Sábado, 26.07.14

O Em Jogo vai de férias até ao próximo dia 20 de Agosto.

 

Entretanto podem continuar a visitar o Futebol Magazine, quem mantém a sua programação habitual.

 

Para leitura de Verão, na praia, a recomendação obrigatória do Noites Europeias e dos Sonhos Dourados via Amor á Camisola.

 

Bom Verão a todos!

 



Miguel Lourenço Pereira às 14:58 | link do post | comentar

Segunda-feira, 14.07.14

Prometeu muito, deixou pouco. O Mundial 2014 chega ao fim. Com ele a mais espectacular fase de grupos de que há memoria. E uma ronda a eliminar que foi descrendo de qualidade até alcançar uma final decepcionante. Foi um torneio de oito e oitentas, de guarda-redes fadados a momentos de glória e de estrelas globais abaixo do que prometiam. Um torneio que não deixa uma grande equipa, um grande jogador mas sim uma grande certeza. A queda da Espanha não significou o fim do tiki-taka e a sua Némesis defensiva vai encontrar sempre forma de continuar a morder-lhe os calcanhares.

 

No dia em que os oitavos-de-final arrancaram, com o drama entre Brasil e Chile, os adeptos de futebol estavam no céu. Tinham vivido quinze dias de uma intensidade única. Golos – muitos, de muitas formas e feitios – grandes exibições colectivas e individuais (sobretudo dos guarda-redes) e surpresas. Parecia que o torneio ia igualar as desigualdades sociais do Mundo e que os europeus seriam a chacota. O Brasil avançava a passo tremido para fazer história e o futebol perfumado das caraíbas encandeava mais que o jogo dos europeus. Um mundo ideal quase previa uma final Colômbia vs Costa Rica. Foi um sonho bonito. Mas curto. Quinze dias depois a sensação não podia ser mais distinta.

O torneio abandonou o seu ritmo de samba e entrou num longo e angustioso solo de Bossa Nova, lento e previsível. Os favoritos foram eliminando os rivais sem problemas de maior. As surpresas desapareceram e com elas a magia do momento. Os europeus que sobreviveram à purga inicial (principalmente uma purga de equipas mal preparadas) impuseram-se sobre os rivais sem dificuldades de maior. Pela primeira vez na história dos Mundiais fora da Europa a competição esteve a uma grande penalidade de ter os dois finalistas do “Velho Continente”. Lá se foi a justiça social. Os guarda-redes foram perdendo protagonismo (salvo se entraram para defender penalties) e os nomes do costume foram aparecendo. Mas a anos-luz do que sabem e podem fazer. Não houve uma grande série de exibições mágicas de um jogador nem um futebolista que se impusesse como figura icónica do torneio. O futebol moderno dá cada vez menos liberdade aos Ronaldo, Zidanes ou Romários – para não ir mais atrás no tempo – reclamar o seu lugar na história. A péssima qualidade das arbitragens só encontrou par no péssimo estado táctico e emocional do Brasil. Foi o descalabro numa semana de um espectáculo inesquecível. Depois de uma fase de grupos digna do México 86 ou Espanha 82 a competição a eliminar caiu ao nivel emocional de um Itália 90 ou Coreia do Sul-Japão 2002. E claro, dentro de tantos falsos mitos que fracassaram, um imperou sobre os demais. Sobrava a Alemanha.

 

O futebol germânico teve o merecido premio a oito anos de trabalho.

A aventura que Klinsmann começou mudou o curso quando Low se encontrou com Espanha. Em duas provas seguidas a Mannschaft caiu aos pés do tiki-taka. Foi suficiente para introduzir no seu próprio ADN o código de sobrevivência do futuro. Espanha pode ter sido a selecção mais decepcionante do torneio – continua a ter, quase posição por posição, um dos três melhores do Mundo – mas a sua herança manteve-se viva nos alemães. Uma equipa que teve altos e baixos evidentes no torneio, que sofreu – como os espanhóis – nos jogos contra equipas tacticamente organizadas na defesa, e que não tem um interprete singular mas um rosto coral de maravilhosos músicos capazes de tocar em harmonia absoluta. A Alemanha foi a melhor selecção colectiva do torneio sem ter sido, no entanto, uma selecção para a história. Pode perfeitamente este ter sido o ponto de inicio para uma nova era de hegemonia mundial, que o próximo Europeu confirmará ou não. Há muita juventude e opções de futuro para pensar nisso. Mas este pode ser também o titulo que coroa um trabalho que vem de longe e que merecia este reconhecimento. Os alemães deram um toque vertical ao tiki-taka espanhol (no fundo o mesmo que o modelo tinha na sua primeira encarnação e que Guardiola, um treinador mais vertical do que se pensa, exige no Bayern) e souberam ser eficazes nos momentos certos. Foram protagonistas do jogo mais marcante da competição (o melhor, esse, foi o Itália vs Inglaterra, duas equipas eliminadas o que diz muito da magia da primeira quinzena de torneio) e só esses sete golos ficarão seguramente para a história impressos com mais força que o titulo mundial. Foi a gesta do torneio, mas nem foi brilhante, nem foi a única.

O Mundial foi, sobretudo, um torneio previsível quando os astros se alinharam. Beneficiando de um cruzamento acessível desde a fase de grupos, a Argentina ultrapassou o seu Rubicão e chegou à final com pouco futebol e aplicando a antítese do tiki-taka que deixaria Mourinho orgulhoso. Marcaram poucos golos (nenhum finalista marcou menos na história na fase a eliminar, apenas dois golos em 430 minutos), defenderam bem e tiveram em Mascherano a sua figura. Messi esteve mal acompanhado no ataque e demasiado longe da área para criar perigo real. Lutou com as armas que tinha, manifestamente insuficientes. Na fase a eliminar não marcou nem decidiu nenhum dos jogos a favor da sua equipa e depois de uma boa primeira ronda eclipsou-se progressivamente. Na final passou de uma excelente hora de jogo a uma fantasmagórica exibição no prolongamento, vómito incluído. Não foi o seu Mundial a pesar de ter chegado à final. Olhando para o futebol argentino actual é possível que seja a única da sua carreira. No entanto, continuar a insistir que um jogador do seu calibre precisa de um titulo Mundial para ser grande é não conhecer a história do jogo. Messi é o jogador que define o futebol pós-2008 pelo seu jogo, não pelos títulos que conquistou.

 

Messi foi uma figura decrescente como todas à medida que o torneio avançava. Robben, Muller e James Rodriguez foram os mais constantes no brilho que deram a uma competição onde Neymar, Benzema e Suarez começaram por prometer muito mas, por motivos vários, deixaram de produzir à medida que passavam os dias. No fim da competição foram os Mascherano, Lahm ou Kroos que se fizeram indispensáveis. Os guarda-redes também passaram da magia da primeira ronda à sobriedade dos momentos difíceis.  O torneio foi perdendo a magia à medida que o Brasil deixava a nu todas as deficiências e equipas como a Costa Rica, Colômbia, Bélgica ou França diziam adeus. A Holanda manteve-se em competição mais pelo génio táctico de van Gaal e a excelente forma de Robben do que pelo mérito do seu colectivo. Os europeus, que começaram tão mal – Itália, Inglaterra, Portugal, Croácia e, sobretudo, Espanha – impuseram a sua vontade e pela primeira vez venceram um torneio fora do seu continente. Foi também a terceira vitória consecutiva da Europa deixando claro que se a alma do futebol está na América, a qualidade de jogo está na Europa. Será difícil mudar a tendência enquanto a desorganização nos gigantes continentais americanos, africanos e asiáticos continuar a imperar. No final impôs-se a justiça do campeão, premiou-se o esforço de uma Argentina escassa em talento e do trabalho táctico de um génio como van Gaal no pódio. As lembranças dos primeiros días foram engolidas no tempo, de tal forma que parecem a um Mundial diferente do que acabou. No entanto, um palco mágico como o Brasil seguramente tornará as coisas difíceis para os russos em 2018. Será difícil organizar um torneio com tanto simbolismo num país gigante mas desfasado do Mundo onde não há esse perfume de um futebol que já não existe a cada passadeira numa avenida rodeada de memorias e ilusões.  Porque afinal, mais do que um torneio entre países, o Mundial é precisamente isso, um pretexto, de quatro em quatro anos, para celebrar a essência deste beautiful game.

 

PS:  A polémica levantada pela eleiç4ao de Messi como jogador do torneio espelha bem a diferença do que é o Mundial de futebol, em campo, e o torneio organizado pela FIFA, nos bastidores. A competição deixou claro que a FIFA cometeu erros graves – equipas de arbitragem, política de venda de bilhetes, horários de jogos para beneficiar as televisões europeias, o circo à volta da suspensão de Suarez – à medida que o futebol em campo ia sobrevivendo.  Messi não precisa de um premio destes para se reafirmar pelo que é, um dos melhores jogadores de sempre. Mas este não foi o seu Mundial. Não foi um Mundial decepcionante, como em 2010, mas também não foi o torneio que fez seus. Face à ausencia de uma super-figura (desde Ronaldo que não há ninguém com esse simbolismo) o premio fazia muito mais sentido em James Rodriguez, Arjen Robben, Thomas Muller, Philip Lahm ou Javier Mascherano, cada qual representante perfeito de momentos e estilos próprios. Que o argentino não esteja no onze tipo do torneio de quase nenhum jornalista, técnico ou comentador que tenho lido nos últimos dias não surpreendem em absoluto. Como diz, por uma vez bem, Diego Maradona, o mediatismo da entrega do premio a Messi – prémios que nunca foram entregues desta forma circense – eclipsa cada vez mais a meritocracia que rodeia a essência do jogo. Provavelmente tanto ele como Cristiano Ronaldo, esse sim protagonista de um Mundial penoso, estejam no top 3 do próximo Ballon D´Or. O futebol, se é que alguma vez esteve, não tem nada a ver com estes prémios. Mas é preciso vender jornais e encher redes sociais. É o futuro (triste) do jogo.


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Miguel Lourenço Pereira às 21:37 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quarta-feira, 09.07.14

Podem passar os anos. As gerações. Haverá momentos únicos, históricos. Viveremos torneios exibidos em novos suportes digitais. O mundo acabará mas os Mundiais continuarão a disputar-se noutra galáxia. O que nunca irá ser esquecido foi o vivido ontem em Belo Horizonte. Naquele que foi, muito provavelmente, o jogo mais importante da história do futebol desde o Inglaterra vs Hungria, entendemos definitivamente que o passado nunca volta.

 

Billy Wright e Tom Finney olhavam desconfiados para um jogador gorducho, cabelo impecavelmente penteado, meias altas. Não parecia um jogador de futebol profissional. Tinha mais aspecto de dono de bar de má reputação. Para esses dois símbolos do Rule Britannia o futebol consistia numa série de leis não escritas. No topo da lista estava a eterna invencibilidade dos ingleses. Os Pross já tinham perdido internacionais, mas sempre longe de casa. No tapete sagrado de Wembley eram invencíveis. Até àquela tarde. O jogador gorducho provou em campo que o futebol não era uma questão de credo, de raça, de coração. Era um jogo altamente sofisticado, cheio de burocráticos detalhes tácticos mas onde o génio individual tinha sempre de casar com o talento colectivo para forjar o triunfo final. Puskas mostrou aos ingleses que o futebol que eles tinham reinventado e dominado de forma insultante tinha chegado ao fim. Demonstrou-o diante dos seus olhos para não haver mais duvidas. A verdade é que há décadas que os ingleses não eram os melhores do Mundo, per se. Nos anos 30 a escola danubiana e a Itália tinham ocupado o seu lugar e do outro lado do Atlântico o futebol rioplatense tinha demonstrado estar, como mínimo, à altura dos insulares. Mas esses duas décadas tinham passado sempre debaixo de um fantasma de genuína admiração pelos ingleses. Viviam da glória passada, do seu jogo fascinante, das suas velhas lendas, como se bastasse vestir a camisola com os três leões, cantar o God Save the Queen e ganhar por direito divino. Os seis golos dos húngaros em Wembley acabaram com oitenta anos de hegemonia emocional inglesa. O império tinha chegado ao fim.

 

Foi isso que aconteceu em Belo Horizonte.

O mesmo fiel retrato dessa tarde de Londres em que o futebol se despediu entre lágrimas das suas origens e seguiu o seu caminho. Cinco anos depois da hecatombe inglesa, apareceu um novo império. Chegou com o mesmo fascínio original provocado pelos ingleses. O Brasil era tudo aquilo que a Inglaterra já não era mais tinha feito o mundo acreditar que sim. Tinha talento, organização, engenho, velocidade e jogadores capazes de roubar corações para a eternidade. O triunfo no Mundial de 1958 tinha sucedido ao drama do Maracanazo e à brutalização do futebol (já) canarinho em 1954. Nesse torneio, disputado na SUécia, começou a saga memorável dos brasileiros. Quatro anos depois o segundo titulo. Em 1970, debaixo do sol asfixiante do Azteca, o tricampeonato Mundial e a certeza de que não havia ninguém no Mundo que pudesse estar à altura da sua sombra. O Brasil tornou-se na nova Inglaterra. Era a segunda selecção de todos, a equipa que chegava sempre como favorita, mesmo em más horas. A que tinha um jogo inconfundível, aquela cujos adeptos podiam presumir de ser únicos e inimitáveis. A “amarelinha” tornou-se tão grande como os “leões”. O God Save the Queen foi substituído pelos batuques, passos de samba e gritos de ordem tropicais. A dinâmica emocional manteve-se. O Brasil perdeu, mais do que ganhou. Perdeu a jogar bem, perdeu a jogar mal. Chegou ao zénite do seu génio colectivo em Espanha, em 1982, baixou às profundezas oito anos depois com um modelo de jogo atrasado no tempo e desfasado no espaço do ADN brasileiro. Recuperou títulos e prestigio mas, como sucedia com a Inglaterra dos anos 30 e 40, já estava longe da sua insultante hegemonia. Foi-se tornando menos Brasil e o resto do Mundo fingiu que não o sabia e continuou a olhar e a assobiar para o lado por respeito a uma velha glória que sabe que os focos já apontam noutra direcção. Mas todas as velhas glórias mais tarde ou mais cedo se confrontam com a realidade. Em casa, diante dos seus, o golpe é sempre muito mais duro. Os ingleses só entenderam que o mundo tinha realmente mudado quando os húngaros destroçaram o seu lote de estrelas intocáveis em pleno Wembley. A humilhação em 1950 contra espanhóis e americanos passou ao lado da critica dos adeptos porque foi distante. O mesmo foi sucedendo com os dramas vividos pelas sucessivas encarnações de um decrépito Brasil. Até ontem.

No Mineirão os brasileiros procuraram sacar das mesmas armas dos ingleses. Houve o hino, o equipamento icónico e o fervor do público que ainda acreditava que existia uma vontade divina que tratava os futebolistas brasileiros como uma raça à parte. Do outro lado um rival que já vinha, como os húngaros, dando sinais nos anos anteriores que o seu caminho era outro. Mas um rival que, ainda assim, sabia que defrontava o Brasil no Brasil. O respeito impunha-se. Tudo isso acabou com o primeiro toque da bola na relva. O Brasil foi atropelado com uma facilidade insultante. Reflexo perfeito daquela tarde em Wembley. Thomas Muller e Toni Kroos reencarnaram em Ferenc Puskas e Nandor Hidgekuti. O Brasil limitou-se a pedir a ajuda dos ausentes, fantasmas antigos e novos criados na psique nacional como canalizador de desculpas. Os golos foram sucedendo-se a um ritmo de jogo de amigos. O estado de estupefacção era mais evidente do desnorte do que o avolumar do marcador. Os brasileiros não acreditavam que mesmo sem futebol, sem jogadores e sem colectivos o facto de ser o Brasil não os deixava isentos de uma noite assim. Os homens que se julgam Deuses olham sempre com descrença para o fatalismo que os espera. A Alemanha foi ela mesma, sem mudar uma vírgula, e bastou-lhe para ganhar. Não quis fazer sangue. O resultado pode enunciar o contrario mas os golos surgiram de forma tão natural que o difícil era não marcá-los. Tivesse a Alemanha jogado ao mesmo ritmo os noventa minutos e o marcador teria colocado o Brasil ao nível futebolístico do Guam. Era ontem o nível onde estava.

 

O fim do império britânico foi confirmado em Londres naquela tarde. Os ingleses ainda assim demoraram a dar-se conta. Meses depois foram a Budapeste perder por sete golos. Nos três Mundiais seguintes perpetuaram a sua fama de decadentes figuras de cera com resultados decepcionantes atrás de resultados decepcionantes. O titulo conquistado em 1966, a hegemonia dos clubes insulares na segunda metade dos anos setenta e o sucesso da Premier League serviram de consolo emocional. O resto do Mundo continua a olhar para a Inglaterra com uma reverência emocional que já não se confunde com respeito desportivo. O processo futuro  do Brasil tem tudo para seguir o mesmo caminho. Os problemas do futebol brasileiro são tão antigos como o tempo. Quando acabou a mágica geração dos anos cinquenta e sessenta, apareceram de novo os treinadores brutalizadores do esférico , os desastrados “cartolas” da CBF e no coração dos clubes. A Globo fez do futebol o aperitivo das novelas. A decadência em campo começou no próprio jardim de casa. Há mais de vinte anos, desde o São Paulo de Telé Santana, que não há uma equipa brasileira de clubes digna desse nome a nível de projecção global. Os jogadores foram sendo vendidos cada vez mais cedo, cada vez mais fora de tempo e o espírito da “ginga” e do “malandro” foi substituída pelo engrossar de legiões de operários made in Europa. A tudo isso a resposta da CBF foi a eleição de treinadores desinspirados ,de Carlos Alberto Parreira a Scolari sem esquecer os Zagallo, Menezes ou Dungas. Sem lideres fora e dentro de campo o futebol brasileiro tornou-se cada vez mais o fiel reflexo dos decadentes ingleses. O jogo de Belo Horizonte abriu definitivamente os olhos aos brasileiros e aos descrentes do Mundo.

O jogo bonito há décadas que não existe, ontem o que caiu ao chão foi a constante sensação de que, do nada, o Brasil pode voltar a ser o velho Brasil pelo simples desejo de sê-lo. Esses dias acabaram para sempre. O novo império está por entregar e será seguramente partilhado pelos herdeiros ideológicos do tiki-taka espanhol , alemão ou quem os queira seguir. O que é certo é que esta história chegou ao fim. E daqui a muitos anos os nossos filhos vão pedir-nos, â hora de ir para a cama, que lhes contemos essa fábula mágica do dia em que a Alemanha acabou com essa Camelot que um dia se chamou Brasil.


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Miguel Lourenço Pereira às 18:18 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 07.07.14

Houve grandes jogadores antes de Alfredo di Stefano. E houve grandes jogadores depois. Mas o argentino que se converteu em espanhol marcou o equador da história do jogo. Tudo mudou com ele, tudo mudou graças a ele. O futebol de hoje deve muito a um jogador que não cabia na mitica linha de ataque conhecida como La Maquina mas que marcou o padrão futuro de todos os grandes jogadores desde a sua chegada a Madrid. Alfredo di Stefano pode não ter tido o marketing e o poder mediático de vários astros. Mas pode perfeitamente ter sido o jogador mais importante da história do futebol.

 

Os recordes de Di Stefano são ridiculamente insultantes. Nunca ninguém marcou (e ganhou) em cinco finais consecutivas da Taça dos Campeões Europeus. É o homem que deu importância a uma competição que era um enigma quando foi criada. As Noites Europeias cresceram à sua sombra. O mesmo se pode dizer do Real Madrid. Clube importante mas ao mesmo nível do seu vizinho Atlético e dos rivais de Bilbau e Barcelona, o Madrid tornou-se Real com a presença do génio argentino. Depois de uma vitória pouco limpa num duelo na secretaria com o Barcelona, os “merengues” desfrutaram de quase uma década de momentos fantásticos de La Saeta.

Com ele ganharam tudo o que havia para ganhar vezes sem conta. E isso que DI Stefano chegou em Madrid, em teoria, no ocaso de uma carreira que teimava em arrancar. Apesar de admirar o astro paraguaio do Independiente, Arsénio De Erico, o jovem Alfredo queria realmente triunfar na linha de ataque de outro gigante de Buenos Aires, o River Plate. Mas apesar de ser já um grande jogador, o seu talento inato era insuficiente para romper a mítica linha conhecida como La Maquina. Durante anos o génio de Lostau, Pedernera e Labruna barraram-lhe a titularidade. Desesperado, experimentou jogar noutras paragens, do modesto Huracan ao Millionarios de Bogota, tomando parte na liga rebelde colombiana que agitou o futebol mundial nos anos cinquenta. Foi aí que o Real Madrid o conheceu, num amigável em Chamartin em que o jogador encandilou a Santiago Bernabeu.

O Barcelona já tinha feito a primeira jogada e enviado um emissário a negociar com o River Plate – clube ao qual oficialmente ainda pertencia – mas com a intervenç4ao habilidosa do General Moscardo, ministro dos desportos do governo franquista, Di Stefano acabou em Madrid. Durante oito anos foi o Madrid. Ao clube a quem tanto deu voltou como treinador. Pelo caminho tinha ficado uma saida pouco gratificante, um ultimo capitulo em Barcelona mas com a camisola do Espanyol e um trabalho como treinador notável no Valência. Foi ele que abriu caminho para a segunda reencarnação do Real Madrid, a “Quinta del Buitre”.

 

Di Stefano foi talvez o jogador mais importante de sempre.

Mas não o foi só por aquilo que ganhou. Cinco Taças dos Campeões Europeus, marcando em todas as finais (perderia a de 1963 contra o Benfica de um Eusébio que só queria a sua camisola), varias títulos nacionais, a primeira Taça Intercontinental. Tudo podia ser suficiente para o elevar aos altares do futebol. Nem sequer o facto de nunca ter disputado um Mundial (a Argentina não entrou em prova entre 1950 e 1958, altura em que já tinha a nacionalidade espanhola, com quem falhou esse torneio, eliminados na qualificação, e o seguinte, por lesão) merma a sua reputação. Di Stefano fez história por ser o paradigma por excelência do jogador moderno.

Em Buenos Aires foi superado pelos últimos grandes interpretes românticos do futebol rioplatense. Na mesma altura brilhavam na Europa génios como Mazzola, Mathews, Walter, Peyroteo, Kubala ou Puskas. Mas todos eles eram fieis reflexos do jogador da época. Poucos cuidavam o físico, tinham capacidade física para aguentar um jogo de noventa minutos em perpétuo movimento. A maioria jogava sempre na mesma zona de influencia e esquecia-se de que o jogo seguia quando a bola passava a linha do seu meio-campo. Eram mitos, todos eles por direito próprio, e actuavam como tinham aprendido e como era prática. Mas Alfredo foi mais longe. Desafiou as convenções e estabeleceu as bases do jogador do futuro.

Não tinha posição fixa em campo. Partia, no velho WM, da posição de nove, para ocupar todo o campo. Era habitual vê-lo a começar jogadas no seu meio-campo e acaba-las mais tarde. Jogava como avançado, extremo, lateral e médio organizador. Tinha um pulmão que nunca se cansava, fruto do seu exigente treino e elevado profissionalismo. Era um goleador feroz, um assistente privilegiado e um conhecedor profundo da dinâmica táctica de um jogo em evolução. Era um líder em campo e um autêntico ditador no balneário. Foi o primeiro jogador a ter poder suficiente para eleger e descartar colegas. Foi o responsável pela promoção de Gento e pelo afastamento de Didi. Com Puskas estabeleceu uma longa amizade e parceria apenas depois do húngaro – mais velho e fora de forma – ter entendido que teria de trabalhar para ele em campo. Num torneio da liga espanhola, com os dois jogadores empatados a golos na última jornada e a lutar pelo Pichichi, Puskas assistiu duas vezes o argentino que levou o premio e a glória, ainda estando em melhor posição para marcar. Foi o primeiro futebolista a entender que valia o seu peso em ouro e que era por ele que os adeptos acudiam em massa ao Chamartin. Graças ao seu peso mediático o Real Madrid transformou-se de um clube sem expressão europeia num mito do futebol mundial. Sem ele, provavelmente, os merengues seriam uma figura secundária ainda hoje.

 

Di Stefano pode não ter tido a brilhantes técnica de Pelé, a sagacidade intelectual de Cruyff ou o carácter indómito de Maradona, mas foi o precursor de todos eles como estrela global. Foi o primeiro mito vivo do jogo a ser conhecido universalmente, o primeiro herói de multidões consagrado pela televisão. O aparecimento da “Caixa mágica” coincidiu com o seu ocaso mas também com as suas vitórias com os Blancos. Tivesse sido filmado mais vezes e talvez hoje ninguém discutisse o facto de ser o melhor de todos os tempos. Mas as câmaras preferiram prolongar a magia de um jovem brasileiro chamado Pelé e Di Stefano passou para a história como o último herói de uma era em vez de ser, merecidamente, reconhecido como o primeiro de um novo mundo. Equador da história, foi o fiel reflexo de dois mundos em múltiplos sentidos. Nunca nenhum futebolista foi, alguma vez, mais completo ou fundamental em definir o futuro do jogo como ele. Os heróis de hoje, ainda que brilhantes, empalidecem em comparação com a sua lenda. Os que o antecederam, empequenecem debaixo da sombra de um jogador total. Essa é a grande verdade da vida de um homem que foi mais do que um futebolista. Alfredo di Stefano foi, na realidade, o Futebol.


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Miguel Lourenço Pereira às 18:20 | link do post | comentar | ver comentários (11)

Domingo, 29.06.14

Convocar jogadores com elevado risco de lesão? Estagiar longe dos paradigmas climáticos com que se iam encontrar os futebolistas? Chegar o mais tarde possível a um centro de estágio que não só era distante dos locais de jogos mas cujo clima era paradigmaticamente diferente? Ignorar o estado físico de jogadores em favor dos serviços prestados? Um desses erros, muitas vezes, é suficiente para causar a eliminação de uma equipa numa grande competição. Portugal, a Federação e o seleccionador, quiseram ir mais longe. Cometeram-nos todos.

 

Em 2010 o arrogante capitão português justificou a derrota contra a Espanha com um lacónico "perguntem ao Carlos Queiroz" aos jornalistas.

Parecia que tudo o que tinha corrido mal na África do Sul - quatro jogos, dois empates, uma derrota e uma goleada a uma das mais fracas selecções do torneio - se devia apenas á má gestão do treinador que perdeu Nani a poucas semanas do arranque da prova e que preferiu a meritocracia sobre o talento colectivo ao não convocar João Moutinho depois de uma temporada para esquecer. Portugal não jogou bem, caiu contra os futuros campeões com um golo no limite do fora-de-jogo, desenhado brilhantemente por Xavi e executado por Villa, num jogo em que os espanhóis tiveram muitos problemas em fazer valer a sua superioridade até á entrada de Llorente. Portugal saiu nos oitavos-de-final do torneio mas a culpa era, exclusivamente do seleccionador. No entanto, a seleção tinha realizado uma preparação física adequada. Havia pouca discussão entre os jogadores convocados, o centro de estágio foi escolhido de forma estratégica e apesar das evidentes limitações tácticas de Queiroz, pouco mais se podia esperar de uma geração que vinha de seis anos de "scolarismo" decadente.

De repente, em 2014, o ano da mais miserável participação portuguesa numa prova internacional, a culpa já não é do "Paulo", as criticas ao centro de estágio, ao estado físico de jogadores e ás omissões dos convocados já não fazem qualquer sentido. Como Cristiano Ronaldo, o mesmo que culpou o homem que tanto o ajudou em Old Trafford, preferiu assumir o complexo de pequenez - que não tem qualquer sentido no quadro competitivo da prova - de capitão das Quinas, instalou-se o silêncio incómodo. Poucos perguntam, poucos criticam, poucos querem saber mais não vão ofender um seleccionador que sabe que tem o lugar garantido apesar de ter tido a pior prestação da história do futebol português numa prova internacional. A cultura do amiguismo na imprensa e a impunidade do circuito Mendes e dos abutres que gerem a Federação sai impune do Brasil.

 

Portugal voltou para casa mais cedo porque tinha de voltar. Era impossível uma selecção que se recusou a assumir o mínimo profissionalismo para embarcar nesta viagem seguir em frente. Como sempre sucede, a incompetência crónica de um jogador acentuou a derrota. Se Ronaldo tivesse sido mais Ronaldo, Portugal podia ter seguido em frente e tudo isto seria escondido debaixo do tapete. Mas os golos falhados, incrivelmente, contra o Gana, foram suficientes para demonstrar que o "melhor do mundo" só o é quando está motivado pelo seu duelo pessoal com Messi lá para alturas da entrega do Ballon D´Or. Ronaldo foi um problema, nunca a solução, mas não foi, de longe, o único nem o mais grave.

A FPF funciona sempre mal em torneios longe da Europa. Foi assim no México 86 e na Coreia do Sul em 2002. É nessas viagens que se põe á prova o grau de incompetência do dirigismo português. O grande jornalista brasileiro Juca Kfouri habitualmente diz que Deus colocou no Brasil os melhores jogadores e os piores dirigentes. Juca conhece pouco Portugal. A FPF cometeu erros que uma federação distrital da Sibéria dificilmente cometeria. Renovou antes do torneio um seleccionador limitado, obstinado e sem nível para estar ao leme do navio. Preferiu uma tour para fazer ingressos nos Estados Unidos - os espanhóis e os ingleses, em 1950, fizeram o mesmo e pagaram o preço - em vez de uma adaptação longa e adequada ao difícil clima brasileiro. Elegeram um centro de estágio longe de todos os estádios onde Portugal jogaria - mesmo qualificando-se para oitavos - e com um clima diametralmente oposto ao que ia encontrar em Brasilia e Manaus. Permitiu um discurso paralelo constantemente entre o ambicioso capitão e o resto do plantel. Não o calou quando este sugeriu que este era o "ano de Portugal" nem o censurou quando o mesmo, quinze dias depois, tentou enganar os adeptos portugueses com um "há equipas muito melhores que nós".

Mas talvez o elemento mais grave de todos tenha sido permitir que a convocatória final fosse a que fosse. Na esclarecedora - para bom entendedor - conferência de Henrique Jones, ficou claro que muitos dos jogadores portugueses não estavam em condições físicas para disputar o torneio e que a propensão para contrair lesões era a mais alta de sempre numa convocatória oficial. Jones, médico da FPF, colocou o dedo na ferida deixando evidente que a FPF era conhecedora dos problemas que viriam caso Bento seguisse em diante com a ideia de enviar o seu pelotão de legionários coxos, cansados e prontos a desertar para a batalha mais importante da sua vida. Bento, sargento pequeno e sem sentido estratégico, caiu na ilusão que um pelotão que dois anos antes - com outra condição física, noutro cenário climatérico, dois anos mais novos - lhe tinha respondido bem em batalha o faria de novo. Porque sim. Sem mais.

Portugal foi a chacota da Europa á medida que as lesões se sucediam. Outros países, com ambições maiores, preferiram não arriscar. Ribery não viajou. Falcao também não. Ronaldo sim. E com ele vieram também Hélder Postiga, Nani, Fábio Coentrão Hugo Almeida, Raul Meireles, André Almeida, Bruno Alves, jogadores fisicamente em estado deplorável. Todos eles titulares, em algum momento. Uns acumulavam lesões da temporada exigente. Outros, pelo motivo oposto, tinham jogado tão pouco que ao minimo sinal de esforço romperam. Ronaldo, em pior estado que todos, insistiu em enganar tudo e todos, desviando a atenção para o penteado. O seu caso é o mais compreensível mas foi também o pior gerido. A FPF permitiu esse esquadrão de lesionados viajar sem forçar a mão do seleccionador. Depois, confirmou-o no posto, dando sinais de apoiar a sua politica de auto-destruição.

 

Bento é o principal responsável por esta lamentável campanha.

Mas ao contrário de António Oliveira em 2002 ou de Carlos Queiroz em 2010 não tem a imprensa a pedir-lhe a cabeça. É tratado com respeito e reverencia apesar de não ter acertado uma só jogada. Só a pressão mediática do grupo Mendes e o medo que grassa nos media portugueses o pode explicar. Poucos estão preparados a exigir uma solução exemplar como a de Prandeli, um treinador com muito maior exigência aos ombros que Bento, e com um resultado igual de decepcionante. Com ele foi também o presidente da federação italiana. Num pais onde a corrupção e o imobilismo é ainda maior que Portugal fica a lição para o futuro.

O seleccionador insistiu numa convocatória envelhecida, sem opções para todas as posições e mantendo o veto a alguns jogadores que lhe podiam ter sido úteis por questões de ego pessoal. Sabedor do estado físico de muitos não se entende a ausência de laterais dos convocados (Antunes, Duda, Eliseu, Cedric), a presença de um central como Ricardo Costa quando se pede sangue novo como Miguel Rodrigues, José Fonte ou Paulo Oliveira, e a sobrecarga de anos no meio-campo onde nem sequer William teve a oportunidade de entrar até ao último hurrah. Que um jogador do estado fisico de Miguel Veloso tenha sido titular em todos os jogos diz tudo o que é preciso saber de Bento. Em casa ficaram Adrien, André Gomes, André Martins, Daniel Carriço, João Mário e até um Tiago que pertence a essa lista de excluídos onde estão também Danny e Quaresma. O seleccionado português - que nem se demiti nem será demitido entre outras coisas porque tem o apuramento para o próximo torneio no bolso antes de começar a jogar já que um Europeu com 23 classificados numa confederação de 52 federações parece mais do que claro - nem sequer equacionou uma mudança táctica. As evidentes limitações de Ronaldo e a fundamental ausência de Coentrão tornaram o lado esquerdo da defesa portuguesa o corredor preferencial de alemães, americanos e ganeses. Uma situação que Ancelooti, em Madrid, resolveu pragmaticamente trocando o 4-3-3 por um 4-4-2 com Ronaldo com verso solto no ataque e um reforço posicional. William em campo (com Meireles escorado para a esquerda) teria resolvido a equação e dado liberdade a Moutinho, como se viu no jogo com o Gana, para pegar no jogo. Uma opção tão elementar que surpreende que não tenha sido sequer equacionada. É o nível de qualificações de uma equipa técnica que beneficiou de dois golos in extremis de Varela - em 2012 e contra os Estados Unidos - para não estar matematicamente eliminado de duas provas á segunda jornada de forma consecutiva.

O futuro da selecção portuguesa depende da vontade de mudar. É evidente que é nula. Não há demissões, nem nos cargos federativos nem no banco. A FPF continua a fazer-se de desentendida aos seus erros de amadorismo puro, encarnados na figura inconsequente de Humberto Coelho, o treinador que nenhum jogador respeitava em 2000. Bento fica e com ele ficam os seus. A entrada de caras novas será lenta, penosa e provavelmente condicionada aos agentes a que pertençam os jogadores como tem sido. Com ele ao leme será difícil ver a necessário mudança de guarda como Holanda, França ou Inglaterra fizeram neste torneio. Há um excelente grupo de jogadores que precisa de minutos como profissionais e internacionalizações para crescer. Um lote de dezenas de futebolistas á espera do seu lugar ao sol. Provavelmente terão de esperar mais dois anos até que alguém se dê conta, finalmente, que o mandato de Paulo Bento foi o mais nefasto da história do futebol internacional português.



Miguel Lourenço Pereira às 12:03 | link do post | comentar | ver comentários (19)

Segunda-feira, 23.06.14

Portugal está a noventa minutos de realizar a sua pior campanha internacional da história. É a primeira que disputa com um Ballon D´Or vigente no onze titular. Essa é a realidade do futebol português. Um génio individual, um pobre colectivo. A equação só poderia funcionar se, a unir os dois extremos, houvesse um treinador competente e uma federação profissional. Sem uma ponte sólida o naufrágio para quem quer atravessar um rio tão largo como o Amazonas é inevitável.

 

Ronaldo é uma bênção para o futebol mundial e um karma para o futebol português.

Quando a proclamada Geração de Ouro – que só o trabalho de Mourinho no FC Porto conseguiu prolongar com a incorporação a uma equipa caduca a jogadores por ele forjados – chegou ao fim, o destino de Portugal parecía traçado. Como nos anos sessenta ou oitenta esperava-se outro oásis. Foi o que passou com belgas, húngaros, austríacos, jugoslavos (na versão sérvia) ou dinamarqueses, países dessa segunda divisão europeia onde, historicamente, podíamos encaixar Portugal. Mas o deserto não apareceu. Fruto de um bom ranking acumulado, do bom envelhecimento de jogadores presentes no Euro 2004, a saga prolongou-se até 2010 com resultados aceitáveis. Portugal não deslumbrava, não ia longe mas, também, não era uma chacota internacional. Conseguiu-se o apuramento (in extremis) para o Euro 2008 e o Mundial 2010 e uma vez lá uma eliminação honrosa contra futuros finalistas de ambos torneios. Nada a dizer para um país pequeno com uma liga a perder qualidade e onde o grosso da cavalaria envelhecia sem opções de futuro à vista. Parte dessa transição deveu-se a Cristiano Ronaldo.

Ícone mediático, melhor jogador do Mundo entre 2007 e 2009 e um digno segundo no anos seguintes, CR7 manteve Portugal no mapa internacional. As suas exibições, golos e influencia foram balizas emocionais importantes enquanto os Rui Costa, Figo, Simão Sabrosa ou Nuno Gomes iam dizendo adeus. À sua volta deixaram de estar as primeiras espadas e começaram a aparecer as suas sombras, os suplentes. Não havia Ricardo Carvalho, passou a haver Bruno Alves. No lugar de Simão, surgiu Nani. No de Deco, Maniche e Costinha apareceram Veloso, Moutinho e Meireles. A qualidade, naturalmente, ia piorando mas Ronaldo ia disfarçando e as segundas filas, numa primeira versão, davam conta do recado tendo em vista as suas naturais limitações. Nem Scolari nem Queiroz eram treinadores de topo mas encontraram um certo equilíbrio emocional entre o passado e o presente. Depois veio Paulo Bento e os velhos fantasmas de desnorte da Federação Portuguesa de Futebol e o fim tornou-se trágico e inevitável. Tal como em Saltillo 86 e a Coreia do Sul em 2002 ficou claro que, fora da Europa, Portugal está condenado a sofrer os favores, tráficos de influencias, a corrupção, amadorismo puro e genuína incompetência dos seus dirigentes desportivos. A necessidade de adaptar-se a outros climas, realidades, a distancia de casa, os compromissos publicitários para encher bolsos alheios primam sobre o trabalho desportivo.

Não é coincidência que nos três casos a prestação portuguesa tenha sido acompanhada dos mesmos males, desde uma má preparação prévia, um penoso estado físico, uma eleição de jogadores desacertada e um treinador que é tudo menos o homem indicado para o lugar. Tropeçar numa pedra passa a todos, em duas aos distraídos, na terceira…já conhecem o refrão…

 

Ronaldo, que é sem duvida um dos mais brilhantes jogadores da história, foi um bálsamo emocional mas também a fonte de novos e perigosos problemas. O seu egoísmo, habitual em estrelas do seu calibre, aliada à gestão de fraca gente e a penosa influencia do seu omnipresente agente, condicionaram os últimos cinco anos da selecção. Portugal joga apenas e só em função de Ronaldo.

Deixou de ser uma equipa – como era nos días de Scolari - para ser um veiculo promocional. Deixou de ter uma ideia de jogo, para actuar sempre na mesma linha. Deixou de ser um espaço onde vêm os melhores e os mais aptos para ser um grupo de amigos que se juntam para uma churrascada em casa do dono da bola. Ronaldo, um génio quase sem precedentes no futebol português, nunca conseguiu ter a humildade de Eusébio, Futre ou Figo e de procurar o melhor para si tendo o melhor dos outros. Ajudou, com a sua influencia (sua, a dos seus melhor dito) perpetuar um estado de coisas em que a função de dirigir se tornou um trabalho fácil e sem exigência porque a margem de escolha era nula. Portugal, o mesmo país que já teve a Ballon D´Or (e outros que o podiam ter sido) no passado, passou a ser o Ronaldo Futebol Clube. Nesse mundo não existiam problemas porque o “melhor do mundo”, como cansativamente os jogadores, técnicos e dirigentes repetem não vá alguém esquecer-se, resolve. E muitas vezes resolveu. Contra a Holanda, em 2012. Contra a Suécia, em 2013, Ronaldo foi de facto o jogador que todos esperam que seja. Mas essas exibições, nos momentos chave, estão condicionadas exclusivamente ao seu estado de forma, física e anímica. E Ronaldo chegou ao Brasil destruído, por culpa própria.

Em ano de Mundial os jogadores de topo sabem o que devem fazer. É uma regra não escrita que Messi, Neymar ou Robben, figuras individuais de destaque até agora, interpretaram bem. Os seus países agradecem. Ronaldo preferiu ir por outro caminho. Conhecedor do estado do seu joelho, preferiu gastar todas as balas cedo. Desgastou-se em jogos intranscendentes na liga espanhola contra os avisos dos médicos do próprio clube. Falhou jogos importantes – Copa del Rey, jogo em Dortmund da segunda-mão dos quartos-de-final – e foi figura de corpo presente na final da Champions League e no final de época. Mas nunca parou para descansar. Forçou e fê-lo com a consciência de quem sabe o que vem depois. Para quê? Uma terceira Bota de Ouro (partilhada com um jogador que jogou menos minutos, jogos e numa equipa inferior à sua) e pouco mais. Quando chegou ao Brasil, Ronaldo vinha destroçado e Portugal não tinha plano B. Teria sido melhor para ele fazer como Falcao e dar um passo ao lado. Teria forçado Paulo Bento a ser treinador, por uma vez na vida, e organizar um sistema colectivo capaz de sacar o melhor de cada jogador para o bem comum. Enquanto mentia ao Mundo (e talvez a ele próprio) sobre a sua condição física, o ego daquele que foi, talvez, o pior capitão que Portugal já teve, fez uma cruz ao destino do seu próprio país. Ele tinha de jogar – num estado físico lamentável por si provocado – e sabendo que a sua presença só ia piorar as coisas, não usou a sua influencia para exigir uma convocatória de jogadores fisicamente preparados para suprir a sua falha. Não, vieram os amigos do costume e com eles jogadores em estado tão mau ou pior que o seu.

Bento, a FPF e Ronaldo alienaram da selecção a vários jogadores (Tiago, Carvalho, Danny, Duda, Antunes) e taparam a porta a novos ao contrário do que fizeram franceses, holandeses e ingleses. Ao Brasil - depois de épocas péssimas na sua esmagadora maioria - vieram futebolistas caducados, como os yogurtes, impróprios para consumo e indigestos. Jogadores que, noutro país, tinham há muito dado o lugar à geração seguinte mas que em Portugal se perpetuam para lá do imaginável. Basta ter um amigo ou o agente certo. Bento preferiu ter a Eder, Postiga, Almeida, Veloso, Meireles, Bruno Alves, Nani e Patricio a contar com os Cavaleiro, Gomes, João Mario, Bruno Fernandes, Adrien e Antunes. Pagou o preço quando os jogadores se foram tornando cadáveres em campo ao menor sopro de vento. Ronaldo tentou ser El Cid mas acabou por transformar-se em zombie durante 180 minutos. Todos os génios individuais que viajaram ao Brasil disseram presente. Todos menos o que vinha com o titulo mais pomposo.

 

Portugal está destinado, naturalmente, a sofrer mais derrotas, não qualificações e eliminações precoces. O sol continuará a nascer. Esse não é o problema num torneio onde até a campeã do Mundo caiu. A questão grave no meio deste drama digno de telenovela é a repetição histórica dos mesmos erros. Era um grupo complicado e cair cedo uma possibilidade. É a forma como Portugal cai, a falta de espírito critico de adeptos, jornalistas e dirigentes e a forma, previsível, como tudo continuará na mesma que preocupa. Daqui a dois anos Paulo Bento ou outro do seu perfil hermético continuará a obedecer a Ronaldo e ao seu agente, a esquecer-se que a selecção é de todos e não de dois e a eleger os nomes errados para o desenho táctico errado nas circunstancias erradas. Portugal dificilmente será campeão mundial alguma vez. No “Sonhos Dourados” explico o porquê. O que podia poupar era a constante humilhação de comportar-se como um clube de bairro quando o dono de bola se chateia com o mundo e decide pegar nela e voltar para casa deixando dez milhões de pessoas a perguntar-se…”e agora quê?”      

 

PS: Depois de escrever este artigo li as declarações dadas pelo capitão da selecção de futebol. Apenas confirmam o que disse antes. Para Ronaldo, a selecção portuguesa é um brinquedo nas suas mãos. Os adeptos portugueses têm de agradecer que não tivesse ido de férias depois de ganhar a Champions (como se calhar devia ter feito), tem de suportar as suas mentiras sobre a sua penosa condição fisica para só no último suspiro se render á realidade e. ainda para mais, têm de ouvir o seu capitão dizer que há equipas melhores (os EUA são mais organizados, não melhores) e que nunca se imaginou a vencer o Mundial. Nós, também não. O que se pedia era uma exibição á altura do escudo. O que Ronaldo entendeu foi um torneio á altura do ego.



Miguel Lourenço Pereira às 18:21 | link do post | comentar | ver comentários (21)

Quarta-feira, 18.06.14

Espanha já pertencia á galeria dos mitos da história do futebol ao lado de Uruguai, Itália, Brasil e Alemanha por mérito próprio. O que lograram jamais será esquecido. Mas depois da progressiva decadência do Barcelona idealizado por Guardiola - cujo ADN se transportou para a selecção - e a dificuldade de Del Bosque em renovar o grupo sem comprometer velhas amizades deixou claro que o fim estava mais perto do que o talento individual da armada espanhola fazia prever. Ninguém seria capaz de adivinhar uma imagem tão lamentável mas o fim do império estava escrito nas estrelas. 

No próximo Europeu será difícil encontrar uma equipa que possa ser tão favorita como esta Espanha.

Vão estar, seguramente, muitos dos convocados para o Brasil a que se juntarão os Thiago, Deulofeu, Jesé, Isco, Iñigo Martinez ou Iturraspe. Jogadores de máximo nível. Jogadores que podem engolir outra vez o Mundo. Mas será já outra história. Dos sobreviventes dos seis anos de domínio absoluto do futebol Mundial sobreviverão poucos mitos. Iniesta, Ramos, Piqué e Fabregas, seguramente. Alguns actores secundários como Silva, Mata, Alba, Busquets, Martinez e pouco mais. Os nomes mais sonantes - Casillas, Xavi, Torres, Villa, Puyol, Alonso - terão dito adeus. É o fim de uma era. De uma era histórica e que dificilmente se poderá repetir nas próximas gerações. A última selecção a lograr uma sensação de hegemonia tão grande foi a Alemanha dos anos 70 e essa não conseguiu ganhar mais do que dois torneios seguidos. Antes, o Brasil de Pelé e Garrincha, a Itália de Pozzo e o Uruguai de Andrade, foram capazes de ter o Mundo a seus pés por um período de tempo similar. Nem a França de Zidane, a Argentina de Maradona ou a Holanda de Cruyff podem presumir do que esta mítica geração espanhola conseguiu. E no entanto, a festa acabou mal.

Não é a eliminação que custa reconhecer. Outros campeões caíram. Mas nunca tão cedo e nunca tão mal. A Espanha que viajou ao Brasil logrou um golo de penalty em 180 minutos e sofreu sete. Deu uma imagem de impotência desoladora, fisica e mentalmente. Ao primeiro sinal de alarme abandonou o tiki-taka, perdeu noção das referências. Os resultados espelharam apenas o que o campo não conseguia esconder. Esta foi, ironicamente, a pior prestação da Espanha num torneio internacional. Impensável.

 

A grande responsabilidade desta hecatombe pertence, naturalmente, a Del Bosque.

O seleccionador herdou uma equipa habilmente montada por Aragonés com um modelo de jogo - 4-5-1, repleto de centro-campistas "bajitos" que privilegiavam o jogo de toque - que Guardiola no Barcelona levou a outra dimensão. Durante quatro anos o destino de clube e selecção seguiram lado a lado. Onde Pep tinha a Messi, o génio que tudo desiquilibrava, Del Bosque contava com a organização defensiva como principal arma. Em 2010 os espanhóis venceram o primeiro Mundial com uma especie de catenaccio com bola. Ganharam todos os jogos a eliminar por um a zero com uma arma tão simples como eficaz, a de defender com a bola nos pés. As longas e eternas possessões desarmavam qualquer ataque do rival, afastavam-se da baliza e desgastavam fisica e mentalmente o oponente até que, como um sniper, chegava o tiro de morte. Não foi espectacular mas foi eficaz. A magia de 2008 tinha-se perdido em grande parte em 2012. Repetiu-se o titulo - com uma final de antologia - mas era evidente que o modelo passava na selecção pelos mesmos problemas existenciais do Barcelona. E Messi continuava ausente da equação. Com a saída de Guardiola a decadência do Barça acentuou-se ainda que com Tito e o hara-kiri de Mourinho em Madrid os blaugrana tivessem ganho mais um titulo. A idade não perdoava a génios como Puyol e Xavi e a cabeça de Piqué estava noutra coisa. Iniesta, só, pouco podia fazer. A diáspora dos Silva, Cazorla, Torres, Llorente, Navas, Martinez exprimia os jogadores mas não trazia nada de novo. E apesar dos êxitos da Rojita, Del Bosque não encontrava espaço para a novidade.

O seleccionador cometeu três erros primários. Convocou os nomes e não os jogadores, favorecendo a futebolistas em clara decadência fisica e competitiva ou colocando-os como titulares quando havia melhor opções. Optou por manter o mesmo estilo de jogo sem verticalidade mas com uma equipa fisicamente menos preparada e com mais anos nas pernas. Sem o oportunismo de Villa e Torres - heróis em 2008 e 2010 - e a mobilidade de Fabregas (zero minutos, fundamental em 2012) não havia perspectiva de organização defensiva. O modelo tornava-se estéril. A chamada de Diego Costa foi, talvez, o maior erro. Jogador moldado por Simeone desde a mediocridade está condenado a voltar a ela por muito que Mourinho se empenhe. Poucos jogadores encaixam pouco num modelo como Costa com Espanha. Ficou evidente durante  todos os minutos que disputou. Mas foi preferido a Llorente - capaz de desbloquear jogos difíceis - e Negredo, um avançado em melhor forma e que encaixa no perfil do colectivo. Sem golo, sem organização, sem pulmão e sem confiança em jogadores chave como Casillas, Pique ou Xavi, parecia evidente que algo trágico se cozia nos fornos da história. A hecatombe foi ainda mais dura.

 

Espanha é a primeira selecção eliminada e justamente. A forma como a Holanda e o Chile souberam deixar a nu as suas debilidades foi indigna de uma campeã mundial em titulo. Os espanhóis foram superados em todos os momentos, em todos os sentidos. O renascimento é inevitável e necessário e ninguém voltará a descartar a Espanha como sucedeu durante anos. A saga mágica, essa, acabou. Era uma crónica anunciada. Os espanhóis já têm o seu Maracanazo. A história já os tem guardados na memória.



Miguel Lourenço Pereira às 22:38 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 16.06.14

Portugal não perdia por mais de três golos há muito, muito tempo. 1983 foi, realmente, noutra vida. Na história, a equipa das Quinas nunca tinha caído por 4-0 em Europeus e Mundiais. Pode juntar o novo recorde á lista na primeira investida em Vera Cruz. Paulo Bento armou uma equipa incapaz de jogar futebol, mentalizada para uma derrota que nasceu de um cúmulo de erros em todas as linhas. A Alemanha nem teve de ser ela mesma para colocar Portugal numa posição humilhante. Se tantas vezes a selecção deu motivos de orgulho a um país cinzento, na Bahia a equipa das quinas envergonhou todos os que gritaram por ela.

Paulo Bento é um seleccionador com tantas limitações que é extremamente difícil partir para cada jogo de Portugal sem temer o pior.

Apesar do brilharete no Euro 2012 - duas derrotas, três vitórias, duas in extremis e uma muito bem lograda - a sua versão de Portugal é talvez a mais triste que alguma vez subiu a um tapete verde. Muitas vezes pré-histórica na forma como entende o jogo, a fase de qualificação num grupo totalmente acessível lançou os velhos sinais de alarme. Se não fosse por um Cristiano Ronaldo em momento estelar - quando ainda sonhava com o Ballon D´Or que acabou por ganhar - contra a Suécia e esta crónica seria apenas fruto da nossa imaginação. Portugal, que durante uma década fez parte da primeira divisão europeia, com Bento transformou-se em chacota internacional. Só faltava um jogo que o confirmasse de forma oficial. Não foi preciso esperar muito. O primeiro desembarque no Brasil chegou em forma de naufrágio.

Bento é limitado como treinador mas é ainda pior como seleccionador. A sua convocatória trazia um cheiro a mofo evidente. Ao contrário de Roy Hogdson, preferiu ignorar a juventude portuguesa para dar minutos e minutos a jogadores que já demonstrarem em inúmeras ocasiões serem verdadeiros yogurtes caducados. Homens da sua confiança - e com o sargento Bento isso é palavra de ordem - e também da mais influente agência de futebolistas do Mundo, os vinte e três resumiam-se a três grupos de jogadores. Os que jamais teriam nível para estar no torneio, a meia dúzia de jogadores de bom nível que Portugal ainda tem e Cristiano Ronaldo.

Se a convocatória já de por si previsível, anunciava que tipo de selecção íamos ver no Brasil, o primeiro onze deixou clara a mensagem final. Miguel Veloso, dono de uma época para esquecer perdida na Ucrânia, foi eleito no lugar de William Carvalho. Bruno Alves suplantou Luis Neto ainda que o seu colega no Zenit tenha sido muito mais eficaz ao longo do ano. Rui Patrício suplantou Beto por capricho puro do seleccionador e tanto Raul Meireles como Nani deixaram claro que nem a forma física nem o estado actual são critérios para o treinador. Portugal estava a caminho de um cabo das tormentas com um capitão com vontade de beijar as rochas.

 

O jogo começou da forma previsível.

Os alemães cómodos com a bola, os portugueses sem saber o que fazer quando algum ressalto lhes fazia cair o esférico nos pés. Ronaldo, dedicado a conquistar a Bota de Ouro, jogava mas visivelmente fora de forma. É o preço de todos os minutos supérfluos acumulados na liga que lhe agravaram uma lesão identificada - mas ignorada pelo jogador - em Janeiro. Do outro lado Nani perdia cada esférico que recebia. Moutinho, em péssima forma física, era engolido pela combinação entre Khedira, Lahm e Kroos. E não havia mais ninguém para jogar á bola com critério. Previa-se um encontro de máximo sofrimento mas esperava-se que a defesa - o baluarte em 2012 - aguentasse a carga de uma equipa teutónica sem avançado fixo mas com um Muller endiabrado. A equação teve resolução rápida.

João Pereira, o perfeito sinal de que o nível de exigência para chegar a internacional A tem recuado aos níveis dos anos setenta, cometeu um penalty infantil que o número 13 alemão não falhou. Foi o primeiro de três golos para Muller, ele que ainda teve tempo de deixar a sua marca no jogo de outra forma. As suas movimentações foram destroçando uma defesa desnorteada onde se notava que nem Pepe nem Alves tinham capacidade para a exigência do momento. De um erro da dupla de centrais surgiu o canto que Hummels aproveitou para ampliar a vantagem. O guião estava lançado. Do outro lado Portugal resumia a sua exibição a dois remates, o primeiro um esforço ridículo de Hugo Almeida - talvez o pior avançado da história da selecção portuguesa - e o segundo um tiro cruzado de Ronaldo que deixou claro que o número 7 não tem capacidade física para cair em cima do rival como é capaz de fazer. Depois apareceu Pepe e o navio afundou.

O central luso-brasileiro é capaz do melhor e do pior. Um dos melhores jogadores a nível mundial na sua posição, Pepe é também dotado de uma capacidade crónica de cometer erros infantis. Num lance com Muller, depois de fazer falta, ignorou o piscar de olhos do árbitro em deixar o jogo seguir e decidiu voltar para trás para encarar o alemão, deitado no chão. Encostou-lhe a cabeça e foi suficiente. Muller não fez teatro, pelo contrário, mas o árbitro, consciente de quem é Pepe num campo de futebol, não teve meias medidas. Podia ter resolvido tudo com um amarelo mas o acto irreflectido e estúpido de um jogador que até então só tinha cometido disparates foi punido merecidamente com o vermelho. Portugal rendeu-se e esperou o pior. Que veio. Dois golos mais de Muller, ambos com a preciosa colaboração de um cumulo de erros defensivos que não deixaram ninguém bem na fotografia. Nem Patricio - autor de passes inexplicáveis e de uma total insegurança nos cruzamentos - nem André Almeida se livraram. O lateral do Benfica rendeu Coentrão, o único que esteve ao seu nível mas que acabou por cair vitima de uma lesão muscular. Como Almeida está fora de combate. Provavelmente até ao fim do torneio, ou melhor dito, da participação portuguesa em prova. Vai fazer falta, até porque Ronaldo continua desinspirado e mais preocupado com o número de golos de Messi - os seus livres a distâncias impossíveis demonstram-no bem - e Nani é uma sombra do que podia ter sido e nunca chegou a ser. A Alemanha podia ter feito mais sangue. Podia até ter lançado Klose. Preferiu guardar energias para duelos mais á frente. Sabem que podem ir longe e que há que ter cabeça fria. Tudo aquilo que faltou a Portugal.

 

Bento podia ter tranquilizado a equipa. Perder com a Alemanha era um cenário previsível e são os duelos com o Gana e os Estados Unidos que vão decidir o futuro de Portugal. Perdeu ele próprio a cabeça, durante o jogo e nas declarações posteriores atirando areia para os olhos como lhe é habitual. A péssima preparação fisica realizada pelos portugueses e uma convocatória repleta de lesionados em vez de jogadores em forma e mais jovens também tem as suas consequências. Em 2012 jogaram apenas quinze dos vinte e três. Essa legião pretoriana tem mais dois anos em cima e dois anos decepcionantes. Mas para o seleccionador essa realidade foi ignorada em prole de outros interesses. Agora, nos 180 minutos mais importantes da história recente de Portugal, é com Ricardo Costa, André Almeida, Éder e Varela que Bento terá de evitar repetir a debacle de 2002. Nesse torneio asiático - onde tantas coisas parecidas com este aconteceram (lesão de Figo/Ronaldo, estágio mal preparado, jogadores em más condições físicas, legião de eleitos preferida a jogadores em forma) - as derrotas com os Estados Unidos e Coreia doeram aos adeptos mas vinham em consonância com o historial recente de Portugal no torneio, onde não participava há dezasseis anos. O desastre de Bahia, contra a Alemanha, é algo pior. Em tempos de crise, em tempos de angústia, o futebol tornou-se numa tábua de salvação emocional para um país que gosta de presumir de algo onde sente que tem alguns dos melhores do Mundo. Perder por 4-0 e a forma como se perdeu foi talvez a maior humilhação possível para os adeptos lusos. As limitações de Bento, do seu modelo e da omnipotência do Ronaldo tiveram finalmente factura a pagar. E não é barata.



Miguel Lourenço Pereira às 21:43 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Quinta-feira, 12.06.14

poucos treinadores que marcaram tanto a história do futebol ganhando tão pouco. Olhando para trás no tempo soa estranho que um homem como Louis van Gaal não tenha um curriculum mais recheado. Especialmente se temos em conta que três dos maiores projectos desportivos das últimas duas décadas saíram da sua cabeça. Em Old Trafford ele terá o desafio de lançar as bases do futuro. A vitória poderá chegar mas o Manchester United precisa, sobretudo, de alguém que aponte o caminho de uma era histórica. O holandês é o homem perfeito.

 

Van Gaal tem uma Champions League ganha com o Ajax e duas finais perdidas. Foi campeão na Holanda, em Espanha e na Alemanha. Criou do nada o projecto mais excitante da história do Ajax pós-Cruyff (o jogador), acabando com a hegemonia do PSV (algo que Cruyff, o treinador, nunca conseguiu). Depois, quando a lei Bosman mudou as regras do jogo, foi para Barcelona vencer ligas, perder Champions e lutar contra a imprensa. Aproveitou para ensinar tudo o que sabia a dois futuros rivais, um tal de Mourinho e um fervoroso Guardiola. Falhou estrepitosamente com a Holanda. Não tem o perfil que se espera num seleccionador, é um homem de contacto constante, de trabalho diário para assimilar os seus métodos. Correu mal a experiencia e pior o regresso a um Barça consumido na depressão pós-Figo. Outros treinadores teriam chegado ao fim. Van Gaal reinventou-se, primeiro na Holanda – com o modesto AZ Alkmaar – e depois na Alemanha onde pegou nos estilhaços do Bayern pós-Hitzfeld e lançou as bases do sucesso que desfrutaram Heynckhes e Guardiola. Seu foi o trabalho de base que abriu espaço para os Lahm e Schweinsteiger, os conceitos de treino, metodologia, trabalho físico, dietas e aplicação de novas tecnologias à preparação dos jogos. Perdeu contra o seu velho adjunto a final da Liga dos Campeões que abriu as feridas numa ambiciosa Baviera. Mas deixou o trabalho feito. Deixou Robben e Ribery preparados, Gomez a meter golos, Schweinsteiger convertido em regista e Lahm com galões de líder. Já o tinha feito quando deixou Puyol, Xavi, Valdés e Iniesta enganaram-se antes de serem ídolos. E com a legião holandesa dos anos noventa, desses nem precisamos de falar. É esse o perfil que o Manchester United quer. É esse o futuro dos Red Devils.

 

A escolha de Ferguson foi seguida religiosamente graças ao peso mediático e emocional do génio escocês num clube que hoje é o que é graças a ele. Ferguson estava incomodado com um sucessor de perfil alto (Mourinho), salvo se fosse Guardiola, alguém que admira (não admiramos todos) profundamente. Preferia um homem mais parecido ao primeiro Ferguson, perfil diferente das estrelas mediáticas dos bancos. Moyes era uma escolha pessoal há muitos anos, talvez o segredo pior guardado do mundo. Mas o homem que reinava em Goodison Park não estava preparado para a missão. O problema não era só suceder a Ferguson. Era fazer o que ele não estava disposto a fazer. Sir Alex retirou-se quando percebeu que sem um investimento sério – há quase uma década que o Manchester investe pouco e quase sempre mal – por parte dos Glazers, uma renovação profunda do plantel era impossível. Isso significava dizer adeus a mitos do clube e a preparar sucessores ao mesmo tempo. Wengerizar-se, dirão em Inglaterra. O escocês não estava para reconstruir pela sexta vez uma nova equipa. E decidiu que era a sua hora. Moyes, mesmo que quisesse, não soube, nem pode. Não houve uma planificação de mercado, os negócios foram precipitados e mal feitos. O preço foi a pior época desportiva em mais de vinte e cinco anos. Com as saídas de Vidic, Ferdinand, Evra, Giggs e, eventualmente, Nani, Valencia, Carrick – saidas que Ferguson não quis ordenar – o clube vai entrar numa nova era. É o timing perfeito para alguém do perfil de van Gaal, alguém que não precisa de muito dinheiro para lançar as bases do futuro.

O holandês tem uma formação com nomes interessantes que trabalhar (ainda hoje Ferguson se lamentará de não ter conseguido renovar a um tal de Pogba), e novas adições jovens que pedirá para dar nova cor à equipa. Com Mata, van Persie, Rooney, Cleverley e Kagawa conta com material suficiente para reorganizar o modelo de jogo, tão confuso nos días de Moyes que mais relembrava os anos do velho kick-and-rush do que os piores dias de Ferguson no banco. Luke Shaw, Adam Lallana, Wilfried Zaha (recuperado) e Connor Wickham são nomes que se baralham no imediato e que transmitem esse gosto pela aposta de futuro habitual. O clube investirá como nunca porque sabe que o risco de uma nova época como esta é demasiado grande para arriscar cair no poço como passou com o Liverpool. Haverá nomes sonantes mas, sobretudo, haverá uma ideia consistente de jogo, um modelo táctico moderno, optimizado ao 4-3-3 holandês, ousado e excitante. Haverá discussões com a imprensa, choques com alguns jogadores (Rooney à cabeça, imaginamos) e muitas surpresas. Mas, sobretudo, haverá interesse em seguir um dos mais influentes treinadores do futebol moderno num dos maiores clubes do futebol moderno que se encontra emocionalmente à deriva.

 

Para van Gaal – sem saber o que passará no Brasil e onde a sua jovem Holanda corre o risco de cair aos pés da Espanha e do Chile na primeira fase – a oportunidade de triunfar no Teatro dos Sonhos pode significar o encerramento perfeito de uma carreira única. Devolver a glória a Old Trafford passa não só por voltar a ganhar títulos agora. Lançar as bases da geração que vai vestir a camisola dos Diabos Vermelhos na próxima década é o seu grande objectivo final. Seria a quarta vez na sua carreira, em quatro clubes diferentes. Algo que nenhum outro treinador foi capaz de lograr na história do futebol ao mais alto nível! 



Miguel Lourenço Pereira às 11:46 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 05.06.14

Hoje é habitual a cada Mundial que apareça um novo videojogo. Nos anos oitenta não havia nada mais original. Antes da Electronic Arts tomar conta do mercado, antes das consolas modernas, World Cup Carnival foi o primeiro videojogo inspirado num Mundial. O México 86 foi um clássico também por culpa deste jogo que se tornou no alvo preferido de critica dos primeiros gamers.

A meados dos anos oitenta as consolas começavam finalmente a encontrar o seu espaço na indústria do entretenimento. A guerra entre Spectrum, Commodoro e Atari estava ao rubro. Nomes como Sega, Nintendo ou Sony ainda estavam a anos-luz de aparecer em disputa e os PC´s de casa eram luxos de poucos. Nessa dimensão, quase paralela, começou a forjar-se a primeira cultura de gamers especializados. E a nascer os primeiros titulos de jogos dedicados a grandes eventos. Nenhum maior que um Mundial de futebol.

Desde 1998 que a Electronic Arts canadiana tem os direitos da FIFA para realizar o seu habitual update da saga FIFA com as selecções oficiais, os estádios, a bola do torneio e toda a parafernália habitual. São quase vinte anos que parecem deixar a entender que não houve passado antes desta era. Mas houve. Uma época em que a US Gold reinava sobre os torneios de selecções. Antes do World Cup Usa 94 e do mitico Itália 90. A época do World Cup Carnival, um dos jogos mais criticados e inovadores da história.

 

Em 1986 a empresa US Gold conseguiu da FIFA os direitos para comercializar um jogo de consola dedicado ao Mundial que se ia disputar no México. O jogo contava com as licenças autorizadas de todas as selecções participantes na competição, algo totalmente inédito. Parecia uma mina de ouro. Ironicamente o projecto foi um fracasso junto dos jogadores.

A empresa foi incapaz de produzir o jogo que tinham pensado em tempo útil. Os sucessivos atrasos e correcção de bugs colocaram a companhia num apuro. A pouco mais de um mês de arrancar o Mundial, a US Gold decidiu recuperar um titulo com mais de um ano, World Cup Football, desenvolvido pela Artic, acrescentando apenas as respectivas autorizadas licenças. Quando o jogo chegou ao mercado foi recebido debaixo de um enorme coro de criticas. A jogabilidade de um produto com mais de um ano e meio no mercado não tinha sido alterada e consoante a consola disponível - Commodore, Spectrum, Atari - os jogadores só podiam utilizar um número restrito de selecções. Lá se ia o sonho de ter um jogo à altura dos acontecimentos.

Durante semanas a produtora do jogo recebeu milhares de cartas de jogadores que tinham pensado que o jogo em que tinham investido era um produto novo no mercado e não uma re-adaptação de um jogo antigo. A indústria de revistas especializadas que começava a nascer utilizou World Cup Carnival como o exemplo perfeito daquilo que o mundo dos videojogos não podia permitir. As vendas caíram em picado e a US Gold esteve perto de perder a licença da FIFA.

Finalmente, depois da promessa de apostar num produto radical para o seguinte torneio, a empresa começou a trabalhar no que seria o Itália 90. O jogo foi um sucesso total nas várias plataformas e entrou de cheio no novo mercado consolas tornando-se num dos produtos mais vendidos com a nova Sega Megadrive. Quatro anos depois a empresa deu outro passo em frente com a produção do popular World Cup 94. Foi a sua última aventura. Em 98 a EA Sports tinha já tomado controlo total do mercado e dado inicio à sua hegemonia.

 

Para a memória fica um dos jogos mais criticados de sempre pela simplicidade da sua jogabilidade, a reutilização de um produto previamente comercializado e até uma capa mal desenhada. Num Campeonato do Mundo disputado no México ninguém imaginaria uma capa com uma foto da claque do Fluminense brasileiro. Uma anedocta, entre tantas outras, que condenaram ao esquecimento um jogo histórico. Pode ter sido um estrepitoso fracasso, mas World Cup Carnival marcou um antes e um depois na indústria dos videojogos.



Miguel Lourenço Pereira às 12:44 | link do post | comentar

Segunda-feira, 02.06.14

Pelé disse que podia ser o seu sucessor. Num torneio juvenil ofuscou Del Piero e Verón. Para muitos era a maior promessa do futebol moderno, o protótipo do jogador ideal. E de repente, do nada, Nii Lamptey desapareceu do radar. Esta é a história de um dos maiores fracassos da história do futebol.

Treze clubes. Dezoito anos. Tantos sonhos desfeitos.

Aos dezassete anos Nii Lamptey era a grande sensação do mundo do futebol. Cinco anos depois o seu nome tinha caido no esquecimento. O que se passou a seguir foi uma soma de desencontros que transformaram a precoce estrela ganesa num jogador fantasma. No símbolo perfeito da jovem promessa que nunca chega a mais. Por muito boas cartas de recomendação que traga debaixo do braço.

Nii Lamptey foi um dos maiores fracassos da história do futebol porque se lhe exigiu um nível de excelência que o jovem ganês nunca teve. Em 1991 espantou o Mundo com uma série de memoráveis exibições no Campeonato do Mundo de sub17 que se disputou em Itália. Para muitos era o principio de uma grande carreira. Acabou por ser o fim antes de tempo. Nos campos italianos Lamptey jogou contra jovens da sua idade, sem a pressão de ser uma referência do protótipo ideal de futebolista africano, o jogador do século XXI segundo Pelé. Nunca a melhor pessoa para prever o futuro do que quer que seja. Nesse torneio juvenil o Gana saiu triunfador depois de bater a Espanha na final. Não surpreende muita gente que dessa selecção espanhola nenhum jogador tenha dado o salto à fama. Os grandes jogadores da competição cairam no principio da competição. Alessandro Del Piero, Juan Sebastian Verón, Leandro, Mauricio Gallardo, tudo futebolistas referenciados mas na sua fase de formação. No meio deste circuito de futuras, mas ainda anónimas, estrelas, o nome de Lamptey brilhou mais alto. Ganhou o prémio ao melhor jogador do torneio o que raramente é bom sinal para o futuro. A partir desse momento tudo o que alguém predice que fosse passar não aconteceu.

 

Lamptey chegou a Itália com um contracto assinado no ano anterior com o Anderlecht.

O clube belga, com boas relações com vários olheiros africanos, tinha-o descoberto quando despontou no campeonato do Gana com apenas quinze anos. Á época os clubes belgas não podiam alinhar jovens com menos de dezassete anos mas o impacto mediático de Lamptey foi tal que a lei foi alterada e o jovem tornou-se no mais precoce futebolista da história do futebol belga. Em 1993, com apenas dezanove anos, Lamptey trocou o clube de Bruxelas pelo PSV Eindhoven. Chegava para substituir o mito Romário que tinha acabado de assinar pelo Barcelona. Não durou uma temporada no clube. Os seus golos acenderam os campos da Eredevise e chamaram a atenção da Premier League. Apareceu o Aston Villa em cena e contra toda a expectativa, Lamptey aceitou abandonar o clube campeão holandês pelos Villains. Foi o principio do fim. Com o dinheiro ingressado pela transferência o emblema de Eindhoven foi contratar ao Brasil uma jovem promessa chamada Ronaldo Nazário.

Em Birmingham, por outro lado, Lamptey foi incapaz de manter a qualidade das exibições dos anos anteriores. Vitima de um contrato leonino com o seu empresário, o italiano Antonio Caliendo, o jovem jogador ganês não tinha qualquer voto na matéria no que à sua carreira dizia respeito. Vitima de abusos por parte dos pais, incapaz de ler e escrever, Lamptey era um boneco partido nas mãos de um titere desejoso de sacar o máximo lucro possível. Nos anos seguintes Lamptey continuou a ser convocado regularmente para os jogos da selecção do Gana(foi medalha de bronze nas Olimpiadas de 1992 e de prata no Mundial sub20 de 1993) mas cada ano que passava era forçado a actuar por um clube diferente. Passou por Coventry, Venezia, Santa Fém Ankaragucu até que chegou ao União de Leiria. Apenas sete anos depois de ter tido o Mundo aos seus pés o jogador que Pelé tanto admirou passou a maior parte da temporada no banco do velho Magalhães Pessoa na capital do Lis.

Lamptey tinha vinte e cinco anos e metade da sua carreira tinha passado como um cometa por um buraco negro. A restante não correria melhor destino. Quebrado o contrato com o seu agente, Lamptey viu-se só num mundo apenas interessado na próxima grande estrela. A morte do seu filho mais novo apenas contribuiu para aumentar a sua progressiva depressão. Cansado do futebol, mudou-se para o continente asiático onde passou os cinco anos seguintes a jogar em equipas de segundo nível, mais interessadas em contar com uma antiga grande promessa do que no seu valor real como futebolista. Da Ásia, Lamptey voltou a casa, ao continente africano, jogando pelo histórico Assante Kotoko antes de acabar a carreira na África do Sul. Quase duas décadas depois de tudo ter começado.

 

Na infância, Lamptey passou noites a dormir nas ruas para não ter de voltar a casa onde sabia que lhe esperava, invariavelmente, uma série de abusos reiterados por parte de um pai alcoólico e uma mãe depressiva. O futebol parecia ser a sua única tábua de salvação. Agarrou-se a ele com todo o desespero de um náufrago. Mas nesse mundo de interesses que sempre rodeia o desporto-rei, tornou-se em presa fácil de interesses paralelos e na epitome perfeita da necessidade constante de criar génios futuros a um ritmo cada vez maior. Todo o talento que Lamptey tinha não foi suficiente para triunfar. Faltou tudo o resto. O futebol não viveu verdadeiramente tudo o Lamptey tinha para oferecer porque decidiu exigir dele antes que fosse algo que não estava destinado ser. E assim acabou a história maldita de uma promessa que realmente nunca o foi. A do maior fracasso da história do futebol recente.



Miguel Lourenço Pereira às 12:40 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 25.05.14

A Décima. Finalmente. Numa noite onde a justiça dos noventa minutos prevaleceu sobre a justiça poética, o Real Madrid mergulhou nos infernos para sair mais forte do que nunca. Trucidou um rival que não soube nunca disputar a final da sua vida mas que, ainda assim, não a merecia perder. Por aquilo que significa no futebol actual. Cristiano Ronaldo fez história sem estar praticamente presente. Foram os secundários que salvaram as estrelas, as dez que o clube merengue usa agora ao peito com orgulho.

Faltavam dois minutos. Essa angústia histórica que parece que sempre faltaram dois minutos para alguma coisa, apoderou-se do Atlético de Madrid. Como em 1974 um defesa com a camisola quatro apareceu para relembrar que faltavam ainda dois minutos para o fim do mundo. Duas vezes na história, o mesmo filme. O mesmo desfecho. Uma tragédia assim destrói qualquer clube. A uma entidade como o Atlético de Madrid, habituada a partilhar alegrias e tristezas na mesma medida, é apenas mais uma lágrima no meio de tanta euforia. O golo de Sérgio Ramos, absolutamente justo pelo que se vivia em campo, definiu o jogo. Como em 74. A partir de aí não houve final, não houve jogo. Não houve dúvidas.

O Real Madrid carimbou a sua 10º vitória na máxima prova da UEFA com a autoridade de quem duvida da própria sombra. Foi uma equipa incapaz de reclamar o seu lugar histórico durante mais de uma hora de jogo. Não merecia vencer. O erro garrafal (outro) de Iker Casillas, o homem sobre o qual Mourinho avisou que era mais o problema que a solução, tinha deixado claro que este Real era menos assustador que outras versões. Quando até o perenal santo falha, tudo parece perdido. O Atlético encontrou-se com um golo que não queria, que não tinha reclamado. Fisicamente mais imponente onde menos importava, o conjunto de Simeone entrou na Luz para não perder uma final que nunca quis ganhar. Esse golo de Godin, dividido com Casillas e Khedira, dava-lhe uma vantagem que surpreendeu a tudo e a todos. Não era esse o guião. A prova veio depois. Nunca mais os colchoneros voltaram a procurar repetir a graça. Foram inofensivos, inconsequentes e pavimentaram o alcatrão do caminho que percorreram até ao cadafalso. Se a Europa do futebol, sempre á procura de um underdog que nos ensine que há algo mais que dinheiro envolvido neste mundo, torcia pelos atléticos, foi o próprio Simeone que se encarregou de reduzir o afecto. A sua equipa foi estanque, previsivel e inofensiva. "El Cholo" errou, e muito, ao confiar na palavra de Diego Costa, um homem que já a deu ao seu país de nascimento para depois a trocar pelo país de adopção. Costa prometeu que estava em condições mas oito minutos depois voltou atrás. Saiu directamente para o duche, sem pedir sequer desculpa. Numa batalha longa, uma bala menos a gastar. Ia fazer falta.

 

Simeone apresentou uma equipa sem magia. Mas com musculo e autoridade.

Não havia Arda - "no Arda, no party" como diria a brilhante biografia do turco assinada por Juan Esteban Rodriguez - nem Diego. Não havia toque fino onde sobrava a raça de Raul Garcia, Gabi e Koke. Só Tiago e Villa falavam outro idioma, coisa pouca para quem aspira a tanto. Os sessenta e tantos jogos nas pernas não ajudaram. Num plantel pequeno e a dar as últimas pouco mais se podia pedir que não fosse entrega e dedicação. E isso não faltou. Também não serviu para entusiasmar. O problema é que o rival, o dos orçamentos milionários, era incapaz de o fazer com a sua constelação de estrelas. Sem a bússola habitual, Xabi Alonso, e com Ronaldo, Khedira e Benzema em péssimas condições físicas, faltavam ideias, critério e futebol aos merengues. Modric, só, não podia fazer mais do que sobreviver á legião de gladiadores rojiblancos. Durante uma hora lutou só com a ocasional ajuda de um Di Maria preso num 4-3-3 que rapidamente passou a 4-4-2 e o obrigou a trabalhar o dobro do habitual. Ao Atlético o golo deu-lhe a comodidade emocional de não ter de avançar e por culpa disso deixou-se empurrar para o seu campo. Ancelotti, o homem que herdou uma equipa montada por Mourinho a que apenas trocou Ozil por Bale (o galês, apesar do golo, foi um dos piores em campo e um dos principais responsáveis pelo sofrimento dos adeptos blancos) imprimindo-lhe ainda mais verticalidade e dificuldade em manejar um jogo com poucos espaços, rendeu-se à lógica. Saiu o fantasma de Khedira - o jogador, em carne e osso, estará pela Alemanha - e Coentrão, para subirem ao relvado Isco e os seus malabarismos e Marcelo e a sua capoeira com a bola nos pés. Foi o momento que definiu a história do jogo. Ambos conseguiram empurrar o Atlético de Madrid para a sua área. Seguiram-se as ocasiões, faltava apenas a bola entrar. Simeone, num esquema mais defensivo do que nunca (fosse Mourinho a fazer o mesmo e imaginamos o que se diria) preferiu Sosa a Diego, mais musculo e lentidão a um jogador que sabe segurar a bola e criar espaços. Depois perdeu Felipe Luis e esqueceu-se que Alderweireld joga melhor pelo lado direito, onde Juanfran desfalecia com uma constante voragem de velocidade e talento encarnados em Di Maria e Marcelo. Tacticamente, Simeone perdeu aí um jogo que Ancelotti quase se esforçou por não ganhar. O golo de Ramos, o tal que emulou velhos fantasmas colchoneros, esteve à altura do dramatismo que uma final assim exige. Ao Real Madrid faltava-lhe ganhar uma final assim, à inglesa. Até isso logrou. Depois deixou de haver luta. O Atlético nunca tinha criado perigo, não ia ser em meia hora, sem alma já e sem corpo há muito, que o conseguiria. O Real, despido de medos, aplicou a lógica de quem tem mais talento tem sempre mais probabilidades de vencer. A conexão Ronaldo-Di Maria permitiu a Bale entrar na fotografia sem o merecer. O descaro de Marcelo triunfou sobre a passividade defensiva de uma equipa que já não acreditava no empate. E o golo de Ronaldo serviu apenas para ter na ficha do jogo o responsável principal por esta conquista épica nos jogos anteriores. Em Lisboa, CR7 não esteve. E por uma vez, ninguém pareceu notar.

 

O Atlético de Madrid foi durante o ano todo um exemplo de luta, coragem e dedicação. Quando lhe faltou o futebol ganhou a alma. Na Luz faltou-lhe a ambição que lhe sobrou em Londres. Quando a diferença de orçamentos é tão grande, a ambição e a alma são o único que sobra. Sem elas o destino está traçado. Ao clube das "10 Copas", o destino foi finalmente amigo depois de três eliminações injustas sob o mandato de Mourinho que pela primeira vez na sua carreira tem de assistir a um clube que deixa para trás triunfar onde ele falhou. Ironias do destino, principalmente porque este Real joga ao mesmo e com os mesmos que fazia a equipa que em 2012 colocou um ponto final à hegemonia blaugrana. Foi uma noite de sonho para os que acreditam em milagres, foi uma noite de pesadelo para os que acreditam em justiça poética. Foi uma final de Champions League. Não há mais nada que se possa pedir.



Miguel Lourenço Pereira às 18:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 21.05.14

Não surpreende ninguém que Bento embarque nas naus com os seus homens de confiança. Muitos serão figurantes, menos ainda que secundários. Mas fazem parte desse conceito militar de grupo que mudou para sempre a perspectiva colectiva de uma selecção baseada, exclusivamente, na meritocracia. O futuro terá de esperar. Os mavericks, terão de assumir. Os homens do sargento Bento são os únicos que alguma vez entraram nas suas contas.

 

Quaresma nunca iria ao Brasil. Todos os que sabem como isto funciona sabiam-no mesmo antes do próprio Bento ter tomado a decisão. Não é um caso de agente certo ou errado. Há muito (demasiado) disso na selecção. Mas Mendes controla o futebol português via fundos, tem uma influencia crescente nos dois clubes com maior orçamento da liga. É o homem que mais jogadores portugueses tem na carteira e o pai espiritual de Cristiano Ronaldo. O seu fantasma, forçosamente, terá de pairar sempre sobre este projecto. Quaresma ficou de fora por outra coisa. Por como é. Dentro e fora de campo. O “Mustang” teve tudo para ser um jogador destinado a marcar uma década. Um arranque que eclipsou o do próprio Ronaldo. Talento a rodos, insultante até. A explosão mais pura de génio desde Futre, superior a um Figo que precisou de amadurecer com o tempo e as derrotas. Depois veio o Barcelona, cedo demais. Deixou marca. Mas no Porto, dentro de uma estrutura sábia, mostrou o grande que podia ser. Cometeu o maior erro da sua vida ao partir para o sonho italiano. A carreira acabou ali. O talento não. Mas deixou de ser insuficiente. Quaresma defende mal, Quaresma joga pouco com os colegas. Quaresma é génio puro no passe e no remate mas num jogo de detalhes é prescindível para quem já tem quem faça isso por ele. Ronaldo, que cresceu na sua sombra, tomou o caminho oposto e converteu-se num dos maiores jogadores da história. Ele é o líder espiritual em campo deste projecto e não precisa de sombras ao lado. E Quaresma não sabe não ser o protagonista. Os problemas em 2012 deixaram claro, para Bento, que quando fosse necessário, Quaresma nunca iria por o grupo à sua frente. E isso foi a sua sentença de morte. Os últimos meses do “cigano” têm sido penosos para quem já foi tão grande, um náufrago mais neste FC Porto para esquecer. Por talento genuíno está claro que Nani e Varela não pertencem à sua liga. Mas não é de talento que se fala quando se fala em selecções hoje em dia. Há quase duas década, desde a França de Jacquet, que a maioria das selecções decidiu ir pelo caminho do grupo. Nessa França o carácter de Cantona e Ginola não cabia. O mesmo passou com Gascoine e a Inglaterra de Hoddle. Com Romário e Zagallo e Scolari. Ou com Guti, Effenberg ou Michael Laudrup. Quaresma pertence, por um ou outro motivo, a esse grupo de vitimas de um bem maior, o de estar comprometido ao máximo com uma ideia durante quatro asfixiantes semanas.

 

Paulo Bento faz-se acompanhar dos seus. Dos que estiveram na fase de grupos.

Não quer jogadores que fingiram lesões como Danny. Está preparado a não convocar o melhor médio português este ano – por muito que agora venha o circo do pedido de regresso há dois anos – que é Tiago porque este, quando Bento lhe pediu, preferiu passar ao lado de uma equipa onde aconteciam demasiadas coisas fora da esfera desportiva e que culminaram no despedimento de Queiroz e o circo que se montou à sua volta. Tiago e Carvalho, dois velhos amigos que funcionam a outro ritmo nisto dos meandros do futebol, cansaram-se do circo e foram dizendo adeus. Por muito bem que tenham estado depois, deixaram de contar. Os homens do sargento não podem dizer que não. Ao Brasil vão os que aprenderam a dizer sim. Como Nani, com uma época (época?) penosa mas que tem o compromisso defensivo que dá asas a Ronaldo. Como Vieirinha, que foi de precioso auxilio quando Bento mais precisou, em Setembro, e que não voltou a ter continuidade. Como Ricardo Costa, Ruben Amorim e Eduardo, figuras decorativas em campo e fundamentais fora dele para o seleccionador. Como sucedeu em 2012, Portugal são onze titulares fixos e quatro alternativas recorrentes. Bento tem a sua espinha-dorsal da qual não vai abdicar. A esses nomes há que juntar Hugo Almeida (por Postiga), Varela (por Nani), William Carvalho (por Miguel Veloso) e Ruben Amorim (por qualquer um do meio-campo) que vão ser as substituições da praxe. Ninguém espere algo diferente. João Pereira e Fábio Coentrão são intocáveis e estão fixos. Os seus suplentes normais (Almeida e Costa) nem são sequer laterais de raíz. Uma pena para Antunes ou Cedric que ainda não são parte da “família”. Pepe e Alves são intocáveis como é Patricio por muitas Europa Leagues que ganhe Beto. Veloso-Moutinho-Meireles é um trio inegociável e no ataque não é preciso alongar-nos muito. Rafa, a grande e boa surpresa da lista, poderia ter minutos noutro contexto. Mas a fase de grupos mais dura dos últimos tempos para Portugal convida pouco a imaginar uma jovem e flamante promessa a explodir num palco Mundial. É pena.

 

Para o futuro fica a sensação de que este é o último grito de guerra de muitos jogadores. Há uma nova seiva de talento que pede a gritos a sua oportunidade. Não são só os André Gomes, Ivan Cavaleiro, Cedric, Anthonny Lopes ou João Mário. São também Bruno Fernandes, André Martins, Paulo Oliveira, Ronny Lopes, André Silva, Alexandre Guedes, João Cancelo, Bernardo Silva, José Sá, Miguel Rodrigues ou Tozé que tarde ou cedo serão cromos de futuras colecções. O futuro destes depende da vontade dos dirigentes do futebol português em dar-lhes espaço, do seleccionador de abrir as portas a nova sangue na família e à sua capacidade de aceitar que neste mundo em que se gera a “equipa das Quinas” ser bom, apenas, não chega. Há que ser algo mais. Há que ser parte dos homens do sargento!



Miguel Lourenço Pereira às 16:34 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Segunda-feira, 19.05.14

"Era uma vez uma irredutível aldeia gaulesa"... Invariavelmente assim começavam as sagas animadas de Asterix e companhia. O pequeno herói de banda desenhada pode ter sucessor real. Numa pequena aldeia dos Pirineus com apenas 650 habitantes desenha-se o sonho de alcançar a Ligue 1. Seria um feito único na história do futebol europeu.

Poucas cidades contam com estádios onde cabem mais pessoas que habitantes. Se falamos de aldeias então é mais difícil ainda encontrar algo parecido ao que sucede em Luzenac. Na minúscula localidade encostada aos Pirenéus, a poucos quilómetros da fronteira com a Catalunha, vivem 650 habitantes. 650. Nem mais, nem menos segundo o último censo. O estádio local - melhor dito, o campo local - tem espaço para 1200 espectadores. E invariavelmente está cheio.

Num domingo qualquer os habitantes das aldeias vizinhas vão até Luzenac passar a tarde e ver a equipa local jogar. A modesta formação que nunca passou dos campeonatos distritais é a nova sensação do futebol europeu. Acaba de vencer o Campeonato de Seniores do futebol gaulês de forma categórica e carimbou assim o passaporte para a Ligue2, a segunda divisão do país. Um clube de amadores num meio profissional. Muitos auguram uma queda tão rápida quanto a subida mas o sonho dos habitantes de Luzenac e dos dirigentes do clube é outro. Querem ser o mais pequeno clube da história do futebol europeu a alcançar a primeira divisão de uma das grandes ligas do "Velho Continente". Nunca se deu o caso de um clube de uma localidade com menos de mil habitantes ter chegado tão longe. Estes irredutíveis gauleses querem ser os primeiros e assim fazer história.

 

O US Luzenac foi fundado em 1936. Poucos anos depois esteve perto de desaparecer por culpa da II Guerra Mundial. Teria sido uma existência curta e anónima. Não foi. O clube sobreviveu e durante décadas viveu debaixo do radar futebolístico francês. Nunca formou um futuro grande jogador, nunca recebeu um treinador de renome em horas baixas. Sempre foi uma equipa absolutamente modesta. Até agora. Tudo por culpa de um campeão do Mundo.

Fabian Barthez não é natural de Luzenac mas de uma aldeia igualmente pequena a trinta quilómetros de distância. O extravagante guarda-redes, vencedor de todas as competições a que um futebolista de elite pode aspirar, transformou-se num empresário de sucesso depois de ter terminado com a sua carreira. Entre as corridas de protótipos e os seus negócios, Barthez encontrou tempo para associar-se à empresa JD Promotion e adquirir o modesto clube. O objectivo, a médio prazo, era o de criar um clube com uma forte identidade futebolística na região do Midi gaulês, no espaço ocupado entre Bordeaux e Toulouse, duas históricas regiões do futebol gaulês. A ambição dos investidores no clube passava por aglutinar adeptos de aldeias e pequenas cidades vizinhas e propulsar assim o Luzenac rumo à Ligue1.

Com a ajuda de Barthez, o clube começou a contratar vários jogadores com presença habitual nos planteis da Ligue 1 e 2 com a promessa de um substancial aumento salarial a cada promoção. No plantel do clube há espaço para futebolistas norte-americanos, georgianos, camaroneses, marfilenses ou togoleses. Três anos depois de ter abandonado os campeonatos distritais, a formação orientada por Christophe Pelissier passeou literalmente pelo Campeonato Nacional, carimbando a subida de divisão de forma categórica bem antes do suspiro final. Os triunfos cumpriram o seu papel e atraíram espectadores das redondezas. O estádio da pequena aldeia tornou-se pequeno e o clube mudou-se para uma localidade vizinha onde mais de 1400 pessoas por jogo acompanham a gesta do Luzenac. No jogo decisivo, contra o histórico Boulogne, estavam 3000 adeptos nas bancadas, cinco vezes mais do que os que habitam a pequena aldeia pirenaica.

O sucesso do Luzenac transformou-se num dos mais emotivos contos de fadas recentes do futebol europeu. Numa altura em que os milhões de investidores russos e qataris invadem a Ligue1 e mudam a escala de poderes da competição, os franceses encontraram no clube de Barthez o símbolo do desporto mais puro e humilde. De um momento para o outro o US Luzenac transformou-se no clube alternativo do futebol francês.

O objectivo de Barthez e dos seus parceiros de negócios é reproduzir o sucesso recente do Evian. O clube alpino foi refundado em 2003 graças ao patrocínio do grupo Danone - detentor dos direitos da célebre água Evian - e ao apoio de vários futebolistas internacionais como Zinedine Zidane Florent Malouda, Alain Boghossian e Bixente Lizarazou. Tal como o Luzenac era um clube de uma localidade sem expressão desportiva, mais associada ao futebol suíço que francês. Em cinco anos o clube saltou do campeonato nacional para a Ligue 1 onde se mantém contra todas as expectativas.

 

Enquanto históricos clubes como o Nantes, Metz, Lens, Auxerre ou Strasbourg militam em divisões secundárias o Evian é a prova de que o modelo de gestão local francês pode ser bem sucedido. É o espelho onde o modestissimo Luzenac se vê reflectido. Na próxima temporada o principal objectivo do projecto desportivo passa pela estabilização mas Barthez e companhia já fizeram saber que os irredutíveis aldeões querem fazer história quanto antes. França está à sua espera.



Miguel Lourenço Pereira às 12:35 | link do post | comentar

Quinta-feira, 15.05.14

Qualquer final decidida por grandes penalidades é um drama difícil de engolir para qualquer adepto. Ao final de cento e vinte minutos se nada separa duas equipas, o título torna-se secundário. Já se sofreu que chegue. O problema, para os adeptos encarnados, é que o sofrimento dura há mais de meio século de história.

 

O Benfica perdeu a final da Europa League pelo segundo ano consecutivo. Da mesma forma que a sua caminhada europeia nas andanças da UEFA – antes esteve o triunfo na mais caricata edição da curta história da Taça Latina – arrancou com dois títulos seguidos. A história é circular, como diría Marx. O pior foi o resto. São já oito finais perdidas, desde Londres em 1963 até Turim em 2014. Pelo caminho ficou Milão, Londres (cidade maldita), Bruxelas/Lisboa, Estugarda, Viena e Amesterdão. Cidades míticas do Velho Continente que testemunharam a tristeza das Águias. Mas ao contrario do que o folclore, a desinformada imprensa e alguns “experts” gostam de defender, não há maldição que justifique esta tortura. Em primeiro lugar, como os mais atentos sabem – basta ler – Guttman só se referia à Taça dos Campeões Europeus. O húngaro também disse que nenhum clube português ganharia um titulo europeu em cem anos. Dois anos depois dessa frase o Sporting ganhou a Taça das Taças. Já nem vale a pena lembrar os quatro títulos europeus do FC Porto. Esqueçam a maldição!

 

O que passou ontem ao Benfica em Itália foi a falta de ambição e o peso das baixas sensíveis na organização do ataque. Sem o melhor jogador do campeonato – Enzo Perez – ou as alternativas oferecidas regularmente ora por Markovic, ora por Salvio, o Benfica entrou coxo em campo. Quando Suljemani, que no pouco tempo que esteve em campo fez mais do que Gaitán em todo o jogo, teve de sair, rendido a uma lesão no ombro, Jesus viu-se perante um dilema. O Sevilla estava mais organizado, mais consciente da exigência da noite. Emery, treinador assobiado recorrentemente em Valência (depois dele o clube entrou numa espiral depressiva, há que lembrar) preferiu um esquema conservador desde o principio. Carriço e Mbia no miolo, apoiados por Rakitic, cercaram o meio-campo encarnado. Vitolo e Reyes tapavam as subidas dos laterais e Bacca, sacrificado aos monstros que foram durante todo o jogo Garay e Luisão, era peça fora do tabuleiro. Ao 4-4-2 em losango montado por Jesus faltava-lhe organização e inspiração. André Gomes foi um fantasma, o esforço de Amorim não foi acompanhado e Rodrigo e Gaitan  não entusiasmaram. A entrada de André Almeida e a subida no terreno de Maxi Pereira lançou a mensagem decisiva. Jesus estava mais preocupado em não perder a final do que em ganhá-la. Procurou o prolongamento, procurou os penalties. Sentiu que não tinha força em campo para vencer. Enganou-se. O Benfica, mesmo em inferioridade de talento titular, era superior ao Sevilla. Faltou-lhe a tracção dianteira de tantas outras noites e o acerto no disparo. Criou as melhores oportunidades – Bacca também teve o seu momento, montado com régua e esquadro pelo genial croata – e driblou os medos. Do banco a mensagem de ataque chegou tarde e sob a forma de erro táctico. Cardozo entrou mas não foi a âncora que se esperava, demasiado atirado para o lado direito onde foi menos eficaz. Cavaleiro chegou para o sopro final quando já não havia pernas para o acompanhar. O Sevilla tinha passado pelo mesmo almanaque de duvidas existenciais. Não perder para depois pensar em ganhar. Foi mais honesto a principio, adaptou-se melhor e sobreviveu ao golpe de autoridade que o Benfica tentou dar no fim da cada parte. Mentalmente mais soltos, foram uma equipa que sabia ao que vinha. Não havia existencialismos que derrotar. Só Oblak, o guarda-redes tranquilo que Beto não pôde ser. Para alegria dos andaluzes o português esteve à altura nos cento e vinte minutos. Depois, a glória.

 

O prolongamento foi um deserto de ideias, de forças e de ambição. Desde o Arsenal vs Galatasaray de 2000 que nenhum jogo da competição tinha chegado até ao fim sem golos. Aconteceu em Turim porque ninguém pareceu, verdadeiramente, querer marcar. Sem três penalties para marcar (dois para os lisboetas, um para os sevilhanos), sem grandes ocasiões e com duas linhas defensivas entretidas em competir no torneio de quem menos erra, o oásis de um golo revelou-se tão imaginário como as lagoas nos desertos. Para os penalties seguia o jogo como ambos os treinadores pareciam querer. O Benfica contaba em limpar o espirito de Estugarda num flamante guarda-redes e na vontade de vergar a história. Mas os andaluzes tinham Beto, provavelmente um dos melhores do mundo na sua posição quando se trata de parar grandes penalidades. O rapaz que em Alcochete era o Beto II, que no Dragão se manteve à sombra de Helton, deu a alegria do ano aos dois adeptos dos rivais das Águias com uma aula de como bem parar penalties. Saltou para a frente como os mais espertos fazem, adivinhou os disparos denunciados de Cardozo e Rodrigo e fez história. Com ele na baliza o Sevilla conquistou o seu terceiro troféu europeu, todos conquistados numa década histórica. Já ultrapassaram o Benfica no total histórico e igualaram Juventus, Inter e Liverpool como máximos vencedores de uma prova que já podia bem ter apelido espanhol. Com os dois triunfos do Atlético de Madrid e as finais perdidas por Espanyol e Athletic Bilbao, os últimos oito anos têm sido quase um monopólio “hispânico” na prova que metade da Europa ignora habitualmente.

 

Ao Benfica a derrota magoa mais pela longa lista de fracassos do que, propriamente, pela ausência de um titulo para levantar. Num ano memorável a nível interno, o triunfo de Turim era a cereja no topo de um bolo que ainda assim sabe bem. O clube da Águia pode conquistar o pleno de provas nacionais – tem de vencer a Taça e a Supertaça, em Agosto – e está na pole-position do futebol português com autoridade e por pleno direito. Para os folclóricos há ainda jornais a vender e a tertúlias a encher com velhos relatos de maldições caducas. Para os adeptos, uma dor difícil de engolir mas que não deve afastar a visão periférica do fundamental, um trabalho bem feito. No final de contas, em Turim, houve mais tácticas que espectáculo, mais drama que emoção e um parêntesis numa história com próximos capítulos inevitáveis. O Benfica, que foi melhor em campo, teve o pior dos treinadores e o menos afortunado dos guarda-redes. Não há maldição que justifique algo que pertence exclusivamente ao reino dos mortais.



Miguel Lourenço Pereira às 18:19 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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