem pagos, com os mais idóneos para jogar pelo país. Não é assim. No jogo de Israel, o obtuso Paulo Bento usou todos os nomes que tinha à sua disposição. Esqueceu-se de que o trabalho dele é utilizar jogadores. Em campo estavam atletas fisicamente em má forma física e anímica. Jogadores que jogam a outra coisa, a outro ritmo. Jogadores que não têm condições para serem titulares absolutos com a selecção e que no entanto, jogo atrás de jogo, aí estão.

Jogadores como João Pereira, Bruno Alves, Miguel Veloso, Raul Meireles, Varela e Hélder Postiga, para por caras e nomes.

Nomes, membros da "família Bento" com carta branca para fazerem o que quiserem em campo, que nada questiona a sua titularidade ao jogo seguinte. Quando Vierinha, um jogador sem pedigree público, entrou em campo as sensações da equipa mudaram logo. E mudaram porque utilizar um jogador fora do esquema fechado de Bento obrigou forçosamente Portugal a lidar com o seu mais grave problema, a falta de ideias e conceitos tácticos.

Paulo Bento é um péssimo treinador no aspecto táctico. É fechado, redutor e insiste regularmente no mesmo modelo, mostrando uma incapacidade atroz em ler os jogos e a readaptar-se. Rodeia-se dos jogadores que ele entende que melhor aplicam a sua filosofia e espera que depois seja a individualidade a fazer a diferença. É um técnico primário e sempre será. Essa é outra das razões porque é seleccionador.

Portugal não reagiu tacticamente ao empate israelita e muito menos ao segundo golo, desperdiçando uma vantagem conseguida, segundo o treinador "demasiado cedo", como se estivesse assumir que mentalmente é incapaz de manter uma equipa motivada num campo onde era imperioso ganhar. É uma conversa que já se ouviu com Bento no passado, nada de novo. Só a entrada de Vierinha e Hugo Almeida - tarde demais - obrigou Portugal a mudar o desenho, a deixar o 4-3-3 para apostar num 4-4-2, com Postiga por detrás de Almeida e Ronaldo como número 10 - ao ponto a que chegou o futebol português - e dois médios interiores abrindo as alas para a subida dos laterais, algo que não se viu durante todo o período de tempo em que funcionou o 4-3-3 clássico. Sem essas ideias, Portugal é uma equipa plana, demasiado pendente do jogo transicional que favorece tanto Cristiano Ronaldo mas que prejudica todos os outros. Um jogo que só funcionou no Europeu contra uma Holanda partida em duas. Contra a Dinamarca e República Checa teve muitos problemas em impor-se e frente à Espanha foi o que se viu.

Sem jogadores e sem treinador, o raro é que uma selecção consiga algo. E o pior é quando esse treinador é incapaz de incutir aos jogadores adrenalina. Portugal joga as fases de qualificação a um ritmo sonolento, obrigado, como quem tem de despertar-se todos os dias de madrugada para encarar oito horas de árdua jornada laboral. Não há tensão competitiva, querer, dinamismo físico e pressão menta que salve esta equipa. Nem Ronaldo, tão voraz no Real Madrid, consegue valer a sua braçadeira. A equipa joga a passo, linhas distantes, e quando qualquer rival coloca um pouco mais de velocidade no seu jogo - viu-se com a Rússia, a Irlanda do Norte e com Israel - o barco vai ao fundo. Se já é mau que os jogadores escolhidos não sejam os idóneos e que o treinador seja um problema, não a solução, que essa dupla ainda cumpra o seu trabalho quase como queixando-se é demais. Tarde ou cedo a realidade acabará por bater à porta.

 

Portugal já sabe que o primeiro lugar do grupo é uma impossibilidade, se não matemática pelo menos moral. E que o segundo será um mano a mano intenso até ao fim, sobretudo com o jogo do Estádio da Luz contra a equipa israelita a fazer a diferença. Depois vem o play-off, mais um consecutivo, o terceiro. A mim importa-me pouco que Portugal chegue a uma competição internacional via play-off ou como primeiro do grupo, se tiver demonstrado em campo ser uma equipa, bem treinada, com jogadores comprometidos, com uma convocatória que respeite a qualidade e não o estatuto. O problema é que isso nunca acontece e o cenário vai-se repetindo e os problemas ficam sem resolver-se e assim continuarão até que a selecção falhe uma ou duas provas internacionais consecutivas e entre, como outros país, numa espiral autodestrutiva. Aí tudo o que for escrito aqui será relembrado, mas sem um futebol de formação de qualidade e com figuras individuais como Cristiano Ronaldo cada vez mais escassas na nossa fábrica de futebolistas, talvez seja tarde demais.



Miguel Lourenço Pereira às 13:22 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 20.03.13

José Mourinho quebrou o seu silêncio selectivo para dar uma entrevista à RTP que é como quem dá a possibilidade aos amigos de lucrarem com palavras que semana atrás semana se recusa a prenunciar onde deve, na sala de conferências de imprensa do clube que lhe paga 12 milhões de euros ao ano. E fê-lo para, entre outras coisas, denunciar a corrupção que está por detrás do Ballon D´Or. O mesmo prémio que em 2010, quando venceu a primeira edição, não pareceu ter nenhum problema. O mesmo prémio que, ano após ano, treinadores, jogadores, jornalistas e público em geral se sentem determinados a dar uma importância que, no fundo, não tem.

Vicente del Bosque venceu o Ballon D´Or ao Melhor Treinador de 2012.

Ganhou-o com mais de 10% dos votos do segundo, José Mourinho, o vencedor inaugural do prémio e 29% mais do que Josep Guardiola, a quem sucedeu no palmarés. Venceu-o com o voto maioritário de seleccionadores e jornalistas, mas não dos capitães que preferiram a figura de Mourinho. A gala foi a 7 de Janeiro de 2013. Mais de dois meses depois aparece Mourinho, qual vencido despeitado, anunciando que foi o seu conhecimento da existência de fraude nas votações que o levou a não marcar presença na gala (ao contrário de Cristiano Ronaldo, também português, também do Real Madrid, também segundo nas votações). Está no seu direito.

Os factos parecem dar-lhe razão. Paulo Duarte, seu velho amigo e antigo jogador nos seus tempos de técnico da União de Leiria, confessou que não teve oportunidade de votar porque o formulário lhe chegou para lá da data limite de voto. Uma situação comum a países como a Guiné-Bissau ou Costa de Marfim, nações que, a julgar pelo lido, votariam em Mourinho para vencer o prémio. O técnico português fala ainda de personalidades que lhe terão ligado falando na existência de boletins de voto alterados. Uma vez mais, os seleccionadores da Zâmbia e Zimbabwe queixaram-se na imprensa local que os nomes que aparecem na lista oficial da FIFA não se correspondem com as suas votações, um deles referindo até que nunca chegou a ver o formulário de foto e que alguém terá votado por ele.

Curiosamente, os amigos de Mourinho permanecem em silêncio e seguramente continuarão calados porque comprar uma guerra contra a FIFA é, habitualmente, meio caminho para ter uma carreira curta e sem grandes oportunidades. A velha raposa chamada Blatter raramente esquece estes insultos à sua honra, se é que lhe sobra alguma para mostrar ao público depois de todos os escândalos dos últimos quinze anos de presidência. Parece ser perfeitamente possível dizer que houve irregularidades e fraude nas votações do Ballon D´Or. E quê?

 

O que mais supreende - ou talvez não - nas declarações de José Mourinho é a sua percepção que os erros acontecem exclusivamente no ano em que perde.

Em 2010, quando venceu o prémio - também contra Del Bosque, então recém-consagrado campeão do Mundo pela selecção espanhola - o técnico português subiu exaltante ao palco, celebrou, dedicou o prémio e nunca se lembrou de rever a lista de votações para confirmar se faltava algum país, não fossem eles ter votado noutro técnico. Como tantas vezes sucede nas acusações aos comités de arbitragem, as palavras surgiram apenas depois de uma derrota. Não lhe retira a razão mas sim a moral de falar quando, nos momentos de glória, tudo fica guardado num baú e escondido debaixo da cama para não chamar à atenção.

Parece-me claro que um prémio com estas caracteristicas tem tudo para ser alvo de fraude. Nada resta já do velho Ballon D´Or, um prémio de glamour mais do que reconhecimento real de talento. Ao abrir as votações, muito democraticamente, a todos os capitães, seleccionadores e correspondentes da France Football do mundo, a FIFA abre também a caixa de pandora. Em países onde a corrupção está oficialmente instalada, seguramente que os votos podiam ser comprados facilmente. Em estados que seguem apenas os máximos eventos desportivos, naturalmente que a votação está condicionada aos nomes mais emblemáticos. Na Etiópia, onde a Premier é seguida com devoção, Roberto Mancini coleccionou vários pontos que não se repetiram em nenhum outro país. Nos países hispânicos e lusófonos o índice de sucesso de Messi e Ronaldo foi proporcional à influência cultural de cada um e o seleccionador espanhol, perdão, chinês, não teve problemas em votar em dois técnicos e três jogadores do seu país referindo-se ao jornal Marca como algo normal porque há sempre que votar nos seus.

O que nos leva a perguntar sobre o valor real que possa ter um prémio que se transformou num concurso de popularidade nos últimos três anos, um concurso fechado nos nomes mais simbólicos do futebol internacional, distante da ideologia inicial de um prémio que não teve problemas em celebrar os êxitos de Sivori, Masopust, Albert, Blokhin, Simonsen, Belanov, Owen e Cannavaro quando havia jogadores muito mais completos em activo, os mesmos que hoje estão destinados a vencer como condição sine qua non. O Ballon D´Or deixou de ter o prestigio e o respeito de quem via algo original e distinto na atribuição do prémio da France Football, consciente que num desporto colectivo a entronização pessoal faz sempre pouco sentido.

 

As queixas de Mourinho deixam-no, uma vez mais, nú e só ante uma das máximas entidades do jogo. Depois de ter desafiado a UEFA com a sua lista de erros arbitrais, agora o técnico português lança um dardo envenenado à FIFA a propósito do seu prémio mediático comprado a peso de ouro à família L´Equipe-France Football. O treinador do Real Madrid pode perfeitamente queixar-se em ambos os casos, até porque os momentos concretos arbitrais que cita, bem com os erros nas votações, são reais. Mas esquecer-se das mesmas particularidades quando saiu vencedor, tanto em provas europeias (Old Trafford, 2004; San Siro, 2010; quem sabe se Old Trafford, 2013 também) como na atribuição do primeiro Ballon D´Or ao melhor técnico da história apenas deixam reflectida uma pálida e triste imagem de um treinador genial consumido cada vez mais pela sombra da sua própria persona.



Miguel Lourenço Pereira às 10:41 | link do post | comentar | ver comentários (22)

Quarta-feira, 13.03.13

A justiça poética no futebol funciona assim. A era dourada de Guardiola terminou sem uma terceira Champions quando Ramires, isolado, não perdoou no duelo com Valdés. Um ano depois, Niang, na mesma situação, apenas acertou no poste e consumou o péssimo partido do AC Milan. O baile de futebol aplicado pelo Barcelona é também um bálsamo para os que reclamavam um regresso rápido às origens. Mais do que nunca, os homens de blaugrana recuaram no tempo, até 2009, e aplicaram todo o ideário desenhado por Guardiola à sua chegada ao banco do Camp Nou. Por isso venceram, por isso humilharam e por isso têm todas as condições para ir até ao fim. Sendo fieis às suas origens.

 

Depois da semana negra dos catalães, escrevi precisamente aqui que o Barcelona tinha tudo para vencer a eliminatória com o AC Milan. "A grandeza do plantel do Barça, o melhor do Mundo sem dúvida, pode permitir tudo, incluída uma goleada ao Milan e uma caminhada heróica rumo ao terceiro titulo europeu conquistado em Wembley. Se procurarem mais Xavi e menos a Messi, se a bola volte a sair dos pés de Valdés jogável, se as linhas se abrirem e a posse seja a ferramenta e não o fim, uma equipa do calibre e qualidade do Barcelona pode com tudo. "

Dito e feito.

O jogo de ontem foi uma viagem no tempo patrocinada pela Qatar Airways. O voo saiu do aeroporto do Camp Nou e voou entre as nuvens até 2009, até a essa essência básica onde Xavi é o eixo pendular. Onde Messi não se obcecou com vir jogar atrás do meio-campo e move-se mais e mais depressa que a sua sombra. Onde há uma figura ofensiva mais presente, que obriga os centrais a não distraírem-se apenas com os passos do argentino. Onde o campo se abre e os laterais entram em jogo. Onde a defesa sobe linhas e Valdés coloca a bola jogável, e onde morder, pressionar e recuperar é feito a uma velocidade supersónica.

Tudo aquilo que o Barcelona foi em Fevereiro, todo esse espelho sombrio de cansaço, de falta de forças e motivação, tudo isso desapareceu neste reflexo perfeito do que era a equipa nos seus primórdios, onde cada bola recuperada era ganha com devoção, com ganas. O Barça recuperou mais bolas do que em toda a temporada, pressionou mais intensamente do que nunca. Três dos quatro golos saíram de lances em que a bola é ganha num lance ofensivo contrário. Ganha com timing preciso, impedindo o ataque do rival e transformando uma posse defensiva numa lança ao contrário. Foram três golos dos quais Guardiola, mais do que nenhum outro, estaria profundamente orgulho. Foram três golos para todos aqueles que se levantaram a aplaudir a maravilhosa equipa que Pep lançou ao mundo naquele 2008/09 memorável.

 

O Milan foi a mesma equipa de San Siro, mas numa versão ainda mais lenta, mais conservadora.

Faltou-lhe uma referência ofensiva sólida - como foram Drogba e Milito nas aventuras bem sucedidas de Chelsea e Inter ao Camp Nou - e Niang, claramente, mostrou ser ainda muito verde para estas noites europeias. O seu erro, crucial no desenrolar do jogo, foi a sorte do encontro. Se o Milan tinha marcado naquele lance, o futebol teria sido, sem dúvida, injusto com a equipa catalã, a única que quis entrar em campo para jogar sem complexos e sem pressão. O golo inaugural de Messi - um disparo indefensável - ajudou a tirar de cima os nervos e a lançar os adeptos e os jogadores na cruzada da "remontada" de que falava Xavi. Desde 2000, numa vitória por 5-1 contra o Chelsea, que o Camp Nou não vivia uma noite assim.

E tal como então, foi o jogo coral da equipa que deu lugar a um festival de golos. Messi bisou, partindo de fora de jogo (antes tinha havido já um penalty de Piqué, por mão na bola, e um ligeiro toque de Abate, sobre Pedro, na área), e Villa, um trabalhador incansável e um dos grandes injustiçados do balneário blaugrana, marcou de forma magistral o terceiro golo. Era o que faltava para completar a reviravolta. O Milan era incapaz de reagir. Não tinha nem jogadores nem banco para inverter a tendência do jogo. Ao contrário do duelo de San Siro, onde fez das suas fraquezas virtudes, onde soube anular o jogo do rival e fazer do contra-ataque uma arma capaz de fazer sangue, o Camp Nou foi demasiado para a jovem squadra milanesa. Incapazes de criar perigo, incapazes de aguentar a bola, incapazes de dar essa sensação de querer algo mais. Ao contrário de Inter e Chelsea, equipas de homens maduros e com experiência europeia, capazes de sofrer, o Milan foi inocente e frágil e mereceu ser atropelado por uma equipa do Barcelona que quase nunca tirou o pé do acelerador. O golo final, a lembrar o épico tento apontado à Itália em Junho, coroou mais um grande jogo de Jordi Alba e esse espírito que tanto tem faltado ao clube blaugrana nos últimos meses.

Ao contrário do que muitos podem pensar, o jogo em Itália não foi um acidente de percurso. O Barcelona que viajou a Itália (e que perdeu o duplo confronto com o Real Madrid) era realmente uma equipa com muitos problemas, físicos e anímicos, incapaz de apresentar algo fresco e inovador no relvado que perpetuasse a sua imensa lenda. O que provocou o triunfo de ontem, mais do que os erros e falta de ambição do AC Milan, foi a mudança de mentalidade da equipa técnica, assimilada pelos jogadores. Só com esse regresso ao passado o 4-0 e o apuramento foram possíveis. Uma réplica do jogo em Itália, de uma equipa pastelenta e previsível teria sido tudo aquilo que os italianos queriam. Não tiveram sorte, nem engenho para adaptar-se.

 

Tudo indica que Bayern Munchen, Borussia Dortmund, Barcelona e Real Madrid partilhem o favoritismo para chegar a Wembley. Cabe agora ao sorteio de amanhã ditar como será o caminho até à final. São as quatro melhores equipas em prova, as que contam com os melhores jogadores, treinadores e planos de jogo. Mas isso nem sempre significa que sejam as finalistas. O sofrimento dos espanhóis em Old Trafford, o toque de atenção ao Barcelona em San Siro e o duelo do Dortmund em Donetsk deixa claro que há pouca margem de manobra para o erro. A Europa do futebol prepara-se para a contagem decrescente. O jogo do ano está quase aí e um Barcelona fiel a si mesmo, capaz de solucionar os seus problemas e apresentar a sua melhor versão, tem de partir como máximo favorito ao ceptro europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 13:40 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 11.03.13

Em 1980 um desconhecido realizador espanhol estreava a sua primeira longa-metragem. Pepi, Luci e Bom y Otras Chicas del Montón, abria a larga e espantosa carreira cinematográfica de Pedro Almodovar. Este ano o realizador manchego volta ao activo com um regresso às comédias que o fizeram célebre mundialmente na década de 80. Nos relvados, três treinadores, "del montón", desafiam as convenções e demonstram que o futebol é também um palco de teatro onde a improvisação e a arte muitas vezes superam o hermetismo habitual entre os convencionais maestros do jogo.

Eram adolescentes. Sonhavam talvez com a glória com uma bola nos pés ou talvez com roubar um beijo à estrela feminina do momento, Bo Derek, a mulher 10. Mas nenhum deles imaginaria, seguramente, que 33 anos depois fossem protagonistas de uma crónica que os unisse no tempo e no espaço a um obscuro filme cómico estreado nesse ano.

Pepe Mel tinha 17 anos, Paco Jemez 10 e Philippe Montanier 16 e é provável que nenhum deles tenha sequer visto o filme. Não foi, propriamente, um sucesso de bilheteira numa Espanha ainda em profundo estado de "transição". Mas sem o saber, Almodovar já falava deles. Pepi, Luci e Bom são três raparigas comuns, correntes, normais, nem bonitas nem feias, nem altas nem baixas, nem magras nem gordas. Mas são imaginativas, intrépidas e criativas, capazes de desafiar o convencionalismo de uma era de profundas mudanças sociais. Não tinham a atenção dos homens como as elegantes e sensuais mulheres do seu tempo mas eram capazes de ir mais longe do que qualquer outra para inverter essa realidade quase crónica. E com isso demonstravam ser, sobretudo, personagens de recursos infinitos para lograr os seus objectivos. O mesmo se passa nos bancos da liga espanhola.

Numa liga orfã do génio de Guardiola, cansada das poses ditatoriais de Mourinho, dificilmente apaixonada pelo hermetismo de Simeone ou pelos vai e vens de Tito Vilanova e Jordi Roura, há um vazio de génios e figuras que permite ao espectador, quase sempre focado nesse duelo mediático Mou-Pep, olhar para o lado e ver que, afinal, também há imensa qualidade, imenso talento e imensa criatividade nos treinadores "comuns".

Mel, Jemez e Montanier lideram o sprint pela Europa, misturados com os milhões de Málaga e Valencia, do projecto sólido do Atlético de Madrid e batendo o pé aos multimilionários do futebol europeu. Lutam os três por um lugar na Champions League, uma competição que, à partida, podia estar para eles como um concurso de misses para Pepi, Luci e Bom. Mas que lhes fica como uma luva.

 

Pepe Mel é o mais veterano nestas lides.

Foi o responsável pelo renascimento do Rayo Vallecano, desde as entranhas do futebol secundário espanhol. Falhou a promoção com a equipa depois de um ano memorável na segunda divisão mas deixou tudo preparado para o seu sucessor - o espantoso Sandoval - completar o trabalho. Partiu para a sua Sevilla, para pegar num Bétis igualmente em horas baixas. Desenhou a régua e esquadro uma equipa que faz do futebol ofensivo, de toque, o seu santo e senha. Escritor, novelista consagrado, Mel sabe trabalhar com a bola como com as palavras, sem medos. Encontrou em Beñat a batuta, em Castro o golo, em Adrian a segurança defensiva e à volta criou um espírito colectivo impressionante para um clube dado sempre a tendências autodestrutivas. Neste Bétis não há estrelas, não há vedetas nem há margem de erro para arriscar sem a certeza do sucesso. A urgência de um clube falido pela gestão criminal de Ruiz de Lopera, deu passo a um clube renascido e determinado a criar uma marca de identidade no futebol espanhol. O prémio de um lugar europeu é apenas o reflexo simbólico e mediático de algo muito mais profundo e meritório.

Algo similar experienciou Philippe Montanier, um francês olhado como suspeita, como todos os franceses, desde o dia que chegou a San Sebastian com a promessa de um futebol rendilhado e ganhador. Demorou mais tempo do que muitos podiam esperar e teve a sorte de contar com uma directiva capaz de ver a longo prazo. A Real Sociedad perdeu o duelo mediático com o Athletic Bilbao há muito tempo e abandonou a política exclusivista de jogadores bascos mas não a sua identidade. Apostou muito na formação e começou agora a colher os primeiros rebentos de uma nova e brilhante geração, a de Aguirretxe, Illarramendi, Iñigo Martinez ou Ruben Pardo a que se juntaram os talentos de Vela e Griezzman. O líder da armada, único sobrevivente da brilhante equipa que há uma década desafiou o Real Madrid pelo título de liga (a de Xabi Alonso, Nihat e Kovacevic), é também o reflexo de como o futebol espanhol decidiu finalmente olhar para dentro e apaixonar-se pelas suas virtudes em vez de deixar-se cair nos seus defeitos. Xabi Prieto é um dos nomes do ano no futebol espanhol, recuperado tardiamente como o foi Valeron na Corunha ou agora Joaquin em Málaga, jogadores que explodiram antes do tempo em que a imprensa começou a valorizar o "tiki-taka" dos Xavi e Iniesta. Montanier teve todos contra si, teve o carácter de aguentar os piores momentos ao leme do clube, o sofrimento, para emergir com uma equipa construída com pés e cabeça, com vocação ofensiva, com capacidade de misturar a velocidade individual de Griezmman e Vela com o critério de Prieto e Pardo, uma equipa completa da cabeça aos pés.

Sem um nome histórico, como são os já campeões Bétis e Real Sociedad, sem um passado como treinador significante, talvez o trabalho de Paco Jemez tenha ainda mais mérito porque não há clube mais "del montón", do que o Rayo Vallecano. Desastrosamente gerido pela família Ruiz-Mateos, penosamente presidido por um sucessor que entende pouco de futebol e menos de finanças, que o Rayo ainda esteja de pé não deixa de ser um desses milagres do futebol. Que dispute um lugar na Champions League é algo quase sobrenatural. Jemez sucedeu a dois homens que deixaram parte do trabalho feito, Mel e Sandoval, mas imprimiu o seu toque definitivo ao clube, apostando num 3-4-3 ousado, convencido de que para um clube pequeno que sabe que acabará por sofrer golos, a arma secreta tem de ser sempre procurar marcar mais do que o rival. Sem Diego Costa e Michu, os dois goleadores do ano transacto, o técnico encontrou em Piti e Leo Baptistão os seus novos aríetes, confiou no regresso do mítico Tamudo e na qualidade de Lass para fazer a diferença e preparou-se para sofrer. A onze jogos do fim, o Rayo está praticamente salvado. No ano passado precisou de um golo milagroso nos descontos do último jogo do ano. Sonhar com a Europa não é impossível, nem sequer se falamos da Champions League. Seria a prova do que o futebol é algo mais do que uma simples utopia.

 

Não são estrelas, a maior parte da Europa do futebol nem os conhece. Os rostos são figura estranha, os gestos desconhecidos mas o trabalho desenvolvido é algo que não pode passar desapercebido. Não são os únicos. Em Espanha há ainda Juan Ignacio Martinez. Em Portugal o jovem Paulo Fonseca começa a fazer-se notar. Em Inglaterra já ninguém olha de lado quando ouve Roberto Martinez e em Itália Vicenzo Montella já é um futurível dos grandes clubes. São treinadores comuns, em equipas mais ou menos comuns, que fazem da necessidade, engenho, e das fraquezas forças. São eles o pão e sal do futebol. Enquanto as câmaras se divertem a descobrir quantos rabiscos tem o livro de notas de Mourinho ou Guardiola, eles seguram nos ombros a estrutura base do beautiful game.



Miguel Lourenço Pereira às 14:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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